Shirley Valentine


Nota: ★★★★

Anotação em 1996: Uma beleza, beleza de filme. A narrativa não é tradicional, “naturalista”. É uma farsa, com grandes exageros – mas tudo funciona muito bem.

E o interessante é notar que o diretor Lewis Gilbert é um veterano, nascido em 1920 e que estreou como diretor em 1949. Pois o veterano Gilbert se sai bem num texto que é um panfletaço feminista, contra a insensibilidade dos homens e a miséria que é perder a vida sendo dona de casa, contra a preguiça e a tolice sexual dos homens no casamento, a favor da satisfação sexual venha de onde vier.

Shirley Valentine é da classe média baixa de Manchester, típica working class, sotaque carregado, inglês “inferior” – e a atriz Pauline Collins, que já havia interpretado o papel no teatro, é brilhante, perfeita. Na escola, era tratada como burra pelas professoras, que preferiam Marjorie Majors, uma colega loura e bonita que havia estudado oratória. Casou cedo com Joe, típico classe média baixa de Manchester como ela. No começo do casamento, eram capazes de rir e fazer folia. Tiveram dois filhos, e tudo perdeu qualquer tipo de encanto. No hoje da ação, Shirley é uma mulher de 42 anos levemente gorducha, solitária, cuja função na vida é arrumar a casa para o marido e prover-lhe de todas as necessidades, que incluem jantar pontualmente às 6 da tarde, ovos e fritas às terças, bife às quintas. Para fugir da solidão, Shirley conversa com A Parede – e também com a câmara, diretamente com o espectador.

Uma amiga dela ganha num concurso duas passagens num pacote para a Grécia, a ilha de Mykonos, e lá vai Shirley.

Claro, encontra um grego simpático, atencioso, que a convida para passear de barco prometendo que não vai “try to make fuck”. Naturalmente eles trepam – e a cena no barco é brilhante. Shirley olha para a câmara e diz: “De onde veio essa orquestra?” Eventualmente ela e o espectador perceberão que o cara é um profissional da conquista, diz sempre as mesmas frases para cada nova turista inglesa que chega. Mas Shirley não havia se apaixonado por ele, conforme ela mesma diz, explicitamente, e sim pela vida e por ela mesma.

Alguns diálogos são tão brilhantes que copiei.

* Ela, sentada sozinha a uma mesa de bar diante do mar, tomando um vinho grego: “I’ve led such a little life. And even that will be over pretty soon. I’ve allowed myself to lead this little life when inside me there was so much more. And it’s all gone unused. (…) Why do we get all this life if we don’t have used it? Why do we get all these feelings, and dreams, and hopes, if we don’t have used it?”

 E o grego, dono do bar, chega e diz: “Dreams… They are never in the place you expect them to be”.

* Ela para o grego, no barco (que beleza de texto escrito por um homem, que arrasa com 99,99% dos homens): “O que há com você, Costas? Você sabe falar com as mulheres. A maioria dos homens não sabe falar com uma mulher. Eles acham que devem dirigir a conversa. (…) E então o que você faz? Fala sobre o que eles querem falar… ou nem fala. Ou acaba falando sozinha. Mas você não faz isso”.

Ele: “I just like to listen… and also look”.

* Ela: “Você beijou minhas estrias!”

Ele: “Don’t be too stupid to try to hide these lines. They are lovely because they are a part from you, and you are lovely. So don’t hide; be proud of them; show them. These marks show that you are alive, that you survive. Don’t try to hide these lines. They are the marks of life”.

 (Mesmo sabendo mais tarde que esse é um texto decorado para seduzir mulheres, é uma beleza. As revistas femininas e os cirurgiões plásticos pediriam falência, se os homens pensassem assim.)

* Ela, para a amiga inglesa: “I haven’t fallen in love with him. I”m falling in love with the idea of living”.

