Casei-me com um Monstro do Outro Espaço / I Married a Monster from Outer Space


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2009: Das mais autênticas produções B, de segunda linha, baixo orçamento, quase trash, isto aqui é uma pequena preciosidade da ficção-científica misturada com terror que era moda nos anos 50, e que o canal TCM agora traz de volta.

“Um dos títulos mais imbecis da história do cinema obscurece uma pequena e bem boa nova versão da história de Invasion of the Body Snatchers“, diz Leonard Maltin em sua resenha do filme, para o qual deu 2.5 estrelas (em quatro). “Talbott percebe que o marido Tryon (assim como alguns de seus amigos) tem se comportado muito peculiarmente nos últimos tempos. Alguns momentos agradáveis, apavorantes, num terror que tem conquistado devagar um grupo de admiradores.”

Vamos lá: Invasion of the Body Snatchers é o filme de 1956 (este aqui é de 1958) que no Brasil se chamou Vampiros de Almas, e foi dirigido por Don Siegel, mais tarde reconhecido como um grande diretor de filmes de ação, como os da série Dirty Harry, com Clint Eastwood como o policial que primeiro atira e depois pensa. O filme de Don Siegel seria refeito, com o mesmo título original, em 1978, por Philip Kaufman, autor de boas adaptações de obras literárias, como Os Eleitos/The Right Stuff, de 1983, A Insustentável Leveza do Ser/The Unbearable Lightness of Being, de 1988, e também de Henry & June, de 1990.

E o filme de 1956 teria ainda mais um remake em 2007, uma produção tão cara quanto decepcionante, Invasores/The Invasion, com Nicole Kidman desperdiçando sua beleza ao lado de Daniel Craig, o mais recente 007, e Jeremy Northam, o sutil ator inglês que se atolou nessa bobagem hollywoodiana.

Pois então: como muito bem observou o Leonard Maltin, este filme aqui se inspira no mesmo princípio daquele Vampiros de Almas/Invasion of the Body Snatchers – que por sua vez foi tão marcante de sua época que teve refilmagens em 1978, com um bom diretor, e em 2007, em superprodução com bom elenco. E, também como diz o Maltin, este filme aqui acabou virando um pequeno cult.

         Terríveis tempos de paranóia

É verdade que o filme – como nota o livro The Paramount Story – não entrega exatamente o que o título promete. Maggie, a protagonista, interpretada por essa Gloria Talbott, uma atriz de quem eu jamais tinha ouvido falar, não se casa propriamente com um monstro vindo do espaço. Ela se casa com Bill Farrell (Tom Tryon), um jovem vendedor de apólices de seguro da pequena cidadezinha do interior dos Estados Unidos; a questão é que os alienígenas que chegam de uma galáxia distante com seu foguete espacial e pousam numa mata próxima àquela cidadezinha usam o corpo de Bill, assim como o de vários de seus amigos e de outros cidadãos locais; eles como que vampirizam Bill e os outros, para usar o termo do título brasileiro de Invasion of the Body Snatchers; um E.T. passa a usar o corpo de Bill.

O motivo dessa invasão dos corpos de terráqueos? Ah, sim, ele será revelado mais para o fim da trama, então não cabe explicitá-lo aqui. Quero aproveitar é para falar mais do título, “um dos mais imbecis da história do cinema”, segundo Maltin. Os caras que deram o título brasileiro aproveitaram para piorar um pouco mais o título em si mesmo já imbecil, além de suavemente mentiroso. I Married a Monster from Outer Space deveria ser traduzido, obviamente, como Casei-me com um monstro do espaço distante, ou do espaço cósmico, ou simplesmente do espaço. Outro espaço é do cacete, não é não? Parece aquela tradução pelo som, do tipo que transforma Tell me once again em Telma, eu não sou gay, como fizeram os gozadores do João Penca e Seus Miquinhos Amestrados nos anos 80.

Visto hoje, com os olhos dos espectadores de hoje, este Casei-me etc tem momentos do mais puro trash, como quando os alienígenas se liquefazem numa poça de gosma. Mas tem alguns bons sustos – e a solidão da garota Maggie, a primeira e única a desconfiar de que algo muito estranho estava acontecendo em sua cidade, cria um clima interessante, que faz lembrar a solidão do xerife Will Kane em Matar ou Morrer/High Noon.

