O Longo Trajeto/ The Long Haul

3.0 out of 5.0 stars

(Disponível no Era Uma Vez o Cinema no YouTübe em 9/2025.)

Quando o protagonista da história e a loura belíssima se beijam (e ali já se passaram 27 minutos do filme que dura apenas 88), não há uma melodia suave, romântica. Muitíssimo ao contrário. O que ouvimos são acordes duros, pesados, fortes, apropriados para um momento de tensão, de horror.

Nada mais correto que aqueles acordes do compositor Trevor Duncan na trilha sonora de O Longo Trajeto/ The Long Haul, produção britânica de 1957. Naquele momento, naquele beijo, fica absolutamente comprovado: a partir dali, a vida de Harry Miller passará a ser um inferno. Em Português mais solto, o cara se ferrou.

Harry Miller é um sujeito digno, correto. Um bom caráter. Quando a narrativa começa, ela é um soldado norte-americano alocado na Alemanha ocupada pelos Aliados logo após o final da Segunda Guerra Mundial. Seu trabalho, a maior parte do tempo, era dirigir caminhões do Exército. Vivia lá em quartel com a mulher, Connie (Gene Anderson, na foto abaixo) e o filhinho de uns 5, 6 anos, Butch (Michael Wade), que ele adora de paixão.

Vem a notícia da dispensa. Harry fica exultante com a perspectiva da volta para casa, onde seu maior amigo, Al, o quer como sócio no pequeno negócio que abriu. Connie, inglesa de Liverpool, no entanto, não quer saber daquilo: gostaria de voltar para sua cidade. Seu tio George (Wensley Pithey), dono de uma transportadora, seguramente teria um emprego para ele.

Por amor à mulher, Harry topa passar uma temporada na cidade dela. Emprega-se com o tio George como caminhoneiro.

Pouco tempo depois, surge muita sujeira na sua vida. Reina imensa podridão no mundo das transportadoras de carga da Inglaterra e da Escócia. E surge ainda essa Lynn, mulher belíssima, uma perfeita flor no meio do lodo – a amante teúda e manteúda de um bandidaço dono de uma transportadora na Escócia, Joey Easy (Patrick Allen).

Quando, aos 27 minutos do filme, Harry beija Lynn, ele não apenas está explodindo seu casamento. Está se tornando o inimigo número 1 de um bandidaço poderoso.

Harry é o papel de Victor Mature, tido por alguns como o maior careteiro da História do cinema. E Lynn vem na beleza absurda de Diana Dors, a mulher que se proclamou “o único símbolo sexual que a Grã-Bretanha produziu desde Lady Godiva”.

Estavam no auge de suas carreiras. Victor Mature vinha de Sansão e Dalila (1949), O Manto Sagrado (1953), O Príncipe de Bagdá (1953). Diana Dors era chamada de “a Marilyn Monroe britânica”.

Um triste drama, um mundo de corrupção e crime

Victor Mature e Diana Dors são boas qualidades deste The Long Haul, mas há várias outras. É um bom filme, um triste drama, um apavorante mergulho em um mundo de corrupção e crime.

A trama é impressionantemente rica. São trocentos acontecimentos, fatos, histórias que se encadeiam, se interligam, se entrelaçam. Dá até preguiça de fazer uma sinopse. Pego a da Wikipedia como base, embora algumas das informações mais fundamentais eu já tenha adiantado aí acima.

Harry Miller, um sub-oficial do Exército dos Estados Unidos, deixa a Alemanha ocupada pelos Aliados depois da sua dispensa, e é persuadido por Connie, sua mulher inglesa, a morar em Liverpool. Lá ele passa a trabalhar como motorista de caminhão na empresa de transporte de um tio da mulher, George.

Encarregado de levar um carregamento até Glasgow, na Escócia, seguindo o caminhão de um colega, Casey (Liam Redmond), Harry se surpreende ao ver, em uma parada que os dois fazem junto de um posto e lanchonete, que dois homens estão roubando parte da carga do veículo do outro. Enfrenta os dois ladrões na porrada – mas ele, assim como o espectador, percebe que os bandidos agiam em conluio com Casey.

Em Glasgow, boa parte do esquema de fretes é dominada pelo mafioso Joey Easy. Por conta disso, Harry não consegue obter carga para ser levada até Liverpool – e é espancado pelos tais dois bandidos, que trabalham para esse Joey.

