Leonard Cohen: I’m Your Man


Nota: ★★★½

Anotação em 2009: Os fãs de Leonard Cohen vão adorar este filme, babar de admiração, voltar para rever trechos aqui e ali, ver tudo de novo assim que terminar a primeira vez. Para quem conhece um pouco dele, seguramente é um excelente cartão de visitas, um belo convite a ir mais fundo. Para quem não o conhece (e aqui seguramente está a grande maioria das pessoas), não sei bem, não dá para saber, mas acho que pode ser uma interessante introdução.

Leonard quem, cara-pálida?

Pois é, esse é que o problema. Vai ser um comentário difícil de escrever, este aqui, porque para quem gosta de Leonard Cohen tudo poderá parecer redundante e óbvio, e para quem não o conhece parecerá tão distante quanto a guerra do Afeganistão. Mas vou tentar andar neste fio da navalha.

Este documentário é uma reunião de várias coisas. Boa parte dele é um show de vários artistas em homenagem a Leonard Cohen, realizado na Ópera de Sydney, em 2005. Entremeados com as canções apresentadas lá, entre uma e outra – e às vezes até mesmo no meio de uma ou outra canção -, há trechos de duas diferentes entrevistas com Leonard Cohen, mais depoimentos dos artistas que participaram do show-tributo, mais a reprodução de filmes e fotos de várias fases da vida do compositor canadense (nasceu em Montreal, em 1934), e ainda de desenhos feitos por ele. É uma colagem desses diversos elementos – para, no encerramento, vermos um número especialmente encenado para o próprio documentário. 

De tempos em tempos, realiza-se um tributo a Leonard Cohen. E os tributos reúnem uma penca de artistas e de grupos, sempre de várias gerações diferentes, que admitem que foram profundamente influenciados por ele. Todas as músicas cantadas nos tributos, naturalmente, são de autoria dele.

O primeiro deles foi um disco de 1991, I’m Your Fan, com faixas com – para citar só alguns – R.E.M., Pixies, Lloyd Cole, Nick Cave, John Cale. O título I’m Your Fan  era uma homenagem-trocadalho-do-carilho com o então mais recente disco do homem, I’m Your Man, de 1988; na capa do disco, em preto-e-branco, um Leonard Cohen elegante como sempre, com um belo paletó desses da melhor grife possível, carregava uma banana semi-descascada, e a produção do disco foi tão cuidadosa que o encarte trazia fotos de todos os artistas com bananas semi-descascadas na mão. O título do disco de 1988, como se vê, é também o deste documentário aqui.

Quatro anos depois, em 1995, saiu outro disco-tributo, Tower of Song – The Songs of Leonard Cohen. Interpretavam as canções de Cohen, entre outros, Elton John, Bono, Tori Amos, Sting junto com os Chieftains, Peter Gabriel, Willie Nelson, Don Henley dos Eagles.

Pelos nomes, dá para ver: gente de diferentes gerações, de diferentes estilos, do country ao pop ao rock ao folk, de diferentes nacionalidades – americanos, ingleses, irlandeses.  

E então, em 2005, se fez um novo tributo, uma série de concertos chamada Came So far for Beauty: An Evening of Leonard Cohen Songs. A produção e a direção artística foi de Hal Willner, que conheceu Cohen durante a gravação do disco Death of a Ladies’ Man, de 1977, e a direção musical e arranjos são de Steven Bernstein. Houve apresentações desse concerto no Brooklyn, Nova York, em Brighton, Sul da Inglaterra, e em Sydney, Austrália. Foi a apresentação em Sydney que o diretor Lian Lunson filmou; é a base deste documentário.

Mais uma vez, este tributo de 2005 reuniu artistas de diferentes gerações, estilos e nacionalidades. Vários deles não são propriamente muito conhecidos no Brasil: Rufus Wainwright, Linda Thompson, Beth Orton, The Handsome Family, Jarvis Cocker, Antony. Nick Cave talvez seja o mais conhecido deles todos – com a exceção de um outro conjunto, este famoso em qualquer canto do planeta, o U2.

E o diretor Lian Lunson foi espertíssimo no uso do nome mais internacionalmente famoso do elenco. Ao longo de todo o documentário, há, como já disse, depoimentos dos músicos participantes; vários deles falam abertamente de como foram influenciados por Cohen, como o australiano Nick Cave e o canadense Rufus Wainwright. Este aqui conta, num trecho engraçado do filme, que, por ser amigo da filha do homem-lenda, foi conhecê-lo num momento em que ele estava na cozinha de sua casa, só de cueca, preparando um macarrão com salsicha; algum tempo depois, Cohen ressurgiu pronto para sair, em um perfeito Armani, e Wainwright diz: “Este é Leonard Cohen!”.

Mas voltemos ao U2. Ao longo do filme, o diretor Lunson espalhou trechos de depoimentos de Bono e de The Edge. São bons, belos depoimentos – mas são também, com certeza, a aposta do diretor em conquistar novas audiências para a música de Cohen, já que o U2, afinal de contas, é indiscutivelmente a banda mais importante ou no mínimo mais popular já surgida no planeta depois dos Beatles.

O U2 não toca no concerto filmado em Sidney. Nem Leonard Cohen canta nele.

Além de apresentar muitos trechos de filmes e reproduções de fotos em P&B, o diretor resolveu também usar alguns trechos em P&B do próprio concerto na Ópera de Sidney. E, ao longo de todo o filme – nos trechos em cores e nos trechos P&B -, surgem na tela pontículos vermelhos. Pingos do vermelho mais vivo. Como num filme de suspense, o diretor está preparando a platéia para o grand finale.

