Criação / Creation

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: No ano em que a publicação de A Origem das Espécies, um dos trabalhos mais importantes da história da humanidade, completou um século e meio, os ingleses celebraram Charles Darwin com este Criação – uma produção cuidadíssima, magnífica, com um visual estupendo.

O filme se baseia no livro Annie’s Box, de Randal Keynes, nascido em 1948, descendente direto do próprio Darwin. O livro tem o subtítulo Darwin, Sua Filha e a Evolução Humana, que já indica que não é propriamente uma biografia do criador da teoria evolucionista; é uma obra que se concentra especificamente nas relações do cientista com sua filha Annie, suas relações familiares e como elas afetaram suas opiniões sobre a religião.

O roteiro, assinado por John Collee, focaliza então o ano de 1858, quando Darwin, então já um respeitado cientista, que havia visitado e feito pesquisas em diversos continentes, estava escrevendo A Origem das Espécies. Percorre os meses daquele ano e do seguinte, 1859, em que o cientista concluiu a redação do texto e o livro foi publicado – mas volta atrás no tempo, em diversos flashbacks, para mostrar sua relação íntima com Annie, a preferida de seus cinco filhos com Emma, sua mulher e prima-primeira.

Misturam-se então na ação os anos de 1858 e 1859, voltas ao passado, mais episódios das viagens e estudos do naturalista, e ainda visões, sonhos, pesadelos, que ele, doente, tinha seguidamente.

Nas seqüências mais arrojadas, pretensiosas do filme, o diretor Jon Amiel tenta ilustrar visualmente como Darwin ia juntando informações para chegar à sua teoria a respeito da evolução da vida no planeta. Há uma seqüência de incrível beleza plástica, por exemplo, em que um passarinho recém-nascido cai do ninho, não resiste, morre, e é devorado por larvas e diversos tipos de pequenos insetos, enquanto a grama ao redor vai crescendo.

É muito arrojo, muita pretensão – mas o resultado é de um esplendor visual de babar. Essas seqüências me fizeram lembrar, pelo seu arrojo e por sua beleza, o Amadeus do grande Milos Forman, em que o mestre checo nos mostra como os sons iam se juntando na cabeça de Mozart para resultar nas suas melodias fascinantes.

         Um cientista atormentado com a perda da filha predileta

O ator inglês Paul Bettany teve um dos grandes papéis de sua vida como Darwin. Já vi alguns filmes com ele, mas nenhuma de suas interpretações havia me impressionado – na verdade, nem lembro dele em A Vida Secreta das Abelhas, O Código Da Vinci, Uma Mente Brilhante. Mas aqui está maravilhoso como o cientista atormentado pela perda da filha predileta, que vem visitá-lo freqüente, obsessivamente, nos sonhos, nos desvarios que tornam difícil, impossível, a tarefa de escrever seu livro.

No “hoje” da ação, os dois anos em que Darwin está redigindo A Origem das Espécies, sua relação com a mulher e com os filhos vai muito mal. Os filhos percebem que o pai está cada vez mais ausente de suas vidas, que só pensa na filha já morta. Ele e Emma (a belíssima e ótima Jennifer Connelly) praticamente não se falam mais – desde a morte da Annie (Martha West, na foto abaixo), criou-se um abismo entre eles.

Além das feridas profundas com a perda de Annie, separa-os a questão religiosa. Emma é uma cristã fervorosíssima; Charles perdeu a fé junto com a filha, e ele e a esposa – assim como os amigos do casal, os cientistas colegas de Charles – entendem que a teoria da evolução das espécies confronta-se diretamente com a crença em Deus. “Sua teoria vai matar Deus”, exulta um dos colegas de Charles, Joseph Hooker (Benedict Cumberbatch).

         O filme realça o antagonismo ciência x religião

Todo o filme insiste muito nesse antagonismo ciência x religião, evolucionismo x Deus.

É um antagonismo milenar, este da ciência x religião – Giordano Bruno (1548-1600) e Galileu Galileu (1564-1642) que o digam. Galileu foi obrigado a renegar sua afirmação de que a Terra gira em torno do Sol para escapar da ira da Santa Inquisição, que levava gente à morte na fogueira.

Quase cinco séculos depois, esse antagonismo divide as opiniões no país mais rico do mundo – assim como se dividem entre republicanos e democratas, pró-aborto e anti-aborto, pró-pena de morte e anti-pena de morte, os americanos se dividem entre os pró-evolucionistas e os pró-criacionistas. Como em muitas coisas ruins gostamos de macaquear os americanos – vide a questão das cotas raciais –, o debate tem esquentado aqui também, e há um lobby, ligado às igrejas evangélicas, que defende o ensino do criacionismo nas escolas.

A guerra evolucionistas x criacionistas já rendeu e ainda rende brigas incontáveis na Justiça – uma delas maravilhosamente descrita no belíssimo O Vento Será Tua Herança/Inherit the Wind, de Stanley Kramer, de 1960, em que um professor do Sul Profundo é condenado por ensinar na sala de aula as teorias de Darwin.