Acaba sendo socorrido e ajudado por uma mulher belíssima, Lynn, que estava saindo do escritório de Joey e indo para casa. Lynn – o espectador fica sabendo logo – havia no passado trabalhando como dançarina em boates na Inglaterra; Joey surgira na sua vida, e ela se tornara amante do bandidaço. Não por amor, mas seguramente pela grana e pela insistência dele. Vê-se que Joey é um sujeito violento, que não a trata bem, e ela gostaria mesmo era de escapar daquele relacionamento.

Quando mais tarde a bela mulher se reencontra com Harry, exatamente após ser agredida por Joey em um bar, pede a ajuda dele para levá-la para longe do bandido.

É quando acontece o beijo citado na abertura deste texto.

Como foi dito, o beijo acontece quando estamos com 27 minutos de filme. Muita, muita, mas muita água vai rolar sob a ponte depois disso – e não vejo sentido em relatar o que vem a seguir. Até porque há várias surpresas.

Mas é obrigatório registrar que, mais para o final da narrativa, haverá o longo trajeto, the long haul de que falam os títulos, o original e o brasileiro: Harry vai dirigir um caminhão cheio de peles de animais – uma carga valiosérrima – por um caminho perigosíssimo, não mais que uma trilha, através de uma montanha, tendo a seu lado na boléia do caminhão Joey e Lynn. Os integrantes do triângulo amoroso juntos, ao vivo, fugindo da polícia e numa trilha cheia de perigos.

E aqui é preciso dizer – não é spoiler, de forma alguma – que toda essa sequência do caminhão em fuga é extraordinariamente bem realizada. Uma coisa fantástica, fascinante. É tudo tão bem feito, o realismo é tal que Mary e eu ficamos literalmente sem fôlego, angustiados, diante dessa sequência.

Um diretor competente, embora hoje não lembrado

Ken Hughes. Esse é o nome do cara que escrevei o roteiro e dirigiu, com competência impressionante, este The Long Haul – um nome hoje que seguramente não é muito lembrado.

Ken Hughes, nascido em Liverpool, exatamente a cidade em que se passa boa parte da trama, em 1922; morreria em Los Angeles, em 2001. Sua filmografia como diretor tem 35 títulos; a como roteirista é maior, com 49 títulos. Os Crimes de Oscar Wilde, que ele roteirizou e dirigiu em 1960, foi indicado aos Baftas de melhor filme e melhor filme.

Eis o que diz dele o Dicionário de Cinema – Os Diretores, de Jean Tulard:

“Foi, na seqüência, projecionista, engenheiro de som, assistente e realizador de uma boa dezena de curtas-metragens. Conhece o ofício. Isso se comprova com a sua excelente transposição do tema de Macbeth para o universo dos gangsters (Joe Macbeth); no perturbador e fascinante Servidão Humana, baseado em S. Maugham; em Cromwell, uma notável obra histórica magnificamente estrelada por Richard Harris como Cromwell e Alec Guiness como Carlos I, bem como no aterrorizante Olhos do Terror, em que o assistente de um professor de antropologia cortava a cabeça dos alunos de seu mestre, depositando-as nos lugares mais inesperados, como num aquário, uma pia ou um vaso sanitário.”

O roteiro deste The Long Haul é a adaptação do romance de mesmo nome lançado em 1956, de autoria de Mervyn Mills (1906-2000). A Wikipedia traz uma avaliação do romance publicada pelo The Independent no obituário do autor: “(O livro) surgiu de suas viagens pela Grã-Bretanha do início do pós-guerra em uma motocicleta, antes do advento das auto-estradas, quando absorveu, na Great North Road, um pouco da vida dos motoristas de caminhão de longa distância, seus cafés de beira de estrada e as pessoas, muitas vezes mulheres, que os frequentavam. O livro foi rejeitado por 12 editoras e aceito pela 13ª, e mesmo assim Mills teve que lutar por sua integridade artística com o diretor e editor geral Lovat Dickson para manter os trechos mais ousados. Depois de tantas rejeições, isso exigiu coragem.”

Apesar das muitas décadas de convivência com a língua inglesa, eu não conhecia as palavras haul e haulage (ou não me lembrava, o que dá no mesmo). Vejo no dicionário Exitus que as duas têm as mesmas acepções –

transporte, carreto, frete, Haul tem ainda o significado de distância percorrida no transporte. Tanto a empresa honesta do tio de Connie quanto a empresa do criminoso Joey Easy têm a palavra Haulage no nome: “Mills Haulage” e “Easy Haulage”.

Segundo o IMDb, os executivos da Columbia, que produziu o filme, pensaram em Marlon Brando e Robert Mitchum para o papel central que acabou indo para Victor Mature.

