O Que Tiver Que Ser / Släpp Taget

3.0 out of 5.0 stars

(Disponível na Netflix em 4/2025.)

“Comunicação é tudo. Validar um ao outro, compartilhar preocupações, medos, tristeza, alegria. Um motivo comum do fim da paixão numa relação é não dar valor às coisas, é um parar de notar o outro.”

Essas verdades básicas, óbvias, autênticos truísmos, tão básicas e óbvias quanto por exemplo o fogo é quente ou o gelo é frio, são as primeiras palavras que o espectador ouve em O Que Tiver Que Ser, belo, sensível drama sueco de 2024. São ditas pelo psicólogo Gustav, um dos protagonistas da história, a um casal de pacientes em seu consultório.

Casa de ferreiro, espeto de pau. Faça o que eu diga, não faça o que faça.

Na sua vida, Gustav não pratica o que prega para seus pacientes – muitíssimo ao contrário. Nem sua mulher, Stella. Os dois estão aí na faixa dos 40 e tantos anos, têm um casal de filhos, uma adolescente bem aborrescente de uns 15, 16 anos, e um garoto de uns 5. Já foram felizes, no passado, mas agora não se comunicam, não se falam, não compartilham preocupações, medos, tristeza, alegria. O casamento está no fundo do poço.

Não se comunicam, não se falam – e cada um guarda do outro um segredo muito importante. Ele vai finalmente contar o seu segredo para ela bem no início da narrativa. O segredo dela o espectador vai ficar sabendo bem mais adiante, quando estamos com 54 dos 110 minutos do filme – e ela só vai ter coragem de contar para ele quando estamos chegando ao final.

O filme conta os acontecimentos de alguns poucos dias da vida deste casal em crise, prestes, talvez, a deixar de ser um casal – tudo mostrado com imensas, maciças doses de talento e sensibilidade.

Gustav é o papel de Pål Sverre Hagen, 44 títulos no currículo, exatamente sua idade no ano em que o filme foi lançado. Stella é interpretada por Josephine Bornebusch, 41 anos de idade em 2024 – que é também autora da história original e do roteiro, produtora executiva e diretora deste belo filme.

É muito impressionante essa mulher, meu Deus do céu e também da Terra. Escreve bem, atua maravilhosamente e dirige com a segurança, a firmeza e o talento dos veteranos.

Quero fazer logo de uma vez um registro sobre o título. O original é Släpp Taget – segundo o tradutor do Google, “solte”. No Reino Unido e nos EUA, ele foi lançado como Let Go. Na Espanha foi Aprender a Soltar, e os franceses seguiram no mesmo tom, na mesma idéia, acrescentando apenas uma interrogação, o que me pareceu um tanto estranho: Tout Lâcher?

Portanto, em inglês, em francês, em espanhol, os distribuidores seguiram o título original. Solte, deixe pra lá.

Lá pela metade do filme, quando finalmente Stella e Gustav começam a tentar se falar novamente, a se comunicar, ele diz para ela algumas vezes o que é o título original, släpp taget. As legendas em Português brasileiro da Netflix usaram “desencane”. Bem sacado. Solte, deixe pra lá, deixe rolar. Desencana que a vida engana.

Mas vamos ao começo do filme.

Em menos de 3 minutos, 23 tomadas que apresentam a família

         A gente deveria ter tempo para rever as aberturas dos filmes de que gosta. Há muitos pequenos detalhes que, ao ver pela primeira vez, a gente não nota, não percebe direito. Revi agora, voltando atrás muitas vezes, os primeiros minutos deste Let Go, deste Aprender a Soltar, e é impressionante, é uma maravilha.

A primeira frase falada por Gustav-Pål Sverre Hagen, “Comunicação é tudo”, o espectador ouve antes de ver a primeira imagem do filme, enquanto ainda estão aparecendo os nomes das empresas produtoras.

Enquanto vamos ouvindo os conselhos que o psicólogo Gustav tem a dar para o casal de pacientes – mas ele mesmo não pratica, não segue – , vamos vendo, em montagem ágil, mas não frenética, nada frenética, as seguintes tomadas:

* Close-up de um cãozinho de pelúcia, pequenino, cuja cabeça fica balançando;

* Close-up de uma mulher dirigindo seu carro, em um dia de chuva – veremos que é Stella, a protagonista;

* Super hiper big close-up só dos olhos azuis do homem que está falando sobre os relacionamentos afetivos, o psicólogo Gustav; eu, pessoalmente, acho essa coisa de super hiper big close-up um tanto besta, a não ser que haja uma necessidade dramática, o que não é o caso aqui, mas paciência;

Vão rolando os créditos iniciais. Não sei se dá para o espectador normal, não especialissimamente atento, perceber que, sobre aquela rápida tomada da mulher, surgiu o nome da atriz, Josephine Bornebusch, e na rápida toma dos olhos do homem, o nome do ator, Pål Sverre Hagen;

