Medos Privados em Lugares Públicos / Coeurs


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Tive duas impressões fortes enquanto via este filme do mestre Alain Resnais. A primeira: credo, que filme mais absolutamente bem feito, mais absolutamente perfeito na forma, que magnífica escolha e direção de atores, que beleza visual. A segunda: como tudo é tão triste, como aqueles personagens são infelizes, solitários, incapazes de se comunicar, incapazes de reagir contra a pequenez de suas vidas.

Ninguém lê um livro, vê um filme, ouve uma música, tenta aprender, tenta melhorar. Todos simplesmente se entregam ao fluxo da vida, vão se deixando levar pela correnteza cada vez mais para dentro da solidão, da infelicidade.

Não quero comparar com tudo o que Resnais fez – a obra dele é vasta demais, importante demais, variada demais. Mas não consegui deixar de comparar com outro filme relativamente recente dele, Aquela Velha Canção/On Connait la Chanson, de 1997 – entre um e outro houve apenas Pas Sur la Bouche, de 2003. Tanto este Medos Privados em Lugares Públicos quanto On Connait la Chanson retratam o dia a dia de um grupo de pessoas maduras, de idades variando entre os 30 e muitos e os 60 e tantos anos, vivendo em Paris, todos de classe média, que não passam por nenhuma privação das coisas básicas. Quatro dos sete atores estão nos dois filmes, o que os aproxima ainda mais: Sabine Azéma, André Dussollier, Pierre Arditi, Lambert Wilson.

E, no entanto, o clima dos dois filmes não poderia ser mais dispar, mais antípoda. Enquanto On Connait la Chanson é uma filme leve, suave – afinal, é um musical -, que deixa o espectador satisfeito, sorridente, feliz, alguns centímetros acima do solo, este Medos Privados é angústia pura, é o retrato da mais absoluta tristeza, desolação, desesperança.

Ainda zonzo, em choque pela tristeza do filme, me lembrei de Danièle Thompson, outra grande cineasta francesa, 20 anos mais jovem que Resnais. (Nascido em 1922, dois anos mais velho que Sidney Lumet, quatro anos mais velho que Andrzej Wajda, oito anos mais velho que Clint Eastwood, ele é provavelmente o mais idoso cineasta em atuação). Também num curto intervalo de tempo, Danièle Thompson fez um filme que parece olhar a vida através de óculos negros, Três Irmãs/La Büche, de 1999, e outro que é quase livre, leve e solto, apesar de todos os problemas que há na vida, Um Lugar na Platéia/Fauteils d’Orchestre, de 2006.

E aí me lembro de uma brincadeira que a grande Agnès Varda se permitiu no belíssimo Cléo de 5 a 7, de 1962. No meio do filme sobre uma mulher que está para receber o resultado de um exame médico que poderá condená-la à morte iminente, há um filmetinho, um intermezzo, em que o diretor Jean-Luc Godard, em uma participação especial como ator, tira os óculos escuros, passa a ver o mundo de maneira diferente e diz: “Eu via tudo negro por causa dos meus óculos escuros!”

Este filme do mestre Resnais vê a vida através de óculos escuros.

Toda a ação se passa no inverno, nos dias de frio mais rigoroso do inverno; a neve cai perenemente, em todas as cenas em que os personagens estão ao ar livre – que não são muitas; a maior parte do filme se passa em interiores, onde os personagens chegam tirando os cachecóis, os casacos ou sobretudos pesados cheios de neve.

Resnais pontua todos os momentos de transição de uma seqüência para outra com a neve. Em vez do tradicional fade in e fade out, ele funde a última imagem de uma seqüência com uma imagem de neve caindo, e ela se funde ao início da seqüência seguinte. É uma sacada simples e belíssima, um efeito impressionante – e extremamente triste, de gelar o coração.

São seis personagens. André Dussollier faz Thierry, um corretor imobiliário – exatamente a mesma profissão do seu personagem em On Connait la Chanson. Thierry é um sujeito educado, gentil, e profundamente solitário; parece se interessar por sua colega de trabalho, Charlotte (Sabine Azéma), mas eles nunca se falaram mais do que frases protocolares, a rigor não se conhecem direito. Ele vive com a irmã bem mais jovem, Gaëlle (Isabelle Carré), e, quando o filme começa, está mostrando apartamentos para uma cliente, Nicole (Laura Morante).

Nicole quer se mudar para um apartamento de três aposentos porque o noivo – que já vive com ela – insiste em que precisa de um escritório. O noivo, Dan (Lambert Wilson), não sabe explicar por que precisa de um escritório, já que não faz absolutamente nada, há seis meses, desde que deu baixa do Exército – não sabemos bem por que o Exército o dispensou, mas as indicações são de ele fez alguma grande asneira. A relação entre Nicole e Dan vai mal, muito mal, e o espectador se pergunta por que raios eles querem um novo apartamento, quando na verdade deveriam era se separar, acabar com aquela vida a dois insuportável.

