Como Eu Festejei o Fim do Mundo / Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: A intenção deste filme parece ser a melhor possível: mostrar como era tenobrosa a vida na Romênia do ditador Ceaucescu. Como boa intenção só não basta, achei o filme muito ruim.

O cinema feito na Romênia – um dos países mais miseráveis a emergir dos escombros do império comunista – passou a chamar a atenção depois de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de 2007, Palma de Ouro em Cannes e mais 22 prêmios e 19 indicações mundo afora. Feito um ano antes, em 2006, este filme vem nessa onda.

Como eu Festejei o Fim do Mundo foi produzido com ajuda do Sundance Institute, passou na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes. Diz a capa do DVD que tem produção executiva de Wim Wenders e Martin Scorsese – uma maneira de grandes nomes darem aval a uma obra com a produção da qual não tiveram coisa alguma a ver.

Acontecem essas ondas, essas marés – às vezes ficam fortes como tsunanis. Alguém em Cannes, ou em Berlim, ou em Veneza, se encanta com uma cinematografia de país pobre, e aí vira mania global – somos parentes dos macacos, gostamos de imitar, de entrar na onda, de fazer onda nos estádios esportivos. Ah, o novo cinema iraniano! Ah, o novo cinema do Uzbequistão!

Na década de 1990 houve a onda do cinema iraniano. Na segunda metade da primeira década de 2000 teve a onda do cinema romeno.

Nada contra o cinema do Irã, da Romênia, do Cazaquistão, de Ruanda. De forma alguma.

O que é irritante é a babação generalizada, a generalização. Em diversas anotações aqui, faço gozações com o que costumo chamar de turma papo cabeça que não perde um filme da Mostra e é vidrado num iraniano. É uma piada, uma boutade. Uma brincalhona expressão de revolta contra a babação generalizada. Num filme brasileiro recente há também uma piada sobre esse modismo de adorar o cinema iraniano – o filme, A Mulher do Meu Amigo, me pareceu muito fraco, mas a piada é boa.   

Nada contra, repito, o cinema iraniano. Aqui estão publicados elogios a O Círculo, de Jafar Panahi, a Filhos do Paraíso, de Majid Majidi, a Salve o Cinema, de Mohsen Makhmalbaf. Da Romênia, ainda não vi 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, nem A Leste de Bucareste, filmes que quero e vou ver, mas fiquei absolutamente encantado com Casamento Silencioso/Nunta Muta, por exemplo.

         Uma tremenda dificuldade de entender o que acontece no filme

Depois desse longo intróito, confesso que poucas vezes me senti tão imbecil, tão idiota, tão burro, tão obtuso diante de um filme quanto ao ver este Como Eu Festejei o Fim do Mundo.

Tive uma tremenda, mas uma tremenda dificuldade para entender o que estava acontecendo, quem eram aquelas pessoas, qual a relação de uma com a outra – mas pera lá, me perguntava, volta e meia: esse aí quem é? A que família pertence? Ué, mas esse aí não tinha aparecido antes!

Interrompi por um tempo. Respirei fundo. Voltei atrás, comecei de novo.

Aí teve um momento em que pensei estar começando a compreender: ah, sim, a narrativa é assim, toda esfacelada, toda truncada, toda ilógica, toda de difícil compreensão mesmo, porque o autor decidiu fazer assim – e, olha, até que não é uma sacada genial que eu não tinha compreendido antes? O diretor Catalin Mitulescu optou, maduramente, genialmente, por fazer uma narrativa esfacelada, truncada, ilógica, de difícil compreensão, porque é assim que os dois personagens centrais, o garotinho, Lala (Timotei Duma, na foto acima), de uns oito anos, e sua irmã adolescente de uns 16, Eva (Doroteea Petre, na foto abaixo), vêem o mundo, a Romênia de 1989, pouco antes do colapso do comunismo e do fim da ditadura de Ceaucescu. Eles têm apenas conhecimento de um ou outro fato, sem saber a relação de um com outro – como um espelho partido em mil pedaços. E a narrativa, magistralmente, incorporou exatamente essa forma esfacelada de ver o mundo.

Fiquei um pouco mais calmo: ah, tá vendo? O filme é mesmo bom, siô, eu é que não tinha entendido o espírito da coisa.

Quem sabe não seria uma metametametalinguagem?

E aí a história prosseguia – e quanto mais a história ia em frente, menos eu compreendia.

Não compreendia direito quem é quem; não compreendia por que exatamente a bela Eva foi expulsa da escola, por que a bela Eva era apaixonada pelo filho do policial e depois se desapaixonou tão de repente, por que se apaixonou pelo rapaz filho de um cara meio perseguido pela ditadura, por que depois se reapaixonou pelo filho do policial, como ela finalmente conseguiu escapar da Romênia e virar funcionária de transatlântico rico, por que afinal ela quis escapar da Romênia depois que a Romênia já havia escapado da ditadura de Ceaucescu…

Fiz nova tentativa: ah, vai ver que é aquele estilo moderno, Podendo-Complicar-a-Narrativa,-Por-que-Simplificar? Sim, sim, é a globalização: Catalin Mitulescu viu muitos filmes hollywoodianos rasos que fingem ser mais complexos do que são e resolveu fazer uma homenagem a eles.