* Um novo close-up de Stella ao volante de seu carro; batem no vidro, ela baixa para ouvir;

* A câmara dentro do carro mostra Stella de perfil e, lá fora, um guarda de trânsito dizendo que ela tem cinco minutos no máximo;

* Tomada de fora do carro, mostrando o rosto de Stella, ela dizendo que só vai pegar o filho; os créditos iniciais continuam rolando; a voz em off de Gustav continua falando, pausadamente:

* Tomada de dentro do carro, Stella guarda uma pasta com papéis dentro da sua grande bolsa, desliga o carro, abre a porta e desce;

* Close-up de Gustav, que continua falando com seus pacientes;

* Plano de conjunto de um salão em que meninas, adolescentes, estão tendo aula de pole dance; a instrutora diz que aquele é o último dia para as inscrições;

* Close-up de uma das garotas, uma que tem parte dos cabelos castanho-claros pintados de azul; veremos que é Anna, a filha aborrescente de Gustav e Stella, que deve ter uns 17 anos (Sigrid Johnson, a atriz que faz Anna, é de 2006, estava portanto com 18 anos quando o filme foi lançado);

* Tomada da instrutora entregando a Anna um formulário a ser assinado pela mãe;

* Nova tomada mostra Anna e a instrutora, Lulu (o papel de Louise Sondlo Zapata);

* Tomada de duas crianças brigando no chão de areia;

* Tomada do consultório de Gustav, que tem uma parede de vidro; do outro lado da parede de vidro há uma mulher jovem; ela e Gustav fazem contato visual, os dois sorriem;

* Novo close-up de Gustav, ele sorrindo;

* Close-up dos pés de um garoto de uns 5 anos caminhando no que – dá para perceber – é o pátio de sua escola;

* Plano de conjunto mostrando o garoto, visto de costas, chutando repetidamente uma parede;

* Plano de conjunto de Stella chegando perto do garoto e dizendo “Oi, filho”.;

* Close-up mostrando Stella de costas, ajoelhada, bem perto do filho, Manne (Olle Tikkakoski), começando a conversar com ele; Manne usa uma grande máscara colorida;

* Outra tomada mostrando Stella e Manne, agora com a câmara do outro lado, o rosto de Stella bem visível, os dois conversando;

* Tomada com a câmara novamente atrás de Stella, Manne visto de frente – embora não vejamos seu rosto, completamente coberto pela grande máscara;

* Nova tomada dos dois, de novo com a câmara na posição inversa da anterior, o rosto de Stella bem visível, ela abraçando forte o filho; ela se levanta, pega o garoto no colo;

* Close-up de um formulário – logo veremos que é o formulário para inscrição em uma competição de pole dancing, em uma cidade distante daquela em que vive a família, Estocolmo, segundo suponho. Se o espectador estiver bem atento, e tiver a vista maravilhosa, talvez consiga ler o que eu só consegui ler dando pausa: o trecho “under 18 år” está em negrito, e abaixo dele há um traço para a assinatura do pai, mãe ou responsável do menor de 18 anos. Uma legenda ajuda, resolve: “Se o participante for menor de 18”.

A tomada seguinte já mostra que Anna está em seu quarto, com a porta fechada, diante da mesa em que está o formulário. A mãe bate na porta, diz que o jantar está servido, e a aborrescente responde aos berros que já ouviu.

Estamos aí com menos de 3 minutos de filme. Em menos de três minutos, foram, se minha conta estiver certa, 23 tomadas diferentes, em que, enquanto a voz de Gustav falava pausadamente, somos apresentados aos quatro membros da família. Não imaginava que fossem tantas tomadas, quando resolvi enumerá-las, relatá-las aqui. Levei um tempo imenso para descrever o que no filme rola em menos de 3 minutos.

Uma tristíssima sequência mostra a família em frangalhos

Vai começar, então, uma sequência longa em que acompanhamos o jantar da família, e percebemos claramente aquela verdade triste: o casamento dos protagonistas da história está no fundo do poço. Acabou. Já era.

É uma sequência bem triste de se ver.

Logo depois de chamar a filha para o jantar, Stella bate o olho em um papel que está bem à vista, na sacola da garota pendurada no corredor. É o tal formulário de inscrição em concurso de pole dance, em que Anna falsificou a assinatura da mãe. Quando a garota sai do quarto e vai para a sala, a mãe começa uma bronca feia por causa da falsificação. Anna responde aos berros que não é certo xeretar na bolsa dos outros – e começa uma daquelas discussões dolorosas. Ao mesmo tempo, Manne, o caçula – que não pode comer glúten – reclama que quer comer o mesmo macarrão dos outros. Estão os três falando ao mesmo tempo quando Gustav chega em casa. Entretidas na discussão, a mulher e a filha sequer dão boa noite a ele. Depois de gritar muito, Anna se levanta da mesa falando aquele palavrão nesse esperanto natural que é o inglês. E o garotinho Manne imita a irmã, levanta-se, grita “Fuck you” e sai da sala.

