Sing Your Song

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Nota: ★★★½

Sing Your Song, espetacular documentário sobre Harry Belafonte lançado em 2011, deveria trazer, em letras gigantes, uma advertência do tipo: “O Ministério da Saúde avisa: este filme é absolutamente contra-indicado para reacionários, direitistas raivosos, racistas e cínicos de maneira geral.”

A esses doentes, o filme pode de fato causar sofrimento agudo, dores lancinantes e até mesmo ataques cardíacos fatais.

O filme informa, em seus créditos iniciais, que este é um documentário chapa-branca. Uma biografia autorizada, como dona Paula Lavigne gostaria que todas fossem. Uma das companhias produtores é um instituto do próprio biografado, sua filha é uma das que assinam a produção.

Isso avisado, tudo bem. A rigor, não há por que ser contra as biografias autorizadas, chapa-brancas. Só é fundamental que o público saiba disso.

O filme é entremeado por trechos de duas longas entrevistas com Belafonte, de épocas diferentes

Harry Belafonte teve uma carreira importantíssima, tanto como ator quanto como músico e homem de TV. Muito de sua carreira artística é mostrado no filme – mas o documentário privilegia mesmo é o outro lado do homem: o do ativista político.

zzsing2A diretora e roteirista Susanne Rostock teve à sua disposição uma quantidade imensa de material: trechos de programas de TV, de cinejornais de diferentes épocas, trechos de filmes, de shows. Entrevistou diversas personalidades que conviveram com o artista ao longo de sua extraordinária carreira. Mas, sobretudo, pôde contar com longas entrevistas com o próprio Harry Belafonte, feitas em duas ocasiões diferentes. O documentário comete o pecadilho de não informar a data em que foram filmadas essas longas entrevistas que a realizadora editou com maestria, espalhando trechos delas ao longo do filme.

A parte mais recente das entrevistas parece ter sido feita bem pouco antes da montagem final e do lançamento do documentário – em 2011. Belafonte está bastante idoso – ele é de 1927, e portanto em 2010 estava com 83 anos –, já completamente careca, ainda belo, com uma aparência saudável e uma lucidez impressionante. A série de entrevistas anterior parece ter sido feita há uns 20 anos, mais ou menos.

Belafonte conta que nasceu no Harlem, o bairro de negros dentro de Manhattan – e vemos cenas do Harlem nos anos 20, 30, e também hoje. Sua mãe, jamaicana que havia emigrado para os Estados Unidos, mandou o filho, ainda criancinha, para seu país natal, onde cresceu.

Não sabia disso – ou, se já soube, tinha esquecido, o que dá na mesma. Mas esse fato explica por que Belafonte consegue falar (e cantar em) tão bem, tão solto, tão à vontade, dois tipos de inglês, o americano de Nova York e o jamaicano.

Por um trabalhinho manual, ganhou uma entrada de teatro – e sua vida mudou

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Ele conta que, já de volta a Nova York, ainda muito jovem, auxiliava o zelador do prédio, consertando uma coisinha aqui, outra ali; como pagamento por um desses pequenos trabalhos, recebeu ingressos para uma apresentação do American Negro Theater, que havia sido formado no Harlem em 1940. Foi – e decidiu que queria ser ator. Inscreveu-se nos cursos dramáticos do ANT – por onde passou também seu conterrâneo e amigo desde sempre Sidney Poitier.

A música veio depois – segundo ele, por influência de sua admiração por Paul Robeson (1898-1976), o lendário cantor de voz grave e ativista político. “Mr. Robeson era uma força universal”, Belafonte diz no filme.

E mais tarde ainda viriam a então iniciante televisão e o cinema.

zzsing99Deu-se espetacularmente bem em todas as áreas. Na Broadway, ganhou um Tony, o Oscar do teatro, por sua participação em John Murray Anderson’s Almanac, de 1953. Teve um programa semanal de TV de uma hora de duração, em que se apresentou ao lado de várias artistas, inclusive a magnífica cantora Odetta. Foi dele o primeiro disco de ouro que marca a venda de um 1 milhão de cópias em toda a história, Calypso, da RCA Victor, de 1956 – que também foi disco de ouro na Inglaterra. (O filme mostra um programa de TV em que o apresentador entrega os discões de ouro para um Belafonte jovem e belíssimo.)

