O Crime do Século / Crime of the Century


Nota: ★★★½

Anotação em 1998, com complemento em 2008: Belo, corajoso filme. Interessante porque tem muito a ver com The Capeman, a peça e disco do Paul Simon, que há dois meses é minha grande paixão: a mídia e a Justiça americanas contra um alien, como eles chamam os imigrantes ilegais – alien, como se fosse um alienígena, um extraterrestre.

Baseia-se em um livro que banca a tese de que Bruno Richard Hauptmann, condenado à morte pelo seqüestro e assassinato do bebê Lindbergh, é inteiramente inocente, e a polícia e a Justiça forjaram evidências contra ele para dar uma satisfação à opinião pública.

Stephen Rea está excelente como o imigrante alemão; o sotaque que ele conseguiu é uma perfeição absurda – ao menos na minha opinião não muito abalizada. Isabella Rossellini, cada dia mais parecida com a mãe, também está muito bem.

Tem alguns defeitos de filme feito para a TV, como os cenários de papelão (especialmente notáveis nas cenas das prisões) e a repetição do efeito fácil de mostrar cenas dos diversos envolvidos na tragédia, um a um, na noite da véspera de uma grande decisão no tribunal. Mas é coisa pouca.

E o fato é que os filmes produzidos pela HBO têm uma qualidade impressionante – eles estão no mesmo nível de cuidado e inteligência que os da BBC. Basta ver o elenco, com gente de peso, e o diretor, Mark Rydell, que, entre outras coisas, juntou pela primeira vez Henry e Jane Fonda, e, se não me engano, também pela primeira vez Henry Fonda e Katharine Hepburn em Num Lago Dourado – o que não é pouca coisa.

Há diálogos brilhantes, como o em que o imigrante pobre diz ao governador de New Jersey (um republicano, mas firme, corajoso, honrado, embora no final vencido pelo poder do Establishment) como é que funciona a Justiça do maior Império da Terra.

Bom filme. Coisa para ser vista de novo.

O Crime do Século/Crime of the Century

De Mark Riddle, EUA, 1996. Feito para a TV.

Com Stephen Rea, Isabella Rossellini, Daivd Paymer, J.T. Walsh, Michael Moriarty

Música John Frizzell

Roteiro William Nicholson

Bas no livro de Ludovic Kennedy

Produção HBO-Astoria

Cor, 114 min.

9 Comentários

  1. SIDNEI RODRIGUES
    Postado em 25 dezembro 2008 às 8:53 pm | Permalink

    já vi esse filme em VHS e foi um dos mais marcantes a que já assisti. Por se tratar de envolvimento de pessoa famosa ( o aviador Charles Lindbergh ) a polícia tratou logo de encontrar um culpado. As alegações de Bruno Richard Hauptmann guardavam simetria com os fatos apurados. Gostaria de adquiri-lo em DVD. Como faço para conseguir um ?

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 28 dezembro 2008 às 3:01 pm | Permalink

    Caro Sidnei,
    Obrigado pelo seu comentário.
    Parece que o filme não foi lançado em DVD no Brasil. E também não o encontrei no Amazon, nem no SecondSpin, um ótimo site de venda de CDs e DVDs usados que costuma ter de tudo.

  3. carlos henrique
    Postado em 31 dezembro 2008 às 2:37 pm | Permalink

    Gostaria de saber onde posso adquirir copia ou original do filme “o crime do século”, com ISABELLA ROSSELLINI E STEPHEN REA.

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 1 janeiro 2009 às 3:46 pm | Permalink

    Caro Carlos Henrique, infelizmente, parece que o filme não foi lançado em DVD no Brasil. E também não o encontrei no Amazon, nem no SecondSpin. Uma pena.

  5. Valdenice
    Postado em 15 fevereiro 2009 às 10:18 am | Permalink

    gostaria de saber onde posso encontrar o filme “o crime do seculo”, com Isabella Rosselline e Stephen Rea

  6. Sérgio Vaz
    Postado em 15 fevereiro 2009 às 9:46 pm | Permalink

    Como eu até já havia dito no próprio site, respondendo a pergunta semelhante, parece que este filme não foi lançado em DVD no Brasil. E também não o encontrei no Amazon, nem no SecondSpin, um ótimo site de venda de CDs e DVDs usados que costuma ter de tudo. É uma pena.