Maltin e o guia de Tulard menosprezam o bom filme

Leonard Maltin deu 2 estrelas em 4 ao filme e tascou o seguinte: “Mature é motorista de caminha cujo casamento turbulento abre caminho para que ele se envolva com bandidos. Coisa menor”.

Em seu monumental Guide des Films, Jean Tulard fez uma breve sinopse de Les Trafiquants de Nuit, como o filme foi chamado na França: “Um antigo GI, motorista de caminhão, se deixa enredar em uma operação suspeita por uma quadrilha de contrabandistas”. E avalia o filme em uma rápida frase: “Filme noir à inglesa”.

Pois é… Não acho corretas nem a sinopse super sintética de Maltin, nem sua avaliação de que é coisa menor. O casamento de Harry e Connie não era turbulento. Ao contrário, o que o filme mostra é que eles viviam bem na Alemanha; Connie reclamava de mudar de quartel para quartel, mas os dois se amavam, e amavam o garotinho Butcjh (Michael Wade, uma gracinha). Tudo bem: surge um problema quando ele é dispensado do Exército, sonha em voltar para os Estados Unidos e ela diz que não quer, que deseja ficar ao menos um tempo na sua cidade, Liverpool. Surgirá na vida dele a loura linda, e, bem mais tarde, bem perto do finalzinho da narrativa, será revelado um problema sério, mas, até então, o casamento não era turbulento. E não foi o casamento que abriu caminho para que ele se envolvesse com bandidos.

E acho que reduzir Les Trafiquants de Nuit a apenas “film noir à l’anglaise” é pouco.

O IMDb encaixa o filme em quatro gêneros: noir, crime, drama e suspense. Acho isso mais correto do que reduzi-lo a apenas noir. Ele tem, sem dúvida, características, tom, de um autêntico noir. Mas The Long Haul é também um forte drama social.

Nessa coisa de ir fundo em um ambiente sujo, corrupto, o filme de Liverpool faz lembrar Sindicato de Ladrões/On the Waterfront, que o grande Elia Kazan havia lançado apenas três anos antes, em 1954. Nele, Marlon Brando interpreta um ex-pugilista que trabalha como estivador no porto de Nova York e enfrenta o esquema de corrupção dos líderes sindicais.

Ao mostrar a vida dura – e muitas vezes perigosa – dos motoristas de caminhão, ele se aproxima de outro filme de sua época, o incensado O Salário do Medo, de Henri-Georges Clouzot (1953), com Yves Montand como um dos quatro homens que têm que transportar uma carga de nitroglicerina por estradas horrorosas na Venezuela.

Aproxima-se também de outro filme francês da mesma época, Noites de Bruma/Gas-Oil, de Gilles Grangier (1955), sobre um caminhoneiro honesto, trabalhador, benquisto por todos (o papel de Jean Gabin), que se vê envolvido em um caso policial – sem ter feito absolutamente nada de errado, torna-se para a polícia um suspeito e para um grupo de bandidos um alvo a ser perseguido e quem sabe abatido.

Ao tratar da chegada de uma mulher que ameaça seriissimamente um casamento, o filme tem um lado de melodrama dos mais melodramáticos, daquelas à la Douglas Sirk.

E, além de tudo, tem a beleza acachapante de Diana Dors.

Anotação em setembro de 2025

O Longo Trajeto/ The Long Haul

De Ken Hughes, Reino Unido, 1957.

Com Victor Mature (Harry Miller)

Diana Dors (Lynn)

e Patrick Allen (Joe Easy, o bandidaço), Gene Anderson (Connie Miller, a mulher de Harry), Peter Reynolds (Frank, irmão de Lynn e contador de Joe Easy), Liam Redmond (Casey, o colega corrupto de Harry),John Welsh (médico), Meier Tzelniker (Nat Fine), Michael Wade (Butch Miller, o filhinho de Harry e Connie), Wensley Pithey (George H. Mills, o tio de Connie), Dervis Ward (Mutt), Murray Kash (Jeff),Jameson Clark (MacNaughton), John Harvey (superintendente Macrea), Roland Brand (sargento do Exército)

Roteiro Ken Hughes

Baseado no romance homônimo de Mervyn Mills

Fotografia Basil Emmott

Música Trevor Duncan

Montagem Raymond Poulton

Desenho de produção Thomas N. Morahan

Direção de arte John Hoesli

Produção Maxwell Setton, Columbia Pictures.

P&B, 88 min (1h28)

***

Título na França: “Les Trafiquants de Nuit”. Em Portugal: “Esta Curva é Perigosa”.

Comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *