
Por uma destas coincidências, fomos finalmente ver O Agente Secreto em pleno Carnaval. Eu não sabia, porque, como sempre faço, tentei não ler nada sobre o filme antes de vê-lo, mas boa parte da ação se passa no Carnaval – o Carnaval de 1977 no Recife.
Neste Carnaval de 2026, O Agente Secreto já não era apenas um filme. Nos nove meses depois da estréia mundial no Festival de Cannes, em 18 de maio de 2025, e nestes três meses de exibição nos cinemas brasileiros e pelo mundo afora, o filme de Kléber Mendonça Filho, uma co-produção Brasil-França-Países Baixos-Alemanha, tornou-se um marco, um fato histórico, um fenômeno cultural. Havia já amealhado impressionantes 76 vitórias e 249 indicações no total – entre elas nada menos que quatro ao Oscar. (Falo sobre os prêmios mais adiante.)
Um marco, um fato histórico, um fenômeno cultural – e um filme impressionante, impactante, um longo, burilado tour-de-force.
Ao contar a história intrincada, complexa, rica – criada pelo próprio diretor e roteirista – de um professor, cientista, especialista em tecnologia pernambucano que é perseguido pela ditadura militar e também por um empresário ganancioso, imoral, vingativo, O Agente Secreto expõe os perigosíssimos efeitos colaterais dos regimes de exceção. Demonstra, com virulência, exaltação, indignação, como, sob uma ditadura, qualquer pequena autoridade passa a se considerar livre para explorar todas as pessoas que não pertencem ao sistema, ao establishment – e os poderosos se sentem absolutamente seguros para mandar matar quem os incomoda.
É muito interessante que O Agente Secreto tenha vindo um ano após outro filme que se tornou também um fenômeno, o maravilhoso Ainda Estou Aqui. O filme de Walter Salles mostra, com extrema sensibilidade, um exemplo de como a ditadura – ela mesma, através de seus órgãos de repressão – dilacerou uma família de brasileiros honestos, corretos, pacatos. Um ano depois, o filme de Kleber Mendonça Filho como que complementa o anterior, ao desnudar o ambiente de vale-tudo que se instala quando a democracia é assassinada.
Na abertura, um policial chega para extorquir dinheiro
Kleber Mendonça Filho abre seu filme com uma longa, bem longa sequência que mostra essa coisa perversa, abominável, que é a pequena autoridade agir como se fosse superior às demais pessoas, já que, em uma ditadura, os homens não são iguais perante a lei, até porque a lei ali existe para proteger quem está no poder, quem é autoridade.
O lugar é um posto de gasolina visivelmente pouco frequentado, à beira de uma estrada no meio do nada. No chão de terra a uns poucos metros das bombas de gasolina está um corpo coberto com folhas de jornal.
Chega em um Fusca amarelo o homem que será o protagonista da história – o papel, todos sabem, de Wagner Moura.
O frentista (Joálisson Cunha), a única outra pessoa que está ali, é um sujeito grande, gordo, a camisa aberta, a barrigona gigantesca à mostra. Quando o motorista pergunta sobre o cadáver ali perto, responde que era um ladrão, tinha sido morto. A polícia ainda não tinha vindo recolher o corpo.
Recolher o corpo do homem morto e deixado ali para as moscas e os cães – que o frentista volta e meia berra para afastar –, isso a polícia daquele lugar do interiorzão bravo não tinha ainda encontrado tempo para fazer. Mas naquele momento chega uma viatura, com dois policiais. Um deles desce, vai até o motorista do Fusca, pede os documentos, pergunta o nome. O homem barbado, visivelmente cansado de uma longa viagem, responde que é Marcelo.
O policial manda o motorista sair do carro. Entra, examina tudo. Pede para ver o extintor – o extintor não está com prazo vencido.
Não tendo encontrado nada que pudesse provocar a ameaça de uma multa, a pequena autoridade abre logo o jogo, com uma frase do tipo: – “O moço aí não poderia contribuir com uma caixinha para ajudar o trabalho da polícia?”
