Além da Estrada / Por el Camiño

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Nota: ★☆☆☆

Mezzo brasileiro, mezzo uruguaio, Além da Estrada/Por el Camiño é um road movie um tanto hippie-metafísico-existencialista bastante premiado. Na minha opinião, tem muitas belas imagens, ótimas músicas, uma boa quantidade do mais puro papo furado e história alguma.

É possível que Charly Braun – co-autor do argumento, roteirista, um dos montadores e diretor – tenha querido fazer o seu Easy Rider pessoal. E por que não? Não é proibido.

Os viajantes são Santiago (Esteban Feune de Colombi) e Juliette (Jill Mulleady). Estão próximos no grande ferry-boat que, pode-se deduzir, faz a viagem Buenos Aires-Montevidéu, cortando o que Horácio Ferrer chamava de mi Rio de La Plata lindo y súcio. Estão próximos, mas não se vêem. Uma vez em Montevidéu, cada um toma seu caminho.

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Não vemos que caminho toma Juliette, mas acompanhamos Santiago em sua jornada a bordo de um Renault rumo ao centrinho da capital uruguaia. Lá ele visita, num prédio lindo e estranho – que deve ter sido construído nos anos 1930, e que, segundo diz um personagem, foi chamado por Le Corbusier de um anão sem chapéu – um senhor que mantém em seu apartamento pilhas e pilhas de papel. Do meio daquela selva de papéis esse senhor retira, com rapidez e precisão, os documentos que Santiago procurava: a escritura de um terreno no interior uruguaio que os pais dele haviam comprado fazia muito tempo.

Os filmes, assim como a vida, são cheios de coincidências, e não é que, rodando pela beira do Prata, em direção ao Norte, à região da cidade de Rocha, Santiago não emparelha seu Renault com Juliette, que caminha pelo passeio puxando sua mala de rodinhas? Tinham estado lado a lado no ferry-boat, mas não tinham se visto. Agora se vêem. Santiago pergunta para onde ela vai, e não é que ela vai exatamente para Rocha? Ela responde algo em francês, ele pergunta se ela é francesa, ela diz que é belga. Como o espanhol dela é fraco, passam a conversar em inglês.

Ficaremos sabendo que Santiago, argentino, trabalhou um tempo como corretor de valores em Nova York. Seus pais morreram em um acidente de carro, e então ele voltou para Buenos Aires. E agora está indo ver o terreno que os pais haviam comprado no Uruguai.

Quanto à belga Juliette, ela está indo tentar reencontrar Juan, um rapaz que ela havia conhecido na Costa Rica, e depois no Brasil.

Como em todo road movie, o casal encontra os mais diferentes tipos

E lá vão os dois, road moviendo Uruguai afora.

Como Wyatt-Peter Fonda e Billy-Dennis Hopper do filme hippie de 1969, como os personagens de todo bom road movie, vão encontrando pelo caminho os mais diferentes tipos.

Para não parecer que estou sendo irônico ou impiedoso, transcrevo trechos da sinopse do site oficial do filme.  

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“Sem perspectivas, Santiago, um argentino próximo de seus 30 anos, decide ir ao Uruguai conhecer um terreno deixado por seus pais, mortos tragicamente alguns anos antes. Em sua chegada, ele encontra a jovem Juliette, uma belga em busca de um amor do passado e de uma nova vida.

“O que parecia ser uma simples carona acaba se transformando em uma breve, porém intensa, jornada. Visitando paisagens e pessoas perdidas no tempo, eles dividem experiências que acabam por aproximá-los em uma relação de crescente afeto e ternura.

“Quando chegam a Punta del Este, onde se hospedam na bela fazenda de Hugo, tio de Santiago, a proximidade e a atração entre os dois chega a seu ponto máximo. Mas as diferenças parecem falar mais alto quando o agitado e glamouroso universo do famoso balneario se interpõe entre eles. Sem avisar, Juliette deixa para trás essa nova aventura e retoma a busca por seu antigo amor.

“Ao acordar sozinho, Santiago se depara com o abismo de sua solidão, mas seus sentimentos são abafados pelo frénetico ritmo social da cidade onde ele já passou tantos verões. Ele se envolve com uma atraente jet-setter que havia conhecido alguns anos antes em Nova York, quando trabalhava no mercado financeiro. Ao mesmo tempo descobre que o terreno que herdou dos pais passou por uma grande valorização, garantindo seu futuro econômico.

