O Destino de uma Vida / Losing Isaiah


Nota: ★★★☆
Anotação em 1997, com complemento em 2008: Um belo filme. Um belo filme, adulto, sério, discutindo de uma forma muito boa, muito aberta, muito sensível, um tema polêmico, difícil: a adoção, e a questão de quem merece ficar com a criança, quando a mãe biológica se arrepende de ter abandonado o filho e o quer de volta. E tendo como pano de fundo o arraigado, fortíssimo, violento racismo da sociedade americana e a onda atual do politicamente correto.

A discussão toda sobre esse tema tão importante é feita sem parti-pris. O filme não defende uma tese – ah, a mãe biológica é que deve ter a guarda, ah, não, a mãe de fato é que deve ter a guarda. A defesa dos dois lados é apresentada de forma forte, com argumentos de peso. Argumentos racionais e argumentos emocionais. Levanta-se a bola para a discussão. Eu mesmo, que sou terminantemente a favor da mãe de fato, e não da mãe biológica, estremeci com os argumentos contrários à minha opinião.

alosing2Jessica Lange faz Margaret, uma assistente social, casada, aparentemente bem casada, com marido atencioso – embora tenha uma amante; e esse parênteses, embora longo, é necessário. Bem no começo do filme, nos primeiros 15 minutos, aparece uma cena rápida em que ela liga para ele dizendo que vai ter uma tarde de folga; ele está no trabalho; dá uma olhada para uma mulher que está ao fundo da cena, e diz ao telefone que não pode deixar o trabalho. A cena mostra a sensibilidade desse diretor. Basta isso, basta apenas essa cena para o espectador perceber que o marido tem uma amante. Mais tarde, muito mais tarde, no tribunal, o advogado da parte contrária trará à baila a amante do marido. De cuja existência, obviamente, a mulher não tinha a menor idéia.

Pois bem. A renda mensal de Margaret e seu marido atencioso porém infiel é boa, o padrão de vida é alto, moram numa bela casa de um subúrbio distante de Nova York, têm uma filha no início da adolescência com todas as características de uma menina em início da adolescência de padrão de vida alto. Por uma dessas coincidências da vida, a assistente social topa, no hospital em que trabalha, com um bebê negro, abandonado pela mãe numa caixa de lixo com três dias de idade.

O filme começa com um longo plano feito de helicóptero sobre Nova York – e o plano lembra muito, e provavelmente por intenção, mesmo, o plano inicial de West Side Story. Vemos os arranha-céus riquíssimos da capital do planeta, à noite. Depois vamos nos afastando da parte rica de Manhattan, em direção à periferia, aos cortiços. Aí temos a cena em que a mãe, Khaila (Halle Berry), abandona a criança. Ela vive num cortiço de negros lumpen, drogados, aquela miséria absolutamente miserável que a gente conhece bem aqui no Brasil, mas que está lá, a poucos quilômetros da Times Square, do centrinho da capital do mundo. A mãe está precisando de crack, e por isso deixa o bebê em uma caixa junto às latas de lixo. Corta, estamos de manhã, e chegam os lixeiros. No momento em que a lâmina do caminhão de lixo vai triturar a caixa, o bebê chora. Corta, e estamos no hospital em que a assistente social Margaret trabalha.

A mãe do bebê – Isaiah é o nome dele – é presa pouco depois, roubando um supermercado. Não tenta ir atrás do garoto porque tem certeza de que ele está morto.

A família branca e rica adota o bebê negro filho da viciada em crack. Passam-se três anos; Khaila, a mãe biológica, se recupera na cadeia e na saída dela, se livra da droga, e quer o filho de volta. Procura advogado, vai à Justiça.

alosing1Aí entra a parte política da história. O hoje organizadíssimo movimento negro americano entra em cena. Os defensores dos direitos dos agora chamados afro-americanos percebem que é um caso exemplar, um caso politicamente exemplar, e vão à luta. Arranjam dinheiro para sustentar Khaila no período do julgamento. Colocam-na numa casa simples, mas digna. Preparam-na psicologicamente. Impedem que ela veja um paquerador por quem ela está até interessada, porque isso poderia contar pontos contra ela. Na hora das audiências, dão nela um baita banho de loja.

Toda a defesa de Khaila é baseada na premissa de que negro tem que viver com negros – além, é claro, de no fato de que a mãe se recuperou, está pronta para a vida em sociedade, etc. É uma coisa horrorosa, patética, nojenta – mas é assim, naquela sociedade mais rica e avançada que já houve em cima deste planeta.

Há diálogos muito fortes, muito bons. O duelo entre o advogado negro da mãe negra com a mãe branca é de arrepiar. Margaret, a mãe branca, mete o dedo fundo na ferida. Faz um discurso: “Mas aqui só se está falando da cor da pele. Não se falou um momento aqui de amor, de carinho. Onde é que entram amor e carinho aqui? Isso não é politicamente correto?”

Essa cena é antológica. No momento seguinte, advogado racista e mãe branca carinhosa descem para a porta da garagem do tribunal, para fumar – claro, é proibido fumar no tribunal. Chove torrencialmente; os dois têm que ficar juntos, lado a lado. Um está sem isqueiro, o outro acende o cigarro. Corta.

Um brilho.

É o advogado negro e politicamente correto que traz à baila o fato de que o marido de Margaret teve uma amante.

Mary e eu nos perguntávamos como é que o diretor iria sair dessa enrascada. Numa questão complexa como essa, de quem ele iria tomar partido?

A juíza que decide a sorte de duas mulheres, uma criança, um marido e uma irmã de criação é branca, mas filha de imigrantes, provavelmente poloneses, pelo nome. Ela decide pela mãe biológica.

Pouco antes da decisão da juíza, eu cantei: ele vai optar pela saída Kramer x Kramer.

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 Em termos. Mais ou menos. Na verdade, vai além. O menino vai para a casa da mãe biológica, sofre pra caralho. A mãe biológica chama a mãe de verdade, pede a ajuda dela. Na cena final, estão as duas com o menino na sala de aula da escola de negros, ele feliz de reencontrar a mãe que o criou, começando pela primeira vez a se soltar lá dentro. E entra uma frase do profeta Isaías, Isaiah, do tipo: E que a criancinha determine o caminho.

O diretor Stephen Gyllenhaal, nascido em 1949, é pai de Jake e Maggie Gyllenhaal, dois bons atores, com carreiras sólidas nesta primeira década do século XXI. Antes deste O Destino de Uma Vida/Losing Isaiah, tinha feito outro bom filme, Uma Mulher Perigosa/A Dangerous Woman, com a extraordinária Debra Winger no papel de uma mulher com retardamento mental. Depois, faria vários filmes para a TV, e, que eu saiba, nenhum excepcional. O roteiro deste O Destino de Uma Vida, assim como o de Uma Mulher Perigosa, foi escrito por Naomi Foner, mulher do diretor e mãe de Jake e Maggie.

O Destino de Uma Vida/Losing Isaiah

De Stephen Gyllenhaal, EUA, 1995.

Com Jessica Lange, David Strathairn, Halle Berry, Samuel L. Jackson

Rot Naomi Foner

Bas na novela de Seth Margolis

Cor, 111 min.

 

Nota: ★★★☆

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