Sequência triste – e bela, muitíssimo bem encenada, atores excelentes.

Gustav e Stella estão sozinhos à mesa.

– “Quero o divórcio”, ele diz.

Uma viagem da família. Depois se discutirá o divórcio

O quadro que o filme apresenta para o espectador nas discussões entre Gustav e Stella que virão a partir daí é basicamente assim:

O marido foi se afastando do convívio com a família, ao longo dos últimos anos. Foi se concentrando no trabalho – e na amante, Angela (Lola Zackow), a moça que foi mostrada de relance em uma daquelas mais de 20 tomadas da abertura. Tornou-se, além de um marido distante, um pai absolutamente ausente.

Em vez de chamar a atenção do marido ao menos para o fato de que ele estava virando um pai ausente, sem saber o que acontecia na vida de Anna e de Manne. Stella foi, ao longo dos anos, assumindo para si todas as tarefas da casa e todas as obrigações com relação aos filhos.

E ainda havia os segredos que cada um escondia do outro. O dele – a existência da amante – é revelado pouco depois do pedido de divórcio. O dela, como já foi dito, o espectador perceberá no meio do filme – e Gustav só ficará sabendo no final da narrativa.

A tempestade perfeita.

Mas Stella se nega a admitir o divórcio – pelo menos de imediato. Argumenta que aquele concurso de pole dance em que a filha se inscreveu – e que seria realizado, por coincidência, pertinho da cidade dos pais de Gustav – é tremendamente importante para ela. E exige que a família viaje unida no fim de semana do concurso.

Depois da viagem – ela diz, firme, decidida –, os dois poderão falar do divórcio.

Gustav não vê alternativa. Tem que aceitar.

Isto que levei montanhas de parágrafos para relatar é apenas o ponto de partida da trama. Quando os quatro embarcam para a viagem, estamos com 15 minutos de filme.

O Que Tiver Que Ser é a história da viagem da família à cidade dos pais de Gustav para o concurso de pole dance da garota Anna. Do que vai acontecendo na viagem, da forma com que o casal vai lidando com a situação.

Uma diretora que quer falar de família, vida em família

Josephine Bornebusch nasceu em Estocolmo, em 1981, e, ainda criança, participou de um grupo de teatro. Começou a carreira profissional aos 18 anos, em uma série dramática da TV sueca, Rederiet (1999). Sua filmografia como atriz tem 36 títulos, mas a mulher de fato faz tudo: é produtora, diretora e roteirista. Este O Que Tiver Que Ser é seu nono título como diretora e o oitavo como roteirista.

E tem um fôlego incrível: entre 2023 e 2024, além de escrever, dirigir e atuar neste filme aqui, ela dirigiu três episódios da excelente série britânica Bebê Rena/Baby Reindeer.

Exatamente com sua personagem Stella, tem dois filhos, um garoto e uma garota.

Quando a Netflix anunciou o início da produção do filme, Josephine Bornebusch declarou em entrevista: “Eu tenho uma propensão a escrever sobre reconhecimento, famílias, a vida nos momentos mais comuns – com tudo em que isso implica. Tristeza, felicidade, amor, traição.”

Ainda bem que ela tem essa propensão. Ainda bem que Josephine Bornebusch existe.

Anotação em abril de 2025

O Que Tiver Que Ser/Släpp Taget

De Josephine Bornebusch, Suécia, 2024

Com Josephine Bornebusch (Stella),

Pål Sverre Hagen (Gustav),

Sigrid Johnson (Anna, a filha adolescente), Olle Tikkakoski (Manne, o filho caçula), Leon Mentori (Gabriel, o adolescente, filho de Liz e Frank), Tone Danielsen (Astrid, a mãe de Gustav), Niklas Falk (Arild, o pai de Gustav), Irma Jämhammar (Liz, a mulher do salão), Mathias Lithner (Frank, o marido de Liz), Lola Zackow (Angela, a amante de Gustav), Louise Sondlo Zapata (Lulu, a instrutora de pole dancing)

Argumento e roteiro Josephine Bornebusch

Fotografia Ragna Jorming

Música Uno Helmersson

Montagem Sarah Patient Nicastro

Casting Victoria Svanell

Desenho de produção Cian Bornebusch

Figurinos Clara Ahlström

Produção Sofie Palage, Warner Bros. International Television Production Sverige, Netfliz.

Cor, 110 min (1h50).

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Título no Reino Unido e nos EUA, “Let Go”. Na França, “Tout Lâcher?”. Em Portugal, “Vamos Ficar Bem”.

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