“Aos poucos ele percebe que a delicadeza de sua relação com Juliette era muito mais instigante do que aquele conhecido universo de seu passado. Santiago decide, então, partir para a região de Rocha, em busca dela e do terreno que seus pais tanto amavam.”

Belas músicas incidentais – e hippies por todo lado, hippies a dar com o pau

Exatamente como Easy Rider, Por el Camiño tem longas seqüências road movientas ao som de belas músicas incidentais. O filme abre e fecha, por exemplo, com canções de Kevin Johansen, o excelente cantor e compositor mezzo do Alasca, mezzo da Argentina. É uma trilha eclética. Tem a banda inglesa Radiohead, a banda islandesa Sigur Rós, o cubano pré-Fidel Bola de Nieve, o escocês flower-poweríssimo Donovan (“Colours”, uma de suas marcas registradas).

É impressionante a quantidade de hippies que Santiago e Juliette encontram no interior do Uruguai. Pelo que se vê no filme, há mais hippies no interior do Uruguai do que na esquina de Haight e Ashbury, em San Francisco, em 1967. Tá certíssimo o presidente José Mujica em tornar a maconha lícita por lá.

Assim como também estão certíssimas as milhares de pessoas que adoraram Por el Camiño e viram no filme profundas constatações sobre o amor a vida a morte.

É isso mesmo. Os filmes (assim como qualquer obra de arte) estão aí para cada um ver neles o que bem entender.

Filosofadas tipo “um rio nunca pode subir outra vez até a nascente”

Informa-nos o site oficial do filme:

“A maioria das personagens secundárias é interpretada por pessoas que essencialmente representam a si próprias, dentro do contexto ficcional do filme. Muitas delas são figuras locais, que se destacam por suas personalidades marcantes e estilos de vida peculiares. O filme conta também com a presença de três reconhecidos artistas: Gonzalo Torres, cantor e compositor uruguaio, Tina Malia, cantora folk americana, e a top model Naomi Campbell.”

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Naomi Campbell faz, na sua participação especial, um discurso a respeito de raça negra, presença, ou não, de modelos de pele negra nos desfiles de moda. Como boa parte de tudo o que se fala ao longo dos imensamente longos 85 minutos de Por el Camiño, é o mais puro papo furado.

Apenas alguns exemplos de papo furado, para que não pareça que estou falando sem demonstrar. Quando está no tal edifício do centrinho de Montevidéu, Santiago ouve do senhorzinho o seguinte: – “Eis o Rio da Prata, tão largo quanto o mar.” Ô raios, e então Santiago, de Buenos Aires, precisaria ser apresentado ao rio que banha sua cidade???

Um camponês filósofo ensinará a Santiago, Juliette e o espectador, o seguinte: – “Um rio nunca pode subir outra vez até a nascente”.

Há também isto: – “Às vezes não precisamos de palavras. Somos escravos das nossas palavras”.

Como bom filme chegado a um papo furado, Por el Camiño fez imenso sucesso no circuito dos festivais. Teve os prêmios de melhor direção no Festival do Rio de 2010, melhor filme no 3º Hollywood Brazilian Film Festival, melhor filme júri popular do 2º St. Petersburg International Filmforum, melhor filme no 1º Festival Internacional Lume de Cinema, melhor filme júri popular Tamil Nadu Film Festival, Índia.

Então tá.

Anotação em dezembro de 2012

Além da Estrada/Por el Camiño

De Charly Braun, Brasil-Uruguai, 2010

Com Esteban Feune de Colombi (Santiago), Jill Mulleady (Juliette)

e Guilhermina Guinle, Hugo Arias, Naomi Campbell

Roteiro Charly Braun

Argumento Charly Braun e Felipe Sholl

Fotografia Bruno Alzaga e Pablo Ramos

Montagem Charly Braun e Fernando Coster

Produção Lynx Filmes, Waking Up Films. DVD Vinny Filmes

Cor, 85 min

*

Um Comentário

  1. Mari
    Postado em 13 março 2013 às 9:16 pm | Permalink

    Até agora eu estava achando que não havia entendido, pois todos falavam que era um ótimo filme. Grata por esta crítica. Concordo 100%.

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