
(Disponível na Netflix em 1/2026.)
Sonhos de Trem/Train Dreams, produção independente norte-americana de 2025, é um filme em tom triste, melancólico, sobre um homem solitário, de natureza introspectiva, meditativa, que trabalha na construção de ferrovias e como lenhador no gelado Norte de Idaho, nas primeiras décadas do século XX.
Ao mostrar os momentos finais da conquista do Noroeste americano, a chegada do progresso, o abate sistemático e incessante de árvores centenárias, e também a perseguição a trabalhadores imigrantes, o filme me pareceu um suave, dolorido, doloroso porém firme clamor contra a situação em que se encontra aquele que até há pouco era o país da democracia, da ciência, do avanço, e hoje é governado por um candidato a ditador, a imperador do mundo, que prega a destruição dos bons valores e nega qualquer tipo de defesa da natureza, do meio ambiente, da convivência pacífica com o planeta e com os semelhantes, sejam de que etnia ou religião.
Seguramente fazer um panfleto contra tudo o que Donald Trump representa não era a intenção do escritor Dennis Johnson, o autor da novella Train Dreams, publicada orginalmente em 2002 na revista literária The Paris Review e depois, em uma versão levemente diferente, em 2011. Mas me pareceu, sim, que o diretor e co-roteirista Clint Bentley quis associar a destruição de florestas e a perseguição aos imigrantes chineses da história a estes tempos sombrios em que o filme foi lançado. Posso estar errado, é claro – mas foi o que senti ao ver este filme tão belo quanto triste. E foi também a opinião da Mary.
Train Dreams tem diversas, diversas qualidades, mas gostaria de destacar, antes de mais nada, duas delas:
* a interpretação de Joel Edgerton, bom ator e bom diretor, como esse triste Robert Grainier é uma maravilha, uma beleza, uma coisa impressionante – e, afinal, ela é a base do filme. Há poucas, bem poucas sequências em que o protagonista não está presente;
* a fenomenal fotografia, que soube aproveitar a imensa beleza das paisagens das florestas do extremo Noroeste dos Estados Unidos – as filmagens foram no Estado de Washington. As muitas sequências que mostram o trabalho dos lenhadores, a derrubada das árvores imponentes, o trabalho de corte dos gigantescos caules – é tudo maravilhosamente bem cuidado, e abrilhantado pelo uso de luz natural. O trabalho do diretor de fotografia Adolpho Veloso, brasileiro de São Paulo, venceu o Critics Choice Award na categoria de melhor fotografia, no inicinho de janeiro de 2026, e recebeu uma indicação ao Oscar.

Um narrador, com a voz em off, vai apresentando fatos
Toda a narrativa de Sonhos de Trem é pontuada pela voz de um narrador – um narrador externo, que não é personagem da história. A voz é do ator Will Patton, da série Yellowstone (2018-2024), entre mais de 120 títulos. É uma vez séria, compenetrada – não empostada, falsa, mas pesada, densa. E o tom com que ele narra a história desse Robert Grainier é um tanto solene, levemente rebuscado, “literário”.
E há um detalhe interessante: o narrador fala de uma história que começou na virada do século XIX para o XX – mas não como se ele estivesse ali, acompanhando os fatos. Não. Ele fala como se estivesse mesmo hoje, no nosso tempo, na época em que o filme foi lançado, 2025.
As primeiras frases vêm logo após os logotipos das companhias produtoras, antes mesmo da primeira tomada, quando a tela ainda está toda negra: “Havia outrora passagens para o mundo antigo.” Vemos agora uma estrada de ferro, um túnel escavado na rocha – como se a câmara fossem os olhos do maquinista. “Trilhas estranhas, caminhos ocultos. Você virava uma esquina e de repente dava de cara com o grande mistério, a base de todas as coisas.”
Tomadas de árvores, plantações, um belo rio que corre suavemente. “E, embora aquele mundo antigo já tenha desaparecido, embora tenha sido enrolado e guardado como um pergaminho, ainda podemos senti-lo ecoando.”