Marcelo diz que está dirigindo há três dias, e que o último dinheiro que tinha acabou de gastar com a gasolina.
A pequena autoridade, sem ter outra opção, vai embora. Marcelo retoma a viagem. Uma placa informa que ele está a 103 km do Recife.
Surge na tela o título O Agente Secreto.
É importante registrar: demora muito, muito, muito, para o espectador compreender quem é esse Marcelo, que na verdade é Armando. Demora muito para sabermos por que esse professor e cientista pernambucano é perseguido pela ditadura militar e também por um empresário; por que ele estava no Sudeste, e por que decidiu voltar no seu Fusca amarelo para o Recife.
A volta à sua cidade tem a ver com o filho de uns 8 anos, Fernando (o papel de Enzo Nunes), que está vivendo com os avós paternos depois da morte da mãe, Fátima (Alice Carvalho). Mas isso, repito, o espectador só vai ficar sabendo bem mais tarde.
Influências de Altman, De Palma, Peckinpah… E Leone
Pequenas autoridades. Tenho uma vaga lembrança de que, ali por meados dos anos 80, apenas alguns anos depois da época retratada neste O Agente Secreto, 1977, a jornalista e escritora Marta Góes escreveu uma peça com o título exatamente de “Pequenas Autoridades”. Ainda estávamos na ditadura – nos momentos finais, mas ainda na ditadura –, e a obra de Marta falava exatamente disso que o filme de Kleber Mendonça Filho aboda.
“O problema não é apenas o ditador, mas também o inspetor de quarteirão que acha que pode agir em nome dele.”
Essa frase maravilhosa – ou alguma variação dela – é bastante falada, embora não seja possível identificar o autor.
Lembrei muito dela, depois de ver o filme.
Kleber Mendonça Filho declarou que seu O Agente Secreto foi influenciado por filmes dos anos 1970, a década em que se passa a história; entre eles, foi citado Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1980), de Elio Petri. Falou-se que entre as obras que o inspiraram estão filmes de Robert Altman, Brian De Palma, Sam Peckinpah, Martin Scorsese e Steven Spielberg.
Não vi citação a Sergio Leone, ao ler sobre o filme depois de assisti-lo na terça-feira de Carnaval, mas me pareceu que a longa, muito longa sequência inicial de O Agente Secreto tem muito a ver com a abertura de Era Uma Vez na América (1968). Como no extraordinário filme do cineasta italiano, Kleber Mendonça Filho faz uma abertura lenta, bem lenta, longa, bem longa. E pontuada por grandes close-ups. E que exibem imagens bastante feias, repelentes – a mosca que voa sobre a cara do bandido no filme de Leone, o grotesco barrigão do frentista aqui.
O Agente Secreto – me parece – usa e abusa, em muitos, muitos, muitos momentos, de uma estética do feio, do nojento, do abjeto, do horroroso.
Sam Peckinpah, sim, é claro. Sem dúvida alguma. Há Sam Peckinpah na veia em O Agente Secreto. O uso explícito, aberto, escrachado da imagem da violência para denunciar a violência – tão explicito, aberto, escrachado, que parece até que se está tendo prazer com a violência que se pretende denunciar.
Um delegado desprezível, um empresário criminoso
O policial que tenta achacar Marcelo na longa sequência de abertura é um zé-ninguém, um bostinha. Um tanto mais adiante, Marcelo vai se encontrar com um tipo muito mais poderoso – e muitíssimo mais nocivo, cruel – que aquele bostinha. Chama-se Euclides, é um delegado de polícia do Recife – e é retratado por Kleber Mendonça Filha e pelo ator que o interpreta, Roberto Diógenes, como o horror do horror, uma espécie assim de Sérgio Paranhos Fleury ou coronel Brilhante Ulstra do Nordeste. Uma não tão pequena autoridade que tem inesgotável prazer em destruir, atacar, torturar, provocar dor. Um masoquista que, com a ditadura, a ausência de direitos e garantias básicas, faz o que bem entende.