Foi ele o responsável pela mania do calipso nos Estados Unidos, em meados dos anos 50.

Sempre pela RCA, lançou diversos álbuns de tremendo sucesso, como Belafonte Sings of the Caribbean, Belafonte at Carnegie Hall, Jump Up Calypso, Belafonte at the Greek Theater.

O filme não se detém muito na carreira fonográfica de Harry Belafonte, mas o livro The Billboard Book of US Top 40 Hits mostra que ele botou cinco compactos entre os mais vendidos, em 1956 e 1957 – “Jamaica Farewell”, “Mary’s Boy Child”, “Banana Boat”, “Mama Look at Bubu” e “Island in the Sun”.

Ele estrelou um dos primeiros filme a mostrar um namoro entre pessoas de cor de pele diferente

zzsing00Esta última canção tem o mesmo título de um de seus filmes, de 1957, dirigido por Robert Rossen, o autor dos clássicos A Grande Ilusão/All the King’s Men, de 1949, e Desafio à Corrupção/The Hustler, de 1961. Gostaria imensamente de ver esse Island in the Sun (que foi lançado no Brasil como Ilha nos Trópicos). O documentário mostra a foto de uma cena do filme em que Joan Fontaine encosta sua mão branquinha na pele negra de Belafonte – e relata que o filme causou intensa polêmica nos Estados Unidos na época de seu lançamento. Não há cenas de amor entre os dois personagens, mas a simples menção a um namoro que na época era chamado de inter-racial despertou o furor dos racistas.

Sing you Song não diz isso, mas, segundo o IMBd, na época Joan Fontaine recebeu centenas de cartas racistas, contendo moedinhas de 10 e 25 cents, que diziam coisas como: “Se você está tão dura que precisa trabalhar com um nigger…” As cartas foram enviadas de diversos lugares do país, mas pareciam algo organizado, porque muitas continham exatamente as mesmas frases.

O documentário não diz claramente, mas creio que Island in the Sun foi um dos primeiros – se não o primeiro de todos – filmes americanos a mostrar um romance entre uma branca e um negro.

É bom lembrar que, como é dito num diálogo de Adivinhe Quem Vem Para Jantar, que Stanley Kramer lançou em 1967, sobre a história de amor entre um negro (Sidney Poitier) e uma branca (Katharine Houghton), os casamentos entre pessoas de cor de pele diferentes eram proibidos por lei em 16 ou 17 estados norte-americanos ainda nos anos 60.

Uma personalidade fundamental na luta pelos direitos civis nos anos 60

zzsing3Naquele mesmo ano de 1957, Belafonte ofenderia todos os racistas de seu país ao se casar com Julie Robinson, então dançarina da Katherine Dunham Company – uma mulher de pele clara. Julie é uma das diversas entrevistadas no documentário, e conta que, ainda na maternidade, onde teve o primeiro de seus dois filhos com o artista, recebia telegramas e telefonemas de gente que a insultava.

Com Julie, sua segunda mulher (eles viriam a se separar em 2008), Belafonte teve os filhos Gina e David. Gina é uma das produtoras deste documentário. Os dois tiveram carreira como atores e produtores.

Com a primeira mulher, Marguerite Byrd, com quem ficou casado entre 1948 e 1957, o artista tinha tido também dois filhos; a mais velha, Adrienne Belafonte-Biesmeyer, é entrevistada no documentário.

