Muito Além do Jardim / Being There


Nota: ★★★½

Anotação em 2008: Estranho que até aos 58 anos eu ainda não tinha visto este filme. É corrosivo, violento, berrante, fortíssimo. Belo panfleto do eterno hippie iconoclasta Hal Ashby sobre Washington, os políticos, a mídia, os milionários, o estilo de vida americano.

Ashby não deixa pedra sobre pedra, chama seus conterrâneos de imbecis, idiotas, que se deixam levar por qualquer balela, qualquer frase sem sentido dita como se fosse uma profunda revelação de grande mistério metafísico.

A história é muito conhecida, mas lá vai uma rápida sinopse. Um retardado mental, Chance (Peter Sellers), passa a vida inteira dentro da casa de um homem rico em Washington, DC, cuidando do jardim interno. Nunca pôs os pés para fora dali. Todo o seu contato com o mundo é via televisão, que ele assiste permanentemente – com exceção dos momentos em que está cuidando do jardim. Até que – e é aqui que a ação começa -, seu benfeitor e protetor morre, e os advogados conseguem enxotá-lo. Ele sai da casa levando uma mala e um controle remoto, que tentará usar para desligar um grupo de delinqüentes com que cruza na rua.

A cena em que Chance, o idiota, ou vidiota, anda numa avenida da capital do império, ao som do Assim Falava Zaratustra tocado por Eumir Deodato, é antológica, extraordinária – deveria figurar em qualquer lista das mais belas seqüências do cinema.

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Shirley MacLaine, linda e gostosa aos 45 anos, se masturbando é uma cena bem avançada para a época e para o cinemão americano; na verdade, é avançada até hoje, quase 30 anos depois.

A interpretação de Peter Sellers é um assombro. Ele devia mesmo estar precisando de um grande papel, depois de tentar durante anos se livrar da maldição do Inspetor Clouseau na série de filmes A Pantera Cor de Rosa, que lhe deu fama e dinheiro mas nunca mais o abandonou. Foi indicado ao Oscar, mas não levou; Melvyn Douglas, que faz o bilionário, marido da personagem de Shirley MacLaine, que acolhe o vidiota Chance em sua mansão, levou o de ator coadjuvante. Ashby ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1980.

Foi, a rigor, a última grande obra do cineasta rebelde. Ele já estava pirando, a cabeça muito cheia de droga; faria ainda seis outros filmes, fora uma ou outra coisa para a TV, mas nunca mais conseguiu o brilho deste filme ou dos anteriores Amargo Regresso/Coming Home, Shampoo, Esta Terra é Minha Terra/Bound for Glory, Ensina-me a Viver/Harold and Maude.

E foi também a última grande obra de Peter Sellers, esse cômico extraordinariamente engraçado e extraordinariamente infeliz – depois deste filme aqui, ele faria só mais um, no ano seguinte, 1980, The Fiendish Plot of Dr. Fu Manchu.

Também o ótimo e veteraníssimo Melvyn Douglas morreria pouco depois, em 1982. Assim, Muito Além do Jardim hoje parece um daqueles filmes de fim de ciclo, outonais, belíssimos, mas tristes como um campo gramado coberto de folhas mortas.

É um grande filme, que provoca e faz pensar. Para ser visto e revisto.

Muito Além do Jardim/Being There

De Hal Ashby, EUA, 1979.

Com Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden,

Roteiro Jerzy Kosinski, baseado em sua novela

Música Johnny Mandel

Cor, 130 min.

***1/2

Um Comentário

  1. Ivan
    Postado em 16 abril 2013 às 7:38 pm | Permalink

    Então é isso, tá explicado.O diretor era, ou estava doidão. Estou brincando. Mas o filme é mesmo uma loucura genial. Eu ficava me perguntando como as pessôas acreditavam nas coisas que ele dizia. E, ainda encontravam uma resposta para eles mesmo. É onde dizes que o diretor chama a cambada tôda de tolos e idiotas.
    Maior que a inocência dele era a das pessôas que o cercavam, que acreditavam e levaram a situação ao ponto que chegou. Ele virou uma celebridade.
    E tudo começou com o Benjamim e chegou ao presidente que ainda usou de oportunismo e malandragem, não é ?
    A cena final (não vou fazer spoier)acredito que é para cada um ter a sua interpretação.
    A Shirley muito linda e sensualissima.
    “A vida é um jardim e sua beleza depende de como o tratamos”, lembram?
    Um dos filmes que citas, esse ” Ensina-me a viver ” eu o vi em 1972 (comentei isto aqui no site certa vez)é um filmaço,outra loucura maravilhosa.Um rapaz com tendencias macabras e aquela velhinha “doidona,do pirú,arretada” mostrando a vida para ele.
    Ruth Gordon maravilhosa.
    Um abraço, Sergio !!

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  1. […] Hopper faz lembrar, e muito, Hal Ashby, o diretor hollywoodiano mais anti-hollywoodiano da história, eterno hippie, eterno agitador, […]

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  3. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 2 junho 2011 às 1:56 am

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