Três Irmãs / La Bûche


Nota: ★★★☆

Anotação em 2007, com complemento em 2008: Um excelente filme, com uma visão de mundo muito amarga e ao mesmo tempo carinhosa, suave, doce.

Para a autora Danièle Thompson, neste filme aqui, parece que não há casal feliz; todos os casais se traem, todos mentem, todos guardam segredos, todas as pessoas têm memórias de infância amargas, quase traumáticas – e no entanto, de alguma maneira, todos têm seus momentos de alegria e até de genuíno carinho.

É como se a autora visse a vida com uma ironia fina mas misturada a uma grande compaixão por seus personagens, por seus erros, por suas falhas – be not too hard, for life is short, and nothing is given to men, como dizia o Donovan. É o contrário, por exemplo, da visão de um Chabrol, uma visão cínica, distanciada, fria, como se ele tivesse desprezo, nojo, por aqueles personagens babacas que ele cria e apresenta.   

A apresentação do filme é toda com imagens de véspera de Natal, a festa da família por excelência, o congraçamento alegre – mas a ação começa em um enterro, o de Jean-Louis, um violinista, segundo marido de Yvette (Françoise Fabian), uma mulher que tem três filhas do primeiro casamento.

A filha mais velha, Sonia (Emmanuelle Béart, com aquela beleza absurda), a única casada, rica, só pensa no jantar de Natal que fará mais uma vez em sua casa. Veremos depois que o casamento dela está prestes a acabar – o marido tem uma amante e está para sair de casa, fato que a filha adolescente sabe, mas a mãe desconhecia; ela mesma, Sonia, tem um amante nas horas vagas, um açougueiro, por quem não demonstra nenhum tipo de afeto.

abucheLouba, a do meio (Sabine Azéma, essa atriz excepcional), acaba de saber, aos 42 anos, que está grávida do amante que, ao longo de 12 anos, prometeu deixar a mulher quando os dois filhos estivessem um pouco maiores. Veremos depois que ele na verdade tem quatro filhos e a mulher está grávida do quinto.

A mais nova, Milla (Charlotte Gainbourg), é amarga, agressiva, extremamente ativa, rebelde, não suporta a irmã mais velha, para ela uma mulher que tinha tudo para se dar bem na vida (talento, inteligência), mas preferiu uma vida cômoda e burguesa.

O pai, Stanislas (Claude Rich), é um imigrante judeu russo, violista, hedonista; sempre teve muitas amantes e tem também um filho fora do casamento, Joseph (Christopher Thompson), a quem aluga agora um anexo do apartamento em que mora com a filha do meio – mas não conta para ninguém a verdadeira identidade dele. Joseph, por sua vez, é uma boa pessoa, mas também amargo e pessimista; está desempregado e morre de amores pela filha que a ex-mulher levou embora.

A ação se passa entre os dias 21 e 24 de dezembro, com as pequenas, às vezes grandes tragédias daquelas pessoas se revelando em meio à febre natalina. É um brilho – e triste, muito triste.

Bûche, do título original, é rocambole, a comida que Sonia prepara para os jantares familiares de Natal e a irmã caçula odeia.

Charlotte Gainsbourg, a filha do ator, cantor e compositor Serge Gainsbourg e Jane Birkin, ganhou o César de coadjuvante, e a diretora Danièle Thompson ficou com o César de melhor primeira obra.

Só com esse filme Danièle Thompson já demonstra que é uma diretora e roteirista extraordinária. Neste mesmo ano de 2007, vi também outro filme excelente dela, em que o filho Christophe também é co-roteirista e ator, Um Lugar na Platéia/Fauteuils d’Orchestre, de 2006. Os dois filmes juntos garantem lugar para ela entre os grandes cineastas em atuação.

O interessante é que os dois filmes têm diferenças brutais entre eles. Não na parte técnica, no visual, no estilo, na forma da narrativa – mas no conteúdo mesmo. Enquanto este aqui é um filme profundamente triste, desesperançado, o outro é de uma imensa alegria, uma ode à vida, apesar de todos os trilhões de problemas intrínsecos a ela.

Fascinante, isso. Grande Danièle Thompson.  

Três Irmãs/La Bûche

De Danièle Thompson, França, 1999.

Com Sabine Azéma, Emmanuelle Béart, Charlotte Gainsbourg, Claude Rich, Françoise Fabian

Argumento e roteiro Danièle Thompson e Christopher Thompson

Produção Pathé. Estreou no Brasil 25/12/2000 (segundo o iMDB).

Cor, 106 min

***

2 Comentários

  1. Dulce M.G.Taranto
    Postado em 1 agosto 2009 às 9:26 pm | Permalink

    P.favor, onde se pode comprar o DVD “Três irmãs”?
    Obrigada

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 2 agosto 2009 às 5:38 pm | Permalink

    Dulce, de fato, não achei o filme nos sites de venda brasileiros. Você pode encomendar pelos sites de venda do Exterior, como amazom ou Fnac. Talvez seja possível baixar pela internet, mas eu ainda não domino essa técnica. Boa sorte!

3 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Partir / Partir em 27 junho 2010 às 3:40 pm

    […] A Mulher do Lado. Como Nicole Garcia retratou em O Adversário. Como Danièle Thompson retratou em Três Irmãs. Como ainda outra mulher, Laetitia Colombani, retratou em Bem Me Quer, Mal Me Quer. Como Danis […]

  2. […] em 2010: A diretora Danièle Thompson é muito competente no drama (como prova em Três Irmãs/La Büche), assim como em obra de tom bem leve, suave (como demonstra em Um Lugar na Platéia/Fateuils […]

  3. […] Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin, Há Tanto Tempo que te Amo, de Philippe Claudel, e Três Irmãs, de Danièle  Thompson, o americano O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, o tcheco Algo como a […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*