The One

Nota: ★★½☆

The One, série inglesa de 2021 exibida pela Netflix, é mezzo ficção científica, mezzo thriller-policial-mistério. A rigor, a rigor, se fosse uma pizza de 8 pedaços, o mesmo número de seus episódios, teria um pedaço ficção científica e os demais todos thriller-policial-mistério.

O que há de mais fascinante em The One é aquele um oitavo de ficção científica, o ponto de partida de tudo, um belo achado, uma bela sacada do escritor John Marrs – que, aliás, como muita gente boa, prefere o termo “ficção especulativa” ao velho e de fato não muito exato “ficção científica”.

Em seu terceiro romance, lançado em 2017, o inglês John Marrs (que não divulga a data nem o local de nascimento, e parece ter hoje, 2021, uns 45 anos) bolou o seguinte:

Em um futuro bem próximo, praticamente nos dias de hoje, dois jovens biólogos, muito bem formados, inteligentíssimos, brilhantes, chegam a uma descoberta fantástica, incrível: cada ser humano tem um parceiro perfeito na vida – seu grande amor, a pessoa com que ele está destinado a compartilhar tudo. Basta um exame de DNA para mostrar quem é o grande amor, o companheiro perfeito para todo o sempre de cada ser humano.

Com a ajuda de um investidor, os dois geninhos da biologia criam uma empresa, The One – e em pouco tempo sua descoberta muda o mundo.

Simplesmente assim: muda o mundo. Muda o comportamento, muda a vida das pessoas.

Imagine o caro eventual leitor essa situação: você fornece um fio de cabelo que seja para uma empresa, paga lá um determinado preço – e daí a pouco ela informa o nome da pessoa que foi feita para você. A pessoa que estava escrito nas estrelas que seria o seu par perfeito, o seu grande amor.

Muda tudo, muda absolutamente tudo.

Todos os aplicativos de encontro, os Tinders da vida, tornam-se obsoletos como o aparelho de telex, a fita cassete, o VHS, o orelhão da rua, a máquina de fax.

Acaba a instituição do encontro às cegas.

Acaba a canseira do ter que paquerar pra ver se vai rolar um lance legal.

Acaba a coisa de engolir um monte de sapos até encontrar seu grande amor.

Tudo passa a girar em torno de como fazer para ir ao encontro do seu par – seu match, em Inglês.

A palavra match é falada umas 435 vezes em cada um dos oito episódios de 50 a 55 minutos de The One.

Match: um igual, companheiro, segundo meu velho Michaelis. Uma pessoa que é igual a outra, uma coisa que combina com outra, segundo o Dictionary of English Language and Culture da Longman.

A sacada do escritor inglês faz lembrar o Facebook

Encontrar seu match – e, depois, é só viver feliz para sempre, como nos contos de fada. Ou viver feliz com o amor de sua vida até que a morte os separe, como se dizia e ainda se diz nas cerimônias de casamento, e agora, com a descoberta feita pelos dois geninhos da empresa The One, virou simplesmente a realidade mais trivial do mundo.

Essa sacada genial, brilhante do escritor John Marrs, de inventar uma dupla de jovens geninhos mal saídos da universidade que criam um troço que simplesmente muda o mundo…

Ela obviamente faz qualquer espectador se lembrar de uma outra dupla, de uma outra invenção. Foi contada, sim, no cinema – mas aconteceu de verdade.

A mim e à Mary pareceu muito óbvio que John Marrs se inspirou na história real contada no filme A Rede Social/The Social Network (2010) – a história de como Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin, ainda estudantes, criaram um troço que viria a ser chamado de Facebook, gerido por uma empresa cada vez mais gigantesca, à medida em que mais e mais milhões de pessoas iam aderindo ao seu produto.

É impossível não fazer a relação entre The One, a empresa que promove o encontro dos casais através de uma comparação de DNAs no livro de John Marrs e na série baseada nele, e o Facebook, essa empresa que em poucos anos se tornou maior, mais influente e poderosa que a maioria das outras, maior e mais poderosa do que muitos Estados nacionais.

Exatamente como o fictícia The One, o Facebook mudou o mundo, mudou a forma de as pessoas se comunicarem, mudou a rotina das pessoas.

The One e a invenção que ela apresentou ao mundo fazem o Parlamento Britânico discutir sobre aquilo tudo; o partido da primeira-ministra pensa em apresentar uma legislação para estabelecer limites ao poder da empresa. Exatamente como acontece com relação ao Facebook.

