Tieta do Agreste


Nota: ★★★☆

Anotação em 1997: Terminando de ver agorinha mesmo, é o seguinte: Quem não viu deve ver. Houve má vontade de boa parte da imprensa para com o filme – enquanto houve, ao contrário, apenas loas ou desculpas àquele besteirol ginasiano à la Casseta e Planeta que é Carlota Joaquina.

Há falhas? Há, é claro, sem dúvida. O ritmo é meio irregular; há momentos de narrativa mais pra naturalista, outros momentos com narrativa mais para o deboche ou o escracho, há momentos em que o roteiro e a própria direção de atores se perdem, viram meio zorra exagerada, como na cena em que Tieta sai furiosa atrás do sobrinho Ricardo, e acaba jogando montes de notas de reais em cima de Perpétua; há um erro crasso de montagem em que se deixaram uns 5 segundos a mais do que o necessário na cara do Jece Valadão, na cena em que Tieta vai pela primeira vez a Mangue Seco; há mesmo muito merchandising explícito demais, mas isso se perdoa fácil em nome de haver um filme brasileiro no deserto deixado pelo governo Collor; há muitos momentos em que tudo vira clip turístico; boa parte dos figurinos do Ocimar Versolato para a Sônia Braga é escandalosa demais, purpurina demais, absurda demais, apelativa. E muitas outras falhas, certamente.

Mas isso tudo é de menos, é bobagem, sai no mijo. O que importa é que é um belo filme, um filme gostoso, pra cima, bem humorado, de bem com a vida e com o prazer, com fotografia muito boa, algumas boas sacadas de roteiro, música esplendorosa, os atores em geral melhores do que 99% dos filmes brasileiros dos últimos anos, um grande elenco reunido a grandes nomes da cultura brasileira, de João Ubaldo a Caetano Veloso, Gal Costa e Jorge Amado, brilhante na voz de velho baiano sábio.

É um lindo hino à beleza absurda da República Santa da Bahia, um belo e brincalhão panfleto a favor dos prazeres da vida, o sexo às claras e em alto e bom som, e contra as hipocrisias calhordas todas. E, além de tudo, é um belíssimo sinal de vida do cinema brasileiro, que conseguiu sobreviver à bomba atômica da era Collor, e pode virar um marco da virada, do ressurgimento, da resistência, da sobrevivência, está lá passando em Paris, Tietá du Brésil, vai passar nos Estados Unidos com não sei que título imbecil, pode inspirar remake do Tio Sam como aconteceu com Dona Flor, vai sair em vídeo mundo afora, saiu em vídeo no Brasil por uma das maiores empresas americanas. Uma maravilha pelo simples fato de existir.

E, porra, que delícia ver Sonia Braga. Que delícia ver Sonia Braga beirando os 50 ainda como a encarnação da mulher brasileira gostosa e safada, moreníssima, peitos fartos, pernas grossas, agora uma bunda de matrona. Que delícia ver Sonia Braga sendo a encarnação da mulher brasileira gostosa e safada pela quarta vez baseada em obra de Jorge Amado, depois de Gabriela, a novela, Gabriela, o filme, e de Dona Flor e Seus Dois Maridos.

Que delícia ver de novo, depois de Gabriela, a novela, e Gabriela, o filme, outro personagem feminino de Jorge Amado cantado por Gal Costa. Que delícia ver Jorge Amado, pós 80, lendo o começo de seu livro na praça de Santana do Agreste.

Que delícia ver fazendo papel de megera Marília Pera, essa gigantesca atriz e esse ser humano complicado, a única personalidade importante da arte brasileira que apoiou Fernando Collor, que fez esforço hercúleo para acabar com o cinema brasileiro. Que delícia ver a Zezé Motta que já foi Xica da Silva sendo agora a virgem por falta de opção, safada e feliz a não mais poder.

Que delícia imaginar que Caetano fez de novo uma letra para Sonia Braga, quase 20 anos depois da tigresa de unhas negras e íris cor de mel. (Deve ser por isso, me pego pensando, brincando, que ocorreu ao Caetano o refrão: eta, eta, eta. Ele seguramente pensava na eta da trigresa de unhas negras e íris cor de mel que ele comeu no passado.) Que delícia ver tanto talento junto.

Que delícia as piadas internas que nenhum estrangeiro vai entender nunca, o dono do restaurante do Mangue Seco, veado até não mais poder, cantando “Reconvexo”. Ou as metabrincadeiras com o Gilberto Gil entrando na história, citado pelo Barbosinha e depois aparecendo no jornal pra denunciar a fábrica poluente, ele, que no passado mexeu tanto com movimento pela água limpa.

E que sorte termos visto Tieta pouco depois de passarmos 16 dias abençoados na República Santa de Todos os Santos da Bahia, diante daquele mar que não tem igual no mundo.

Todo crítico que falou mal de Tieta deveria morrer com a boca cheia de formiga.

Tieta do Agreste

De Carlos Diegues, Brasil-EUA, 1996.

Com Sonia Braga, Marília Pera, Chico Anysio, Cláudia Abreu, Zezé Motta, Jece Valadão, Patrícia França, Leon Góes, André Vale, Heitor M. Mello.

Bas “livremente” no romance de Jorge Amado

Roteiro João Ubaldo Ribeiro, Antônio Calmon e Carlos Diegues.

Fotografia Edgar Moura

Mont Mair Tavares e Karen Harley

Direção de arte Lia Renha

Música Caetano Veloso, orquestração Jacques Morelembaum

Cor, 115 min.

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