Segredos e Mentiras / Secrets and Lies


Nota: ★★★★

Resenha na coluna O Melhor do DVD, no site estadao.com.br, em 2001: Cynthia Purley é uma mulher de 43, 45 anos, embora aparente mais. É operária, faz um trabalho mecânico em uma fábrica, ganha pouco mais que o suficiente para pagar o aluguel do sobradinho de subúrbio classe média baixa de Londres onde mora desde que os pais ainda eram vivos. Começou a trabalhar muito cedo e na juventude cuidou do irmão mais novo; ele pôde assim estudar mais que ela, que só teve a educação elementar. Mora com a filha de 20, quase 21 anos, que trabalha como gari e namora um operário; as duas pouco se falam, praticamente não se comunicam. Cynthia tem poucas memórias agradáveis do passado, nenhum sonho ou plano para o futuro; é uma boa pessoa, mas triste, quase amarga, extremamente frágil e solitária, às vezes parecendo à beira de uma crise histérica.    

Quando a ação de Segredos e Mentiras começa, Cynthia Purley está prestes a passar por uma profunda experiência emocional que vai chacoalhar irremediavelmente sua vida.

asegredos1Ao dar vida à personagem de Cynthia Purley, a atriz Brenda Blethyn teve uma das mais extraordinárias atuações da história do cinema. É um espanto, um assombro.

A atriz tinha 50 anos e 16 de carreira em 1996, quando o filme foi feito. Seu único trabalho anterior em filme de carreira internacional, no entanto, havia sido o da mãe dos dois personagens centrais de Nada é Para Sempre/A River Runs Throught It, de Robert Redford, de 1992. Fora isso, Brenda Blethyn havia trabalhado no teatro e na TV ingleses.

Sua interpretação de Cynthia Purley obteve diversos prêmios importantíssimos, a começar pelo de melhor atriz no Festival de Cannes de 1996 e passando pelo Globo de Ouro e pelos prêmios do Círculo dos Críticos de Londres e da Associação de Críticos de Los Angeles. Foi também indicada para o Oscar; perdeu para Frances McDormand por Fargo. Não é o caso, é claro, de discutir critérios da Academia. Até porque Frances McDormand está muito bem em Fargo, e, principalmente, porque, com ou sem Oscar, essa senhora atriz inglesa entrou para a história.

Só por ela vale ver e rever este filme – que é um espetáculo, uma obra-prima, uma raridade.

É um filme de poucos personagens – seis, se não contarmos com o de Paul, uma figura triste, fantasma do passado, que aparece em apenas uma seqüência. Brenda Blethyn rouba a cena, com sua força descomunal e seu papel que, afinal, é o centro da história. Mas todos os demais cinco atores estão não menos que perfeitos. E as diversas indicações de Marianne Jean-Baptiste para prêmios como coadjuvante no mundo todo apenas reforçam isso.

É – ficou-se sabendo a partir de Segredos e Mentiras – a marca registrada de seu diretor, Mike Leigh. Seu trabalho com atores é absolutamente especial.

Demorou-se muito para conhecer Mike Leigh. Ele é de 1943, da mesma geração, portanto, de outros diretores britânicos bem mais conhecidos há mais tempo, como Stephen Frears (1941), Roland Joffé (1945), Alan Parker (1944) e Neil Jordan (1950), ou que os bem mais badalados Derek Jarman (1942) e Terence Davies (1945). E é apenas sete anos mais novo que o mais respeitado de todos, Ken Loach, que é de 1936. Mais que todos eles, Leigh dedicou boa parte de seu tempo ao teatro e à televisão.

 (E aqui cabe um parênteses. A experiência de Leigh na TV, assim como a de vários dos citados no parágrafo acima, é na Inglaterra. Quer dizer: BBC, Channel Four. Coisa finíssima, crème de la crème. Nada a ver com a TV comercial americana e suas produções com a profundidade de pires.)

A dedicação maior ao teatro e à TV explica, ao menos em parte, por que Leigh, mesmo tendo dirigido seu primeiro filme em 1971, só se tornou mundialmente conhecido em 1996, com Segredos e Mentiras. Na verdade, seu filme anterior, Naked, de 1993, já havia despertado as atenções em Cannes, onde Leigh levou o prêmio de melhor diretor, e deu o de melhor ator para David Thewlis. (O que torna ainda mais incompreensível ver como está ruim, absurdamente ruim, o mesmo David Thewlis no último Bertolucci, Assédio, de 1999.)

Nenhum dos filmes anteriores de Leigh, nem mesmo Naked, foi lançado em vídeo ou em DVD no Brasil.

