Aconteceu em Woodstock / Taking Woodstock


Nota: ★★★½

Anotação em 2010: Aconteceu em Woodstock, o mais recente filme de Ang Lee – feito em 2009, dois anos depois do excepcional Desejo e Perigo – é uma absoluta delícia.É bem humorado, leve, suave, gostoso, agradável – um olhar, cheio de simpatia, sobre o momento mágico que marcou o apogeu da cultura hippie, exatos 40 anos depois do festival que reuniu meio milhão de pessoas numa fazenda no interiorzão do Estado de Nova York.

O roteirista James Schamus, parceiro habitual de Ang Lee em quase todos os seus filmes, se baseou em um livro escrito por Tom Monte e Elliot Tiber. A idéia do livro e do roteiro é sensacional: o que se vê não é o festival de Woodstock, os shows, as grandes estrelas – Joan Baez, Joe Cocker, Crosby, Stills & Nash, Richie Havens, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Santana, The Who. O filme pega a perspectiva dos moradores do local em que acabou se realizando o festival – gente simples, interiorana, caipira, fazendeiros, pequenos comerciantes, gente pacata, em geral bem conservadora, em termos de comportamento. Mais especificamente, é a perspectiva de Elliot Teichberg, ou Elliot Tiber – sim, um dos autores do livro em que o filme se baseia.

Elliot (interpretado por Demetri Martin, na foto abaixo) era um rapaz de uns 20 e poucos anos, naquela época, 1969 – o ano da chegada do homem à Lua, mais um ano do lamaçal da guerra do Vietnã, dois anos depois de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, o auge do flower power, do hippismo. Tinha tido uma passagem por Nova York, morara lá um tempo, estudando, tentando iniciar uma carreira como pintor, mas acabara voltando para Bethel, a cidadezinha minúscula na região rural ao norte da capital do mundo, onde seus pais sempre viveram, ganhando seu sustento com o El Monaco Motel.

         Pior que o motel da família Teichberg, só o Bates, de Psicose

Não estava nada bem, o El Monaco Motel, e por isso Elliot deixou de lado a sua própria vida e voltou para Bethel para tentar ajudar os pais na administração dos negócios – Sonia (Imelda Staunton) e Jake Teichberg (Henry Goodman).

O motel tinha muito poucos fregueses. Pouca gente passava pela estradinha secundária, de duas pistas, diante da qual ficava o El Monaco. Apesar de estar a não mais que 200 quilômetros da maior metrópole do país, aquele lugar interiorano, sem qualquer atração especial, tinha pouquíssimo movimento.

E, além de tudo, Sonia e Jake não eram bons administradores do seu negócio. Muito ao contrário – eram péssimos. Bem no início da narrativa, vemos um cliente devolvendo a chave de seu quarto e exigindo de volta os US$ 8,00 que havia pago. O cliente apresenta a Sonia suas razões: a chave não entrava na fechadura do quarto que ele acabara de alugar, mas de qualquer maneira a porta estava escancarada. O ar condicionado não funcionava. A roupa de cama estava imunda, e não havia toalhas. Sonia se limita a mostrar uma plaquinha na recepção que avisa que o dinheiro pago não será devolvido, e que as toalhas custam US$ 1,00, fora do preço da diária.

Para economizar ainda mais, Jake joga água sanitária na piscina, mais barato que cloro.

Ou seja: pior que o El Monaco, só o Bates Motel de Psicose, onde os hóspedes costumam ser assassinados.

         O banco está para executar a dívida família

Não é à toa, portanto, que logo depois da desistência daquele pobre cliente, Sonia, Jake e Elliot – este de terno, para causar boa impressão – têm que comparecer ao pequeno banco de Bethel, onde o gerente, que convocou a reunião, explica que não tem mais como impedir que a dívida de US$ 5 mil dos Teichberg seja executada.

Elliot suplica ao gerente que lhes dê mais um tempo; ele tem idéias para implementar iniciativas que vão garantir um maior retorno financeiro, uma das quais é mais um festival de música e artes. Arranca dele um pequeno prazo de alguns meses.

Mas é preciso que o espectador tenha calma. Quem estiver esperando que o Festival de Woodstock comece logo vai se decepcionar. Esta não é a história dos shows – é a história do festival vista pela perspectiva de Elliot Teichberg.

Elliot não é propriamente um sujeito próximo do hippismo. Não é um caretão total – seu cabelo é grande, seu ideal é ser pintor. Mas não é chegado a drogas, não tem costume nem de fumar um baseado de vez em quando; gosta mais de Judy Garland que de Jimi Hendrix. Como ele mesmo dirá aos pais, já quase ao final da deliciosa narrativa, é o único jovem do país naquele momento que janta com os pais em casa – até sua irmã o incentiva a cuidar da sua própria vida em vez de cuidar da dos pais. É o que os críticos de rock costumam chamar, pejorativamente, de MOR, Middle of the Road, meio da estrada.