E nesse momento – não chegamos nem a 2 minutos inteiros de filme – há uma tomada extraordinária. A câmara está focalizando de baixo para cima uma árvore altíssima – e ela cai ao chão. Na tomada seguinte, uns seis homens estão cortando a árvore com serras e machados. Um deles é Robert Grainier, o protagonista da história.
A voz em off do narrador continua: “Seu nome é Robert Grainier, e ele viveu mais de 80 anos em Bonners Ferry, Idaho, e arredores. Na sua época, viajou para o Oeste, até poucas dezenas de quilômetros do Pacífico, embora nunca tenha visto o oceano. (…) Quando foi enviado sozinho para a cidade de Fry, Idaho…” (Vemos Robert garotinho, sentado em um vagão de trem.) “… ele tinha seis ou sete anos. Ele nunca soube ao certo o dia ou o ano de seu nascimento, De que maneira ele havia perdido seus pais biológicos, ninguém jamais lhe contou. Uma de suas primeiras memórias foi a de observar a deportação em massa de 100 ou mais famílias chinesas da cidade. Grainier ficou perplexo com a naturalidade da violência.”
A perplexidade diante da violência da deportação em massa de imigrantes. Pode haver referência mais direta ao que acontece nos Estados Unidos na época em que este filme foi lançado, 2025?

Durante algum tempo, a felicidade com a mulher e a filhinha
O narrador prossegue: “Ele parou de ir à escola no início da adolescência, e as duas décadas seguintes se passaram sem muita direção ou propósito. Ele sentia que nada mais despertava seu interesse, até que, por fim, conheceu Gladys Olding.”
Gladys Olding surge na tela quando o filme não completou ainda 4 minutos – e ela vem na pele dessa gracinha de moça que é Felicity Jones.
Bem mais adiante, o narrador dirá que os anos com Gladys foram os mais felizes da vida de Robert Grainier.
O espectador tem todo o direito de achar que aqueles não foram os mais felizes – foram os únicos anos felizes do triste protagonista desta história triste.
A vida do casal não será nada, nada, nada fácil. Muito trabalho duríssimo, e muitas temporadas com Robert trabalhando longe da mulher, seguindo o fluxo dos contratantes de lenhadores, e sempre por pagamentos irrisórios. Mas eles conseguem construir uma pequena casa junto de um belo rio, e, depois de algum tempo, Gladys tem uma filhinha linda, Kate. A vida é muito difícil, mas o casal se ama muito.

“Cada fio que puxamos, não sabemos como influenciará o todo”
Durante uma das temporadas de trabalho longe de casa, abatendo árvores e cortando sua madeira, há um evento que Robert jamais vai esquecer. Ele estava cortando um tronco de árvore em dupla com um jovem chinês – cada um de um lado do tronco largo, cada um puxando para seu lado a grande serra enfiada na madeira – quando chega um grupo de homens, pega o trabalhador chinês, retira-o o dali. Para, logo em seguida, lançá-la de um grande despenhadeiro.
Um crime absolutamente brutal, digno dos homens do ICE, o serviço de imigração, do governo Donald Trump.
A imagem daquele rapaz assassinado por ser imigrante fica na cabeça de Robert, frequentando seus pesadelos e mesmo momentos em que ele está perfeitamente acordado.
Imagens como as de um pesadelo perseguirão Robert ao longo de sua vida – ao longo de toda a narrativa de Sonhos de Trem.
Em vários de seus trabalhos como lenhador, Robert se encontra com um homem já idoso, um especialista em explosivos chamado Arn Peeples (o papel do grande William H. Macy, na foto abaixo). A forma com que Arn Peeples vê o mundo, as observações que ele faz, tudo naquele homem deixa Robert fascinado.
As observações que Arn Peeples faz, numa noite em que os trabalhadores estão reunidos em torno de uma fogueira, são, para mim, o ponto central deste filme tão apaixonadamente preservacionista quanto o mais ferrenho ativista de Partido Verde do planeta.
Acontece quando estamos chegando aos 40 dos 102 minutos do filme. Alguém pergunta: – “Vocês vão em seguida para outro trabalho, ou estão encerrando a temporada?”