O extraordinário sucesso de crítica de Segredos e Mentiras foi seguido por Garotas de Futuro/Career Girls, de 1997, e por Topsy-Turvy – O Espetáculo, de 1999. Garotas de Futuro, lançado há pouco em vídeo no Brasil (mas ainda não em DVD), tem tema semelhante ao de Segredos e Mentiras: depois de ficarem alguns anos separadas, duas amigas se reencontram, comparam trajetórias e o que restou de suas ilusões de mais jovens. Topsy-Turvy – O Espetáculo, que estreou nos cinemas em São Paulo e no Rio neste mês de janeiro, se afasta da temática de seus filmes anteriores, e reconstitui um trecho da carreira dos autores teatrais ingleses da segunda metade do século XIX William Gilbert e Arthur Sullivan. Levou os Oscars de figurinos e maquilagem na festa de um ano atrás, a que premiou Beleza Americana, e ainda foi indicado para roteiro original e direção de arte.

Classe trabalhadora

Antes de Topsy-Turvy, o único tema de Mike Leigh era a vida das famílias de classe média baixa de Londres.

asegredos2Figura interessantíssima, esse Mike Leigh. Ele trata de pessoas pobres numa sociedade rica, mostra clara e cruamente a importância e a onipresença da divisão de classes na Inglaterra. Hortense, a personagem interpretada por Marianne Jean-Baptiste, é a única das seis mostradas na história que fez faculdade, uma escalada social impensável para Cynthia e sua filha Roxanne. Mais ainda: Hortense fala o inglês das pessoas educadas, e portanto das classes superiores, enquanto Cynthia e Roxanne falam cockney, aquele inglês que, como dizia o irlandês Bernard Shaw através de um personagem, as condena para sempre à classe social em que nasceram. Mais ainda: Hortense é negra, descende de um dos muitos povos que o Império Britânico conquistou e que agora vivem lá, na capital do Império, enquanto Cynthia e Roxanne são perfeitamente anglo-saxônicas. E, no entanto, a preocupação do diretor não é exatamente com nada disso – nem com a denúncia da existência de um sistema quase de castas, nem com questões sobre o racismo que poderiam surgir em um ambiente em que os descendentes dos escravos ascenderam sobre os descendentes dos colonizadores.

A preocupação dele é com os laços afetivos, familiares, a estruturação psicológica daquelas pessoas. “A família é um tema sobre o qual eu sempre volto”, disse ele. Sua intenção era fazer um filme “sobre nossa necessidadec incontida de constantemente reafirmar quem somos, o que somos e de onde viemos”.

Em 1971, exatamente o mesmo ano em que Mike Leigh dirigiu seu primeiro filme para a TV, o diretor Ken Loach lançou o seu Vida em Família. Como nos filmes que Leigh faria em seguida, os personagens de Vida em Família eram classe média baixa, working class; Loach defendia as teses de Ronald D. Laing, que ficariam conhecidas como a antipsiquiatria; seu filme, quase num estilo de documentário, dizia que a “loucura” daqueles pobres personagens vinha dos vários tipos de repressão – a social, a familiar, a sexual, a comportamental. 

Leigh não fez seu Segredo e Mentiras para defender teses – embora o filme as tenha, e as exponha às claras: vive-se melhor quando se compartem as dores com os parentes, quando se fica livre de segredos e mentiras, e o céu não desaba sobre nossas cabeças quando optamos por revelar os segredos e deixar as mentiras de lado. Mas estas não são teses sociais, sociológicas. São opiniões. Ao contrário de Loach, Leigh procura causas, motivações e saídas não nas grandes linhas do social, e sim nas relações afetivas.

“Há uma tendência, especialmente na Europa e nos Estados Unidos, a nos reunir, a Loach e a mim, numa mesma família”, disse Leigh em uma esclarecedora entrevista à revista francesa Première na época do lançamento do filme. “Ken e eu somos amigos e vemos isso com curiosidade, porque de fato nós fazemos filmes muito diferentes, politicamente, ideologicamente e estilisticamente. O trabalho dele, como se sabe, é muito orientado politicamente, o que não é o meu caso. Eu sou um esquerdista, ou um socialista com s minúsculo. E eu tenho uma visão passavelmente anarquista da sociedade. Enquanto Loach é abertamente mais marxista.”

Nesse mesmo ponto da entrevista, ainda na diferenciação que faz entre a obra de Loach e a sua próprio, Leigh fala sobre a forma de trabalhar com os atores – que é precisamente a sua marca registrada, sua característica, apontada até nas fichas do DVD (veja o quadro). “Temos uma visão diametralmente oposta sobre os atores e sobre sua atuação. Ken sempre me diz: ‘Como você consegue ensaiar?’ Ele detesta os ensaios. Ele detesta os atores. Ela ama as ‘pessoas de verdade’. Ele gosta de improvisar. Eu sou o contrário”.

