
(Disponível na Prime Video em 4/2025.)
A Virgem Vermelha, co-produção Espanha-EUA de 2024, é um ótimo filme. A direção da espanhola Paula Ortiz é firme, segura, madura; todo o elenco está muito bem, as interpretações das três atrizes principais, Najwa Nimri, Alba Planas e Aixa Villagrán, são extraordinárias; fotografia, direção de arte, montagem – há excelência em todos os quesitos técnicos.
No entanto, quando o filme estava ali pelos 20, 25 dos seus 114 minutos, pensei seriamente em parar de ver. É uma das histórias mais apavorantes, mais assombrosas, mais assustadoras que já vi na minha longa vida. Parece um misto de filme de terror com ficção científica, uma daquelas visões pavorosas de uma absoluta distopia – e é uma história real.
Terminado o filme, Mary e eu fomos à internet, e, pelo que mostra uma pesquisa ainda que rápida, é impressionante como o roteiro – assinado por Eduard Sola e Clara Roquet – é fiel à verdade dos fatos.
Por mais inacreditável que seja, aquela história aconteceu mesmo, aquelas duas pessoas, mãe e filha, existiram mesmo, na Espanha da primeira metade do século XX – a ação se concentra nos anos 1930, da queda da monarquia, em 1931, até o período imediatamente anterior ao início da sangrenta guerra civil, em 1936.
Aurora Rodríguez, uma eugenista originária da Galícia, criou a filha Hildegart (as duas nas fotos abaixo) com uma disciplina de uma rigidez inimaginável, com o objetivo de que ela se transformasse em um fenômeno. Conseguiu: entre os 15 e os 18 anos, a garota escreveu 16 livros de ensaio e mais de 150 artigos. Foi militante política no Partido Socialista Operário Espanhol e do Partido Republicano Democrático Federal, e membra ativa da Liga Mundial para a Reforma Sexual e da Liga Espanhola para a Reforma Sexual sobre Bases Científicas. Não chegou a fazer 19 anos: foi assassinada com três tiros.

Foi o quarto filme sobre Hildegart, e há uma dezena de livros
O fato de eu nunca ter ouvido falar na história incrível de Hildegart Rodríguez e de sua mãe Aurora apenas confirma pela milionésima vez que a gente jamais pode se considerar bem-informado, pois sempre há coisa demais que a gente desconhece. É uma história bastante conhecida e falada – mesmo que o filme afirme, naqueles letreiros ao final da narrativa, comuns em obras baseadas em fatos reais, que a obra de Hildegart Rodríguez tenha caído no esquecimento após a Guerra Civil Espanhola.
Aprendi, logo depois de ver o filme da realizadora Paula Ortiz de 2024, que este aqui foi pelo menos o quarto sobre Hildegart e sua mãe Aurora. Em 1977 foi lançado Mi Hija Hildegart, de Fernando Fernán Gómez, com Amparo Soler Leal no papel de Aurora Rodríguez e Carmen Roldán como Hildegart. Em 2011 foi feito um curta-metragem, The Red Virgin, dirigido por Sheila Pye, com Iana Boquero como Hildegart e Maribel Verdú como Aurora. E, em 2021, apenas três anos antes deste filme aqui, foi lançado um documentário de animação, A Virxe Roxa, falado em galego.
Em 1972, foi publicado o livro Aurora de Sangre: Vida y Muerte de Hildegart, de autoria de Eduardo de Guzmán, jornalista e editor que é personagem deste A Virgem Vermelha de Paula Ortiz. Foi o primeiro de uma série de pelo menos dez livros sobre Hildegart e Aurora Rodríguez, segundo levantamento da Wikipedia em espanhol.
“Nasceu para mudar o mundo, mas não teve tempo”
O filme abre com uma voz de mulher em off, sobre um fundo ainda negro, antes que o espectador veja a primeira tomada: – “Se as mulheres se dessem conta do ato transcendente que é ser mãe, o fariam com o máximo de ambição.”
