A Fronteira Oriental / Przesmyk

4.0 out of 5.0 stars

(Disponível no Max em 4/2025.)

A Fronteira Oriental, minissérie polonesa de 2025, é um estupor, um troço acachapantemente bem realizado, impressionante, marcante. É uma história de deixar o espectador sem fôlego – uma trama intrincadíssima, atualíssima, contemporânea, de espionagem e contra-espionagem envolvendo a Polônia, a Bielorrússia e a Rússia. A ação se passa a partir de abril de 2021 – sete anos depois de a Rússia invadir a Criméia e apenas dez meses antes da invasão do Leste da Ucrânia e da guerra aberta contra o país.

A ficção que a série mostra, o que a série quer dizer e diz é a absoluta verdade dos fatos: a Rússia de Vladimir Putin é uma potência imperialista, expansionista, que não vai sossegar enquanto não invadir os países que estão a Oeste dela. O ex-agente da KGB, que declarou que “o fim da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX”, jamais escondeu seu sonho de que a Rússia volte a dominar os vizinhos que pertenceram à URSS, como Ucrânia, Geórgia, Estônia, Lituânia, Letônia, e – por que não? – os países que foram comunistas e satélites do império soviético, como a vizinha Polônia.

O nome do ditador russo não é pronunciado uma única vez, ao longo dos seis episódios de cerca de 50 minutos cada de A Fronteira Oriental – mas seus planos expansionistas estão presentes sempre, o tempo todo.

Como muitos filmes e/ou séries sobre histórias reais, ou, como esta aqui, inspiradas no contexto histórico e político de uma época, A Fronteira Oriental começa com um letreiro para ajudar o espectador a se situar, a ter idéia do que virá:

“A anexação da Criméia pela Rússia em 2014 alterou o equilíbrio na Europa. Os olhos do mundo se voltam para Suwalki, um ponto estratégico. Esse território no Norte da Polônia é a porta de entrada da Rússia para a Europa. Em 2021, o espectro da guerra parece voltar a ser real.”

De cara, uma sequência brilhante, com um suicídio

A abertura da série é forte, perturbadora, chocante. A primeira tomada que vemos, depois desse letreiro de introdução, mostra em close-up o perfil de uma bela mulher aí de uns 40 e tantos anos, com uma expressão de surpresa e angústia. Ouvimos os ruídos de um casal durante o sexo – a câmara não mostra, mas fica claro que a mulher está vendo um filme em seu celular.

O som some – ela desligou o filme que certamente havia acabado de receber e a deixara perturbada.

Um homem chega perto dela e se oferece para ajudar. Estão na cozinha da casa, e ela estava para acender as velinhas em cima de um bolo.

O casal leva o bolo para a sala, e todos ali começam a cantar os parabéns para a filha do casal, uma garotinha linda de uns… Diacho, sou ruim para calcular idade de criança. Uns sete anos, talvez um pouco mais.

A mulher que tínhamos acabado de ver chocada, angustiada com o que havia certamente chegado por mensagem a seu celular canta os parabéns com uma expressão alegre no rosto.

Enquanto a garotinha apaga as velas, e todos na sala batem palmas, surge a data, em letras grandes, grafada com pontos em vez das barras que nós costumamos usar: “28.04.2021”.

A mulher se distancia da sala, fica por um instante sozinha, de novo com a expressão de espanto, choque. Passa uma jovem por ela e pergunta: – “Posso ajudar, cônsul?” Ela responde: – “Não, Inka, obrigada.”

Instantes depois, a bela mulher que agora sabemos ser uma cônsul pega um revólver numa gaveta, entra no banheiro –, e fecha a porta. Enquanto vemos a porta fechada e balões coloridos pendurados no teto do corredor, ouvimos o som de um tiro.

O marido chega rapidamente, abre a porta. A filhinha vem correndo gritando “Mamãe!”, corta, surge na tela toda preta, em letras grandes, maiúsculas, o título da série – Przesmyk. A palavra significa corredor – ao longo dos seis episódios da série, várias vezes a região de Suwalki é referida como o corredor de entrada para a Polônia para quem vem do Leste – da Rússia.

Na segunda sequência, uma festa, uma trepada, um assassinato

Os episódios de Przesmyk não têm créditos iniciais – apenas vemos o título, sempre depois de uma sequência de impacto, e logo em seguida há o fade out e surge uma nova sequência.

A sequência que vem logo depois daquela de abertura começa com um close-up do rosto de uma bela mulher – uma outra bela mulher. Está em um carro, com o namorado, indo para a mansão dos pais dele. – “Fico feliz que você finalmente vá conhecer minha mãe”, diz o namorado, que, veremos, se chama Aleksiej Sorokin (Andrew Zhuravsky, na foto acima).

Os pais do rapaz são riquíssimos, e estão festejando 30 anos de casamento. Quando o carrão com motorista levando o casal chega diante da mansão gigantesca, um letreiro informa o onde: “Kalingrado, Rússia”.

Enquanto o casal entra na mansão, ouvimos um diálogo em off. Uma voz de mulher, seguramente a da mãe, pergunta: “O que sabemos dela?” E a voz do homem responde: “Yulyia Petrova. Estudou Literatura na Universidade de Riga (a capital da Letônia). O pai é russo, a mãe, letã.” Logo em seguida o casal jovem está diante do casal de meia-idade. Os cumprimentos são formais, polidos, todos estão sorridentes.

Aleksiej vai comentando com a bela Yulvia quem são algumas das pessoas que estão na festa. Aquele ali tem um patrimônio de US$ 15 milhões. Aquele ali é o general Kozlow, vice-chefe de inteligência da KGB da Bielorrússia e um apoiador firme da nova Grande Rússia. Aquele ali…

Vemos vários militares russos graduados, cheios de medalhas no peito. Um deles, numa roda, faz a apologia da cultura russa e demonstra desprezo pelo Ocidente.

Em um momento em que se afasta do namorado, indo procurar “algo mais forte para beber”, a bela mulher usa um pequenino espelho em um caixinha de cosmético para retocar a maquiagem – e vemos que a caixinha é também um rádio-comunicador, e ela está em contato com um homem que a lembra: se houver uma emergência, o código para pedido de ajuda é “está quente aqui”. – “Quando você disser isso, vamos buscar você”.

Alguns instantes depois, enquanto todos são convidados a ir para fora, para observar os fogos de artifício, Yulyia usa o pretexto de ir ao banheiro e logo se vê no imenso, belíssimo escritório da mãe do rapaz, que, veremos, se chama Tamara Sorokina, é uma cientista, uma física, engenheira nuclear, conhecida, respeitada, importante da Rússia (o papel de Alona Szostak, russa como sua personagem).

Sobre a mesa principal do escritório estão os óculos da cientista Tamara. Yulyia o troca por um idêntico que trazia na pequena e elegante bolsinha de mão – e logo o espectador percebe que os novos óculos têm, instalado nos aros, uma câmara!

Na van estacionada em algum lugar perto da mansão, o agente que mantinha contato por rádio com Yulyia passa a ver, em seu laptop, o escritório da grande física.

Aleksiej vai atrás da namorada e a encontra no escritório da mãe. Primeiro dão uma trepada, junto da mesa de trabalho da cientista – que é filmada pelos óculos novos e transmitida para o laptop do agente em sua van. Depois Aleksiej vê que a namorada havia quebrado os óculos que de fato pertenciam à sua mãe – e rapidamente, imediatamente percebe que Yulyia deveria ser, só podia ser uma agente, um espiã.

Estamos com uns 10, no máximo 15 minutos do primeiro dos seis episódios da série; me alonguei bastante no relato dessa excelente abertura, mas agora aperto a tecla de fast forward. Ali mesmo, no escritório, Yulyia mata o sujeito que ela vinha namorando para poder justamente entrar na casa da cientista e colocar lá um grampo com áudio e vídeo.

Consegue fugir, e dali a pouco está com o agente que monitorava seus movimentos.

Yulyia Petrova na verdade é Ewa Oginiec, agente do serviço de inteligência da Polônia – e a protagonista da série. Vem na pele de Lena Góra (nas fotos), polonesa de Gdansk, a cidade portuária onde nasceu o sindicato Solidaridade de Lech Walesa. No ano em que foi lançada esta A Fronteira Oriental, 2025, ela completou 35 anos.

Uma senhora atriz essa Lena Góra.

A agente Ewa é colocada como cônsul na Bielorrússia

O agente que acompanhava os movimentos de Ewa, e com quem ela viaja rapidamente em seguida de volta à Polônia, se chama Skiner (o papel de Karol Pochec). Foi Skiner que treinou a moça, que a preparou para as missões de espionagem. Treinou, preparou a moça – e se casou com ela. Ele mesmo, por sua vez, havia sido, anos antes, treinado, ensinado, por Zbigniew Lange (o papel de Andrzej Konopka).

