Duelo de Gigantes / The Missouri Breaks

Nota: ★☆☆☆

Eram dois dos maiores atores de Hollywood em meados dos anos 1970, quando este The Missouri Breaks, um western de produção caprichadíssima, foi lançado, em 1976.

Jack Nicholson tinha feito Chinatown (1974) com John Huston, Profissão: Repórter (1975) com Michelangelo Antonioni e Um Estranho no Ninho (também 1975) com Milos Forman – e levado o Oscar por este último, o primeiro filme a levar os Top Five desde 1934, quando Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra, havia ganho as estatuetas de melhor filme, direção, ator, atriz e roteiro.

E Marlon Brando… Bem, Marlon Brando era Marlon Brando. Vinha de outro sucesso extraordinário, The Godfather (1972), de Francis Ford Coppola, 3 Oscars, fora outras 8 indicações. Uma das três estatuetas foi para ele mesmo, mas o ator não se dignou a aparecer, e mandou em seu lugar uma jovem atriz, Maria Cruz, de nome artístico Sacheen Pequena Pena, que, devidamente vestida de índia, explicou ao mundo que o sr. Marlon Brando respeitavelmente recusava o prêmio devido ao fato de que a indústria de entretenimento tratava muito mal os nativos-americanos.

Assim, tinham toda razão os distribuidores brasileiros quando botaram em The Missouri Breaks o título de Duelo de Gigantes. É bastante apropriado. Bem parecido com Duelo de Titãs, que foi o título brasileiro de Last Train from Gun Hill (1959), um belo western em que se enfrentavam dois atores que, na época, também eram dos maiores – Kirk Douglas e Anthony Quinn.

Em Duelo de Gigantes, Jack Nicholson interpreta o chefe de um bando de ladrões de cavalos no Estado de Montana, ali por volta de 1880. Montana, encostado no Canadá, é onde nasce o Rio Missouri (na abertura do filme, especifica-se que a ação se passa nos Missouri Breaks – as fendas do Missouri).

É um ladrão de cavalos extremamente competente – e tão simpático quanto bom de serviço.

Marlon Brando interpreta um “regulator”, regulador, um sujeito que caça ladrões a soldo dos fazendeiros. Não um homem da lei, mas um “vigilante”, um miliciano. Extremamente competente – e tão respulsivamente antipático, asqueroso, nojento quanto bom de serviço.

Um filme que enaltece os fora-da-lei e demoniza quem luta contra eles

Missouri Breaks/Duelo de Gigantes tem a direção de outro gigante. E Arthur Penn, assim como seus dois atores centrais, também vinha de grandes sucessos de público e crítica. Depois de diversos filmes marcantes nos anos 60 – O Milagre de Annie Sullivan (1962), Caçada Humana (1966), Bonnie and Clyde (1967) –, tinha feito Pequeno Grande Homem (1970), um western épico, espetacular. E, no ano anterior, 1975, lançara Um Lance no Escuro/Night Moves, um policial pesado, denso, que espelhava com perfeição o estado de estupefação, desencanto e choque de muitos americanos diante do escândalo Watergate.

Um diretor respeitadíssimo, dois grandes atores no auge da fama, da beleza.

Seria de se esperar um grande filme.

Ao revê-lo agora, fiquei profundamente decepcionado. Não é um bom western, não é um bom filme.

Não gosto dessa coisa de enaltecer os fora-da-lei e demonizar quem luta contra os bandidos.

Marlon Brando exagera demais. O “regulator” Robert Lee Clayton que ele criou é caricatural demais, é uma coisa excessiva, repugnante, fora de prumo. Não dá para levar a sério um filme que tem uma atuação como aquela.

O próprio filme não se leva a sério – há vários momentos cômicos, como, por exemplo, o assalto a um trem perpetrado por Tom Logan (o papel de Jack Nicholson) e um de seus comparsas. Logan consegue fazer com que o cofre do trem seja aberto, e enche uma maleta com o dinheiro. Só que, ao sair do vagão que ele havia separado do resto do trem, percebe que está no alto de uma gigantesca ponte – e a maleta com o dinheiro cai lá embaixo, onde passa um pequeno rio, e o dinheiro se espalha por uma grande área.