Um fundo vermelho com pontos negros cobre a tela; letreiro pequeno e rápido informa: “Baseado em fatos reais”.
A câmara vai fazendo um zoom para trás, de forma a mostrar que aquele ponto vermelho era o detalhinho de uma flor. A voz de mulher em off prossegue: “Ela estava destinada a ser alguém importante. Ela deveria ser a primeira mulher livre. Nasceu para mudar o mundo, mas não teve tempo. Foram três tiros.”
O zoom para trás prossegue, e vemos que a flor vermelha está nas mãos unidas sobre o ventre de uma moça vestida de branco, cercada de flores, em um caixão.
– “Um no rosto, um peito e um último no sexo.”
Vão surgindo os nomes das principais atrizes, em seguida o título La Virgen Roja, depois o da diretora, agora sobre um tecido de linho branco que vai se tornando vermelho com sangue derramado.

É uma abertura extremamente forte, e com muito estilo. A diretora Paula Ortiz quis contar a história absurdamente trágica, tragicamente absurda, em um filme cheio de estilo.
A voz da narradora prossegue: “Mas a história de Hildegart começa bem antes: quando eu era jovem e chegaram os primeiros tratados de eugenia à Galícia. Meu nome é Aurora Rodríguez Carballeira. Sou mãe de Hildegart.”
Aurora é o papel dessa bela atriz Najwa Nimri, de tantos bons filmes – Lúcia e o Sexo/Lucia y el Sexo (2001), O Que Você Faria?/El Método (2005), Rota Irlandesa/Route Irish (2010). Hildegart é interpretada pela jovem Alba Planas, 24 anos de idade em 2024, o ano de lançamento de A Virgem Vermelha. A fantástica Aixa Villagrán faz Macarena, a empregada de Aurora que tem papel importantíssimo na trama.

“Aos dois anos, já lia. Aos três, sabia escrever.”
Os roteiristas Eduard Sola e Clara Roquet resumiram com imenso talento o que Aurora pretendia fazer na vida, e assim continuo a transcrever o que a voz de Najwa Nimri vai narrando na abertura do filme:
– “Graças à minha avidez intelectual e à riqueza de meus pais, tive uma educação sem limites.” Um letreiro informa que estamos na Galícia, em 1914. “Assim conheci os achados sobre aperfeiçoamento genético e a luta pelos direitos da mulher. Assim compreendi que nós, mulheres, tínhamos que moldar o futuro. Mas as idéias são inúteis se não forem postas em ação.”
Vemos Aurora em uma grande igreja, o padre rezando a missa; corta, e vemos o padre comendo Aurora.
“Por isso decidi conceber uma criatura que fosse exclusivamente minha. Busquei como colaborador fisiológico alguém que não poderia reclamar a paternidade.”
O filme não detalha, nem seria seu papel detalhar, mas a História registra quem foi o padre que forneceu o sêmen para o nascimento de Hildegart; chamava-se Alberto Pallás Montseny, era capelão militar e tido como dono de uma inteligência admirável. Assim que teve certeza da gravidez, Aurora se mudou para Madri.
“Do meu ventre nasceu uma menina. Uma menina eugênica, a primeira mulher livre. Hildegart não veio ao mundo por acaso, ou pelo simples desejo animal de seus pais, mas como parte de um plano com propósito concreto. Ela deveria ser um ser puro que lutaria por uma sociedade decente. Ela deveria ser a mulher do futuro.”
Vemos, em close-ups bem rápidos, detalhes da estátua de uma mulher. Close-ups dessa estátua vão aparecer de tempos em tempos, ao longo do filme. É uma narrativa estilosa, como já foi dito.
Vemos diversas sequências rápidas de Hildegart criança, enquanto a mãe prossegue seu relato:
– “Aos oito meses ela começou a falar. Aos dois anos, já lia. Aos três, sabia escrever. Ao quatro, datilografava. Foi criada segundo padrões eugênicos. Acordava sempre na mesma hora. (Às 7 da manhã.) Cada hora da sua vida era planejada. Sua alimentação e higiene seguiam regras restritas. O café era sempre frutas e leite. O jantar era leve. Para melhorar sua competitividade e resistência, praticava esportes. Aos oito anos, falava seis línguas. Dominava francês, inglês e latim, e traduzia do alemão, português e italiano.”
