O Joelho de Claire / Le Genou de Claire


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2009: Acho que eu deveria ter vergonha em confessar que só agora, em 2009, vi pela primeira vez um filme de Eric Rohmer. E provavelmente deveria ter mais vergonha ainda em confessar que O Joelho de Claire, um de seus filmes mais famosos, não me disse absolutamente nada.

Ainda bem que não sou crítico de cinema. Se fosse um dos 334 críticos de cinema da Folha, certamente perderia o emprego.

O Joelho de Claire é um filme bonito de se ver. O visual é estupendo: afinal, tudo se passa num verão, às margens de um belo lago, cercado por belas montanhas; as casas são belas, os gramados são imaculados. Os atores são belos, as roupas são belas, e o diretor de fotografia é ninguém menos que Nestor Almendros, um mestre, um dos maiores fotógrafos da história. Ah, sim, e o joelho de Claire é lindo.

O diplomata Jérôme (Jean-Claude Brialy, belo aos 37 anos de idade, barba cerrada, cabelo longo) está passando três semanas de férias junto ao Lago d’Annecy, perto dos Alpes; quer vender a casa que tem ali, e em seguida embarcará para a Suécia, onde vive e onde se casará enfim com Lucinde. Reencontra ali Aurora (Aurora Cornu), uma velha amiga que não via fazia muito tempo; Aurora, uma escritora, havia alugado um quarto na casa de uma outra antiga conhecida de Jerôme, Madame Walter (Michèle Montel), e ele passa a visitá-la constantemente. Primeiro fica conhecendo a filha adolescente da dona da casa, Laura (Béatrice Romand); a garotinha demonstra fascinação pelo homem mais velho, e Aurora o incentiva a aproximar-se da garota, e relatar para ela seus sentimentos. Mais tarde chega Claire (Laurence de Monaghan), meia-irmã de criação de Laura, e é a vez de Jérôme se fascinar pela lolitinha em flor.

Tudo muito bonito, tudo muito suave, tudo perfeito para um curta-metragem de 20 minutos.

Confesso: o filme não me tocou. Ficamos ele lá, eu cá, sem compreender por que tantas loas, tanto incenso, ouro e mirra para Eric Rohmer.

         Não fugi de Rohmer – só não calhou

Será que é uma questão de tempo, de época? Será que se eu tivesse visto O Joelho de Claire na época em que ele foi feito, 1970, eu com 20 anos, teria me encantado, visto profundos significados nessa historinha banal?

Não dá para saber.

Tenho a dizer que não fugi de Rohmer – e há coisas das quais eu fujo, quase como o diabo da cruz. Fujo de filmes de alguns cineastas cults que para mim são apenas chatos, como Hal Hartley ou Peter Greenaway, por exemplo. Vi filmes de praticamente todos os cineastas franceses importantes da geração de Rohmer – mas ele me escapou, sem que, repito, eu tivesse conscientemente tentado fugir dele. Digo isso apenas a bem verdade – não porque meu crime de não ter gostado de O Joelho de Claire possa ter algum atenuante.

         “Rohmer é o Racine do século XX”

joelho1Por uma dessas coincidências da vida, vi O Joelho de Claire poucos dias depois de ver o primeiro filme de Philippe Claudel, Há Tanto Tempo que Te Amo/Il y a Longtemps que Je t’aime – um dos melhores filmes dos últimos muitos anos. Botei de novo para tocar o DVD de Há Tanto Tempo para rever a seqüência em que se fala de Eric Rohmer. Transcrevi os diálogos.

É uma seqüência bem no meio do filme; as irmãs Juliette (Kristin Scott Thomas) e Léa (Elsa Zylberstein), com o marido de Léa e as duas filhas, vão passar o fim de semana numa grande casa de fazenda, junto com diversos amigos e suas famílias. Vários dos amigos são, como Léa, professores na faculdade de Nancy. À noite, à mesa, diante de taças de vinho, conversam sobre assuntos diversos. Gérard, que havia tomado um pouco mais de vinho e estava muito falante, discursa:

– “Vocês desprezam todos os cineastas franceses, e ficam babando para os da Ásia, dos Estados Unidos, sei lá de onde. Todo grupo precisa de um espírito iluminado. Eu sei reconhecer gênios, e Rohmer é um.”

Léa reage: – “Eu não gosto de Rohmer e pronto. E daí? Tenho o direito, não?”

 Gérard toma a palavra de novo: – “Acho incrível você dar aula de literatura e não entender o cinema de Rohmer.”

 Várias vozes tentam interromper; alguém diz: – “Léa não disse que não entende o cinema de Rohmer, só disse que não gosta dele.”

Gérard ignora a interrupção e mantém o discurso: – “Fico imaginando como você faz para explicar Racine para seus estudantes.”

E Léa, espantada: – “O que Racine tem a ver com isso?”

E Gérard: – “Rohmer é o Racine do século XX!”

Todos caem na gargalhada.

         Fãs enamorados e irritados detratores

Bem, pelo menos não estou sozinho. Léa, professora de literatura em Nancy, não gosta de Rohmer. 

Léa, que não gosta, e eu, que não me toquei por um filme dele, somos exceções.