Exatamente como aconteceu com o Facebook na vida real, na história fictícia os dois jovens biólogos que criaram a empresa – e que são os protagonistas da história –acabam se separando.

A semelhança com o Facebook é óbvia demais. De fato, é impossível ver a série sem pensar no império que Mark Zuckerberg construiu a partir da coisa que ele criou juntamente com Eduardo Saverin.

Mas eu fiquei pensando em uma outra maravilhosa, brilhante sacada de ficcionista, enquanto via os oito episódios de The One. Fiquei pensando no filme O Novíssimo Testamento/Le Tout Noveau Testament, co-produção Bélgica-França-Luxemburgo de 2015 dirigida por Jaco Van Dormael, com base em roteiro original dele e Thomas Gunzig. Esses dois senhores, Jaco Van Dormael e Thomas Gunzig, bolaram uma história que parte da seguinte sacada absolutamente fantástica, genial, brilhante: a filha de Deus Pai, irmã caçula do J.C., uma garotinha absolutamente rebelde de uns 12 anos de idade, divulga para o mundo a data de morte de cada ser humano.

Pronto: muda tudo. A História da humanidade toma outro rumo completamente diferente do que vinha tendo havia tantos milhares e milhares de anos. Se cada um sabe o dia em que vai morrer, é tudo absolutamente, mas absolutamente diferente.

Para mim, a sacada de John Marrs de inventar uma dupla que cria um teste de DNA que indica quem é o amor perfeito de cada ser humano é tão brilhante quanto a sacada de Jaco Van Dormael e Thomas Gunzig de inventar que uma filhinha de Deus Pai revela para todos o segredo mais fundamental, mais apavorante e mais definitivo que pode haver – o dia em que cada um vai morrer.

Bem… Talvez sejam de fato as duas coisas mais importantes da vida de cada um de nós, cada um destes 7 ou 8 bilhões de pequeninhas criaturas que habitam este planetinha mixuruca que dá voltas em torno de uma estrela de quarta categoria nos confins de uma das galáxias do universo. Saber quem é seu grande amor – e saber quando você (e o seu grande amor) vão passar desta para alguma coisa que a gente não sabe se é melhor, se é pior nem simplesmente se existe.

Ih… Será que tergiversei um pouco? Despenquei no precipício do papo-cabeça, do papo-furado?

A narrativa vai e volta no tempo, vai e volta

Os créditos de The One indicam como o criador da série Howard Overman. Ele é o autor do roteiro dos oito episódios, que foram dirigidos por três profissionais diferentes – Jeremy Lovering realizou três, Catherine Morshead, três, e Brady Hood, dois. E é também um dos produtores executivos da série, que foi lançada pela Netflix em todo o mundo no dia 12 de março de 2021.

Não li o livro de John Marrs, e portanto não posso dizer o quanto Howard Overman foi fiel à obra. Mas o fato é que a série apresenta paralelamente eventos de épocas diferentes: a narrativa vai e vem no tempo. Vai e vem, vai e vem, como uma bola de pingue-pongue ou de tênis. Vai e vem, vai e vem.

Começa no que seriam os dias de hoje – e depois volta para 18 meses atrás. E aí fica indo e voltando, indo e voltando, indo e voltando dos dias de hoje para 18 meses atrás, 15 meses atrás, e por aí vai, indo e voltando, indo e voltando.

Nos dias de hoje, The One é uma empresa gigantesca, todo-poderosa, e sua presidente e face para o mundo, seu símbolo, seu Mark Zuckerberg, seu Bill Gates, é Rebecca Webb (o papel de Hannah Ware). The One já havia promovido 26 milhões de uniões em 142 países.

Um ano e meio antes, The One festejava 1 milhão de uniões, de combinações, de matches.

Vamos ainda mais atrás no tempo.

Rebecca era colega de universidade e de estudos pós-graduação de James Whiting (Dimitri Leonidas, na foto acima). James havia feito extensivas pesquisas sobre formigas e seu DNA, as formas pelas quais os casais de formigas se atraíam. Foi de Rebecca a idéia: e se a gente tentasse fazer a mesma coisa com seres humanos? Usar as descobertas sobre os DNAs de formigas que dão match e aplicar em seres humanos?