Um dos motivos das constantes brigas entre Nicole e Dan, além do fato de ele não se coçar para procurar um emprego, é que ele anda bebendo muito. Vai sempre ao mesmo belo bar de um hotel, onde enche os ouvidos do barman Lionel (Pierre Arditi) com lamentações, lamúrias, queixas. Na verdade, Dan é um porre, um chato de galocha. Não se explica de onde vem o dinheiro que ele tem para gastar tanto em um bar tão bom – o roteiro, baseado numa peça de teatro do londrino Alan Ayckbourn, simplesmente não se preocupa com esses detalhes prosaicos a respeito da origem do dinheiro dos personagens.

Lionel é o barman típico e perfeito; escuta com uma aparente paciência de Jó as lamúrias dos clientes. Viúvo, mora com o pai doente, senil e irritadíssimo com tudo e todos, Arthur, que a câmara jamais mostra – só ouvimos sua voz, feita pelo ator Claude Rich.

Para cuidar do pai à noite, Lionel contrata Charlotte, que durante o dia trabalha na imobiliária junto com Thierry.

Charlotte é o personagem mais complexo dos seis que o filme nos apresenta. Na verdade, é uma mulher bem misteriosa. Cristã fervorosa, recita para quem estiver à sua frente (no caso, Lionel, em determinadas ocasiões, e Thierry, em outras) frases que parecem saídas de uma mistura mal ajambrada da Bíblia com livros de auto-ajuda. Oferece a seu colega Thierry fitas cassete com gravações de um programa de TV desses do tipo evangélico, chamado “As canções que mudaram minha vida”; quer que ele as veja – quem sabe assim ele também encontra Jesus. Thierry levará uma fita para casa – e descobrirá, quando termina o programa da TV gravado por Charlotte, cenas gravadas anteriormente que vão assustá-lo, deixá-lo intrigadíssimo.

No exato momento em que Thierry está vendo as cenas surpreendentes, intrigantes, sua irmã Gaëlle entra na sala e fica furiosa com ele.

Gaëlle é quase tão misteriosa quanto Charlotte. Jovem – é a mais jovem dos seis personagens -, lindíssima (Isabelle Carré é um bibelôzinho; seu rosto parece ter sido esculpido num computador por um artista gráfico competente), mente para o irmão que está saindo para se encontrar com amigas, mas na verdade vai a bares à noite à espera de homens com quem marca esses encontros às cegas via revistas ou sites para corações solitários. Eventualmente, seu destino vai se cruzar com o de Dan, o chato de galocha.

Tudo profundamente solitário, tudo profundamente triste, sem ânimo algum. É um filme extremamente bem feito, mas, a rigor, não consigo entender bem a razão de ele ter virado um cult – ficou mais de um ano em exibição nos cinemas de São Paulo. A mim, o filme deu foi vontade de rever On Connait la Chanson.

Medos Privados em Lugares Públicos/Coeurs

De Alain Resnais, França-Itália, 2006

Com Sabine Azéma, André Dussollier, Pierre Arditi, Lambert Wilson, Isabelle Carré, Laura Morante

Roteiro Jean-Michel Ribes

Baseado na peça de Alan Ayckbourn

Produção Soudaine, Studio Canal, France 2 Cinéma. Estreou em São Paulo 13/7/2007

Cor, 120 min

***

Título em Portugal: Corações

7 Comentários para “Medos Privados em Lugares Públicos / Coeurs”

  1. Parabens à equipe do site 50anosdefilmes.
    É legal ter uma boa fonte de informaçõs de cinema em português.
    Quanto ao filme “Medos Privados em Lugares Públicos / Coeurs”:
    Gostamos muito do filme (eu e a esposa), apesar de ele não ter um final surpreendente, tem final aberto e todos os personagens terminam tão ou mais solitarios do que quando começaram.
    Mas para complementar a crítica, especialmente à informação de não ter entendido porque o filme virou cult (faz mais de 02 anos que está em cartaz em SP, apesar de ja ter saído em DVD):
    O segredo é A DIREÇÃO competente e segura do mestre ALAIN RESNAIS e das atuações de TODOS DO ELENCO, dando muito mais sinceridade à solidão de cada um, além de outros motivos, se isso não for razão suficiente para um filme viar cult, não deve haver motivos também para escrever sobre ele, seria melhor nem perder o tempo de digitar a crítica.

    Um Abraço,
    MARCEL CANPELLI, 40 anos
    São Paulo – SP

  2. Equipe = EUquipe = Sérgio Vaz. O site é tão bom que pensam que é feito por mais de uma pessoa, hehehe.

  3. Eu devo ser a única pessoa do mundo que simplesmente detestou esse filme, aquela cena da mulher cheia de comida (ou vinho?) no rosto e simplesmente limpíssima no take posterior é simplesmente ridícula!!!
    será que preciso assisti-lo novamente? Vi em 2007 no cinema e esse filme ficou até 2011 no Belas Artes em SP. Péssimo, péssimo, nota: meia estrelinha!

    Mas o blog é ótimo.. mas como toda discordância é bem-vinda.. 🙂

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *