Longford

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Nota: ★★★½

Nunca tinha ouvido falar no Lord Longford, e aí já vai uma das muitas qualidades do filme que tem o seu nome – a de nos apresentar essa personalidade fascinante, admirável, fantástica.

Lord Longford (1905-2001), político, reformista social, religioso, escritor, é um daqueles seres humanos que se encaixam como uma luva na definição de Bertold Brecht: “Há homens que lutam um dia e são bons. Há outros que lutam um ano e são melhores. Há os que lutam muitos anos e são muito bons. Mas há os que lutam toda a vida, e estes são imprescindíveis”.

zzlongford realSeu nome de batismo era Francis Aungier Pakenham, mas ficou conhecido pela família como Frank Longford e, na vida pública, como Lord Longford. Membro de uma família de nobres que possuía propriedades tanto na Inglaterra quanto da Irlanda, seu título honorífico era o de 7º Conde de Longford.

Foi um dos pouquíssimos lordes britânicos a se filiar ao Partido Trabalhista, e um dos políticos de carreira mais longeva do país: titular de cadeira na Câmara dos Lordes, pertenceu ao gabinete ministerial várias vezes entre 1947 e 1968. Manteve-se politicamente ativo até sua morte, em 2001, aos 95 anos de idades.

Ficou famoso por sua luta incansável pela reforma das leis penais e das prisões britânicas; visitou prisioneiros semanalmente desde os anos 1930 até sua morte. Defendeu programas de reabilitação de criminosos condenados e ajudou a criar o sistema moderno de liberdade condicional.

A partir de meados dos anos 1960, empenhou-se na defesa de Myra Hindley, uma jovem condenada à prisão perpétua, juntamente com o amante, Ian Brady, pelo assassinato de três garotos, um de 10, um de 12 e outro de 17 anos na região de Manchester.

Os crimes – hediondos, crudelíssimos – abalaram profundamente a opinião pública britânica. Ian Brady e Myra Hindley passaram a ser as pessoas mais odiadas das Ilhas Britânicas. (Nas fotos P&B, os personagens reais.)

E, consequentemente, Lord Longford passou a ser também objeto de ódio, desprezo.

Se antes já era uma figura controvertida, polêmica, virou uma espécie de inimigo público nº 3, logo abaixo dos dois assassinos.

Dois grandes atores em desempenhos impecáveis – Jim Broadbent e Samantha Morton

zzlongford casalLord Longford é uma produção feita para a TV, com a assinatura de três canais respeitabilíssimos: os britânicos Channel 4 e Granada Television e a americana HBO Films. Foi dirigido por Tom Hooper, que mais tarde assinaria outros grandes filmes: Maldito Futebol Clube/The Damned United (2009), O Discurso do Rei/The King’s Speech (2010) e Os Miseráveis (a versão musical, de 2012).

O protagonista é interpretado pelo veterano Jim Broadbent, de tantos bons filmes – Einstein e Eddington, E Estrelando Pancho Villa, A Jovem Rainha Vitória, Feira de Vaidades, Iris, alguns da série Harry Potter, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, para citar só uns poucos.

E Myra Hindley é feita por uma atriz também extraordinária, Samantha Morton, de Minority Report – A Nova Lei, Terra de Sonhos/In America, O Mensageiro, Honra e Liberdade/River Queen, Sinédoque Nova York.

Só pelo desempenho soberbo desses dois grandes atores – realçado por insistentes close-ups de seus rostos – Lord Longford já seria um belo filme. Mas ele tem muitas, muitas outras qualidades.

30 anos depois, as pessoas não perdoavam Longford por ter defendido uma assassina

A ação começa em 1987, duas décadas depois dos assassinatos dos três garotos, portanto. Lord Longford está sendo entrevistado no estúdio de uma rádio. Acho que vale a pena transcrever as falas iniciais (até porque o IMDb já teve o trabalho de degravá-las).

O entrevistador (interpretado por Lee Boardman): – “Hoje, pessoal, temos o privilégio de ter conosco um ex-membro do gabinete trabalhista e líder da House of Lords, um Cavaleiro e 7º Conde de Longford, que veio conversar conosco sobre um livro que acabou de escrever, Santos. Frank Pakenham – Lord Longford, bem-vindo ao show.”

Lord Longford (ele usa o cabelo que lhe resta espetado, o que o deixa com uma imagem insólita, beirando o ridículo): – “Muito obrigado”.

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O entrevistador: – “Tantas perguntas a fazer ao senhor, uma carreira tão longa e ilustre. Mas vou começar pelo livro. O que o levou a escrevê-lo?”

Lord Longford: – “Como um cristão por toda a vida, e estudioso, sempre me interessei pelas idéias da santidade. Mas, mais do que isso, penso que foi provavelmente o desejo inteiramente egoísta de passar um pouco de tempo com meus heróis.”

O entrevistador: – “Seus heróis?”

Lord Longford: – “Sim, isso é o que os santos são – meus heróis, amigos, intercessores.”