James e ela se debruçaram sobre esses estudos – e estabeleceram a fórmula pela qual um exame de DNA indicava quem seria o par, o grande amor, the one, da vida daquela pessoa.

Mas era preciso ter uma base de dados a partir da qual começar.

Ben Naser (Amir El-Masry) era um amigo e colega de James. Precisava encontrar alguém com quem dividir um apartamento em Londres. James o apresentou a Rebecca. Os dois se deram bem, dividiram o apartamento na boa, como bons amigos. Numa noite lá, depois de beberem bastante, treparam, e revelou-se que Ben estava apaixonado por Rebecca – embora ela não estivesse apaixonada por ele coisa alguma.

Continuaram a dividir o apartamento.

Ben trabalhava para uma gigantesca corporação, uma tal de NSB, que acontecia de possuir uma grande base de dados de DNA de imenso número de pessoas.

James é contra, mas Rebecca, numa hora em que Ben não está em casa, entra no laptop dele e rouba o banco de dados da empresa. É com base nesse banco de dados que a empresa criada por ela e por James, com apoio de um investidor, vai apresentando as primeiras combinações, as primeiras uniões, os primeiros matches.

A coisa explode muito rapidamente – que nem o Facebook.

Na festa comemorativa do primeiro milhão de matches, um ano e meio antes dos dias atuais, acontece algo grave que a série só vai revelando muito pouco a pouco. Mas, desde o primeiro episódio, ou então a partir do segundo (agora já não tenho mais certeza), mostra-se que houve no dia da festa uma briga violenta envolvendo os três jovens amigos – Rebecca e James de um lado, e Ben do outro.

Entre aquele momento e os dias de hoje, James afastou-se da empresa The One. Continuou como acionista, é claro, mas deixou de ter função executiva – isolou-se numa belíssima propriedade junto do mar, não longe demais de Londres.

Nos dias de hoje, enquanto The One é uma empresa cada vez mais importante e Rebecca brilha como assim uma espécie de Mark Zuckerberg, ou Bill Gates, ou Steve Jobs, a polícia de Londres descobre um corpo no Tâmisa – o corpo de Ben Naser. E começa a fazer uma cuidadosíssima investigação para descobrir a identidade do morto, e depois para descobrir como foi que ele morreu.

Uma dupla de policiais, chefiada pela detetive-inspetora Kate Saunders (Zoë Tapper), passa a se dedicar única e exclusivamente ao caso do corpo encontrado no fundo do Tâmisa.

Isso deixou a Mary indignada: mas, diabo, não há outros crimes em Londres? Naquela metrópole de cerca de nove milhões de pessoas, não há nada mais importante do que ficar tentando investigar a causa da morte daquele corpo jogado no Tâmisa? Só o corpo de Ben Naser foi lançado no Tâmisa naquela época lá?

(Isso me fez lembrar o iniciozinho de Frenesi/Frenzy, de 1972, o penúltimo dos 53 longa-metragens de Alfred Hitchcock, que começa com um corpse sendo retirado do Tâmisa – corpse, cadáver, era uma palavra adorada pelo velhinho doido; ele se comprazia em escandir o som da palavra diante das câmaras, ao dar entrevistas ou fazer cena nos filmetes de propaganda das suas obras. The cóóóór—-pse!, ele dizia, com o vozeirão soturno…)

O fato de uma detetive-inspetora e seu parceiro dedicarem praticamente cem por cento de seu tempo de trabalho a tentar solucionar o caso daquele corpse encontrado no Tâmisa é o mais gritante absurdo desta série que parte de um achado genial e se perde bobamente ao virar mais uma das incontáveis séries policiais exibidas pela Netflix.

Duas subtramas bem importantes

Esta série já me tomou tempo demais, e este texto já está muito grande em relação à importância da obra, que é pequena – mas, diabo, ainda é necessário registrar que, paralelamente aos eventos envolvendo Rebecca Webb, James Whiting, o falecido Ben Naser, a empresa The One, as intrigas e questões internas da companhia, há duas importantes subtramas.

Uma subtrama gira em torno da própria detetive-inspetora Kate Saunders. Kate, que até então não se considerava claramente gay, descobre que seu match é uma mulher, uma bela e jovem espanhola, Sophia (Jana Pérez). Sophia embarca de Barcelona para Londres para conhecer pessoalmente Kate, mas algo absolutamente inesperado acontece.