Fiquei pensando que há uma quebra na maneira com que o filme constrói seu protagonista quando Marcelo pede ajuda ao delegado Euclides para protegê-lo do matador de aluguel. Talvez tenha sido muito pensada, planejada essa imensa mudança; talvez sirva para demonstrar que, diante do perigo fatal, mesmo um homem íntegro, correto, de perfeito código de valores, cede ao medo e pede socorro a quem despreza.
Um policialzinho que achaca. Um delegado de polícia que é desprezível como um torturador da Gestapo, da KGB, do DOI-CODI.
Quando se vai escalando a hierarquia, piores vão ficando as coisas, os seres humanos.
Vemos fotos de Ernesto Geisel nas repartições públicas em diversas, diversas, diversas tomadas do filme. Nada mais natural – o general Ernesto Geisel era o ditador de plantão naquele ano de 1977 que Kleber Mendonça Filho escolheu para colocar a ação de seu filme. Mas o que o filme mostra, na minha opinião, é que, pior do que o ditador-mór, o presidente da República, são os empresários milionários que apóiam e financiam a ditadura, para dela se aproveitarem em negócios escusos, criminosos, ilegais.
Ditaduras e empresários milionários sempre se dão bem – estão aí a Alemanha nazista e o regime Putin, por exemplo, para comprovar isso.
Em O Agente Secreto, o exemplo é Henrique Ghirotti (o papel de Luciano Chirioli), o empresário que é também diretor da Eletrobrás da ditadura e se aproveita disso para roubar os trabalhos dos cientistas da universidade pública de Pernambuco, como Armando – o verdadeiro nome de Marcelo.
O empresário Henrique Ghirotti não é apenas imoral, ladrão. É também uma figura do Sul Maravilha que tem desprezo pelo Nordeste, um machista e um racista. Um perfeito e acabado mau caráter.
Uma personagem fascinante, uma atriz idem
Há quatro personagens femininas muito interessantes no filme – interpretadas por atrizes idem.
Dona Sebastiana é sem dúvida a mais fascinante delas. Dona Sebastiana é a senhorinha que administra o pequeno prédio em bairro do Recife que acolhe refugiados, gente por algum motivo perseguida – e não apenas pela ditadura militar brasileira. Entre os refugiados protegidos ali por Dona Sebastiana está por exemplo um casal de angolanos, Tereza Vitória e Antonio (os papéis de Isabél Zuaa e Licínio Januário),
Ex-anarquista e ex-comunista, como ela mesma diz, Dona Sebastiana é a bondade e o bom humor em pessoa. Sempre alegre, sempre simpática, sempre disposta a ajudar seus “inquilinos” no que eles precisarem.
E que pessoa encontraram para fazer o papel dela! Que figura essa Tânia Maria, meu Deus!
Nascida em uma área rural do Rio Grande do Norte em 1947, Sebastiana Maria de Medeiros Filha passou a imensa maior parte da vida fazendo tapetes de banheiro e costurando. Foi descoberta por Kleber Mendonça Filho, que deu a ela um papel em Bacurau (2019), e depois a escolheu para fazer essa Dona Sebastiana.
Dona Sebastiana mudou completamente a vida de Sebastiana Maria, agora Tânia Maria. Aos 79 anos de idade, a costureira que nunca tinha visto um filme inteiro, que nunca tinha ouvido falar no tal do Oscar, virou estrela. Até agora (meados de fevereiro), já havia vencido cinco prêmios de melhor atriz coadjuvante. Dois dias depois do fim do Carnaval de 2026, por exemplo, o jornal O Globo dedicou a ela a primeira página do Segundo Caderno, com grande foto e chamada de capa.