Ao renunciar a cuidar de sua vida para ajudar a dos pais, Elliot havia se tornado presidente da Câmara de Comércio da pequenina Bethel. Acompanharemos uma reunião da câmara – Elliot presidindo e, diante dele, meia dúzia de gatos pingados e desanimados. Nessa reunião, com a aprovação da assembléia, ele consegue uma autorização formal para realizar seu festival de música e artes, para o qual pensa em chamar para tocar um quarteto de cordas.

Na lanchonete de Bethel onde Elliot costuma comer uma coisinha, um outro freguês está lendo num jornal da região a notícia de que a vizinha Woodstock negou permissão para a realização de um festival de música. Previa-se que esse festival poderia reunir mil, talvez umas 5 mil pessoas. Os organizadores tentavam, então, transferir o festival de Woodstock para outra cidade vizinha, Wallkill.

Vamos acompanhar um pouco mais o dia a dia de Elliot. Já estamos aí com uns 25, quase 30 minutos de filme quando ele vê nova notícia no jornal: a cidade de Wallkill votou pela proibição da realização do festival de música. “Hippies não são bem-vindos aqui” – a frase do prefeito de Wallkill é o título da página 3 do jornal regional.

É aí que Elliot resolve dar um telefone para Nova York, para a empresa que organizava o festival, chamada Woodstock Ventures.  

         Um milhão de variáveis se combinam para produzir um evento único

Há coisas que só acontecem uma vez na vida, e nunca mais. Um milhão de variáveis se combinam para produzir um determinado evento, um determinado fato. E depois não adianta tentar reproduzir aquilo – aconteceu uma vez, não voltará a acontecer, mesmo que se faça um gigantesco esforço, que se botem milhões e milhões em marketing, em propaganda. Nunca vai haver outro Rock in Rio com a magia daquele de 1985, onde, entre muitas outras mágicas, James Taylor renasceu, sob as bênçãos de uma multidão de dezenas de milhares de pessoas que, embevecidas, cantavam junto com ele.

Nunca vai haver outro Festival de Woodstock – que, se aprende com esse gostoso filme de Ang Lee, não se realizou em Woodstock, nem em Wallkill, e sim em Bethel. Ficou conhecido como “de Woodstock” porque foi assim que um sujeito chamado Michael Lang (interpretado por Jonathan Groff), um hippie muito doidão, absolutamente visionário, intitulou sua empresa, a Woodstock Ventures, antes que os pacatos cidadãos de Woodstock decidissem vetar a realização, ali, de um festival que poderia reunir uns 5 mil hippies drogadões.

Entre as milhares e milhares e milhares de variáveis, de acasos, de coincidências, de imprevistos, que se combinaram naquele verão de 1969 para produzir o que acabaria sendo o Festival de Woodstock está o encontro desse Elliot Teichberg com Michael Lang. Elliot precisava de algum movimento para que o El Monaco Motel pudesse pagar US$ 5 mil ao banco, Michael Lang precisava de uma fazenda para reunir umas 5 mil pessoas, quem sabe até umas 10 mil.

Foram, como se sabe, 500 mil pessoas. Meio milhão de pessoas, em três dias de paz, amor e música. Bem, paz, aí, é uma noção bastante relativa. Para a imensa maioria dos pacatos, caipiras, conservadores habitantes de Bethel, aquilo foi pior que a guerra do Vietnã – embora no fim eles tenham ganhado muito dinheiro com aquela imprevista, absolutamente impensável, inimaginável invasão de meio milhão de pessoas vindas de todos os cantos do país.

         Atores perfeitos para cada papel

Uma das muitas grandes qualidades de Ang Lee está sua maestria em dirigir atores. O elenco de Aconteceu em Woodstock está impecável, brilhante – desde os atores principais até os coadjuvantes que só aparecem em uma seqüência. O trabalho de casting, de escolha dos atores, é um show absoluto. Esse garoto Demetri Martin está maravilhoso como Elliot; é um daqueles casos perfeitos em que o ator combina com perfeição com o papel. Ele transmite as mais diferentes emoções do personagem – insegurança, um pouco de tristeza pela falta dos amigos, pelo abandono de seus próprios planos para ajudar os pais; as hesitações, as pequenas alegrias, o saco cheio com a mãe resoluta, dominadora, o protótipo da mãe judia.

Nunca tinha ouvido falar em Demetri Martin; vejo no iMDB que ele já havia atuado como ator coadjuvente, bem coadjuvante, em três filmes, antes de ter aqui o papel principal. Parece que é conhecidíssimo na TV americana.

A escolha para o papel de Sonia, a mãe judia teimosa como uma mula, da inglesa Imelda Staunton foi um gol de placa. Imelda é uma grande atriz; participou de vários dos filmes da série Harry Potter e brilhou no papel título de O Segredo de Vera Drake, o belo filme de Mike Leigh de 2004. Está brilhante aqui, num papel engraçado, assim como esteve no papel da trágica Vera Drake.

Também está ótimo o garoto Emile Hirsch, que já havia mostrado imenso talento como o protagonista de Na Natureza Selvagem, de Sean Penn. Aqui, ele faz quase uma participação especial, como Billy, um rapaz que voltou doido do Vietnã.