Um lenhador idoso, creio que Billy, o papel de John Diehl, comenta: – “Não consigo me decidir. Por algum motivo, eu nunca fico feliz quando o trabalho termina. Sinto uma coceira por dentro.”
Arn Peeples diz: – “É porque é um trabalho duro, senhores, não só para o corpo, mas para a alma. Acabamos de derrubar árvores que estavam aqui há 500 anos. Isso perturba a alma da gente, quer você reconheça ou não.”
Um sujeito mais jovem responde: – “Eu vou ter US$ 200 no bolso pela manhã. Isso não me incomoda. Nem um pouquinho.”
Arn Peeples: – “Isso é porque vocês não sabem nada de História.”
Robert intervém: – “Essas árvores são mesmo tão velhas?”
E Arn Peeples diz as frases definitivas: – “Algumas são mais ainda. Este mundo é cheio de conexões sutis, rapazes. Cada fio que puxamos, não sabemos como influenciará o todo. Somos só crianças neste planeta, tirando parafusos da roda-gigante, pensando que somos deuses.”
Uau! Meu Deus do céu e também da Terra! Que maravilha!

“A história de Robert Grainier me marcou”, diz o diretor
O diretor e co-roteirista Clint Bentley falou sobre essa sequência em uma entrevista a Scott Simon, da VPM, emissora do Public Broadcasting Service (PBS) do Estado da Virginia, em novembro de 2025, pouco depois que o filme – lançado no Sundance Film Festival em janeiro – foi apresentado no Virginia Film Festival.
À pergunta “Por que você quis contar essa história?”, Clint Bentley respondeu: “Sou fã de Denis Johnson há muito tempo. Acho que ele é um escritor espetacular. (…) Fiquei impressionado não só com a beleza e o caráter poético do livro. A história de Robert Grainier de fato me marcou, e me fez lembrar de meu bisavô e minha bisavó, que viveram uma vida rica e bela. Quis pegar a história desse trabalhador, alguém que, quando a ferrovia fica pronta, não tem seu nome gravado em alguma pedra, algum monumento. Eu realmente queria mostrar a riqueza e a beleza daquela vida, e daquela vida simples.”
Mais adiante, o entrevistador fala dos trabalhadores retratados no filme: “E eu tenho que mencionar em particular William H. Macy. Que grande personagem ele faz.”
O diretor responde: “Ah, ele é incrível. Como muitos de nós, sou fã dele há muito tempo, e cresci vendo seus filmes. E Arn Peeples é realmente um personagem magnético, tipo maior do que a vida no livro. Nós o expandimos. É de fato um testamento aos dons e às habilidades de William H. Macy como ator pegar aquele personagem e transformá-lo em algo inesquecível.”
O entrevistador Scott Simon comenta: “Há um momento em que o personagem de William H. Macy – o especialista em explosivos – está sentando junto à fogueira, e ele diz, acabamos de cortar árvores que estiveram aqui por 500 anos.”
Clint Bentley: “Sim. Há alguns momentos como esse em que William H. Macy faz seu personagem. E muitas vezes eu acho que nós sentimos, como seres humanos, que nós ficamos fora da natureza, tipo voamos acima dela, e esquecemos como somos tão profundamente entrelaçados com essa coisa que parece distante de nós como, por exemplo, uma corrente oceânica profunda ou algumas árvores muito, muito antigas que estão aqui há mais tempo do que o próprio país – e eu só queria reconhecer isso, que tudo está interligado, que uma vez que começamos a desfazer essa interligação, realmente não sabemos qual será o resultado final de tudo isso.”

