O Passageiro da Chuva / Le Passager de la Pluie

Nota: ★★★☆

Quarenta e dois anos e 30 mil thrillers depois, O Passageiro da Chuva, que René Clément lançou em 1970, continua um belo filme. Não envelheceu nada. Tem boas interpretações, ótimas fotografia e trilha sonora, um ritmo agradável, uma bela trama, inteligente, bem elaborada, que fisga o espectador – mesmo que esteja, como foi o meu caso, vendo o filme pela terceira vez.

Não é uma trama adaptada de um romance ou peça teatral: é um roteiro original, feito diretamente para o cinema, assinado por Sébastien Japrisot. Um belo roteiro.

Abre com uma citação – uma epígrafe – de Lewis Carroll, em Alice no País das Maravilhas:

“Ou o poço era muito profundo ou a sua queda foi muito lenta, porque ela teve tempo de olhar ao redor e de se inquietar com aquilo que estava por acontecer.”

A epígrafe se aplica com uma luva ao que vai acontecer nos primeiros minutos do filme com a personagem central, a protagonista, Mélly, interpretada por Marlène Jobert.

A primeira tomada mostra a chuva do título: a câmara está colocada bem perto do chão, e vemos uma estrada encharcada, e os pingos d’água que continua a cair. Passa um ônibus, enquanto o tema principal, composto por Francis Lai, começa a aparecer, primeiro com órgão elétrico, depois com um solo de violão. Como quase todas aws melodias que Francis Lai cria, é agradável, fácil de se memorizar, difícil de se esquecer.

Vemos Mélly, que, de dentro do salão de boliche que pertence a sua mãe, Juliette (Annie Cordy), rói as unhas e observa o ônibus passando em frente. O ônibus parece vazio. Pára – e, quando vai embora, vemos um homem que provavelmente desceu dele, embora o ônibus parecesse estar vazio, apenas com o motorista. O homem, com uma capa de chuva mas com a careca desprotegida, carrega uma sacola vermelha da TWA, a companhia americana Trans World Airlines.

Tomadas do rosto de Mélly-Marlène Jobert, uma jovem mulher muito bonita, o cabelinho curto, quase tão curto como o que Jean Seberg usava em Acossado/À Bout de Souffle, de 1960, depois de ter raspado a cabeça para interpretar Joana d’Arc no filme de Otto Preminger de 1957, ou como o que Mia Farrow usou em O Bebê de Rosemary, de 1968.

Tomadas do rosto de Mélly, e outras do desconhecido que desceu do ônibus – ou não – andando pelas ruas do pequeno vilarejo, enquanto se dá este diálogo:

Juliette, a mãe, voz em off: “Mélly! Este é o ônibus que vem de Marselha?”

Mélly: – “Sim, mãe.”

Juliette: – “Acho que não. Ele não pára nunca. O que você está olhando? É um passageiro?”

Mélly: – “Sim.”

Juliette: – “Ele veio no ônibus? É claro que não. O ônibus nunca traz ninguém”.

Mélly: – “Então foi a chuva.”

E aí vêm os créditos iniciais, curtos, econômicos, enquanto diversas tomadas mostram o desconhecido que dá nome ao filme caminhando sob a chuva.

Veremos depois que o relacionamento de Mélly com a mãe é tenso.

O passageiro da chuva entra na casa de Mélly. O estupro acontece com nove minutos de filme

É uma terça-feira, 5 da tarde, nos informa um letreiro. Na quarta, Mélly irá ao casamento de uma amiga num lugar próximo. Ela deixa o salão de boliche da mãe e vai à butique da amiga Nicole (Jill Ireland), experimentar a roupa que usará no casamento.

Quando Mélly tira a roupa para experimentar o novo vestido, e está apenas de calcinha e sutiã, leva um grande susto: o homem, o desconhecido, o passageiro da chuva, está do lado de fora da butique de Nicole, olhando para ela. Mélly havia esquecido de puxar as cortinas do trocador.

Passado o susto, Mélly chega a sua casa, levando a roupa nova. É uma casa ampla, confortável. O marido dela, Toni (Gabriele Tinti), está em Londres – é co-piloto de aviação comercial, viaja sem parar, chegará no dia seguinte. Ela tira cuidadosamente as meias de nylon, prepara um banho de banheira, examina a roupa nova.

O desconhecido, o passageiro da chuva, está dentro de sua casa. O estupro acontece com nove minutos de ação.