Lange, assim como Skiner, será um dos personagens mais importantes da trama, depois de Ewa, que é, repito, a protagonista da história. Lange nos é apresentado como um excelente profissional, um homem correto, que procura fazer sempre a coisa certa naquele mundo instável, mutante, que é a espionagem. Creio que não é dito explicitamente o cargo dele, mas me parece que ele é assim o chefe operacional do serviço de inteligência polonês. Acima dele há apenas o diretor geral da agência de inteligência, um sujeito de gabinete – que por sua vez responde ao ministro de Estado.

A cônsul que se matou logo na primeira sequência da série, vítima de uma chantagem por causa de um vídeo de sexo fora do casamento, chamava-se Maria Niedzwiecka (o papel da bela Magdalena Walach), e trabalhava na embaixada da Polônia em Minsk, a capital da Bielorrússia – o espectador fica sabendo disso ainda no primeiro episódio.

Lange, o chefe de Ewa e de seu marido Skiner, decide enviar Ewa para assumir o cargo de Maria Niedzwiecka de cônsul em Minsk.

Assim, boa parte da ação da série vai se passar na capital da Bielorrússia – que é mostrada clarissimamente como o que de fato é, um estado títere da Rússia de Vladimir Putin. Títere, dominado pela Rússia, lambedor das botas dos homens do Kremlin. Da mesma maneira que Putin, o nome de Alexander Lukashenko – o ditador da Bielorrússia desde 1994, agora há mais de 30 anos no poder – não é citado uma única vez. Não precisa.

Não será nada, nada, mas nada fácil a missão de Ewa como cônsul e, sem que os colegas saibam, espiã polonesa no país que serve aos interesses da Rússia.

Há toda a gravidade da situação macro. O serviço de inteligência na Polônia está acompanhando uma grande movimentação de soldados russos e bielorrussos – e também de refugiados de países árabes – junto da fronteira polonesa, ali naquela região de Suwalki, apresentada já nos letreiros iniciais da série como a porta de entrada, o corredor da Rússia para a Europa. Essa região do extremo Nordeste da Polônia faz fronteira com a Bielorrússia, a Lituânia e a própria Rússia, que tem ali um enclave, Kaliningrado, o mesmo nome da cidade mostrada na segunda sequência da série. Vai ficando claro que a Rússia e seu assecla preparam atos de sabotagem que possam ser denunciados como originários da Polônia para usar como pretexto para uma invasão, o início de uma guerra.

E, ali na embaixada, há – segundo Lange assegura para Ewa e Skiner – pelo menos um agente duplo, um infiltrado a serviço dos russos. Esse traidor pode ter sido a pessoa que chantageou a cônsul Maria e a deixou sem opções a não ser o suicídio. Ewa terá que descobrir quem é. E, de cara, ao chegar, ela bate de frente com a má vontade explícita da encarregada da segurança da embaixada, uma tal Helena Jankulowska (Ewelina Starejki), que não faz idéia – assim como todos os demais funcionários – de que Ewa é uma agente, uma espiã.

Para complicar ainda mais, Skiner é feito prisioneiro pelos agentes de inteligência da Bielorrússia, chefiados pelo tal já citado lá na festa da engenheira nuclear Tamara general Kozlow. Haverá cenas explicitas impressionantes de sessões de tortura.

Lange, o chefe de Skiner, e até mesmo Ewa, mulher dele, começam a temer que, sob tortura, ele possa revelar segredos – inclusive o fato de a nova cônsul ser uma agente.

Uma trama fascinante, um diretor talentoso, uma ótima atriz

Tudo isso que foi relatado até aqui, tudo, absolutamente tudo, é apresentado para o espectador nos dois primeiros dos seis episódios da série. Não houve, aí acima, nenhum tipo de spoiler.

E isso é de fato só o começo. Virá muita, mas muita coisa pela frente. A série tem muito suspense – e surpresas gigantescas.

A Fronteira Oriental não se baseia em um romance – toda a história é original, escrita diretamente para a série.

Dois profissionais assinam o roteiro, Dana Lukasinska e Karolina Szymczyk-Majchrzak. E há o crédito de que eles se basearam em uma idéia de Wojciech Bockenheim e Blazej Dzikowski. Acho um tanto estranho uma idéia saída da cabeça de duas pessoas, mas imagino que estes dois últimos tenham elaborado mais que simplesmente uma idéia – tenham sido os autores da base da história, a partir da qual trabalharam os dois roteiristas.

A série foi dirigida por Jan P. Matuszynski, um sujeito muito jovem, nascido em Katowice em 1984. O garotão parece ser daquele tipo geninho. Estreou na direção com um curta aos 22 anos, e em 2025, em que completa 41, tem já 17 títulos no currículo e 29 prêmios. Não vi nenhum de seus filmes, embora seja um admirador, já faz muitas décadas, do cinema polonês, na minha opinião (e na de muita gente boa) o melhor cinema da Europa Central e Oriental, desde os tempos do comunismo. Afinal, o garoto vem de uma linhagem que tem Andrzej Wajda, Jerzy Kawalerowicz, Jerzy Skolimowski, Roman Polanski, Krzysztof Kieslowski, Agnieszka Holland.

Um dos talentos de Jan P. Matuszynski é o de diretor de atores. Todo o elenco está muito, muito bem. E essa moça Lena Góra, meu… Que coisa impressionante. É uma daquelas atrizes capazes de ter mil caras diferentes – e está bem com todas. Está bem quando vestida e produzida para festa, está bem em cenas quando está maquiada para parecer que não está nada maquiada, em plena ação, ou acordando pela manhã.

Há uma sequência de sexo em um momento em que ela reencontra o marido, Skiner, depois de ele passar elas sessões de tortura dos bielorrusos que é uma coisa impressionante. A câmara de Matuszynski e seu diretor de fotografia Kacper Fertacz faz close-ups do rosto de Ewa-Lena Góra, e vemos ali, juntos e ao vivo, saudade, tesão, prazer e muito pavor – e se o homem que ela ama pra cacete tiver revelado segredos para o inimigo? E se ele tiver confessado que ela é uma agente infiltrada?

Beleza, beleza de série.

Anotação em abril de 2025

A Fronteira Oriental/Przesmyk

De Jan P. Matuszynski, Polônia, 2025.

Com Lena Góra (Ewa Oginiec, agente polonesa),

Andrzej Konopka (Zbigniew Lange, o chefe operacional do serviço de inteligência polonês),, 

]Karol Pochec (Skiner, agente polonês, marido de Ewa)

e Bartlomiej Topa (Krzysztof Halaj), Alona Szostak (Tamara Sorokina, a física russa),  Piotr Zurawski (Blazej), Ewelina Starejki (Helena Jankulowska, chefe da segurança da embaixada da Polônia em Minsk), Tomasz Zietek (Jan Drawicz, o polonês radicado na Bielorrússia), Eliza Rycembel (Maria Drawicz, a mulher de Jan), Dmytro Malkov (Skopincew), Lidia Sadowa (Paulina Oginiec, a única irmã de Ewa), Antoni Sztaba (Kaj, o filho único de Paulina), Magdalena Walach (Maria Niedzwiecka, a cônsul que se mata), Miroslaw Zbrojewicz (Pawel Niedzwiecki, o marido da cônsul Maria), Kamila Urzedowska (Inka Nawrot, funcionária da embaixada da Polônia em Minsk), Andrew Zhuravsky (Aleksiej Sorokin, o filho da física Tamara Sorokina), Sergei Abolomov (general Kozlow, vice-chefe de inteligência da KGB da Bielorrússia), Dariusz Chojnacki (Porucznik Adamus), Michal Sikorski (Jasiek), Maja Burzynska (Kalina Niedzwiecka, a filhinha da cônsul Maria), Oleg Garbuz (Nikolaj Sorokin, o marido da física Tamara), Oleh Kyryliv (Dimitrij)

Roteiro Dana Lukasinska, Karolina Szymczyk-Majchrzak      

Baseado em uma idéia de Wojciech Bockenheim e Blazej Dzikowski

Fotografia Kacper Fertacz

Música Stefan Wesolowski     

Montagem Maciej Pawlinski   

Casting Viola Borcuch   …      (1 episode, 2025)

Direção de produção Maciej Fajst     

Figurinos Katarzyna Baran     

Produção Tomasz Blachnicki, TVN, TVN Warner Bros. Discovery.

Cor, cerca de 300 min (5h)

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Título nos EUA: “The Eastern Gate”.

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