O Mundo de Gloria / Sic Transit Gloria Mundi

Nota: ★★★½

(Disponível no Now em 9/2022.)

O mundo ao qual a garotinha Gloria chega na primeira e longa sequência do filme – que parece um documentário sobre o nascimento de um bebê – não está preparado para recebê-la. Há pais, avós e tios sorridentes no quarto da maternidade – mas a vida deles é dura, muito dura.

A vida é sempre dura nos filmes do grande Robert Guédiguian, mas neste O Mundo de Gloria, de 2019, no original Sic Transit Gloria Mundi, os personagens que ele criou são especialmente infelizes, e o mundo os trata de forma particularmente amarga.

Os jovens pais de Gloria não são miseráveis, mas vivem com dinheiro curto, contado. Nicolas (Robinson Stévenin, na foto abaixo) trabalha como motorista de Uber; boa pessoa, bom coração, procura fazer o melhor que pode, mas não pode muito. As prestações do carro são altas, sobra muito pouco. O salário de Mathilda (Anaïs Demoustier, na foto abaixo) como balconista numa loja de roupa é muito baixo, e ela está sempre sob a ameaça de ser demitida – tem certeza de que a patroa implica com ela. Passadas algumas semanas do nascimento de Gloria, a vida vai armar um golpe duro contra Nicolas.

A mãe de Mathilda, Sylvie (o papel de Ariane Ascaride, maravilhosa atriz, companheira do diretor e autor Guédiguian na vida e na obra), trabalha como faxineira numa empresa que presta serviço em diversos lugares ali de Marselha, de hospitais e navios atracados no porto. Boa parte dos trabalhadores da empresa está em greve naquele momento, mas Sylvie, faltando apenas três anos para se aposentar, não aderiu à paralisação. Trabalha à noite, para ganhar um pouco mais.

O marido de Sylvie, Richard (Jean-Pierre Darroussin), é motorista de ônibus municipal; trabalha duro, o salário não é bom.

Mathilda é filha de uma relação anterior de Sylvie; foi criada desde pequena por Richard, o segundo marido da mãe. Quando ela era ainda bem criança, o casal teve outra filha, Aurore (Lola Naymark).

Aurore, por sua vez, é casada com Bruno (Grégoire Leprince-Ringuet), e, ao contrário dos pais e da irmã – ou meia-irmã, como ela às vezes faz questão de frisar –, ela tem dinheiro. Bruno criou uma loja que compra e vende de tudo – compra aparelhos eletrodomésticos quebrados, por exemplo, por preços baixíssimos, de gente que precisa desesperadamente de algum dinheirinho, e aí conserta e vende por preços bem, mas bem mais altos. Aurore divide com ele a gerência do negócio – assim como partilha com ele uma cega ambição de ganhar cada vez mais dinheiro, um egoísmo gigantesco e um apetite sem fim para a cocaína.

Com o passar do tempo, quando a narrativa já está bem adiantada, o espectador ficará sabendo que Mathilda trai o bom marido Nicolas. Ela sequer pode garantir quem é o pai de Gloria, se o marido, se o amante.

Poucos dias depois do nascimento de Gloria, Richard – bom caráter, bom coração – pergunta à mulher se ela não vai contar para o ex dela que ele se tornou avô.

O ex de Sylvie, o pai biológico de Mathilda que a moça a rigor não conheceu, nunca viu na vida, estava preso em Rennes, bem distante de Marselha. Chama-se Daniel (o papel de Gérard Meylan), e, quando recebe a carta de Sylvie com a informação de que é avô, e uma fotinha do bebê, está para ser solto, após cumprir 20 anos de prisão. Logo depois de libertado, pega um ônibus para Marselha.

Um cineasta sempre fiel a seus princípios

Não há nem nunca houve – creio que dá para dizer isso com certeza – um cineasta tão fiel a seus princípios, tão absolutamente coerente e tão apegado a seu grupo de atores quanto esse fantástico Robert Guédiguian, marselhês descendente de armênios, comunista não importa quantos muros de Berlim sejam derrubados.

Há outros cineastas que escalam sempre que podem os mesmos atores. Ingmar Bergman, Woody Allen, Pedro Almodóvar são assim – mas nem mesmo eles conseguem suplantar o francês nesse quesito.

Ariane Ascaride e Guédiguian, ambos marselheses, se conheceram na Universidade de Aix-en-Provence, onde ela estudava sociologia; casaram-se em 1975, tiveram dois filhos e fizeram juntos a maioria dos filmes das carreiras de cada um, desde Último Verão/Dernier Été, de 1980.

O amigo deles Gérard Meylan (à esquerda na foto abaixo), que aqui faz o primeiro marido da personagem interpretada por Ariane Ascaride, já estava naquele filme de 1980 – e esteve em praticamente todos os que Guédiguian dirigiu de lá para cá. Como o diretor e a atriz, ele é natural de Marselha.