Como acontece com tantas mulheres, Mélly desiste de fazer a denúncia à polícia

Mélly chega a pedir uma ligação para a delegacia de polícia (era um lugarejo pequeno, as ligações ainda eram feitas com o auxílio da telefonista). Mas, quando um policial atende, ela – como tantas vítimas de estupro – desiste de fazer a denúncia.

Assim que ela desliga, o telefone toca, é Toni, falando de Londres. Ele parece perceber que a voz da mulher não está normal, mas Mélly garante que está tudo bem.

O poço em que Mélly caiu é profundo e vai se aprofundar bem mais.

Como Judas, Mélly negará 30 vezes a autoria do crime que o espectador viu

No dia seguinte, a quarta-feira, Mélly e o marido estão na cerimônia de casamento da amiga dela. Um desconhecido chega com um jornal, pede que o jornal seja entregue àquela moça de branco. Na primeira página, há a notícia: “Um cadáver descoberto numa praia”.

Mélly olha para trás. O homem que mandou o jornal sorri para ela. É interpretado por Charles Bronson.

Na festa que se segue à cerimônia de casamento, o desconhecido se aproxima de Mélly num momento em que ela está sozinha e pergunta:

– “Por que você o matou?”

Imediatamente antes dessa seqüência com a pergunta, tínhamos visto um flashback. Uma garotinha – Mélly, obviamente – abre a porta de um quarto e vê a mãe nua na cama com um homem que, veremos depois, não era seu marido.

O desconhecido interpretado por Charles Bronson chama-se Harry Dobbs, e, ao longo de toda a narrativa que virá a seguir, questionará Mélly incessantemente, e muitas vezes duramente, sobre a morte do homem que havia chegado na terça-feira. Nem Mélly nem o espectador sabem quem é Harry Dobbs, nem por que ele investiga a morte do passageiro da chuva. A revelação ficará bem para o final da história.

Mélly nega de pé junto a autoria do crime que o espectador viu claramente. Como Judas, mais que Judas, negará uma, duas, 30 vezes.

Em uns poucos flashbacks bem feitíssimos, bem colocados, veremos que, no passado distante, quando era uma garotinha, Mélly havia sido forçada a confessar uma verdade relacionada à cena que viu, a mãe traindo o marido – e a confissão trouxe a ela profundo desgosto, tristeza, amargura.

Não quer confessar de novo.

Como Sergio Leone, René Clément soube tirar o melhor de Charles Bronson

Mas – o eventual leitor poderá perguntar – Charles Bronson? Charles Bronson, aquele ator horroroso, de uma única expressão, o homem do Desejo de Vingança 1, 2, 3, 4? Como é possível que seja bom um filme francês com Charles Bronson como o segundo personagem mais importante da história?

Pois é. Charles Bronson não é apenas um ator horroroso, de uma única expressão, de Desejo de Vingança 1, 2, 3, 4. Há filmes em que o cara trabalha bem. Sergio Leone deu a ele uma grande oportunidade em Era uma Vez no Oeste, de 1968, e o ator saiu-se muito bem. Como o mestre italiano, o experiente francês René Clément soube tirar de Charles Bronson o melhor que ele poderia dar.

Bronson faz de Harry Dobbs um personagem interessantíssimo. Para começo de conversa, é um americano que fala francês, e bem – coisa extremamente rara. Trabalha como um excelente detetive: rapidamente, entrevista as pessoas que estiveram com Mélly naqueles dias, sabe todos os seus movimentos – mas garante que não é um policial. Interroga Mélly com firmeza, quase violência – mas não ultrapassa o limite do quase. Seu método de tortura é quase suave: faz a moça engolir doses e doses de uísque. Tem um incansável bom humor. E vai, inapelavelmente, sendo atraído pela bela mulher de quem tenta extrair a verdade.

Até porque não há como não ser atraído por um personagem que vem na pele de Marlène Jobert.

Marlène Jobert interpreta muito bem uma mulher que traz melancolia até no nome

Marlène Jobert é uma absoluta gracinha.


Nasceu em Argel, capital da Argélia, em 1940; estudou artes dramáticas e belas artes em Paris, e estreou no cinema em O Ladrão Aventureiro, de Louis Malle, em 1966. No mesmo ano, trabalhou com Jean-Luc Godard em Masculino Feminino, e, em 1968, com Yves Robert em Alexandre, o Felizardo.

Mas creio que seu melhor papel é mesmo o de Mélly, essa moça que traz melancolia até no próprio nome – Mélly é o apelido de Mélancolie –, rói as unhas sem parar, é apaixonada por um italiano machista até a medula e que a trai com a melhor amiga dela, e nunca conseguiu perdoar a mãe por ter traído o pai – uma traição que o fez abandonar a família.