Uma mistura indigesta de drama com piada, muita insistência em sexo e flatulência

É preciso lembrar que, nos anos 60 e 70, diversos diretores fizeram westerns que de uma forma ou de outra iam contra as regras básicas do gênero. Havia um esforço de desconstrução, ou de reconstrução dos cânones do western.

Arthur Penn havia estreado, em 1958, com um western ainda nos moldes tradicionais, The Left Handed Gun, no Brasil Um de Nós Morrerá, em que Paul Newman faz o papel de Billy the Kid. Mas seu segundo western, Pequeno Grande Homem, já trazia essa visão, digamos, iconoclasta do gênero, inclusive com alguns elementos cômicos.

Já em 1965, Cat Ballou, no Brasil Dívida de Sangue, tinha feito as platéias rirem com a hoje antológica cena em que tanto o pistoleiro interpretado por Lee Marvin quanto seu cavalo estão encostados numa parede, escornados depois de bebedeira das grandes. Quase uma década depois, em 1974, com Banzé no Oeste/Blazing Saddles, o iconoclasta-mór Mel Brooks avacalhou de vez com o faroeste, para o pavor dos milhões de fãs do gênero mundo afora.

E, de meados dos anos 60 em dia, os italianos haviam feito filmes que eram quase paródias do western, de tanto que eram exagerados os seus spaghetti-westerns.

Sou fã do gênero, mas não sou assim tradicionalista, defensor da absoluta pureza dos filmes de bangue-bangue. Nada contra fazer graça com o faroeste. Ou exagerar.

Mas o que Arthur Penn fez neste The Missouri Breaks, foi, na minha opinião, uma mistura muito indigesta de trechos cômicos com trechos sérios, graves. Não colou. Não ficou bem.

E há também – sempre na minha opinião, que não vale mais que moeda furada de 3 guaranis paraguaios – uma excessiva forçação de barra em cima do sexo e do escatológico.

O furor sexual da filha do fazendeirão milionário, Jane Braxton (a simpática Kathleen Lloyd, já então veterana na TV, mas estreando no cinema), soa um tanto descabido. Fica parecendo que Arthur Penn – sempre tido como o realizador americano de estilo europeu – não queria ficar muito atrás de Bernardo Bertolucci, que um ano antes havia feito O Último Tango em Paris com o mesmo Marlon Brando. O Marlon Brando que, aqui, a todo momento faz referência a flatulência – coisa de terrível mau gosto.

O filme foi bastante massacrado pela crítica na época do lançamento

Fui checar minhas anotações; vi o filme na época do lançamento, em 1977, mas não escrevi comentário algum sobre ele. Em 1992 revi, e de novo não anotei nada, a não ser a cotação de 2 estrelas. Hoje, acho que 2 estrelas são demais para o filme.

Não me lembrava de ter visto duas vezes – e não me lembrava, ou então nunca soube, que o filme na época foi tão massacrado.

E foi. Cacete, como foi massacrado.

Leonard Maltin deu na época 1.0 estrela em 4: “Dupla dinamite de astros em confrontação pistoleiro de aluguel versus ladrão de cavalos – tudo para dar em nada. Uma misturada, excessivamente violento, um evento que não se dá; o pior filme de um grande diretor e um dos piores ‘grandes’ filmes jamais feitos.”

Fui ver o guia de Maltin de 2015, o último editado em livro, para conferir se ele havia jogado o filme fora (ele retira alguns verbetes para que caibam os referentes a filmes mais novos) ou se havia reconsiderado sua opinião. O texto permanece o mesmo, mas ele reconsiderou a cotação: baixou de 1 estrela para BOMB, assim, em maiúsculas.

O guia de Mick Martin e Marsha Potter deu 2 estrelas em 5. “Por todo o seu potencial, esse western realmente decepciona. Jack Nicholson está aceitável como o fora-da-lei tentando exercer sua atividade. Marlon Brando, ao contrário, está inconsistente como o caçador de recompensas que está atrás de Nicholson.”

