O Projeto Laramie / The Laramie Project

Nota: ★★★½

O Projeto Laramie é um ótimo filme, uma obra importante – mas, aparentemente, bem menos conhecida do que deveria, apesar de ter no elenco bons nomes: Laura Linney, Peter Fonda, Steve Buscemi, Christina Ricci, Janeane Garofalo, Lois Smith.

O filme se baseia em dois casos reais. O primeiro deles teve repercussão muito ampla nos Estados Unidos, conforme o filme mostra bem. (Eu não tinha ouvido falar do caso, nem do filme, mas o problema é meu – e também do excesso de informação, que impede que acompanhemos todas as notícias importantes.)

Foi um crime, um crime bárbaro, ocorrido na pequena cidade de Laramie, no Estado de Wyoming, em outubro de 1998. Um garoto de 21 anos, Matthew Shepard (na foto abaixo), foi brutalmente espancado, amarrado a uma cerca na região rural, a poucos quilômetros do centro de Laramie, e deixado lá perdendo sangue e vida. Horas mais tarde, um garoto viu o rapaz, chamou a polícia; Mathew foi levado para um hospital em Laramie e, como sua condição era gravíssima, em seguida transferido para um hospital mais bem equipado numa cidade próxima, já no vizinho Colorado.

Menos de uma semana depois de ser atacado e espancado, o rapaz morreu.

Matthew era estudante universitário – e gay. A polícia não demorou a chegar aos atacantes, dois rapazes ali da cidade de Laramie, Aaron McKinney e Russell Henderson.

O caso teve cobertura nacional; as redes de TV e os grandes jornais enviaram equipes para Laramie e para a cidade do Colorado em que Matthew ficou seis dias entre a vida e a morte.

Enquanto Matthew ainda agonizava, houve vigílias por ele em diversas cidades.

O presidente Bill Clinton comentou o caso na TV. A partir do episódio, criou-se um debate nacional sobre crimes de ódio e homofobia.

O grupo de teatro entrevistou 1% da população da cidade

O segundo caso real abordado no filme é o seguinte: apenas um mês após a estúpida, brutal agressão a Matthew, um grupo de teatro de Nova York foi para Laramie, e passou a entrevistar pessoas da cidade. Testemunhas, parentes dos envolvidos, pessoas comuns. Mais de 200 pessoas foram entrevistadas pelo grupo – o Tectonic Theater Project, liderado por Moisés Kaufman, escritor e diretor de teatro.

Laramie tinha, na época, 26 mil habitantes. Mais de 200 deles – quase 1% do total da população! – deram seus depoimentos a Moisés Kaufman e ao grupo de atores.

O resultado do levantamento foi a peça teatral The Laramie Project, que teve sua primeira apresentação no início de 2000, apenas um ano e pouco após os acontecimentos.

Em 2002 foi feito o filme, uma adaptação da peça, co-produzida pela HBO e dirigida pelo próprio Moisés Kaufman. Atores – alguns grandes nomes, outros menos famosos – interpretam o grupo original que foi fazer as entrevistas em Laramie e os moradores cujos depoimentos que eles ouviram.

Entremeados à reconstituição para o cinema das entrevistas reais, há diversos trechos de imagens da época, captadas pelos canais de TV.

Uma ampla discussão sobre a homofobia, a violência – e o tipo de punição para o crime

O resultado do trabalho foi um filme extremamente bem realizado, com ótimas interpretações, tanto dos atores de renome quanto dos menos conhecidos. Tem um ritmo ágil, montagem perfeita.

A trilha sonora, de Peter Golub, é excelente. Parece ter influência tanto de Philip Glass quanto de Carter Burwell.

A participação de gente do primeiro time do cinema americano é extremamente bem-vinda. Atrai mais atenção, dá um aval ao projeto como um todo. Na verdade, acho que trabalhar neste filme, em papéis pequenos, engrandece a biografia daqueles atores que citei na abertura.