Como o filme é de 1970, época do reinado da minissaia, Mélly-Marlène Jobert passa os 115 minutos de duração de O Passageiro da Chuva com as coxinhas à mostra – e que coxinhas! Marlène Jobert é um tesãozinho.

Gabriele Tinti, que faz o marido machista, dominador, ciumento, um galã de bela estampa, certamente não deve ser conhecido pelas novas gerações. Teve, no entanto, uma filmografia vasta, com mais de 130 títulos, em filmes italianos, franceses, americanos – e brasileiros. Apaixonou-se pela então belíssima Norma Benguell; foram casados entre 1963 e 1969. Trabalhou ao lado de La Benguell e de Odete Lara em Noite Vazia, de Walter Hugo Khoury (1964) e foi dirigido por Gláuber Rocha em O Leão de Sete Cabeças (1970).

Já que estou com a mão na massa, uma palavrinha sobre Annie Cordy, que interpreta a mãe de Mélly. Nascida na Bélgica em 1928 e radicada na França, Annie Cordy, como tantas outras atrizes (e também atores) do cinema francês, é tão atriz quanto cantora. Gravou mais de 600 canções, em uma coleção de discos iniciada em 1953. Fez mais de 60 filmes para o cinema e a TV, a partir de 1954, e continua na ativa em 2012. Em 2009, fez um pequeno papel em Ervas Daninhas/Les Herbes Folles, do mestre Alain Resnais.

E, finalmente, Jill Ireland. Me perguntei, ao rever agora o filme, por que diabos puseram a inglesa radicada nos Estados Unidos Jill Ireland para interpretar Nicole, a francesíssima amiga de Mélly que come o marido dela. O IMDb fornece a resposta a essa pergunta: Jill Ireland era mulher de Charles Bronson; foram casados de 1968 até 1990, quando ela morreu. Trabalhou em 13 dos filmes do marido – este aqui foi o primeiro da série.

“Uma arrepiante peça de suspense” ou um filme de intriga confusa?

Ao procurar outras opiniões sobre O Passageiro da Chuva, dei com um elogio do americano Leonard Maltin e um pau do francês Jean Tulard.


Maltin deu 3.5 estrelas em 4, e chamou o filme de “arrepiante peça de suspense”.

Já mestre Tulard diz o seguinte: “Clément conhece seu métier e sua direção é irrepreensível. Mas um excesso de frigidez e uma intriga confusa acabam por cansar. Não é certo que o filme resista a diversas revisões, já que seus limites acabam por se tornar evidentes.”

Cada cabeça, uma sentença. Mestre Tulard entende de cinema profundamente. Eu sou apenas um amador, mas tive exatamente a sensação contrária: o filme resiste, sim, a diversas revisões. E a intriga não me pareceu confusa, de forma alguma. Intrincada, sim, mas clara, lógica, racional.

Acho O Passageiro da Chuva um belo filme.

Anotação em junho de 2012

O Passageiro da Chuva/Le Passager de la Pluie

De René Clément, França-Itália, 1970

Com Marlène Jobert (Mélly, Mélancolie Mau), Charles Bronson (Harry Dobbs),

Gabriele Tinti (Tony Mau), Jill Ireland (Nicole), Jean Gaven (inspetor Toussaint), Annie Cordy (Juliette), Corinne Marchand (Tania)

Argumento e roteiro Sébastien Japrisot

Fotografia Andréas Winding

Música Francis Lai

Produção Greenwich Film Productions e Medusa Produzione. DVD Continental, Wonder Multimídia.

Cor, 115 min

R, ***

Título nos EUA: Rider in the Rain

 

2 Comentários

  1. Postado em 3 setembro 2012 às 5:30 am | Permalink

    Um dos melhores thrillers que vi na minha adolescência. Isto a confiar na minha memória, uma vez que nunca mais voltei a ele. É capaz de ser altura para o rever

  2. Postado em 27 março 2015 às 9:55 pm | Permalink

    gostei muito do seu texto (sua critica)sobre o filme!e fiquei impressionado com os elogios ao bronson!e faltou um pequeno detalhe na “biografia”de Marlene Jobert!ela é mãe da belissima e sexy Eva Green!!

Um Trackback

  1. […] de grandes astros quanto Paris Está em Chamas?, superprodução francesa de 1966 assinada por René Clément, o autor de Brinquedo Proibido/Jeux Interdits (1952) e O Sol Por Testemunha/Plein Soleil (1960), […]

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