 * Ela, para a amiga inglesa que quer que ela volte para sua rotina absurda, argumentando que a cada verão milhões de pessoas saem de férias, não têm vontade de voltar, mas voltam: “We don’t do what we want to do, do we? We do what we have to do and pretend that it is what we want to do”.

É interessante ver como esse filme é tão diferente daqueles vários, também bons, que falam sobre as férias no exterior dos ingleses ricos, os happy few – como Uma Janela para o Amor e o recente Um Encontro para Sempre/A Month by the Lake. Aqui, não. Aqui não há charme eterno, é a vida dura da imensa maioria.

Vou procurar alguma informação sobre esse autor e roteirista Willy Russell; não sei se haverá. Mas seguramente ele é daquela geração que nos anos 60 mostrou a vida da imensa maioria pobre ou remediada da sociedade inglesa, os Tony Richardson da vida. Deve ser ou ter sido socialista, claro; deve ter militado pelos trabalhistas. E consegue juntar o retrato da dureza da vida da imensa maioria com a parte normalmente menosprezada pela esquerda, a conquista dos prazeres, o direito a trepadas decentes, o direito ao sonho de cascar fora da engrenagem sufocante.

Vi o Cinemania antes de escrever aqui, ao contrário do que eu normalmente faço. E deu uma coisa engraçada: o Maltin entendeu o filme, ao contrário do Roger Ebert, que não entendeu coisa nenhuma — e normalmente ele é muito bom.

Leonard Maltin diz que foi a mesma equipe que fez Educating Rita; a peça original é também de Willy Russell, e ele igualmente fez o roteiro do filme. Que igualmente enfoca a vida de uma mulher da working class, uma cabeleireira. Good chap.  

 Eis parte do que diz a Wikipedia sobre Willy Russell:

Russell (1947-  ) comes from a working class background. After leaving school with one O-level in English, he first became a ladies hairdresser and ran his own salon. Russell then undertook a variety of jobs, also writing songs which were performed in local folk clubs. He also contributed songs and sketches to local radio programes. At 20 years of age, he returned to college and became a teacher in Toxteth. Around this time he met his later wife, Annie, and became interested in writing drama.

His first success was a play about The Beatles called John, Paul, George, Ringo and Bert commissioned for the Everyman Theatre, Liverpool and transferring to the West End in 1974. Three of his later plays became outstanding successes. One was Educating Rita, about a working-class female hairdresser and her Open University teacher. The semi-autobiographical Educating Rita was made into a film in 1983 starring Michael Caine and Julie Walters. The second was the musical Blood Brothers for which Russell also composed the music. It was produced in 1983; first opening in Liverpool and then transferring to London, where it was highly successful and recently celebrated its twentieth anniversary (April 2007), performing at the Phoenix Theatre. Bill Kenwright opened a new production in 1988, and the show also opened on Broadway in 1993.

The third play was Shirley Valentine, which first opened in Liverpool in 1986 before a new production opened in London in 1988 starring Pauline Collins. It was also made into a successful film in 1989, again with Collins in the title role. Russell received BAFTA and Oscar nominations for Best Adapted Screenplay for both Educating Rita and Shirley Valentine.

Shirley Valentine

De Lewis Gilbert, Inglaterra-EUA, 1989.

Com Pauline Collins, Tom Conti, Julia McKenzie, Alison Steadman,

Roteiro de Willy Russell, baseado em sua peça de teatro

Música Willy Russell

Cor, 108 min

4 Comentários para “Shirley Valentine”

  1. Oi Sérgio, adorei seu site, especialmente as observações sobre Shirley Valentine, um filme de que gosto muito. Já está cadastrado na minha lista de favoritos, junto com o IMDb. bjs

  2. Olá!!
    Adorei este filme moro no Rio grande do Sul – Brasil na cidade de Canoas e gostaria muito de rever este filme onde encontrá-lo pois não estou conseguindo.
    Abraço
    Angela

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