Jean-Pierre Darroussin (à direita na foto abaixo) também esteve em quase todos os filmes de Guédiguian. Já interpretou homens casados ou amantes dos personagens de Ariane Ascaride em diversos, diversos filmes. Em Marie-Jo e seus Dois Amores, de 2002, ele fez um dos dois amores da protagonista; o outro, claro, foi interpretado por Gérard Meylan.

O trio é infalível nos filmes do diretor. A bela Anaïs Demoustier já havia trabalhado com Guédiguian antes, assim como o feioso Robinson Stévenin, que faz esse bom e pobre Nicolas aqui.

Os mesmos atores. A mesma cidade, sempre – Guédiguian é o exemplo mais perfeito do artista que segue aquela máxima de Liev Tolstói: se você quiser ser universal, fale sobre sua aldeia.

Marselha está presente em praticamente todos os filmes do diretor e autor. Quando a ação não se passa apenas em Marselha, passa-se na terra dos antepassados de Guédiguian, como Armênia/La Voyage en Arménie (2006), estrelado por Ariane Ascaride e Gérard Meylan.

O tema de alguma forma é sempre o mesmo: a injustiça social, a desigualdade, a dureza da vida dos trabalhadores.

Os personagens de seus filmes são sempre trabalhadores – ouvriers. Mão de obra não muito qualificada. Gente humilde, batalhadora, honesta, de bom caráter, bom coração.

“A glória mundana é transitória, acaba logo”  

Aqui, neste belo e triste Gloria Mundi, há um traço importante, forte, que me chamou bastante a atenção: bem diferentemente de tantos outros personagens da obra de Guédiguian, os tios de Gloria e até mesmo a própria mãe da garotinha não são pessoas de bom caráter, bom coração. Nem sequer honestas.

Os mais velhos – Richard, Sylvie, Daniel – são gente boa. Sim, Daniel esteve, na juventude, do outro lado da lei. Errou, cometeu crime – mas pagou por eles com um longo tempo na prisão. É um bom homem, um coração de ouro. Não apenas porque agora, em vez de usar armas, usa a caneta para escrever poemas, hai-kais – mas sobretudo porque quer o bem dos outros, e se dispõe a tudo, a qualquer sacrifício, pelas pessoas que ama.          O motorista Richard e a faxineira Sylvie são o que há de bom na humanidade.

Já Aurore, a filha deles, é aquele poço de ambição e egoísmo.

A outra filha, Mathilda, a mãe da garotinha Gloria, é uma pessoa fraca. Em tudo por tudo. Fraca, inconsistente, vazia – e desonesta com o marido.

Bruno, o marido de Aurore, é igualzinho a ela própria, ou um pouco pior.

Entre os jovens, os criadores da história e dos personagens – o próprio Guédiguian e Serge Valletti – só poupam Nicolas, o pai da pequenina Gloria.

Outro cineasta europeu de esquerda, o italiano Elio Petri, usou um título irônico para seu filme sobre os dilemas dos trabalhadores na Itália do início dos anos 1970 – La Classe Operaia Va in Paradiso, A Classe Operária Vai ao Paraíso.

Um dos filmes mais reconhecidos, elogiados de Robert Guédiguian tem também um título irônico, La Ville est Tranquille, A Cidade Está Tranquila, de 2000. É um drama que mostra o exato oposto do que diz o título.

Para o título da história destes pais que não conseguiram transmitir às filhas os valores que prezavam – a bondade, a solidariedade –, Guédiguian escolheu o adágio latino que aqui se transforma, mais que em uma ironia, em um drama de fazer chorar um frade de pedra.

Sic Transit Gloria Mundi.

Literalmente, ao pé da letra, assim transita a glória do mundo, assim passa a glória do mundo. Mais apropriadamente, algo como as coisas deste mundo são passageiras. A glória mundana é transitória, passa, acaba logo.

A Wikipedia, essa dádiva destes nossos tempos em que a informação fica ao alcance de todos, dá duas informações interessantes sobre “sic transit gloria mundi”:

“É possivelmente uma adaptação de uma frase no trabalho Imitação de Cristo do monge agostiniano Tomás de Kempis de 1418, em que ele escreve: ‘O quam cito transit gloria mundi’ (‘o quão rapidamente passa a glória do mundo’)

E:

“A frase era utilizada no ritual das cerimônias da coroação papal até 1963. O recém-escolhido papa partia da Basílica de São Pedro na Sede gestatória em procissão, que parava três vezes. Em cada ocasião, um mestre de cerimônias papal ficaria de joelhos diante do papa, queimando uma mecha de estopa e dizendo três vezes consecutivas, em voz alta ‘Sancte Pater, sic transit gloria mundi!’”