Sophia dizia para Kate que não tinha família, que todos os parentes próximos estavam mortos. E, naturalmente, ela se dizia solteira. Mas eis que surgem em Londres a esposa dela e depois o pai e o irmão.

O pior de tudo é que o irmão de Sophia se apaixona por Kate – e este é um dos elementos que deixam em aberto a possibilidade de vir aí um The One Two, algo que seria tão grotesco quanto esse ajuntamento de palavras.

A outra subtrama poderia servir para levar o espectador a pensar sobre o significado dessa coisa da descoberta de um jeito de definir, cientificamente, via comparações entre os DNAs, o grande amor da vida de cada ser humano. Poderia fazer o espectador examinar essas coisas tão fascinantes que são o que pensamos sobre coincidências, destino, fatalidade – em oposição ao livre arbítrio, à capacidade de cada de nós fazer suas escolhas, a cada momento da vida.

É assim: o casal Hannah e Mark Bailey (Lois Chimimba e Eric Kofi-Abrefa) é feliz, vive bem, se entende, se ama. Morre de tesão: trepam sempre, gostosamente. Mas eles se conheceram antes da obrigatoriedade de os casais se formaram com base no teste de DNA da empresa The One. E então Hannah, estupidamente, idiotamente – embora compreensivelmente – fica grilada, grilada, cada vez mais grilada: mas e se Mark viesse a conhecer seu igual, seu amor perfeito indicado não pelas estrelas, mas pelo teste de DNA?

Poderia ser uma maravilhosa subtrama. Poderia ser a oportunidade perfeita de fazer o espectador pensar, conjeturar, imaginar sobre aquele admirável mundo novo – que é a base da boa ficção científica (ou ficção especulativa). Fazer pensar, considerar, raciocinar.

Mas, como diria o jovem Chico, qual o quê!

The One não está interessado em fazer o espectador pensar.

Revela-se apenas uma trama policial. Mais uma de tantos zilhões de séries policiais que a Netflix (e mais trocentos e oitenta e cinco mil outras produtoras) jogam em cima da gente.

Só atores que eu não conhecia

Só falta registrar um fato, uma característica. Parece um detalhe, mas é bem importante.

Eu não conhecia nenhum dos atores desta série.

Acho isso fantástico, porque vejo muito filme inglês, muita série inglesa. Muito, muita.

É difícil pensar que uma série que tem aí uns 10 ou 12 personagens importantes consiga a façanha de não ter um único ator que eu não tenha visto antes.

Mas é assim que é.

As Ilhas Britânicas são o maior celeiro de bons atores que há no mundo.

Anotação em maio de 2021

The One

De Howard Overman, criador, roteirista, produtor executivo, Inglaterra, 2021

Direção Jeremy Lovering, Catherine Morshead, Brady Hood

Com Hannah Ware (Rebecca Webb, uma das criadoras do The One, a presidente da empresa),

e Dimitri Leonidas (James Whiting, um dos criadores da The One), Diarmaid Murtagh (Connor Martin, o chefe da segurança de Rebecca), Zoë Tapper (detetive-inspetora Kate Saunders), Lois Chimimba (Hannah Bailey), Eric Kofi-Abrefa (Mark Bailey), Jana Pérez (Sophia Rodriguez), Stephen Campbell Moore (Damien Brown), Gregg Chillin (Nick Gedny), Albano Jerónimo (Matheus Silva), Pallavi Sharda (Megan Chapman), Amir El-Masry (Ben Naser), Simone Kirby (Charlotte Driscoll), Wilf Scolding (Ethan), Eduardo Lloveras (Sebastian Rodriguez), Paul Brennen (David Cooper), Miguel Amorim (Fabio Silva), Paula Muñoz (Valeria Sanz), Louis Hunter (Josh Lee), Olivia Chenery (Holly), Carlos Kaniowsky (Alejandro Rodriguez), Vivienne Acheampong (Grace Kenu)

Roteiro Howard Overman

Baseado no livro de John Marrs

Fotografia Ruairí O’Brien, Anna Patarakina, Daniel Atherton

Música Ian Arber, Dave Rowntree

Montagem Justin Krish, Ben Whitehead, Anna Dick

Casting Lauren Evans

Direção de arte Julian Fullalove

Produção Adam Knopf, StudioCanal, Urban Myth Films.

Cor, cerca de 400 min (6h40)

Disponível na Netflix em maio de 2021.

**1/2

 

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