Quando a luta pelos direitos civis se intensificou em todos os Estados Unidos, no início dos anos 60, Harry Belafonte já era um veterano nela. Tornara-se amigo do reverendo Martin Luther King Jr. (a viúva dele, Coretta Scott King, dá seu depoimento no documentário), participou com ele de diversas manifestações e foi um dos organizadores da famosérrima e fundamental marcha sobre Washington, em 1963.

zzsing999Os Kennedy, o presidente John F. e seu irmão Bob, então ministro da Justiça, eram contra a idéia da marcha, diz um amigo de Belafonte no documentário. O artista procurou tranquilizá-los, disse a eles que tudo seria pacífico e garantiu que levaria o maior número de artistas famosos para participar – e, de uma certa maneira, também para ajudar manter a tranquilidade no gigantesco evento.

Numa das tomadas da Marcha que aparecem no filme, vemos, de longe, Joan Baez. Bob Dylan não é mostrado. (Volto a falar destes dois mais adiante.)

Belafonte havia participado ativamente da campanha de John F. Kennedy para a presidência da República, em 1960, em que enfrentou Richard Nixon, que era então o vice de Dwight Eisenhower. Num de seus depoimentos, o próprio Belafonte conta que ficou bastante surpreso ao perceber como John F. Kennedy inicialmente conhecia pouco sobre Martin Luther King Jr. e a luta pelos direitos civis.

Depois de trabalhar em seu país, foi ajudar em vários países africanos

A luta pelos direitos civis, as viagens ao Sul Profundo – o lado mais entranhadamente racista dos Estados Unidos – ocupam vários minutos do belo documentário.

E em seguida focaliza-se o ativismo de Belafonte na África. A partir dos anos 70, com a questão racial já bastante encaminhada em seu país, o artista voltou-se para as nações africanos. Fez diversas viagens ao continente, estabeleceu amizade com lideranças locais. Ajudou a formar uma organização que levou para estudar nos Estados Unidos dezenas de jovens do Quênia – entre os 81 primeiros, estava o pai de Barack Obama!

zzsing6Impressionado com os acampamentos de refugiados famintos na Etiópia, nos anos 80, Belafonte procurou seu amigo, o maestro e arranjador Quincy Jones, com a proposta de fazer alguma coisa para ajudar. Foi a gênese do USA for Africa, da gravação de “We Are the World”.

E, claro, Belafonte foi se meter também na luta contra o apartheid. Ele foi a pessoa que levou a cantora Miriam Makeba para os Estados Unidos, gravou com ela, introduziu-a ao Ed Sullivan Show, então um dos programas de maior audiência da TV americana.

O filme registra depoimentos de Miriam Makeba e do bispo Desmond Tutu (“Ter Harry Belafonte do nosso lado, isso em si era um instrumento poderoso”, diz o bispo Prêmio Nobel da Paz). E mostra cenas em que Nelson Mandela, sorridente, cumprimenta o cantor.

A inglesa Petula Clark pegou no braço de Belafonte – e “o mundo parou”

“A gente não conhece nada, não sabe nada”, Mary costuma dizer, sempre que a gente vê um filme retratando fatos históricos que não conhecemos bem. É o jeito dela de dizer o socrático “Só sei que nada sei”.

Sou fã apaixonado de Harry Belafonte há muito tempo, quase desde sempre, e sabia um pouco sobre a vida dele, mas Sing Your Song mostra que Mary está certa: a gente não conhece nada, não sabe nada.

Por exemplo: nunca soube que Bob Kennedy tinha trabalhado como advogado auxiliando os trabalhos do comitê macarthista que investigou as “atividades anti-americanas” no Congresso, no início dos anos 50. O filme mostra isso.

Jamais poderia imaginar essa ligação que houve entre Belafonte e o pai de Barack Obama.

Nunca tinha ouvido falar que o fato de a cantora inglesa Petula Clark ter pego no braço de Belafonte, em 1968, causou furor internacional. Por causa disso, “o mundo parou”, diz a atriz Whoopi Goldberg no documentário.

zzsing4Vi O Diabo, a Carne e o Mundo, de 1959, em 1963; nunca me esqueci daquele filme impressionante, um ficção-científica, uma distopia, que mostra o planeta após um conflito atômico e, numa Nova York vazia, há apenas três sobreviventes – um branco (Mel Ferrer), uma loura (Inger Stevens) e um negro (o papel de Harry Belafonte). Lá pelas tantas, os dois homens começam a brigar pelo amor da mulher, e o personagem de Belafonte diz algo do tipo: “Ah, é? Vamos começar a Quarta Guerra Mundial?”