“A agenda está lotada de compromissos, tanto de campanhas publicitárias como de novos projetos como atriz”, diz a reportagem de Lucas Salgado. Na conversa com o jornalista, ela disse: – “Quero ir para o Oscar. Não sabia o que era, mas agora já sei e quero ir. (…) Recebo muito carinho das pessoas. É bom demais ser reconhecida pelo trabalho que a gente fez. Não esperava tudo o que está acontecendo, mas sigo vivendo minha vida normal. Continuo na minha casa, na minha rede.” A casa dela é em Cobra, povoado de Parelhas, no Rio Grande do Norte, onde nasceu – e onde “segue trabalhando como artesã e produzindo tapetes e kits de banheiro para complementar a renda”, como informa a reportagem.
Uma bela desquitada. E a mulher que protege os refugiados
Quando Armando, apresentando-se como Marcelo, chega ao prédio administrado por Dona Sebastiana, ela o recebe com imensa simpatia e carinho. Apresenta-o aos demais refugiados que moram ali – e, ao apresentar a bela Cláudia, faz questão de dizer, safa, esperta, que ela é desquitada.
(Desquitada! Os mais jovens provavelmente nem sabem o que isso. A lei que finalmente permitiu o divórcio no Brasil é exatamente daquele ano em que se passa a ação de O Agente Secreto, 1977.)
Diante daquela apresentação – “Ela é desquitada” –, qualquer espectador atento percebe que aí terá coisa. Claro. E não demora muito até que surja uma sequência em que Marcelo/Armando e a bela Cláudia estão na cama.
Cláudia é o papel de Hermila Guedes, pernambucana de Cabrobó, da classe de 1980, que foi premiada já na sua primeira aparição na tela, no curta-metragem O Pedido (2000). Fez teatro no Recife, esteve em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), de Marcelo Gomes, e passou a ser bem conhecida pelos cinéfilos brasileiros a partir de O Céu de Suely (2006), de Karim Aïnoz.
A terceira personagem feminina bem interessante do filme usa o codinome de Elza. O o nome verdadeiro, Sara Gerber, só aparece mais tarde.
Elza (o papel da estonteante Maria Fernanda Cândido, que me pareceu tornada de propósito menos estonteante) aparece muito pouco na tela – creio que não chegam sequer a 10 minutos as sequências em que ela está –, mas seu personagem é chave na trama. É ela que operacionaliza a manutenção daquela rede de apoio a pessoas perseguidas. Menciona-se, bem rapidamente, que quem financia toda a rede, o prédio administrado por Dona Sebastiana e tudo o mais, é o pai de Elza, um empresário.
E isso é muito interessante: em um filme antiditadura, claramente com viés de esquerda, nem todo empresário é mau caráter. Há o empresário bandido, escroto, filho da puta, o tal Henrique Ghirotti – mas há também esse pai de Elza, que nunca aparece na tela, mas é um humanista, um sujeito que dá todo apoio material a pessoas perseguidas.
Elza tem um encontro com Armando/Marcelo quando estamos aí pelo meio do filme de 161 minutos. Ficam se conhecendo na sala de projeção do Cine São Luís, onde o sogro do refugiado, seu Alexandre (o papel de Carlos Francisco), trabalha como projecionista. Elza tem interesse em saber os detalhes de como Armando havia conhecido o empresário Ghitotti – e ela pede licença para gravar o depoimento dele. Coloca entre os dois um gravador de fita cassete, com, dentro, uma fita Basf.
E surge uma personagem dos dias de hoje
E, finalmente, a quarta personagem feminina muito interessante do filme se chama Flávia (o papel da jovem Laura Lufési) – e o espectador demora um tanto, na verdade um tantão, para entender exatamente quem é ela.
Flávia surge em algumas rápidas sequências, a partir da segunda metade do filme, digitando o que ouve, com fones de ouvido, de fitas cassete, ao lado de uma outra moça, que também trabalha na degravação de diálogos gravados em fitas. Depois de algum tempo – um bom tempo -, o espectador vai percebendo que Flávia e a colega estão pesquisando, levantando exatamente as histórias de Elza e os refugiados que ela protegia lá nos anos 70. A câmara da diretora de fotografia Evgenia Alexandrova mostra as caixinhas da fita em close-up, e vemos que a fita é Basf – como as que usei demais para gravar música, naqueles anos 70. Etiquetas coladas às caixas exibem a data 1977.
