Cotton Club / The Cotton Club


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Só poderia mesmo ser de Francis Ford Coppola este filme, meio musical, meio de gângster, em que se alternam, ao longo de 127 minutos, números musicais e cenas de violência crua, explícita, sapateado e tiroteios, dança e guerra de gangues do crime organizado.

Coppola, esse diretor sui-generis, único, doido, um tanto megalomaníaco, um tanto genial, autor de obras-primas, de tremendos sucessos de público e de fracassos horrorosos na bilheteria, às vezes milionário, às vezes falido, não era um iniciante nos musicais. Seu segundo longa-metragem, logo após a estréia em Agora Você é um Homem/You’re a Big Boy Now, de 1966, em que já antecipava um tanto da contracultura da era hippie, havia sido um musical, O Caminho do Arco-Íris/Finian’s Rainbow, de 1968, com Fred Astaire, o primeiro e único, e ainda Petula Clark, uma estrela da canção pop inglesa pré-Beatles.

acotton1Depois, em 1972 e 1974, tinham vindo O Poderoso Chefão, partes 1 e 2, imediatamente reconhecidos e venerados como dois dos melhores filmes americanos de todos os tempos. Com Apocalypse Now, de 1979, e Do Fundo do Coração/One From the Heart, de 1982, extraordinários, ambiciosos demais, loucos, Coppola conseguiu quebrar sua produtora, o Zoetrope.  Depois de dois filmes menos ambiciosos, mais pé na terra, Vidas Sem Rumo/The Outsiders, de 1983, e O Selvagem da Motocicleta/Rumble Fish, de 1984 – em que abriu caminho para a fama para Matt Dillon, Rob Lowe, Mickey Rourke – veio este The Cotton Club, de 1984.

A história é do próprio Coppola, mais o romancista Mario Puzzo, autor do livro O Poderoso Chefão, e o escritor William Kennedy, que assina o roteiro ao lado do diretor. A ação começa em 1928, um ano antes do crack da Bolsa de Nova York, e avança até 1931, 1932, com os Estados Unidos mergulhados na Grande Depressão. Todo o filme se passa no Harlem, o bairro dos negros de Nova York – há pouquíssimas cenas de rua, de exteriores; praticamente todo o filme se passa em interiores. A trama mistura personagens reais com outros fictícios, levemente baseados em personalidades que existiram de fato – gente que freqüentava o famoso Cotton Club, um night club em que se apresentavam diversos artistas negros, instrumentistas, cantores, cantoras, bailarinas, sapateadores, para uma audiência só de brancos – a entrada de espectadores negros era proibida. Entre os freqüentadores, havia gângsteres de várias origens e matizes.

acotton2O protagonista da história é um músico de jazz, Dixie Dwyer, pianisa e cornetista – o papel de Richard Gere, depois dos tremendos sucessos Gigolô Americano e A Força do Destino/An Officer and a Gentlemen, mas ainda bem jovem, de cabelo preto e com um ridículo bigodinho que, aparentemente, se usava no final dos anos 20. Bem no início do filme, numa boate onde se apresentam jazzistas, Dixie acaba salvando a vida de Dutch Schultz (James Remar), um gângster judeu. É tanto uma grande oportunidade quanto uma gigantesca fria: como forma de agradecimento, Dutch fará Dixie trabalhar para ele, assim como faz trabalhar para ele uma bela jovem cantora, Vera (interpretada por Diane Lane, então com apenas 19 anos).

Nunca mais Dixie conseguirá se livrar da companhia de gângsteres, que se envolverão em diversas guerras; acompanharemos várias batalhas em que dezenas e dezenas de pessoas são mortas, enquanto no palco do Cotton Club se apresentam diversos artistas, como o mestre do sapateado Sandman Williams (Gregory Hines) e o cantor Cab Calloway – este um personagem real. Na platéia do night club aparecerão personalidades como Charlie Chaplin e James Cagney. Dixie vai parar em Hollywood, a mando de outro gângster, Owney Madden (interpretado pelo sempre excelente Bob Hoskins) – e permanecerá sempre interessado em Vera, que por sua vez basicamente se interessa em usar o dinheiro de Dutch para criar seu próprio night club.

A dupla Richard Gere-Diane Lane funcionou bem; teve química, como dizem os jornalistas americanos. Eles trabalhariam juntos de novo em Infidelidade/Unfaithful, de 2002, e Noites de Tormenta/Nights in Rodanthe, de 2008.

         Seqüências grandiosas, produção caótica

Coppola constrói números musicais com o mesmo talento com que mostra as cenas de violência. Ele usa o mesmo estilo de algumas das seqüências de O Poderoso Chefão 1 e 2 – uma coisa estilizada, operística, grandiosa. Numa das últimas seqüências, ele extrapola, ao alternar uma apresentação de Sandman sapateando no palco com uma carnificina. Faz uma espetacular, extraordinária, fascinante – e chocante –  junção das duas bases de seu filme, a música e a violência, para, em seguida, em outro espetáculo de montagem, transformar toda a sua história e seus personagens num show teatral. There’s no business like show business, e a guerra de gangues é também parte dos negócios, e do show, de uma América que não pode parar.