  7. Jussara
    Postado em 8 maio 2009 às 9:39 pm | Permalink

    Oi, gostaria de saber onde posso encontrar o filme “O Crime do Século”, com Isabella Rossellini e Stephen Rea. Hahaha, brincadeira.
    Gente, o povo não lê antes de postar, não?rsrs.

  8. William
    Postado em 9 agosto 2010 às 4:09 pm | Permalink

    Olá, alguém sabe me dizer qual é a música que toca no fim do filme, quando ele está na cela e os padres estão orando? Ou como faço para adquiri-la?
    Muito obrigado =]

  9. Fernando
    Postado em 15 junho 2011 às 2:51 pm | Permalink

    17 – HAUPTMANN

    06 de Abril de 1936

    “Na Casa da Morte”, em Trenton, Bruno Richard Hauptmann desfolha, pela última fez, o
    calendário de suas recordações. É de tarde. O condenado sente esvaecer-se-lhe a derradeira esperança. Já não há mais possibilidade de adiamento da execução depois das decisões do Grande Júri de Mercer, e o caso Wendel representava o único elemento que modificaria o epílogo doloroso da tragédia de Hopewell. O governador do Estado de Nova
    Jérsey já havia desempenhado a sua imitação de Pilatos, e o senhor Kimberling nada mais
    poderia realizar que o cumprimento austero das leis que condenaram o carpinteiro alemão à
    cadeira elétrica.
    Hauptmann sente-se perdido diante do irresistível e chora, protestando a sua inocência.
    Recapitula a série de circunstâncias que o conduziram à situação de indigitado matador do
    baby Lindenbergh, e espera ainda que a justiça dos homens reconheça o seu erro, salvando-o,
    à última hora, das mãos do carrasco. Mas a justiça dos homens está cega; tateando na
    noite escura de suas vacilações, não viu senão a ele, no amontoado das sombras.
    A polícia norte-americana precisava que alguém viesse à barra do Tribunal responder-lhe por
    um crime nefando, satisfazendo assim as exigências da civilização, salvaguardando o seu
    renome e a sua integridade.
    E o carpinteiro de Bronx, o olhar marcado de lágrimas, recorda os pequenos episódios da
    sua existência. A sua velha humilde casa de Kamentz; o ideal da fortuna nas terras americanas, a
    esposa aflita e desventurada e a imagem do filhinho, brincando nas suas pupilas cheias de
    pranto, Hauptmann esquece-se então dos seus nervos de aço e da sua serenidade perante
    as determinações da justiça, e chora convulsivamente, enfrentando os mistérios silenciosos
    da Morte. Paira no seu cérebro a desilusão de todo o esforço diante da fatalidade e, sentindo
    o escoamento dos seus derradeiros minutos, foge espiritualmente do torvelinho das coisas
    humanas para se engolfar nas meditações das coisas de Deus. Suas mãos cansadas tomam
    a Bíblia do padre Werner e o seu espírito excursiona no labirinto das lembranças. Ao seu
    cérebro atormentado voltam as orações aprendidas na infância, quando sua mãe lhe punha
    na boca os salmos de Davi e o santo nome de Deus. Depois disso ele viera para o mundo
    largo, onde os homens se devoram uns aos outros no círculo nefasto das ambições. Suas
    preces de menino se perderam como restos de um naufrágio em noite de procela. Ele não
    conhecera nenhum apóstolo e jamais lhe mostraram, no turbilhão escuro das lutas humanas,
    uma figura que se assemelhasse àquele Homem Suave dos Evangelhos; entretanto, nunca
    como naquela hora, ele sentiu tanto o desejo de ouvir-lhe a palavra sedutora do Sermão da
    Montanha. Aos seus ouvidos ecoavam as derradeiras notas daquele cântico de glorificação
    aos bem-aventurados do mundo, pronunciado num crepúsculo, há dois mil anos, para
    aqueles que a vida condenou ao infortúnio e uma voz misteriosa lhe segredava aos ouvidos
    os segredos da cruz, cheia de belezas ignoradas. Hauptmann toma o capítulo do salmo XXIII
    e repete com o profeta: “O Senhor é o meu Pastor, nada me faltará.”.
    O relógio da Penitenciária prosseguia, decifrando os enigmas do tempo, e o carrasco já havia
    chegado para o seu terrível mister. Cinqüenta testemunhas ali se conservavam para
    presenciar a cena do supremo desrespeito pelas vidas humanas. Médicos, observadores das
    atividades judiciárias, autoridades e guardas, ali se reuniam para encerrar tragicamente um
    drama sinistro que emocionou o mundo inteiro.