(Duas garotinhas fazem a Hildegart criança: Luna López, a garota aos 4 anos, e Ainet Jounou, aos 9.)
Vemos a mãe perguntar para a filha garotinha, que está sentada a uma mesa escrevendo: – “O que é eugenia?” A garotinha: – “A aplicação das leis biológicas de hereditariedade, ou seja, a genética, usada para aperfeiçoar a espécie humana e a sociedade.”
“Aos 14, foi estudar Direito, Medicina e Filosofia. Aos 17, tornou-se, com honras, a advogada mais jovem da Espanha. (…) Estudava cinco horas de manhã, lia por três horas à tarde, e discutíamos antes do banho.”
Vemos a garotinha falar sobre Hegel, Nietzsche, tocar piano, jogar tênis com a mãe, dançar com a mãe.
“Eu a criei e eduquei ao longo dos anos. Sabia perfeitamente onde deveria chegar.”

Fiel à verdade dos fatos – mas com algumas licenças poéticas
Quando estamos com 7 minutos de filme, Aurora e Hildegart, agora já representada por Alba Planas, estão na redação de um grande jornal de Madri, esperando serem atendidas pelo editor-chefe, Eduardo de Guzmán (o papel de Pepe Viyuela). Aurora pretende, no encontro, exigir que o sujeito publique o ensaio sobre sexualidade da mulher escrito por Hildegart, e que havia sido enviado dias antes.
Aquele era exatamente o dia da queda da monarquia – 14 de abril de 1931. Guzmán tenta argumentar com a mulher que invadiu sua sala que naquele dia ele tinha coisas mais importantes a fazer, mas Aurora não desiste.
É interessante esse detalhe escolhido pelos roteiristas para de fato iniciar a narrativa, a ação de A Virgem Vermelha. Deve provavelmente ter sido uma licença poética ter colocado o primeiro encontro entre as Rodríguez e o homem que iria editar diversos ensaios escritos por Hildegart exatamente no dia da queda da monarquia espanhola – mas é fascinante, porque demonstra o grau de egocentrismo de Aurora. Para ela, queda da monarquia era algo muito menos importante do que a necessidade de publicar pela primeira vez um ensaio de Hildegart.
“Licença poética”. Gosto de chamar assim os eventos, personagens, diálogos criados nos filmes que retratam histórias reais que não necessariamente existiram de fato. Eventos, personagens, diálogos que poderiam perfeitamente ter existido – e que são criados, como costumam dizer em letrinhas pequeninas os realizadores ao término dos créditos finais. Tipo assim: “Esta é uma história baseada em fatos reais. Algumas situações e personagens foram criados por motivos de dramatização”.
A Virgem Vermelha, como já foi dito, é extremamente fiel à verdade dos fatos históricos, aos eventos da vida de Aurora e Hildegart, pelo que se pode ler na Wikipedia, e, entre outras fontes, em uma longa, detalhada reportagem da BBC Brasil (que revela o final do filme – um baita spoiler para quem não conhece a história de Aurora e Hildegart e não viu o filme.
Extremamente fiel à verdade dos fatos – mas se permite algumas licenças poéticas.
Uma delas: a Aurora real era uma mulher bastante feia; o filme a mostra bela.
Não há, nos textos que Mary e eu lemos na internet, qualquer menção a dois personagens fundamentais na trama do filme: a já citada Macarena (o papel de Aixa Villagrán, repito) e o jovem socialista Abel Velilla (Patrick Criado).