Flávia está pesquisando sobre as atividades de Elza em 1977 – e ela faz isso muito depois dos acontecimentos. Nos dias de hoje – o “hoje” sendo, é claro, a época em que o filme foi produzido e lançado.
Só bem para o final ficamos sabendo que aquela era uma pesquisa encomendada pela própria Elza, quer dizer, Sara Gerber, a uma universidade privada.
Ao longo do seu trabalho de pesquisa, Flávia vai ficando cada vez mais interessada, fascinada pela história de Armando/Marcelo. Bem no final das 2h41 do filme, ela fará uma viagem do Sudeste do país até o Recife, para conhecer os lugares em que se passou a história que ela pesquisou, e tentar encontrar os sobreviventes.
E agora chega, porque falar sobre quem Flávia encontra no Recife, nos dias de hoje, seria spoiler. Embora a esta altura não haja muitos brasileiros que se interessem por cinema e ainda não tenham visto O Agente Secreto…
Laura Lufési, que faz a pesquisadora Flávia, é da classe de 1999, mineira de Itaúna. Foi criada em Azurita, distrito de Mateus Leme (onde, por pura coincidência, a família da Mary tinha um gostoso sítio, em que passei alguns dias). Começou a estudar teatro em Belzonte, perdão, Beagá, perdão, Belo Horizonte, e a partir de 2022 fez EAD, a Escola de Arte Dramática da USP. Até fevereiro de 2026, havia participado de dois trabalhos na TV, duas peças de teatro e dois filmes.
A gente pode não saber, mas a Perna Cabeluda é uma lenda urbana
É obrigatório fazer um registro sobre A Perna Cabeluda.
Há toda uma subtrama em torno de uma perna encontrada na boca de um tubarão, que é enviada para o Instituto Médico Legal e passa a chamar a atenção da imprensa do Recife.
Não é uma subtrama absolutamente solta no espaço. Tem a ver com a vida real – aparecimento de tubarões, como se sabe, é algo comum nas praias pernambucanas. E tem a ver também com a história do filme: o garoto Fernando, o filho de Armando e Fátima, tem pavor de tubarão, tem pesadelos com o bicho – mas, ao mesmo tempo, tem vontade de ver Tubarão, o filme de Steven Spielberg de 1975 que foi aquele extraordinário sucesso mundial.
(Mais tarde, ficaremos sabendo que o avô do garoto, Seu Alexandre, o projecionista do Cine São Luís, acabou levando Fernando para ver o filme – e a partir daí nunca mais teve pesadelos com o bicho.)
Lá pelas tantas, os filhos do delegado Euclides vão ao IML, roubam a perna que havia sido atacada pelo tubarão e a substituem por uma outra. E lançam a perna no Capiberibe – o rio que, segundo os recifenses, ao se encontrar o Beberibe forma o Oceano Atlântico.
A partir daí, passa a haver uma série de violentos ataques de uma Perna Cabeluda a diversas pessoas pelas ruas do Recife. Em uma sequência impressionante, espantosa, a Perna Cabeluda desce porradas duras em casais de homossexuais em um parque da cidade.
A Perna Cabeluda não é uma invenção da imaginação prodigiosa de Kleber Mendonça Machado. É uma lenda urbana que circulou amplamente no Recife dos anos 1970. Uma lenda urbana, uma invenção às vezes baseada, ainda que levemente, em algum evento real que tomou conta do imaginário de um grande número de pessoas – como o E.T. de Varginha, o Chupa-Cabra.
Eu não sabia disso quando vi o filme. Não tinha a menor idéia disso. E fico aqui imaginando o que será que pensaram da Perna Cabeluda os espectadores e também os jurados dos festivais de cinema por onde O Agente Secreto passou arrebanhando prêmios, em Cannes, Biarritz, Chicago, Dallas-Fort Worth, Hamburgo, Jerusalém, Kansas City, Las Vegas, Nova York, Newport, Palm Springs, San Sebastián, Santa Barbara, Estocolmo, Sydney, Toronto, Varsóvia, Vancouver Morelia, Austin, Zurique, Key West, Galdar, Lisboa, Belo Horizonte, Middleburg, Lima, Havana.
(A lista de cidades que sediaram festivais de cinema em que o filme foi exibido não é, ao contrário da Perna Cabeluda, uma lenda urbana – é absolutamente verdadeira.)
Prêmios a rodo. “Um dos melhores do ano”
Lembrando: um ano antes de O Agente Secreto, aquela maravilha que é Ainda Estou Aqui ganhou 86 prêmios e teve 80 indicações. Foram três indicações ao Oscar – melhor filme, melhor filme internacional e melhor atriz para Fernanda Torres; levou a estatueta de melhor filme internacional. Ao Globo de Ouro, foi indicado como melhor filme em língua não inglesa. e Fernanda Torres levou o prêmio de melhor atriz em filme – drama. No Festival de Veneza, teve indicações para melhor filme, melhor diretor para Walter Salles e melhor roteiro; levou estes dois últimos.
Até aqui – meados de fevereiro de 2026, repito –, O Agente Secreto já recebeu 76 prêmios e teve 149 indicações. Aos Oscars, a serem entregues em 15 de março, foram quatro indicações, nas categorias de melhor filme, melhor filme internacional, melhor ator para Wagner Moura e melhor casting para Gabriel Domingues.
Ao Globo de Ouro, foram três indicações. Perdeu na categoria melhor filme-drama, mas levou os prêmios de melhor ator em filme-drama para Wagner Moura e melhor filme em língua não inglesa.
No Festival de Cannes, onde começou sua gloriosa carreira pelos festivais internacionais, levou quatro prêmios: melhor diretor, melhor ator para Wagner Moura, e mais os troféus Fipfesci e AFCAE.
O site RogerEbert.com deu a cotação máxima, 4 estrelas, a The Secret Agent. Eis o início do texto de Matt Zoller Seitz, publicado em 23 de novembro de 2025:
https://www.rogerebert.com/reviews/the-secret-agent-film-review-2025
“De vez em quando, você vê um filme que parece extraído de uma mente sonhadora. Tem uma forte personalidade e estilo visual e se move em seus ´próprios misteriosos ritmos. Ele não vai até você entregar seus significados. Você tem que ir até ele. Assim é The Secret Agent, escrito e dirigido por Kleber Mendonça Filho (Aquarius, Bacurau).
“Passado em 1977, ali pela metade de uma ditadura militar de 21 anos, The Secret Agent é um drama, uma sátira, um filme de espionagem intrigantemente descontraído, e uma recriação de uma época e lugar, com brilhos expressionistas e surreais que devem ser aceitos em seus próprios termos. Wagner Moura estrela como Marcelo, um sujeito alto, barbado, com energia gentil e olhos tristes. Ele chega a Recife, a capital do Estado de Pernambuco, Brasil, em um Volkswagen Beatle amarelo brilhante. Não sabemos por que ele veio para Recife. Não vamos ficar sabendo por um bom tempo. Você tem que captar o subtexto para entender certas conversas. Marcelo e os outros personagens em sua órbita tentar evitar dizer exatamente o que eles querem dizer, porque alguém pode estar escutando.”
Que beleza. O grande Roger Ebert certamente aprovou, lá de sua nuvem, o texto que esse Matt Zoller Seitz escreveu no site que mantém seu nome e sua memória.
Eis como ele termina sua crítica:
“Este é um dos melhores filmes do ano, e um dos mais peculiares. Eu o vi três vezes, algo que raramente faço com filmes novos, porque há tantos aí para ver. Em cada uma das vezes ele ia mais fundo, e batia mais duro. O final assombroso eleva o filme (e a atuação estelar de Moura) para outro plano. Se você estiver disposto a se adaptar à história, The Secret Agent vai levar você a lugares aos quais os filmes raramente vão.”
Aqui, minha opinião pessoal – que vale tanto quanto a de qualquer um
O que vem agora é absolutamente pessoal, intransferível. Não interessa a ninguém – a não ser a mim mesmo. Registro isso porque não me sentiria bem se não falasse isto aqui neste site que é absolutamente pessoal.
Pois bem: ao contrário de 99% das pessoas, ao contrário da Mary (que, sem que eu tivesse falado uma única sílaba, comentou assim que saímos do cinema que tinha percebido o que achei), não adorei o filme, não fiquei deslumbrado por ele.
Não gostei do estilo, do jeito de Kleber Mendonça Filho contar sua história. Não gostei de, até mais de metade dos longos 161 minutos de filme, não estar entendendo o que estava rolando diante de mim. Não gostei dessa opção insistente de ficar exibindo feiúra, essa busca pela estética do horroroso. Não gostei do carnaval de sangueira à la Sam Peckinpah nas sequências climáticas perto do final, com aquele som altíssimo, opressivo, cansativo.
Não é algo racional. É gostar ou não gostar, simpatizar ou não simpatizar, ter empatia ou não ter empatia. Sintonizar ou não.
Não sintonizei. Não gostei.
É óbvio que reconheço a importância do filme, e as muitas, muitas qualidades – e me rendo a elas. Mas, contrariamente a esse sério, devotado crítico Matt Zoller Seitz, não veria O Agente Secreto uma segunda vez, muitíssimo menos uma terceira. A vida é curta.
Anotação em fevereiro de 2026
O Agente Secreto
De Kléber Mendonça Filho, Brasil-França-Países Baixos-Alemanha, 2025
Com Wagner Moura (Armando, codinome Marcelo; e também Fernando, o filho)
Carlos Francisco (Seu Alexandre, o sogro de Armando),
Tânia Maria (Dona Sebastiana, a administradora do refúgio dos foragidos),
Enzo Nunes (Fernando, o filho de Armando quando criança), Robério Diógenes (delegado Euclides), Maria Fernanda Cândido (Elza, codinome de Sara Gerber, a mulher que financia a ajuda aos refugiados), Luciano Chirolli (Henrique Ghirotti, o empresário e diretor da Eletrobrás), Gabriel Leone (Bobbi, o matador jovem), Roney Villela (Augusto, o matador mais velho), Hermila Guedes (Claudia, a refugiada que namora Marcelo), Isabél Zuaa (Tereza Vitória, a refugiada angolana), Licínio Januário (Antonio, o marido de Isabél), Alice Carvalho (Fátima, a mulher de Armando), Laura Lufési (Flavia, a jovem pesquisadora), Thomás Aquino (Arlindo, filho do delegado Euclides), Igor de Araújo (Sergio, filho do delegado Euclides), Gregorio Graziosi (Salvatore Ghirotti, o filho do empresário), Udo Kier (Hans, o sobrevivente do Holocausto), João Vitor Silva (Haroldo. refugiado), Kaiony Venâncio (Vilmar, o matador pé-de-chinelo), Suzy Lopes (Carmem), Buda Lira (Anízio), Beto Quirino (guarda Desidério), Joálisson Cunha (frentista)
Argumento e roteiro Kléber Mendonça Filho
Fotografia Evgenia Alexandrova
Música Mateus Alves, Tomaz Alves Souza
Montagem Matheus Farias, Eduardo Serrano
Casting Gabriel Domingues
Desenho de produção Thales Junqueira
Figurinos Rita Azevedo
Produção Emilie Lesclaux,
Kleber Mendonça Filho, CinemaScópio Produções, ONE TWO Films, Lemming Film, Arte France Cinéma, MK2 Films, Ad Vitam, Primo Content, Rotor Film, Netflix,
Cor, 161 min (2h41)
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