    O condenado, à hora precisa, cabelos raspados a máquina zero e a calça fundida para que a
    execução não falhasse, entra, calado e sereno, na Câmara da Morte. Havia no seu rosto um
    suor pastoso como o dos agonizantes. Nenhuma sílaba se lhe escapou da garganta
    silenciosa. Contemplou calmamente o olhar curioso e angustiado dos que o rodeavam,
    representando ironicamente o testemunho das leis humanas. No seu peito não havia o
    perdão de Cristo para os seus verdugos, mas um vulcão de prantos amargos torturava-lhe o
    íntimo nos instantes derradeiros; considerando toda inutilidade de ação, diante do Destino e
    da Dor, deixou-se amarrar à poltrona da morte enquanto os seus olhos tangíveis não viam
    mais os benefícios alegres da claridade, mergulhando-se nas trevas compactas em que iam
    entrar.
    Elliot imprime o primeiro movimento à roda fatídica, correntes elétricas anestesiam o cérebro
    do condenado, e, dentro de quatro minutos, pelo preço mesquinho de alguns centavos, os
    Estados Unidos da América do Norte exercem a sua justiça, não obstante as dúvidas
    tremendas que pairam sobre a culpabilidade do homem sobre cuja cabeça recaíram os
    rigores de suas sentenças.
    Muito se tem escrito sobre o doloroso drama de Hopewell.
    Os jornais de todo o mundo focalizaram o assunto, e as estações de rádio encheram a
    atmosfera com as repercussões dessa história emocionante; não é demais, portanto, que
    “um morto” se interesse por esse processo que apaixonou a opinião pública mundial. Não
    para exercer a função de revisor dos erros judiciários, mas para extrair a lição da experiência
    e o benefício do ensinamento.
    As leis penais da América do Norte não possuíam elementos comprobatórios da culpa do
    Bruno Hauptmann como autor do nefando infanticídio. Para conduzi-lo à cadeira da morte
    não se prevaleceu senão dos argumentos dubitativos, inadmissíveis dentro da cultura jurídica
    dos tempos modernos.
    Muitas circunstâncias preponderavam no desenrolar dos acontecimentos, e que não foram
    tomadas na consideração que lhes era devida. A história de Isidoro Fisch, a ação de Betty
    Cow e de Violetta Scharp, a leviandade das acusações de Jafzie Condon e a dúvida
    profunda empolgando todos os corações que acompanharam, em suas etapas dolorosas, o
    desdobramento desse processo sinistro.
    Mas em tudo isso, nessa tragédia que feriu cruelmente a sensibilidade cristã, há uma justiça
    pairando mais alto que todas as decisões dos tribunais humanos, somente acessível aos que
    penetraram o escuro mistério da Vida, no ressurgimento das reencarnações.
    Hauptmann sacrificado na sua inocência, Harold Hoffmann com desprestígio político perante
    a opinião pública do seu país e Lindbergh, herói de um século, ídolo do seu país e um dos
    homens mais afortunados do mundo, fugindo de sua terra a bordo do “American Importer”,
    onde quase lhe faltava o conforto mais comezinho, como se fora um criminoso vulgar, são
    personalidades interpeladas na Terra pela Justiça Suprema.
    Nos mundos e nos espaços há uma figura de Argos observando todas as coisas. No seu
    tribunal do direito absoluto a Têmis divina arquiteta a trama dos destinos de todas as
    criaturas. E só nessa Justiça pode a alma guardar a sua esperança, porque o direito
    humano, quase sempre filho da supremacia da força, é às vezes falho de verdade e de
    sabedoria.
    Dia virá em que a justiça humana compreenderá a extensão do seu erro, condenando um
    inocente. As autoridades jurídicas h/ao de se preparar para a enunciação de uma nova
    sentença, mas o processo terá subido integralmente para a alçada da equidade suprema.
    Debalde os juízes da Terra tentarão restabelecer a realidade dos fatos com os recursos de
    sua tardia argumentação, porque nesse dia, quando Bruno Richard Hauptmann for
    convocado para o último depoimento em favor do resgate de sua memória, o carpinteiro de
    Bronx, que os homens eletrocutaram, não passará de um punhado de cinzas.

    Livro: Crônicas de Além-Túmulo
    Psicografia: Francisco Cândido Xavier
    Autor Espiritual: Humberto de Campos

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