O entrevistador: – “Interessante! Certo, agora são 2h15, o tema são os santos, nós vamos atender a algumas ligações. David, você está falando com Lord Longford. Qual é sua pergunta sobre… os santos?

Voz de homem ao telefone, irritada: – “Na verdade minha pergunta não é sobre santos. Eu só gostaria de saber como o seu estimado convidado consegue olhar para o espelho a cada manhã.”

O entrevistador: – “Imagino que você está se referindo a Myra Hindley”.

Voz de homem: – “É sim! Como você pôde esfregar sal nas feridas das famílias daquele jeito? Um homem na sua posição, defendendo aquele monstro!”

Lord Longford: – “Eu deixei muito claro antes de vir a este programa que eu não falaria sobre Myra Hindley hoje.”

Um homem de muitas conversões: de conservador para socialista, de protestante para católico

Vem uma segunda ligação para o estúdio. É uma voz de mulher, igualmente irritada, nervosa: – “Minha ligação também é sobre Miss Hindley. Tendo em vista tudo o que agora sabemos, você não se arrepende por tê-la apoiado durante todo o tempo?”

Lord Longford: – “De novo, senhora, temo que eu vá declinar de responder a perguntas sobre ela.”

A ouvinte: – “É uma pergunta simples, Lord Longford – sim ou não? O senhor se arrepende?”

O rosto de Longford está agitado. O entrevistador espera uma resposta – que não virá agora. Virá apenas bem no final da narrativa. O que vem depois dessa maravilhosa abertura são os créditos iniciais – e, enquanto vão rolando os créditos iniciais, vemos imagens de jornais de TV de 1965, da época dos crimes.

zzlongford5Nessa época, Longford era líder do Partido Trabalhista na House of Lords, e tinha assento no gabinete do então primeiro-ministro Harold Wilson – e já trabalhava com presos, sistema penal, havia décadas.

O filme nos apresenta como é a relação entre Longford e sua mulher, Lady Elizabeth Longford (Lindsay Duncan), ela também escritora, intelectual, com vida ativa.

Depois de presa e condenada, Myra Hindley escreve para Lord Longford pedindo que ele vá visitá-la. Lady Elizabeth não fica nada satisfeita com aquilo: como praticamente todos os ingleses, sua visão da mulher era de uma assassina cruel, um monstro.

Mas ele diz à mulher que jamais tinha recusado se encontrar com um preso – e vai.

Depois da primeira visita, Myra passa a se corresponder com ele. Lê o primeiro capítulo de sua autobiografia, e, numa das primeiras cartas, diz: “Você teve uma vida interessante. Tantas conversões: de inglês para irlandês, de conservador para socialista, de protestante para católico”.

Longford foi bastante premiado nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha

O filme ganhou 16 prêmios, fora outras 24 indicações. Levou os Globos de Ouro de melhor minissérie ou filme feito para a TV, melhor ator para Jim Broadbent e melhor atriz para Samantha Morton nessa categoria. Andy Serkis, o ator que interpreta – poderosamente, dando ânsia de vômito no espectador – o assassino Ian Brady, o amante de Myra Hindley, foi indicado ao Globo de Ouro de melhor ator coadjuvante.

Lord Longford também levou os Baftas da TV de melhor ator para Jim Broadbent, melhor montagem para Melanie Oliver e melhor roteiro para Peter Morgan. Teve várias outras indicações ao Bafta da TV, inclusive para Samantha Morton e Andy Serkis.

Um filme que não esconde, de forma alguma, sua posição diante do tema polêmico

zzlongford6A sociedade costuma se dividir sobre os temas mais controversos que há – o direito ao aborto, o direito à eutanásia, a pena de morte, a forma com que devem ser tratados os criminosos presos e condenados.

Em todas essas questões, é muito difícil as pessoas mudarem de lado após ouvir argumentos do outro lado.

Lord Longford não esconde, de forma alguma, sua posição: assim como o homem que retrata, o filme é radicalmente a favor do tratamento digno dos criminosos, a favor de se dar uma chance para que eles se arrependam de seus crimes e possam ter, após cumprir suas penas, uma nova vida.

Assim, os defensores da Lei do Talião, do olho-por-olho, dente por dente, esses seguramente odiariam mortalmente este belíssimo filme.

Anotação em maio de 2014

Longford

De Tom Hooper, EUA-Inglaterra, 2006

Com Jim Broadbent (Lord Longford), Samantha Morton (Myra Hindley)

e Lindsay Duncan (Lady Elizabeth Longford), Andy Serkis (Ian Brady), Robert Pugh (primeiro-ministro Harold Wilson), Lee Boardman (apresentador no rádio), Roy Barber (padre Kahle),

Roteiro Peter Morgan

Fotografia Danny Cohen

Música Rob Lane

Montagem Melanie Oliver

Casting Nina Golde e Michelle Smith

Produção Channel 4 Television Corporation, Granada Television, HBO Films.

Cor, 93 min

***1/2

Um Trackback

  1. […] do milênio. E demonstra que é um expert em encenar filmes baseados em histórias reais, depois de Longford (2006), Maldito Futebol Clube (2009) e O Discurso do Rei […]

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