E esse Jonathan Groff (na foto, com a namorada tão bicho-grilo quanto) no papel de Michael Lang, o organizador do festival de Woodstock, é outro belo achado da direção de casting. Parece um anjo de pintura renascentista, com o longo cabelo encaracolado e uma cara de absoluta beatitude de quem acha que vai dar tudo sempre certo – paz e amor, bicho!

Mas o maior show é de Liev Schreiber, que se oferece a Elliot para fazer a segurança do motel durante os dois do festival, com um grande revólver – e travestido de mulher! Vilma tem cara e jeito muito macho – e de vez em quando desmunheca. É um personagem fascinante, e o ator se diverte e nos diverte com ele.        

         Uma homenagem ao documentário – e seqüências lindíssimas

Diretor discreto, anti-foguetório, anti-pirotecnia, Ang Lee em alguns momentos usa o split screen, aquele recurso de dividir a tela em duas, três, quatro imagens diferentes. Não é à toa: é uma clara, óbvia homenagem a Woodstock, o filme, o documentário histórico sobre o festival, dirigido por Michael Wadleigh, lançado em 1970, alguns meses apenas depois do festival, e que, em 2009, na comemoração dos 40 anos do evento, teve nova edição caprichada em DVD. Em Woodstock Michael Wadleigh usou e abusou do split screen. Ang Lee não abusa – usa bem; é uma bela citação, uma homenagem.

Como tem uma carreira brilhante, uma filmografia admirável, fez filmes que deram muito dinheiro, Ang Lee deve certamente ter conseguido um bom orçamento para realizar Aconteceu em Woodstock. Porque, meu Deus do céu e também da terra, só o que a produção pagou para figurantes… O filme tem um número impressionante de figurantes, ao recriar as cenas das estradas absolutamente abarrotadas por milhares e milhares de pessoas.

Mais para o final de seu filme, Ang Lee cria seqüências de incrível beleza plástica. A seqüência da experiência de Elliot com o ácido é uma maravilha, que me fez lembrar outra seqüência lisérgica antológica, aquela do Hair de Milos Forman em que o protagonista viaja brabo no meio do Central Park. São lindíssimas também a seqüência em que Elliot vê de muito longe o festival, e a final, em que ele e Michael Lang olham o local onde tinha acabado de acontecer aquela coisa mágica, maluca, linda, única.

Os franceses da revista Studio, agora rebatizada Studio Ciné Live, deram 3 estrelas em 5 para o filme, que chamaram de “original”; segundo a revista, Demetri Martin é “uma revelação”. 

Beleza de filme.

Aconteceu em Woodstock/Taking Woodstock

De Ang Lee, EUA, 2009

Com Demetri Martin (Elliot Tiber), Imelda Staunton (Sonia Teichberg), Emile Hirsch (Billy), Eugene Levy (Max Yasgur), Jonathan Groff (Michael Lang), Henry Goodman (Jake Teichberg), Liev Schreiber (Vilma) Dan Fogler (Devon),   

Roteiro James Schamus

Baseado no livro de Tom Monte e Elliot Tiber

Fotografia Éric Gautier

Música Danny Elfman

Produção Focus Features.

Cor, 120 min

***1/2

Título em Portugal: Taking Woodstock. Título na França: Hôtel Woodstock

3 Comentários

  1. Postado em 27 abril 2010 às 3:28 pm | Permalink

    A acrescentar dois comentários, apenas: a sua descrição é perfeita!
    E: vi esse filme com um sorriso permanente no rosto, irresistível, ele!
    A sensação, nítida, é a de que não só o mundo tinha parado como era um mundo muito bom, perfeito, harmônico, magnífico.
    Muito provavelmente, nossa última constatação, diante da História, né não? A. Lee captou absolutamente tudíssimo, maravilhoso, tudo – e torno a ser repetitiva: adoro o jeito como Vosmecê capta tudo!

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 27 abril 2010 às 4:24 pm | Permalink

    Olá, Luíza! Obrigado pelo comentário. De fato, como você adiz, é um filme para a gente ver com um sorriso permanente no rosto.
    Abração.
    Sérgio

  3. Postado em 3 maio 2010 às 1:14 pm | Permalink

    Cara este filme é simplesmente magnifico !!!!

3 Trackbacks

  1. […] é interpretada pela bela jovem escocesa Kelly Macdonald. E Mrs. Blatgherwick é feita por Imelda Staunton, protagonista do extraordinário O Segredo de Vera Drake, de Mike Leigh, entre muitos outros bons […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Salt em 11 julho 2017 às 2:14 am

    […] numa empresa que é apenas fachada para agentes da CIA. Trabalha ao lado de um colega, Ted Winter (Liev Schreiber), que foi até a Coréia do Norte para arranjar sua libertação. No dia em que a bela Evelyn quer […]

  3. […] em 2009: Na verdade, já nem era preciso. Mas o fato é que, com este filme, Ang Lee garante de sobra seu lugar entre os maiores diretores de cinema da […]

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