Ou então, quem sabe, o filme foi feito dessa maneira para demonstrar como era que se pensava e que se fazia arte nos tempos da ditadura de Ceaucescu. Ah, uma metametametalinguagem – um filme que não pode dizer claramente nada porque finge que está sendo feito sob censura!

Aí o filme terminou e eu concluí que não entendi porra nenhuma. Devo ser, definitivamente, um débil mental – como, aliás, já fui acusado por alguns leitores aqui neste site.

         “É um filme excelente, mas difícil de entender se você não é romeno”

Procuro opiniões na internet. Ah, temos aqui um sujeito que é como eu, espectador comum, não um crítico, que escreveu do Canadá para o iMDB. Vejamos: “É um filme excelente, mas infelizmente é difícil entender este filme a não ser que você seja romeno ou tenha vivido na Romênia durante a era comunista.”

Ah, diabo, achei que quando nego faz filme é para ser compreendido um pouco além da aldeia dele. Achei que, quando nego fala claramente sobre sua aldeia, sua história ficasse universal.

O All Movie não comenta, só faz resenha: “Uma estudante romena descobre que sua vida mudou para sempre quando ela acidentalmente derruba um busto do ditador Nicolae Ceausescu no conto trágico-cômico sobre o rito de passagem de Catalin Mitulescu.”

Tá errada a informação: quem derruba o busto é o namorado da estudante, o tal filho do policial. Mas tudo bem, isso é o de menos.

         Falando sério, agora, e falando o óbvio que tem gente que não entende

A minha opinião é a seguinte – e vou dizer o óbvio do óbvio, mas que tem gente que insiste em não entender: nem todo filme incensado pela crítica e pelos júris de festivais é bom; nem todo filme malhado pela crítica e pelos júris de festivais é ruim; não é porque foi feito num país fora do circuito normal, por mais pobre e fora do circuito que seja – Mongólia, Congo, Romênia, Azerbaijão – que um filme é bom; não é porque foi feito num país que de repente virou o queridinho da crítica que um filme é bom; não é simplesmente porque mostra como era tenobrosa a realidade de uma ditadura comunista num pobre país satélite da URSS que um filme é bom.

E, como dizia um professor de Filosofia no Colégio de Aplicação, só é obscuro quem não sabe direito o que quer dizer.

Na minha opinião, Catalin Mitulescu não sabe narrar uma história. Pode ter Sundance, Wim Wenders, Scorsese apoiando, dando força: ao menos neste filme aqui, Catalin Mitulescu demonstra que não sabe narrar uma história.

***

Para encerrar, um pouquinho de informação, objetividade: Catalin Mitulescu nasceu em Bucareste em 1972. Antes deste filme aqui, fez três curtas. Ainda não voltou a dirigir depois disso.

Como eu Festejei o Fim do Mundo/ Cum mi-am petrecut sfarsitul lumii

De Catalin Mitulescu, Romênia-França, 2006

Com Doroteea Petre (Eva Matei), Timotei Duma (Lalalilu Matei)

Argumento e roteiro Catalin Mitulescu e Andreea Valean

Fotografia Marius Panduru

Música Alexander Balanescu   

Produção Les Films Pelléas, Strada Film

Cor, 106 min

*

3 Comentários

  1. Sara
    Postado em 15 Fevereiro 2012 às 11:12 pm | Permalink

    achei esse filme fraquinho, independete do que cannes aponta..mas que o cinema iraniano vem ficando cada vez melhor, isso é fato!! o mais recente exemplo, A separação, esta aí pra comprovar.

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 16 Fevereiro 2012 às 1:08 pm | Permalink

    Muito obrigado pelo seu comentário, Sara.
    Mas o filme “Como eu Festejei o Fim do Mundo” não tem nada a ver com o cinema iraniano, né? Ele é romeno.
    Um abraço.
    Sérgio

  3. daniel alberto
    Postado em 24 Fevereiro 2012 às 8:15 pm | Permalink

    Gostaria de saber o seu twiter para saber suas opinoes por la tambem ….
    a sua opiniao concordo 100% A moca no final viajou pra onde …cruzeiro pra italia , trabalhava no navio …eu sou burro mesmo !!!1

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  1. […] em 2010: Um absoluto brilho de filme, uma pérola dessa nova safra do cinema romeno, que de repente começou a exibir ao mundo obras surpreendentes, com a força de um vulcão que […]

  2. […] o comunismo, a União Soviética e especificamente Stálin, e enquanto outro filme romeno recente, Como eu Festejei o Fim do Mundo, fala especificamente do ditador Nicolae Ceausescu, e envolve na trama uma estátua do ditador, […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » O Concerto / Le Concert em 22 novembro 2011 às 4:35 pm

    […] E vários de seus filmes – Contos da Era Dourada, A Leste de Bucareste, Casamento Silencioso, Como eu Festejei o Fim do Mundo – são especialmente cáusticos, violentos, virulentos no ataque ao totalitarismo […]

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