Acho que, de uma certa forma, Criação, um belo filme, joga lenha nessa fogueira.

         Uma guerra sem sentido – mais uma

Eu, aqui no meu cantinho, que já fui católico e depois ateu e depois agnóstico e hoje tenho cada vez menos certezas absolutas, entendo que essa é uma guerra sem sentido – como todas as guerras, aliás. Não consigo compreender por que ciência e fé devam necessariamente se excluir. Por que não aceitar o big bang, a evolução, e Deus antes de tudo isso que a ciência vai descobrindo e comprovando?

Ah, a Bíblia? Mas, cacildabecker, a Bíblia não é uma grande parábola?

Só os fanáticos podem acreditar que cada palavra do que diz a Bíblia é literal.

E aí voltamos à velha questão de sempre. O problema não é a fé – é o fanatismo, a cegueira.

Bem, extrapolei um pouco. Mas isto aqui é anotação minha, pessoal e intransferível. Eventuais interessados em observações objetivas sobre filmes estão no lugar errado.

         Um diretor experiente, que transita bem por vários gêneros

Mas vamos lá. Informações objetivas – ou não. Jon Amiel, o diretor, é veterano, da minha geração: nasceu na Inglaterra, em 1948. Tem bons filmes – de diversos gêneros – no currículo: Sommersby, O Retorno de um Estranho, de 1993, um drama passado no Sul americano depois da Guerra da Secessão; Copycat – A Vida Imita A Morte, de 1995, ótimo thriller sobre um serial killer e uma estudiosa da ação desse tipo de criminoso; Armadilha/Entraptment, de 1999, bom thriller e aventura ambientado na passagem de 1999 para 2000, o dia do bug do milênio. Ultimamente andava fazendo séries de TV. Prova neste filme que está em plena forma.

A bela e talentosa Jennifer Connelly demonstra mais uma vez que se dá bem em papéis duros, dramáticos, de mulheres que sofrem demais. E como sofrem, credo, os personagens de Jennifer Connelly. Em Casa de Areia e Névoa/House of Sand and Snow, ela faz uma garota desajustada que, sem dinheiro, perde a casa que herdou dos pais e depois até a razão; em Uma Mente Brilhante/A Beautiful Mind, é a mulher de um cientista genial que pira feio; em Diamante de Sangue/Blood Diamond, é uma repórter believer que testemunha as mais desumanas crueldades; em Traídos pelo Destino/Reservation Road, faz a mãe que perde o filho inteligente, sensível, atropelado na estrada; em Pecados Íntimos/Little Children, é a trabalhadora série que é traída pelo marido. E em Água Negra/Dark Water, faz uma jovem recém-separada do marido, enfrentando uma dura batalha pela custódia da filha pequena, com dinheiro curto, tendo que morar num prédio soturno na soturníssima Roosevelt Island, em Nova York, enfrentando os fantasmas do passado traumático e ainda outros fantasmas, os que povoam sua nova casa.

Os personagens dessa moça que tem um dos mais lindos rostos do cinema sofrem tanto que ela está cada vez mais magra. Como Emma Darwin, parece uma anoréxica. Se engordasse um dez quilos, continuaria esbeltíssima.

Vejo no iMDB que Paul Bettany e Jennifer Connelly, sr. e sra. Charles Darwin no filme, são casados na vida real. Tsk, tsk. Rapaz de sorte.

E no Box Office Mojo vejo que o filme tem sido um belo sucesso de bilheteria. Lançado nos Estados Unidos, o maior mercado consumidor do mundo, em 22 de janeiro de 2010, a produção inglesa faturou US$ 341 milhões lá; no total mundial, até início de agosto, havia faturado US$ 809 milhões.

Merecido sucesso. É um belo filme.

Criação/Creation

De Jon Amiel, Inglaterra, 2009

Com Paul Bettany (Charles Darwin), Jennifer Connelly (Emma Darwin), Martha West (Annie Darwin), Jeremy Northam (reverendo John Innes, Toby Jones (Thomas Huxley), Jim Carter (Parslow), Benedict Cumberbatch (Joseph Hooker)

Roteiro John Collee

Baseado no livro Annie’s Box – Darwin, His Daughter and Human Evolution, de Randal Keynes

Fotografia Jess Hall

Música Christopher Young

Produção Recorded Picture Company, Ocean Pictures, BBC Films,

Cor, 108 min

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2 Trackbacks

  1. […] seguidas muitas intrigas – políticas e familiares. O então primeiro-ministro, Lord Melbourne (Paul Bettany), aproxima-se da garotinha que será rainha. É bonito, elegante, charmoso, persuasivo. […]

  2. […] Há várias referências a Charles Darwin. A camiseta da carola Ruth tem um desenho em que Jesus Cristo (ou seria o próprio Deus?; teria que […]

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