O filme tinha, em janeiro, 153 indicações – quatro ao Oscar
Clint Bentley nasceu em uma fazenda de gado na Flórida, em 1985, quando eu já via bons filmes com minha filha maravilhosa aos 10 anos de idade. Estreou como roteirista de longa-metragem em 2016, com Do Outro Lado da Fronteira/Transpecos, sobre agentes de fronteira dos Estados Unidos que descobrem um cartel de drogas mexicano. O roteiro foi escrito a quatro mãos com Greg Kwedar, que viria a ser um fiel colaborador de Bentley, Os dois assinaram, com mais três companheiros, o roteiro de Sing Sing (2025), dirigido por Kwedar, que teve uma indicação ao Oscar de melhor roteiro adaptado. O roteiro deste Train Dreams também é assinado por Bentley e Kwedar.
Antes de Train Dreams, Bentley havia dirigido três curta-metragens, entre 2008 e 2017, e um único longa, Jockey, de 2021, inspirado na vida de seu pai, já então falecido, que havia sido jóquei e treinador de cavalos.
Em janeiro de 2026, quando vimos o filme e escrevo este comentário – com a temporada das premiações apenas começando, portanto –, Sonhos de Trem já havia tido nada menos de 153 indicações e vencido 21 prêmios, entre eles o já citado Critics Choice Award de melhor fotografia para o paulistano Adolpho Veloso.
Ao Oscar, o filme teve quatro indicações, inclusive a mais importante, a de melhor filme. Outra, como já foi dito, exatamente na categoria de melhor fotografia para Adolpho Veloso. As outras foram para roteiro adaptado e canção original, para “Train Dreams”, escrita por Nick Cave e Bryce Dessner.
Ao Globo de Ouro, o filme teve duas indicações – na categoria de melhor ator em filme – drama para Joel Edgerton e na de melhor canção original em filme.
A canção é apresentada pela voz inimitável de Nick Cave durante os créditos finais do filme – e o IMDb informa que, quando Train Dreams teve sua estréia mundial no Sundance Film Festival, aquela espécie de Festival de Cannes do cinema independente, a música ainda não existia. Foi acrescentada depois daquela primeira apresentação.
O que me leva a registrar que Nick Cave é australiano, assim como Joel Edgerton, o ator que interpreta esse herói norte-americano que é Robert Grainier. A gracinha da Felicity Jones é de Birmingham, Inglaterra. E o diretor de fotografia Adolpho Veloso é, como já foi dito mais de uma vez, é brasileiro de São Paulo.
Ao contrário do que acontece no seu filme, em que há expulsão em massa de imigrantes chineses, ao contrário do que acontece em seu país hoje, o americano da Flórida Clint Bentley demonstra não ser xenófobo.
Quando há gente de todo lugar, fazem-se grandes filmes – e grandes países.
Anotação em janeiro de 2026
Sonhos de Trem/Train Dreams
De Clint Bentley, EUA, 2025
Com Joel Edgerton as Robert Grainier
Felicity Jones (Gladys Olding Grainier),
Kerry Condon (Claire Thompson, a funcionária do serviço florestal), William H. Macy (Arn Peeples, o especialista em explosivos), Will Patton (o narrador), Nathaniel Arcand (Ignatius Jack, o comerciante amigo de Robert), John Diehl (Billy, um velho lenhador), Paul Schneider (Apostle Frank, o lenhador que fala muito), Clifton Collins Jr. (Boomer, o homem ferido que Robert encontra quando criança), Alfred Hsing (Fu Sheng, um lenhador chinês), Chuck Tucker (o homem silencioso), Rob Price (o lenhador curioso), Beau Charles (um jovem lenhador)
Roteiro Clint Bentley & Greg Kwedar
Baseado na novella “Train Dreams”, de Denis Johnson
Fotografia Adolpho Veloso
Música Bryce Dessner
Montagem Parker Laramie
Desenho de produção Alexandra Schaller
Direção de arte Erin O. Kay, John Lavin
Casting Avy Kaufman
Figurinos Dakota Keller, Malgosia Turzanska
Produção Michael Heimler, Will Janowitz, Marissa McMahon, Ashley Schlaifer, Teddy Schwarzman, Black Bear, Kamala Films.
Cor, 102 min (1h42)
***

Ótima resenha!
Muito obrigada!
Vou assistir no cinema quando for a São Paulo.
Esta belíssima fotografia merece uma boa sala de cinema.