A Classe Operária Vai ao Paraíso / La Classe Operaia Va in Paradiso


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Todo mundo sabe: A Classe Operária Vai ao Paraíso é uma das pérolas do cinema político italiano dos anos 70. Reúne três ícones do “movimento” (entre aspas por falta de outra palavra melhor, porque na realidade não chegou a ser propriamente um movimento): o diretor Elio Petri, o ator Gian Maria Volontè e o compositor Ennio Morricone.

Sem ter tido exibições nos cinemas há décadas, o filme foi lançado agora, meados de 2009, em DVD pela Versátil. Continua sendo um filme forte, poderoso, impressionante, mesmo 38 anos e tantas mudanças na sociedade, na política e na economia depois, e mesmo que pareça hoje confuso e não fique extremamente clara a posição que o diretor Elio Petri quer defender.

Petri, nascido em Roma em 1923 e morto em 1982, filho de um operário, foi comunista de carteirinha; formado em Literatura pela Universidade de Roma, coordenou as atividades culturais para a juventude do PCI, o maior partido comunista do Ocidente, e escreveu críticas de cinema no L’Unità, o jornal oficial do partido. Deixou o PCI cedo, no entanto, em 1956, por discordar da invasão soviética da Hungria, decidida pelo Kremlin para sufocar a tentativa de revolta do país contra o regime. Saiu do partido, mas, claro, não da ideologia.

Um tour-de-force do grande Volontè

aclasse2Gian Maria Volontè tem neste filme uma das melhores atuações de sua carreira brilhante. É uma interpretação extraordinária, um tour-de-force, uma coisa assustadora. Ele faz o papel de Lulu Massa, um operário de uma grande fábrica de peças de metal em uma cidade industrial do Norte da Itália (deve ser Milão, mas o filme não diz isso claramente); trabalha muito, e bem, e por isso é benquisto pelos chefes e mal visto pelos colegas mais ativistas, engajados no movimento sindical. Mas não é uma pessoa feliz ou tranqüila – muito ao contrário. É um sujeito atormentado, à beira de um ataque de nervos, ou de um surto psicótico; questiona tudo na vida; é um chato de galocha na relação com a atual mulher, Lídia (Mariangela Melato), uma cabeleireira, e com o enteado, assim como na conflituosa relação com a ex-mulher e o filho. É também daquele tipo comum de pessoa pobre e inculta que encontra em classismos racistas uma forma de se considerar melhor que os outros: como tanta gente do Sudeste brasileiro em relação a quem nasceu da Bahia para cima, ou como tanto branco americano pobre e fodido, white trash, em relação aos imigrantes ou negros, orgulha-se de ser do Norte da Itália, “quase na fronteira com a Suíça”, e tem desprezo pela gente do Sul.  

Numa visita a um ex-colega de fábrica, Militina (Salvo Randone), internado em um hospício, Lulu pergunta a ele como é que uma pessoa percebe que está ficando doida.

Todos os dias, na entrada e na saída da fábrica, Lulu e seus colegas de trabalho ouvem as ladainhas de dois grupos opostos que lhes falam com megafones: de um lado, os sindicalistas, defendendo a tese de que a luta deve ser paulatina, lenta, gradual, para que se possam obter conquistas, vantagens, melhorias salariais e de condições de trabalho; de outro lado, estudantes de extrema esquerda que defendem a radicalização total, o enfrentamento aberto, a greve geral. Imagino que a posição dos sindicalistas fosse, na época do filme, 1971, a do PCI que Petri havia abandonado; a dos estudantes era a dos extremistas que depois partiriam para a luta armada, as Brigadas Vermelhas. 

 E aí é que está: não fica muito clara a posição de Petri. Ele não toma partido de nenhum dos dois lados. Mostra-os, simplesmente, sem demonstrar qualquer simpatia ou repúdio a qual um deles.

 De operário alienado, “não dotado de consciência política” (como o define a sinopse do filme no site dedicado ao cineasta Petri, http://www.eliopetri.org), Lulu passará não para o lado dos sindicalistas moderados, mas para o dos estudantes radicais. Essa opção fará com que ele perca tudo o que tem – até mesmo o resto de lucidez.

 A classe operária italiana nos anos 70 – é o que parece que Petri quer dizer – está materialmente melhor do que no início do século XX, por exemplo, cuja vida miserável vimos retratada no belíssimo Os Companheiros/I Compagni, de Monicelli, de 1963; as necessidades básicas podem ser satisfeitas, suas casas já não são miseráveis, podem comprar bens de consumo. No entanto, estão longe, muitíssimo longe de qualquer tipo de paraíso, fazendo um trabalho duro, pesado, que não lhes dá satisfação alguma, de nenhum tipo.  

Uma câmara tão conturbada quanto o personagem central 

aclasse1Para contar a história desse homem conturbado, num mundo conturbado, Elio Petri usa uma câmara absolutamente conturbada. Abusa dos close-ups, muitas vezes usa o quadro inteiro, a tela inteira, para pegar apenas um pedaço do rosto dos atores. E abusa ainda mais da câmara de mão. Sua câmara é inquieta como um menino hiper-ativo de dois anos de idade. O espectador sai do filme cansado, quase tão cansado como um operário depois de uma dura jornada de trabalho de oito horas diante do torno.

 Mas é, sem dúvida nenhuma, um filme forte, poderoso, impressionante.

 Como o filme é tudo isso, é marcante, importante – ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 1972, dividida com outro filme do cinema político italiano, O Caso Mattei, de Francesco Rossi –, estranhei a ausência de referências a ele em vários dos meus alfarrábios. Ele não está no livro de Pauline Kael, nem no guia de Leonard Maltin, nem no Off-Hollywood Movies, nem no Roger Ebert. Esquisito.

É de se esperar, agora, que outras obras de Petri cheguem ao DVD no Brasil, em especial o filme imediatamente anterior a este aqui,  Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, também com Gian Maria Volontè no papel principal, o de um policial fascista que tem certeza da impunidade, e com a brasileira Florinda Bolkan em momento de grande beleza. Um brilho de filme.

A Classe Operária Vai ao Paraíso/La Classe Operaia Va in Paradiso

De Elio Petri, Itália, 1971

Com Gian Maria Volontè, Mariangela Melato, Gino Pernice, Luigi Diberti, Salvo Randone

Argumento e roteiro Elio Petri e Ugo Pirro

Fotografia Luigi Kuveiller

Música Ennio Morricone

Produção Euro International Film,

Cor, 125 min

R, ***

Títulos em inglês: Lulu The Tool e The Working Class Goes to Heaven

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