A produção do filme foi caótica. Robert Evans, que tinha sido o manda-chuva da Paramount na época em que foram feitos O Poderoso Chefão 1 e 2, foi o produtor, mas ele e Coppola brigaram feio durante os filmagens, e Coppola teria proibido o produtor de aparecer no set. O orçamento foi estourado – como já havia acontecido em vários filmes anteriores do diretor. O escritor William Kennedy, que já havia ganhado um Prêmio Pulitzer, foi chamado para dar um jeito no roteiro no meio das filmagens, e teria escrito 20 diferentes versões.

acotton3O resultado da bilheteria não foi nada animador. A crítica, parece, se dividiu. Pauline Kael desanca o conjunto e elogia detalhes: “O único objetivo do diretor, Francis Ford Coppola, parece ser manter a velocidade das imagens – para o deslumbre e para o espetáculo. (…) Acontecem tantas coisas, que não podemos tirar os olhos do filme, mas nada disso quer dizer coisa alguma. As imagens em stacatto fragmentam os números musicais, e tiram a vida dos artistas; o som é incorpóreo, como também as dançarinas. (…) Richard Gere lança um belo sorriso e está mais simpático que de hábito. (…) Da maneira como Coppola dirige o elenco, as pessoas existem para refletir a luz.”

Leonard Maltin dá 2.5 estrelas em 4 e faz um resumo informativo e cheio de opiniões. Vale a pena trranscrever: “Essa homenagem aos dias de gângsteres coloridos e vida noturna no Harlem tem estilo de sobra e uma trilha sonora cheia de música de Duke Ellington; Gere toca seus próprios solos de corneta; tudo de que ele precisa é uma história e personagens cujas relações tenham algum sentido. Visualmente brilhante, com boas cenas espalhadas por todo o filme; se vale a pena ver todo o filme é estritamente uma questão de gosto pessoal. De qualquer forma, o filme não chega a ser tão interessante quanto as histórias que foram publicadas sobre sua produção tumultuada!”

         Uma ópera que junta o belo e o bruto

Já a avaliação de Roger Ebert, que deu 4 estrelas, vai no sentido oposto ao dessa de Maltin. É sensacional comparar as duas opiniões, e então transcrevo o primeiro parágrafo do texto de Ebert:

“Depois de todos os boatos, toda a publicidade negativa, todas as histórias de brigas no set e intriga de bastidores e iminente falência, The Cotton Club de Francis Ford Coppola é, simplesmente, uma filme maravilhoso. Tem a segurança e o momentum de um filme em que cada tomada foi premeditada – e, mesmo que saibamos que não foi esse o caso, e que essa foi uma das produções mais tumultuadas da história recente, que diferença faz se o resultado é tão interessante?”

Por algum motivo que desconheço, ou de que não consigo me lembrar, não vi Cotton Club na época; só vim vê-lo agora, em 2009, quando o filme já fez um quarto de século. Minha opinião é mais próxima da de Ebert. É um belo filme, cheio de talento e força e garra, uma sinfonia violenta, uma ópera que junta o belo e o bruto. Não chega a ser indispensável, mas tem algumas seqüências absolutamente geniais,  inesquecíveis.

Cotton Club/The Cotton Club

De Francis Ford Coppola, EUA, 1984

Com Richard Gere (Dixie Dwyer), Gregory Hines (Sandman Williams), Diane Lane (Vera Cicero), Lonette McKee  (Lila Rose Oliver), Bob Hoskins (Owney Madden), James Remar (Dutch Schultz), Nicolas Cage (Vincent Dwyer), Allen Garfield (Abbadabba Berman), Fred Gwynne (Frenchy Demange), Tom Waits (Irving Stark), Laurence Fishburne (Bumpy Rhodes)

Roteiro Francis Ford Coppola e William Kennedy

Baseado em história de Francis Ford Coppola, Mario Puzo e William Kennedy

Fotografia Stephen Goldblatt

Música John Barry

Produção Zoetrope Studios

Cor, 127 min

***

2 Trackbacks

  1. […] – ou talvez uma peça de câmara, uma sonata. Não uma sinfonia – sinfonia sobre guerra, isso Francis Ford Coppola havia feito em Apocalypse Now, em 1979, com a Cavalgada das Valquírias de Wagner e tudo mais, […]

  2. […] em 2010: A Conversação, que Francis Ford Coppola escreveu e dirigiu em 1974, é provavelmente um dos filmes que espelham, mostram, traduzem com […]

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