O grand-finale vem numa gravação, feita especialmente para este documentário, num hotel de Nova York, pelo próprio Leonard Cohen, com o U2 servindo de banda auxiliar, e Bono fazendo suave backing vocal. A canção é Tower of Song. Cohen está quase declamando, com aquela voz gravíssima, cavernosa, enfumaçada, que faz parecer límpidas e claras as vozes de Tom Waits e de Nick Cave. The Edge, Larry Mullen Jr. Adam Clayton e Bono estão lá atrás, e atrás deles está uma cortina de vermelho muito vivo – de onde saíram os pontinhos vermelhos que pontuam as imagens anteriores do filme.

Transcrevo trechinhos dos depoimentos de The Edge e Bono.

The Edge: – “Quando penso em Leonard, penso no início do cristianismo, quando achavam que, para escutar a voz de Deus, você tinha que ir para um lugar muito, muito silencioso. Eles faziam isso no início do monasticismo. (…) Para mim, Leonard é o homem que, já tendo conversado com os anjos, desce da montanha com as tábuas de pedra.”  

Bono: – “Vamos falar sério: há pouquíssimas pessoas que chegam ao nível de Leonard Cohen. É um talento muito, muito raro. Por mais sombrio que ele seja com relação à democracia e ao futuro, ele faz algo belo na escuridão. (…) Muitos de nós nos sentiríamos pequenos diante do que ele joga fora.”

Esta frase, dita por um dos artistas mais populares dos últimos 50 anos, é um símbolo do respeito que Leonard Cohen inspira aos músicos. “Muitos de nós nos sentiríamos pequenos diante do que ele joga fora.” Cacildabecker!

         ***

 Já que transcrevi isso, me dei também ao trabalho de enumerar as músicas apresentadas no filme, e quem canta:

Waiting for the miracle – Leonard Cohen (voz em off, na apresentação)

I’m Your Man – Nick Cave

A thousand kisses deep – Linda Thompson e The Handsome Family

Everybody knows – Rufus Wainwright, Martha Wainwright, Kate & Anne McGarrigle

The traitor – Martha Wainwright

Winter Lady – Kate & Anne McGarrigle, Martha Wainwright,

Tonight will be fine – Teddy Thompson

If it be your will – Antony

Sisters of Mercy – Beth Orton

Chelsea Hotel no. 2 – Rufus Wainwright, Julie Christensen e Perla Batalla

Suzanne – Nick Cave, Julie Christensen e Perla Batalla

I can’t forget – Jarvis Cocker

Anthem – Julie Christensen e Perla Batalla

Hallelujah – Rufus Wainwright, Martha Wainwright e Joan Wasser

Tower of song – Leonard Cohen e U2

Tacoma Trailer – grupo de músicos reunido para os concertos (trecho, em off)

I’m Your Man – Leonard Cohen (gravação original, voz em off nos créditos finais).

A Verve Forecast lançou um CD com, teoricamente, a trilha sonora do filme. Mas não é. São gravações dos mesmos concertos, mas a ordem das músicas é diferente, há canções que estão no CD e não estão no filme, e os artistas às vezes interpretam músicas diferentes das que aparecem no filme. Os fãs de Cohen terão, teremos, que comprar o DVD e também o CD.

Leonard Cohen: I’m Your Man

De Lian Lunson, EUA, 2005.

Documentário com Leonard Cohen, U2, Nick Cave, Rufus Wainwright, Linda Thompson, Beth Orton, The Handsome Family, Jarvis Cocker, Antony, Julie Christensen, Perla Batalla

Roteiro Lian Lunson

Todas as canções por Leonard Cohen

Produção Con Artists

Cor e P&B, 98 min

***1/2

4 Comentários

  1. wilka rocha
    Postado em 28 fevereiro 2010 às 5:06 pm | Permalink

    Acabei de assistir ao documentário sobre Leonard Cohen no TC Cult. Achei lindo, maravilhoso. Fiquei perplexa de não conhecê-lo, mas nunca é tarde.

  2. Postado em 8 maio 2010 às 8:16 pm | Permalink

    Eis um dvd a ser procurado com urgência. Leonardo Cohen é o pai de todos os cantores de estrada que rodam por aí, a começar por Dylan. Magnífico!

  3. José Luís
    Postado em 2 setembro 2011 às 7:56 pm | Permalink

    Tenho este DVD e não gosto muito.
    O problema não tem a ver com Leonard Cohen, gosto muitíssimo da sua música e tenho muitos discos, quase todos.
    Quando o comprei pensei que fosse um concerto mas não é.
    Pode ser que haja algum mas tenho dúvidas.

  4. Postado em 1 maio 2013 às 8:39 pm | Permalink

    Leonard Cohen sempre estará na galeria de meus preferidos.

3 Trackbacks

  1. […] pela mocinha que ele achava que iria comer, e que se chama Marianne (Talulah Riley), ouvimos Leonard Cohen cantar “So Long, Marianne”, de seu primeiro disco. A sensação que se tem é de o diretor […]

  2. […] acompanhando-se com uma pequena harpa, canta “Bird on a wire”, a tristíssima canção de Leonard Cohen. Ouviremos de novo a música numa das últimas […]

  3. Por 50 Anos de Textos » So long, Leonard. em 11 novembro 2016 às 9:35 pm

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