O guia de Steven H. Scheuer, de que gosto muito, deu 2 estrelas em 4, mas meteu a lenha: “Um western enormemente desapontador, atrapalhado, passado em Montana nos anos 1880. Consta que o diretor Arthur Penn teve que ceder a todos os caprichos de Brando, inclusive alterações ilógicas no roteiro.”

Ahá! Então Marlon Brando apareceu com caprichos, é?

Marlon Brando obrigou Arthur Penn até mesmo a alterar o roteiro

É. Marlon Brando apareceu com caprichos. É o conta o livro The United Artists Story. Vai sem aspas, para me desobrigar a ser literal:

“Um par de bebês de um milhão de dólares num produto de cinco centavos”, escreveu o crítico do Los Angeles Times sobre The Missouri Breaks. Os “bebês” eram Marlon Brando e Jack Nicholson, que receberam – cada um deles – um cheque de um milhão de dólares para fazer o trabalho deles na produção de Elliott Kastner e Robert M. Sherman. Brando aceitou o papel para ganhar dinheiro para a sua causa, o drama dos Peles Vermelhas. Ele não ficou contente, no entanto, em pegar a grana e se mandar, mas procedeu em fazer com que o diretor Arthur Penn aceitasse cada um dos seus caprichos. Estes incluíam alterar o roteiro de Thomas McGuane, simular um sotaque irlandês, e andar por aí fantasiado de um vovô chato.

E, ao final:

Algum humor peculiar e esplêndidas locações em Montana infelizmente não foram capazes de sustentar este não-evento confuso, jocoso, violento.

É. Parece mesmo que na época todo mundo desceu a lenha – e, vejo agora, com toda razão. Com carradas de razão.

O louco é que – vejo também agora – o filme parece estar passando por uma reavaliação. Passei os olhos pelos comentários dos leitores do IMDb, e vários falam coisas do tipo “um western que merecia mais”, “vale a pena ver a atuação excêntrica de Brando”, “muitas vezes desprezado, mas um grande western”.

Mais estranho ainda: o Guide de Films de Jean Tulard dá raras 3 estrelas, faz efusivos elogios, e cita um blá-blá-blá anticapitalista de Arthur Penn para definir o sentido do filme.

Eu, hein…

Há muitos exemplos de bons filmes que não foram bem recebidos, não foram compreendidos em sua época, e que só têm sua qualidade reconhecida mais tarde. Mas este filme aqui não está entre eles. A revisão de The Missouri Breaks hoje me fez dar toda razão a quem na época espinafrou o troço.

É uma grande de uma porcaria.

Anotação em setembro de 2016

Duelo de Gigantes/The Missouri Breaks

De Arthur Penn, EUA, 1976

Com Jack Nicholson (Tom Logan), Marlon Brando (Robert Lee Clayton)

e Randy Quaid (Little Tod), Kathleen Lloyd (Jane Braxton), Frederic Forrest (Cary), Harry Dean Stanton (Calvin), John McLiam (David Braxton), John P. Ryan (Si), Sam Gilman (Hank Rate), Steve Franken (The Lonesome Kid), Richard Bradford (Pete Marker), James Greene (rancheiro do Hellsgate), Luana Anders (a mulher do rancheiro), Hunter von Leer (Sandy)

Argumento e roteiro Thomas McGuane

Fotografia Michael C. Butler

Música John Williams

Montagem Dede Allen, Jerry Greenberg e Stephen A. Rotter

Cor, 126 linhas

Produção Devon/Persky-Bright, United Artists. DVD FlashStar Filmes.

R, *

Título na França: Missouri Breaks. Em Portugal: Duelo no Missouri

Um Comentário

  1. Senhorita
    Postado em 3 fevereiro 2017 às 5:33 pm | Permalink

    (Eu acho) O Marlon Brando não era tudo isso não (Eu acho)

3 Trackbacks

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