Eu não saberia dizer, de forma alguma, se Marena e Abel são compósitos – personagens fictícios criados a partir da união de traços de personagens reais – ou se são pura e simples invenção dos roteiristas Eduard Sola e Clara Roquet. O fato é que os dois são fundamentais na trama do filme. São as pessoas que fazem a adolescente que é prodígio intelectual mas uma absoluta inexperiente em todas as outras coisas da vida que não são o intelecto começar a conhecer o mundo – e, a partir daí, a partir do momento em que passa a enxergar coisas fora do universo da mãe, a sair, pouco a pouco, da prisão em que Aurora a mantinha. E com isso, é claro, passa a deixar a mãe descontente.
A estátua perfeita da mulher perfeita começa a ter pequeninas rachaduras.

Uma história apavorante que precisa ser lembrada
Tenho ficado cada vez cauteloso com a questão dos spoilers, e, evidentemente, não vou avançar mais no relato da trama. Não teria sentido algum – seria apenas atrapalhar o eventual leitor que ainda não viu o filme nem conhece a história.
É um filme que merece ser visto, é uma história que deve ser conhecida.
Cada pessoa que vir o filme deveria fazer uma rápida pesquisa na internet sobre Aurora e Hildegart Rodríguez. É uma história apavorante, absurdo – mas é importante que ela seja conhecida.
É um tanto como o nazismo, o Holocausto, o Shoa. Apavorante, absurdo, mas é preciso conhecer – para evitar.
Tudo, tudo o que tem a ver com raça pura, eugenia, purificação de raça, melhoramento, aperfeiçoamento da raça humana, tem que ser visto, pelas pessoas de bem, como algo a ser evitado, combatido. Combatido – sempre, de todas as formas, de todas as maneiras.
Creio que com este A Virgem Vermelha a realizadora Paula Ortiz quis fazer exatamente isso – mostrar o horror, para que as pessoas o identifiquem, saibam como ele é, e assim possam combatê-lo.
Assim como os grandes filmes que mostram o Holocausto. Como A Lista de Schindler. Para que a gente não se esqueça. Para que jamais aconteça de novo.
Fiquei pensando sobre essa coisa de Aurora se achar socialista e ao mesmo tempo se orgulhar de ser admiradora – e praticante – da eugenia.
São coisas opostas, diametralmente opostas.
Socialismo é solidariedade, abertura para todos vindos de todos os credos, lugares. Oportunidades iguais para todos.
Eugenia é uma das bases teóricas do fascismo.
Na vida real, provavelmente Hildegart não disse para a mãe a frase que diz no filme: – “As coisas que você faz parecem fascismo”.
Mas é a mais pura verdade.
O fascismo – interessante pensar isso, mas é o que este belo filme mostra – é uma espécie de desequilíbrio mental. Uma loucura.
Anotação em abril de 2025
A Virgem Vermelha/La Virgen Roja
De Paula Ortiz, Espanha-EUA, 2024.
Com Najwa Nimri (Aurora Rodríguez Carballeira, a mãe),
Alba Planas (Hildegart Rodríguez, a filha),
Aixa Villagrán (Macarena, a empregada),
Patrick Criado (Abel Velilla, o rapaz do Partido Socialista), Pepe Viyuela (Eduardo de Guzmán, o editor), Luna López (Hildegart aos 4 anos), Ainet Jounou (Hildegart aos 9 anos), Nur Levi (Soledad), Fernando Delgado (Pepe Arriola, o sobrinho pianista), Jorge Usón (Miguel), María Alfonsa Rosso (Rosa), Pablo Vázquez (Antonio, o marido de Macarena), Pep Ambròs (padre Alberto Pallés), Carmen Barrantes (secretaria Dolores)
Roteiro Eduard Sola e Clara Roquet
Fotografia Pedro J. Márquez
Música Guille Galván e Juanma Latorre
Montagem Pablo Gómez Pan
Casting Ana Sainz-Trápaga e Patricia Álvarez de Miranda
Desenho de produção Javier Alvariño
Figurinos Arantxa Ezquerro
Produção Stefan Schmitz, Amazon Studios, Avalon, Elástica Films.
Cor, 114 min (1h54)
***1/2

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