Mas não tinha idéia de que Belafonte foi um dos produtores do filme, através de sua empresa, a HarBel Productions.

E também não me lembrava – embora tenha vários discos dele – que Belafonte introduziu às platéias americanas, ainda nos anos 50, a canção cubana “Guantanamera”, assim como foi um dos músicos que popularizaram a hebraica “Hava Naguila”.

Belafonte influenciou os então jovens aprendizes Joan Baez e Bob Dylan

Meu primeiro disco de Harry Belafonte foi a bela coletânea This is Harry Belafonte, um álbum duplo lançado pela RCA Victor americana em 1970. Quando comprei a preciosidade, importada, no Museu do Disco da Rua Dom José de Barros, ainda não sabia algo que vim a aprender mais tarde: que o grande artista teve influência sobre dois dos meus maiores ídolos desde sempre, Bob Dylan e Joan Baez.

No iniciozinho de sua carreira, antes ainda de gravar seu primeiro disco, em 1962, Bob Dylan foi convidado para tocar harmônica numa faixa de um disco de Belafonte.

A adolescente Joan Baez, antes de fazer seu primeiro disco oficial, em 1960, gravou três canções do repertório de Belafonte – “Man smart, woman smarter”, “Scarlett Ribbons” e exatamente a já citada “Island in the Sun”. Não tenho a gravação do jovem Dylan como instrumentista de estúdio acompanhando o já então consagradíssimo cantor, mas tenho as três de Joan Baez. É absolutamente nítido que a garotinha se esforçava para cantar exatamente como o artista consagrado; na primeira, gravada em 1958, ela imita o sotaque jamaicano dele.

Já tinha uma voz belíssima.

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Sing Your Song não fala dessa conexão entre Harry Belafonte e Joan Baez e Dylan. É um pequeno detalhe na obra imensa deste artista fenomenal, gigantesco, impressionante – e aí não me refiro apenas à obra de Belafonte cantor, ator, dançarino, mas também à do ativista político.

Mas as coisas são engraçadas. Para mim, só por ter influenciado Joan Baez e Dylan Harry Belafonte já seria um artista maior.

Anotação em dezembro de 2013

Sing Your Song

De Susanne Rostock, EUA, 2011

Documentário com depoimentos de Harry Belafonte, Sidney Poitier, Marge Champion, Fran Scott Attaway, Julian Bond, George Schlatter, Adrienne Belafonte-Biesmeyer, Diahann Carroll, Mike Merrick, Julie Robinson, Coretta Scott King, Whoopi Goldberg,

e trechos de filmes, programas de TV, cinejornais.

Roteiro Susanne Rostock

Música Hahn Rowe

Montagem Jason Pollard e Susanne Rostock

Produção HBO Documentary Films.

Cor e P&B, 103 min

***1/2

2 Comentários

  1. Postado em 26 novembro 2014 às 3:13 pm | Permalink

    Ótima resenha!
    Só acho que deveria incluir também “esquerditas raivosos”, na lista.
    Pra não ficar parecendo que os errados, sempre são “os outros”.
    Abs

  2. josué duarte
    Postado em 21 agosto 2015 às 3:01 pm | Permalink

    Estou lendo somente agora, em 2015, mas vale o esclarecimento.
    Vi o filme A Ilha nos Trópicos na televisão há muitos anos. O interessante é que Belafonte já mostra ser um ativista pela maneira de interpretar.
    Minha observação diz respeito à interpretação da canção Banana Boat, uma forma tribal africana, que vai encontrar similar na nossa escola de samba apresentar o enredo. Outro filme, Zulu, mostra como a tribo entoava a cancão, dividindo o canto solo e o coral. É daí que vem o contraponto do coro na canção de Belafonte e da nossa escola de samba.

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