Trocamos a solidariedade pelo egoísmo

No IMDb, no AlloCiné, seguramente em todo lugar o título original do filme aparece apenas como Gloria Mundi. Nos créditos e nos cartazes do próprio filme, as duas primeiras palavras aparecem em tamanho menor, como se fosse um antetítulo. “Sic transit” em letras pequenas, e “Gloria Mundi” em letras bem grandes.

O nome da garotinha que o mundo não recebe bem, naturalmente, é pronunciado à francesa, como Glorriá.

Sic Transit Gloria Mundi foi apresentado na mostra competitiva do Festival de Veneza de 2019. Ariane Ascaride (na foto acima) levou a Copa Volpi de melhor atriz – mais um prêmio em uma carreira que já teve quatro indicações ao César, com uma vitória, por Marius et Jeanette, de 1997.

Segundo as contas do site AlloCiné, o filme obteve 4 estrelas em 5 na média de 31 críticas. Entre os leitores do site, a média foi de 3,5 em 4.

Nos créditos finais, o realizador registra, sobre a sequência inicial, que mostra o nascimento de um bebê, em parto normal: “A abertura é uma homenagem à obra de Artavazd Péléchian”.

Não conhecia nada sobre Artavazd Peleshian (conforme a grafia em inglês). Nascido na então República Socialista Soviética da Armênia, em 1938, ele foi o criador da chamada “distance montage”, que junta sequências de sequências reais, de fatos e eventos reais, com outras produzidas em forma de ficção. É tido como um dos mestres soviéticos do documentário. Leva uma vida reclusa em Moscou, segundo informa o IMDb; são raras suas aparições em público, assim como são pouquíssimas as entrevistas que dá.

O AlloCiné reproduziu a seguinte declaração de Robert Guédiguian sobre este seu Sic Transit Gloria Mundi:

“Para resumir, nós precisamos de comédias e de tragédias em proporções iguais, para poder continuar a questionar sobre nossos modos de vida, e é necessário mais que nunca, nestes tempos intranquilos, continuar a nos questionar para não sucumbir à ilusão de que nossas sociedades são coisa da natureza e devem ser vistas como uma fatalidade. Tudo o que um século de lutas operárias conseguiu colocar na consciência dos homens, em uma palavra a necessidade de dividir, foi roubado nos últimos anos para o restabelecimento desse flagelo mortal que é a vontade de cada um de possuir aquilo que os outros possuem.”

Maravilha de declaração, maravilha de pensamento.

“Para resumir”, “em uma palavra”, esse cineasta maior, que em várias de suas obras condena o desejo de vingança, o olho-por-olho, a Lei do Talião, quer dizer – se é que posso ousar interpretá-lo – que a humanidade andou abandonando, nos últimos anos, a solidariedade pelo egoísmo. A vontade de partilhar pela de acumular.

É exatamente o que seu belo filme mostra. Os da meia-idade – Sylvie e seus dois amores, Daniel e Richard – são pessoas solidárias. Os mais jovens – Aurore e Bruno em particular, mas também essa débil Mathilda, que não mereceria o dom de ter uma filha – são egoístas, ambiciosos.

É exatamente essa a grande diferença que há entre os homens. Não entre brancos e negros, não entre héteros e homos – mas entre os solidários e os egoístas.

Grande, imenso Guédiguian!

Anotação em setembro de 2023       

O Mundo de Gloria/Sic Transit Gloria Mundi

De Robert Guédiguian, França-Itália, 2919

Com Ariane Ascaride (Sylvie Benar),

Jean-Pierre Darroussin (Richard Benar),

Gérard Meylan (Daniel, o ex-marido de Sylvie)

e Anaïs Demoustier (Mathilda, a filha de Sylvie e Daniel, mãe da garotinha Gloria), Robinson Stévenin (Nicolas, o marido de Mathilda), Lola Naymark (Aurore, a filha de Sylvie e Richard), Grégoire Leprince-Ringuet (Bruno, o marido de Aurore), e Angelica Sarre (a doutora), Pauline Caupenne (a enfermeira), Mathilde Ulmer (a prostituta), Diouc Koma (Jackie), Adrien Jolivet (o dono da empresa de limpeza), Karine Angeon (Présentine, a colega de Sylvie), Ferdinand Verhaeghe (o chefe de equipe), Simohamed Bouchra (a colega de Sylvie), Wilda Philippe (Hakima), Maximilien Fussen (Hassoun)

Argumento e roteiro Robert Guédiguian e Serge Valletti

Fotografia Pierre Milon

Música Michel Petrossian

Montagem Bernard Sasia

Desenho de produção Michel Vandestien

Figurinos Anne-Marie Giacalone

Produção Angelo Barbagallo, Marc Bordure, Robert Guédiguian,

Serge Hayat, Nihilo, France 3 Cinéma, BiBi Film, Canal+, France Télévisions, Ciné+.

Cor, 106 min (1h46)

***1/2

 

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