
Nota: 



Anotação em 2008: Belo, sensível, com visual apuradíssimo e música maravilhosa, que gravei e ouço volta e meia com prazer.
O filme tem óbvios traços autobiográficos: o diretor Tassos Boulmetis nasceu em Istambul, em 1957, e mudou-se para a Grécia em 1964 – a mesma trajetória do personagem central, de família grega que vive na Turquia, de onde é expulsa quando os dois países se enfrentam (se não me engano por causa da questão de Chipre), nos anos 60.
O título original, que dá para entender por causa da obviedade das palavras, Política da Cozinha, ou Cozinha Política, é perfeito – define bem o espírito do filme.
A narrativa usa o tradicionalíssimo esquema abre no presente-corta para longo flashback. O filme abre com o personagem central, Fanis (Georges Corraface), um respeitado astrônomo, vivendo hoje na Grécia, que se prepara para receber a visita do avô, Vassilis (Tassos Bandis). Aí voltamos a 35 anos antes, onde o comerciante Vassilis ensina ao garoto Fanis as afinidades entre especiarias e o universo. Fanis é apaixonado por uma garotinha vizinha, Saime.
Quando termina o longo flashback – que ocupa a maior parte do filme -, o Fanis adulto volta pela primeira vez a Istambul, onde reencontra Saime (Basak Köklükaya), hoje casada, e revisita o lugar onde na sua infância funcionava a loja do avô. As cenas desses reencontros são esplêndidas – em especial a seqüência, extasiante, em que Fanis, o astrônomo, vê as especiariais voando, formando o universo.
Além do visual primoroso, o filme tem um texto fascinante. Algumas amostras:
- Os turcos nos mandaram embora por sermos gregos. Os gregos nos receberam como turcos.
- Meu avô dizia que a palavra gastrônomo contém a palavra astrônomo. Assim, minhas lições de astronomia envolveram o uso de especiarias.
- Antepastos são parecidos com as histórias que nos falam de sabores de viagens até mundos distantes, e os aromas seduzem seus sentidos e preparam você para aventuras. É por isso que a palavra grega para “retorno” esconde em si própria a palavra “volta”, que esconde a palavra “comida”.
- Não olhe para trás, Saime. Numa plataforma de estação de trem, se olharmos para trás a imagem permanece como uma promessa.
Foi o primeiro longa-metragem do diretor Tassos Boulmetis, e parece que foi um espetacular sucesso de bilheteria na Grécia. E o simples fato de ser uma co-produção de Grécia e Turquia – dois países permanentemente em conflito, às vezes aberto, às vezes surdo, como se demonstra na própria narrativa – já é uma maravilha.
A compositora Evanthia Reboutsika, nascida em 1958, começou a tocar violino aos seis anos de idade e teve sólida formação musical, em conservatórios de sua cidade, Patras, depois de Atenas e Paris. É autora da trilha de várias séries da TV grega e também de filmes. Exemplos de sua música extraordinária – inclusive o tema final deste filme aqui – podem ser ouvidos no MySpace, no endereço http://profile.myspace.com/index.cfm?fuseaction=user.viewprofile&friendID=175570474. Mestres Teodorakis e Hadjidakis certamente ficariam orgulhosos da conterrânea.
O Tempero da Vida/Politiki Kouzina/A Touch of Spice
De Tassos Boulmetis, Grécia-Turquia, 2003.
Com Georges Corraface, Renia Louzidou, Basak Köklükaya
Argumento e roteiro Tassos Boulmetis
Música Evanthia Reboutsika
Produção Village Roadshow
Cor, 108 min
***


Um Comentário
Vi hoje. Faz um tempinho que comprei, quando uma locadora aqui perto fechou. Desconhecia de todo, mas o nome me cativou. Gostei especialmente do ator que faz o Fanis (não só porque ele é hiperlindo) e do leve tom humorístico com que a família é tratada.