E, por fim, se a gente tentar colocar as coisas na perspectiva histórica, esse tipo de filme tem muito a dizer sobre sua época. Eram os anos da paranóia da guerra fria, a época da caça às bruxas do macarthismo – via-se o perigo comunista, o perigo vermelho (better dead than red, se dizia), em todos os lugares, até embaixo da cama, ou dentro do armário. Alienígena que entra no corpo do neguinho, que chupa a alma de neguinho e sai por aí andando no corpo dele é a metáfora mais óbvia para o perigo da invasão de uma ideologia estranha, alienígena aos velhos e bons princípios americanos. Não foi à toa que depois gozaram toda essa paranóia, em filmes como Os Russos Estão Chegando, os Russos Estão Chegando/The Russians are Coming, The Russians are Coming.

Vivemos em tempos sombrios, neste final de primeira década do século XXI. Mas aqueles anos 50 no Império, com toda aquela paranóia, aquele medo, aquele ambiente moralista e careta, cacildabecker, aquilo deve ter sido pavoroso. Bem mais assustador que os alienígenas deste filmezinho B aqui.

Casei-me com um Monstro do Outro Espaço/I Married a Monster from Outer Space

De Gene Fowler Jr, EUA, 1958

Com Tom Tryon, Gloria Talbott, Peter Baldwin

Argumento e roteiro Louis Vittes

Produção Paramount

P&B, 78 min.

**

4 Comentários

  1. Postado em 20 outubro 2009 às 7:08 pm | Permalink

    Casei-me com um Monstro do Outro Espaço/I Married a Monster from Outer Space ( Gene Fowler Jr, EUA, 1958 ). Charmoso exemplar da ” Paranóia da Invasão ” da década de 1950, quando a caça aos comunistas nos EUA ( desencadeada pelo Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado ) se refletiu em Hollywood, na produção de filmes de terror e FC sobre ” invasores ” que se infiltravam na Terra para dominar o planeta ( e, numa referência explícita aos comunistas norte-americanos, as invasões espaciais das telas sempre ocorriaram nos EUA ! ). Alguns cineastas, contudo, conseguiram driblar a pura e simples ideologia e realizar obras inesquecíveis. Gene Fowler Jr, célebre montador de filmes, realizou algumas pérolas do ” B “, como ” I Was a Teenage Werewolf ” ( 1957 ) e o western ” Oregon Trail ” ( 1959 ). Mas é com “I Married a Monster from Outer Space ” que ganhou notoriedade entre os cinéfilos, principalmente pela delicada performance de Gloria Talbot e pelo tom certo da composição do personagem invasor de Tom Tryon. No final, a um certo apelo humanista quando o invasor está para morrer e reflete sobre o amor e a vida que poderia ter tido. Até mesmo esta sequência eleva o filme acima dos meros produtos ideológicos da conservadora Hollywood da primeira fase da Guerra Fria !

  2. jonelle reub abade
    Postado em 18 maio 2010 às 2:01 am | Permalink

    Por acaso este nâo è aquele filme em que uma nave caì na floresta trazendo tres crituras abominaveis,e uma destas criaturas toma o corpo de um homem chamado zacaros . Se for este filme ,foi um dos melhores que assisti quando era criança.Eram fora o Zacaros tres orrendas feras .Um pareçia um besouro ,este foi tirado o veneno para matar o segundo que mas pareçia um gorila gigante .E oterçeiro era um largato invessivel gigante.

  3. Sérgio Vaz
    Postado em 19 maio 2010 às 4:44 pm | Permalink

    Hum… Não sei se este aqui é o filme a que você se refere, Jonelle. Acho que não é, não, porque os monstros deste filme não têm cada um uma aparência. Se não me engano (já não me lembro direito), eles são todos iguais.
    Agora, a sua ortografia… Rapaz!
    Sérgio

  4. jonelle reub abade
    Postado em 19 dezembro 2010 às 10:14 am | Permalink

    E verdade,mas a ortografia esta por conta do meu teclado que esta com defeito, nem mim arrisco nos assentos.

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