“Crítico dos Cahiers du Cinéma, co-autor com Chabrol de um Hitchcock que cultivava o paradoxo, foi levado, no início de sua carreira, com Le Signe du Lion, pela nouvelle vague”, diz Jean Tulard, no seu Dicionário. “Mas ele não se impõe, contudo, do mesmo modo que um Truffaut, um Godard, ou um Chabrol. Mais discreto, mais austero, foi obrigado a esperar longos anos antes de ser consagrado pela crítica. Seu ciclo dos ‘contos morais’, belas histórias dentro da tradição de um século XVIII modernizado nos quais a sedução, senão a libertinagem (especialmente em O Joelho de Claire e na obra-prima do autor, Les Nuits de la Pleine Lune) ocupa um lugar de importância. (…) Rigor, elegância, mas também frieza são as características de filmes que ocupam um lugar à parte no cinema francês.”

Vamos a Dame Pauline Kael, a crítica americana que via todos os filmes europeus:

“A atmosfera está carregada de verão e ócio na serena história de Eric Rohmer sobre um diplomata em férias (Jean-Claude Brialy), que diz interessar-se apenas pela mente das mulheres, e depois sente o ‘desejo indefinido’ de alisar um joelho de mulher. Uma romancista meio enigmática assume o lugar do diretor e faz observações densas, mas o discreto e complacente jogo filme-romance de Rohmer é agradável, e uma cativante atriz adolescente desajeitada, Béatrice Romand, que faz um papel secundário, parece uma princesa de Pisanello.”

Mestre Georges Sadoul:

“É talvez num instável ponto de equilíbrio que se situa, na obra de Rohmer, O Joelho de Claire: o rigor clássico de um diálogo sempre prestes a descambar na afetação e a sensualidade estival da fotografia de Nestor Almendros formam uma liga rara, produto de duas tensões, e esta história de um homem de 35 anos , perturbado por uma adolescente, adquire assim um colorido de melancólica interrogação sobre a morte futura.”

Já o livro 501 Movie Directors diz que Léa, a professora de Literatura do belo filme de Philippe Claudel, não está sozinha: “Seus filmes produzem fãs enamorados e irritados detratores, mas nada no meio.” Mas derrama-se: “Com profunda simpatia por seus personagens excepcionalmente sensíveis, seus filmes permitem que a audiência acompanhe a maturação do protagonista, e a revelação da natureza fundamental das pessoas.”

Bem. Não vou desistir. Ainda vou ver mais filmes de Rohmer. Ou descubro que o bicho é realmente genial, ou passo a ter a certeza de que não é, e pronto.

O Joelho de Claire/Le Genou de Claire

De Eric Rohmer, França, 1970

Com Jean-Claude Brialy, Aurora Cornu, Béatrice Romand, Laurence de Monaghan, Michèle Montel, 

Argumento e roteiro Eric Rohmer

Fotografia Nestor Almendros

Produção Les Films de Losange, Barbet Schroeder, Pierre Cottrell

Cor, 105 min

**

8 Comentários para “O Joelho de Claire / Le Genou de Claire”

  1. Ainda bem que a crítica, acima, sobre “O Joelho de Claire”, de Rohmer, trata-se de gosto pessoal, como deixa claro quem o escreveu. E se tratando de gosto pessoal fica difícil dialogar. Afinal, quais as bases desse gosto? Que bom que leva em consideração o aspecto histórico (?), se bem que se não gostou agora, por que haveria de gostar aos 20? Diria que devemos levar em consideração: a época em que foi feito o filme; a estética do período; roteiro; atores; a proposta do diretor; a contextualização do cinema francês na nistória do cinema; entre outros aspectos. Talvez aí possamos encontrar prováveis respostas que levem a compreensão do motivo pelo qual foi premiado… E faça ainda possível entender o porquê de termos o nome do diretor como referência no cinema francês.

  2. Gosto muito de Rohmer, mas entendo quem não goste. É um cineasta diferente. A alguns parece tedioso, mas creio que ele busca apenas contar as histórias, mesmo que elas não sejam particularmente remarcáveis. Gosto
    de sua suavidade e falta de ação, da melancolia das situações. Gostei muito dos
    “Contos” das 4 Estações (especialmente os de
    Verão e Outono (ou será o de Inverno?), da Marquesa d’O, do Signo de Leão, desse O Joelho de Claire, de Pauline na Praia, e considero magnífico “Ma Nuit Chez Maude”,
    que, talvez solitariamente, tenho como sua
    obra prima. Ainda há alguns de que não gosto
    – A Colecionadora, A Carreira de Suzanne,
    Amor à Tarde – mas acho que o erro é meu.
    Voltarei a eles. Vale insistir em Rohmer, pois além do cineasta há um pensador que tem algo a dizer e que vale a pena escutar.

  3. Caro Mário,
    Sua opinião sobre Rohmer é a mesma de praticamente todo mundo que gosta de bom cinema.
    Talvez eu tenha pego pesado demais também nesta anotação, como faço em muitas outras.
    Vou seguir seu conselho e ver outros filmes dele.
    Um abraço.
    Sérgio

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