Ator co-autor

Leigh torna seus atores co-autores do próprio roteiro, à medida em que eles de fato criam os personagens que vão interpretar. “O roteiro é fruto dos ensaios”, ele explicou. “Primeiro escolho os atores. Na Inglaterra, formamos bons atores. Uma das razões dessa excelência é que eles trabalham no teatro, no cinema, na televisão, no rádio… Eles circulam. Existe também uma tradição na profissão de ator na Inglaterra. Quanto a mim, procuro atores inteligentes, que têm o sentido do ‘social” e senso de humor, bons atores, ora. Uma vez que os escolho, passo um tempo louco com eles. Nesse filme, trabalhamos durante cinco meses antes de rodar a primeira cena. Não há nada de instantaneidade, de espontaneidade; é uma lenta maturação. É preciso muito tempo e muita paciência para se chegar ao ponto certo dentro do que se diz e da maneira de dizê-lo. É o tempo que faz a diferença entre as pessoas que têm um talento comparável.”

Certamente Mike Leigh tinha a noção exata do talento de Brenda Blethyn e de Marianne Jean-Baptiste quando as colocou, sentadas lado a lado numa mesa de bar, a câmara diante delas, paradona, fixa, imóvel, estática, anticinema (do grego kinema, movimento, sempre é bom lembrar), para a seqüência do primeiro diálogo ao vivo entre Cynthia e Hortense. É uma seqüência longa; são quase dez minutos sem corte, uma tomada só. Uma das seqüências mais belas do cinema.

Não deixe de ver.  

  Segredos e Mentiras/Secrets & Lies)
Produção Inglaterra, 1996.
Diretor Mike Leigh
Argumento e roteiro Mike Leigh
Elenco Brenda Blethyn (Cynthia), Marianne Jean-Baptiste (Hortense), Timothy Spall (Maurice), Phyllis Logan (Monica), Claire Rushbrook (Roxanne), Elizabeth Barrington (Jane).
O diretor e o elenco O ator Timothy Spall já havia trabalhado com o diretor Mike Leigh três vezes antes deste filme: em uma peça de teatro, em um filme feito para a TV e em Life Is Sweet, o filme de Leigh de 1991. O ator também já havia trabalhado com Brenda Blethyn em duas séries da TV inglesa. Com Marianne Jean-Baptiste o diretor já havia trabalhado antes, no teatro. Elizabeth Barrington trabalhou em Naked, de 1993, o filme anterior de Leigh.
Segredo ou mentira? (1) Uma ficha do DVD diz que Brenda Blethyn e Marianne Jean-Baptiste, as atrizes que fazem os papéis principais, nunca tinham se encontrado antes do momento em que gravaram a cena na qual se conhecem no filme. Truco! (E os cinco meses de exaustivos ensaios sobre os quais fala o diretor Leigh?)
Segredo ou mentira? (2) Perguntado sobre a diferença entre um e a outra, Leigh respondeu: “Os segredos são necessários. Quanto às mentiras… Não fico muito à vontade com as mentiras, mas será que talvez algumas não são necessárias? Venho de uma família que tinha a tendência a não falar disso ou daquilo. Em princípio, gosto que as coisas sejam mais expostas. Isso é um pouco o tema do filme.”
Cor, duração. Cor, 142 min.
Ação Londres, nos dias de hoje, ou melhor, os dias em que o filme foi feito.
Local de filmagem Os créditos finais realçam: “Filmado inteiramente em locação em e ao redor de Londres”.
Música Andrew Dickson
Fotografia Dick Pope
Custo A participação da Ciby 2000 – que também produziu filmes de Emir Kusturica, David Lynch e Pedro Almodóvar – permitiu que o diretor Mike Leigh tivesse para este filme o maior orçamento de sua carreira, até então: cerca de US$ 4 milhões. Beleza Americana, outro filme sobre problemas de família, sem astros biliardários ou efeitos especiais, com orçamento baixíssimo para os padrões americanos, custou US$ 17 milhões – quatro vezes mais.
Prêmios Em Cannes: Palma de Ouro (melhor filme) e melhor atriz para Brenda Blethyn.No Oscar: cinco indicações – filme, direção, atriz (Brenda Blethyn), atriz coadjuvante (Marianne Jean-Baptiste), roteiro original.No Globo de Ouro: Melhor atriz em drama para Brenda Blethyn.No Prêmio do Círculo dos Críticos de Londres: filme britânico, diretor britânico e atriz britânica para Brenda Blethyn.No Prêmio da Associação dos Críticos de Los Angeles: filme, diretor e atriz para Brenda Blethyn.No Prêmio do Australian Film Institute: melhor filme estrangeiro. 

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