Mas, sobretudo, além de ser muito bom, é um filme importante. Discute essas questões todas: as posições das pessoas diante da homossexualidade, o papel das igrejas diante da homossexualidade, o porquê do ódio contra os homossexuais, o porquê da violência extrema – e o próprio tipo de punição aos autores de um crime tão bárbaro.

Os depoimentos homofóbicos mais agressivos, nojentos, vêm de religiosos

Das mais de 200 entrevistas feitas em Laramie logo após o crime, o filme mostra algumas de gente que não tem vergonha de admitir sua homofobia. Gente simples, humilde, de pouco estudo, de pouco alcance. A personagem interpretada por Laura Linney, por exemplo, a mulher de um policial rodoviário, reclama que o assassinato de Matthew Shepard virou notícia nacional, enquanto a morte de um colega do marido, atropelado por um motorista bêbado, foi apenas uma pequenina nota no jornal local.

Mas os testemunhos homofóbicos mais agressivos, nojentos, peçonhentos, vêm de religiosos.

Uma das seqüências que mais me impressionaram em O Projeto Laramie é uma em que uma das moças do grupo teatral, Amanda Gronich (interpretada por Clea DuVall, na foto), tenta entrevistar, numa calçada, um pastor, um reverendo da cidade, e ele expele pela boca bílis e idiotices homofóbicas. Fala da Bíblia, mas de sua boca sai um bafo de enxofre. Depois que ele vai embora, Amanda, em choque, desaba e desabafa para os colegas: – “Eu fiquei ouvindo aquilo e não reagi, não disse nada!”

O filme mostra também um grupo homofóbico, liderado por outro pastor, que fez manifestações contra a vítima do crime, contra a homossexualidade de Matthew Shepard. O pastor e os cartazes são capazes de atrocidades do tipo “Deus salve a aids”.

Quem acaba ficando bem no meio dessa seqüência de tragédias americanas é o padre da cidade, Roger Schmit (interpretado por Tom Bower), que surpreende os atores de teatro que o entrevistam com uma visão lúcida, aberta, sem preconceitos. O padre Roger lembra que cada vez que alguém diz “veado”, ou “sapatona”, de maneira agressiva, está cometendo um ato de violência. E diz que, com seu sacrifício, Matthew Shepard acabou ajudando a cidade e o país.

Um dos gays de Laramie ouvidos pelo grupo teatral lamenta que nenhuma legislação houvesse sido aprovada contra os crimes de ódio. O filme, como já foi dito, foi feito muito em cima dos acontecimentos, em 2002.

Em outubro de 2009, exatos dez anos após o espancamento do rapaz, o Congresso americano aprovou uma lei de prevenção a crimes de ódio – a Matthew Shepard and James Byrd, Jr. Hate Crimes Prevention Act –, sancionada em seguida pelo presidente Barack Obama.

O filme teve reconhecimento e prêmios. Mas deveria ser mais conhecido

Escrevi lá em cima que o filme é aparentemente menos conhecido do que deveria.

Na verdade, o filme teve reconhecimento. Embora feito para a TV (e temos que agradecer à HBO por existir, e por produzir e divulgar filmes que tratam desses temas importantes e polêmicos, sempre com um viés lúcido, liberal, progressista), O Projeto Laramie ganhou um prêmio no Festival de Berlim: uma menção especial na categoria de diretor estreante para Moisés Kaufman. Teve três indicações ao Emmy, o Oscar da TV americana: filme, direção, roteiro e conjunto do elenco para a categoria de filme ou minissérie dramática feita para a TV. No total, obteve cinco prêmios e 11 indicações.

Mesmo assim, apesar desses prêmios, ainda acho que O Projeto Laramie é menos conhecido do que deveria.

O desejo de vingança, a lei de Talião, é uma das mais bárbaras invenções da humanidade

O filme mostra os julgamentos dos dois assassinos – eles foram julgados separadamente. Não se alonga muito nas seqüências de tribunal. Mas focaliza, com a importância merecida, a questão da punição: prisão perpétua ou pena de morte? O depoimento do pai de Matthew Shepard no julgamento de Russell Henderson é impressionante. Emociona, mas também faz pensar.

O depoimento do pai me fez lembrar de Electra, a tragédia de Eurípedes filmada por Michael Cacoyannis, que vi há pouco – as expressões de Electra e seu irmão Orestes após a consumação da terrível vingança. O horror, o horror.

E me fez lembrar também o provérbio milenar armênio com que Robert Guédiguian encerra seu filme Lady Jane, uma espécie de parábola sobre a eterna guerra árabes-judeus: “Aquele que busca se vingar é como a mosca que bate contra o vidro sem ver que a porta está escancarada”.

O desejo de vingança, a lei de Talião, o olho por olho, dente por dente, é uma das mais bárbaras invenções da humanidade. É tão bárbaro, acho eu, quanto o ódio por quem tem a cor da pele ou a opção sexual diferente da nossa.

Tiro meu chapéu para Moisés Kaufman e toda a equipe do Projeto Laramie.

Anotação em maio de 2012

O Projeto Laramie/The Laramie Project

De Moisés Kaufman, EUA, 2002

Com Nestor Carbonell (Moisés Kaufman), Clea DuVall (Amanda Gronich), Grant James Varjas (Greg Pierotti), Andy Paris (Stephen Belber), Kelli Simpkins (Leigh Fondakowski),

E Laura Linney (Sherry Johnson), Peter Fonda (Doutor Cantway), Steve Buscemi (Doc O’Connor), Christina Ricci (Romaine Patterson), Janeane Garofalo (Catherine Connolly), Lois Smith (Lucy Thompson), Amy Madigan (Reggie Fluty), Dylan Baker (Rulon Stacey), Jeremy Davies (Jedadiah Schultz), Camryn Manheim (Rebecca Hilliker), Tom Bower (padre Roger Schmit), Mark Webber (Aaron McKinney), Garrett Neergaard (Russell Henderson)

Roteiro de Moisés Kaufman e Amanda Gronich, Andy Paris, Barbara Pitts, Greg Pierotti, Jeffrey LaHoste, John McAdams, Kelli Simpkins, Leigh Fondakowski, Stephen Belber, Stephen Wangh

Baseado na peça de autoria do grupo

Fotografia Terry Stacey

Música Peter Golub

Produção HBO, Cane/Gabay Productions, Good Machine.

Cor, 97 min

***1/2

4 Comentários

  1. José Luís
    Postado em 25 julho 2012 às 1:00 pm | Permalink

    Diga-me por favor onde viu este filme.
    Desculpe, mas consultando o imdb ele passou em muito poucos países e nestes não surge o Brasil (nem Portugal, claro).

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 25 julho 2012 às 1:41 pm | Permalink

    Amigo José Luís, de fato, parece que o filme não foi lançado nos cinemas nem em DVD no Brasil. Passou na TV a cabo, um dos canais da HBO.
    Um abraço!
    Sérgio

  3. Luiza Machado Ganho
    Postado em 17 setembro 2015 às 3:00 pm | Permalink

    Em Angola também não foi exibido este filme, mas acabo de o encontrar no YouTube, com legendas em inglês.
    Compartilho com todos que desejem ver:
    http://www.youtube.com/watch?v=u1qiTmF0p4A
    Um abraço
    e um enorme NÃO ao preconceito e homofobia.
    Luiza

  4. Sérgio Vaz
    Postado em 17 setembro 2015 às 8:46 pm | Permalink

    Cara Luiza,
    Agradeço muito seu comentário, e sua disposição de compartilhar o filme.
    É um prazer imenso receber um comentário vindo de Angola!
    Daqui do meu canto também digo um enorme NÃO ao preconceito e à homofobia.
    Um abraço!
    Sérgio

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Poder Absoluto / Absolute Power em 22 novembro 2013 às 12:32 am

    […] (o papel de Laura Linney, ótima atriz sempre) foi criada longe do pai. Cresceu com o pai na cadeia. Luther não aparecia em […]

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