O Refúgio / Le Refuge

[rating3]

Anotação em 2011: Um filme belo e triste, este O Refúgio, que François Ozon fez em 2009. Muito belo e muito triste. Fala da loucura das drogas, de relações familiares, maternidade, afeto, e jovens aí na faixa entre 25 e 30 anos – uma jovem que não está preparada para a vida, um jovem que está.

Prolífico, realizando praticamente um filme por ano, todo ano, como poucos cineastas fazem, Ozon costuma passear por diversos estilos. Já fez uma comédia de humor negro, com um toque de musical, sobre família e crime – 8 Mulheres. Drama pesado sobre jovem fotógrafo bem sucedido que recebe a notícia de que está com câncer avançado – O Tempo que Resta, de 2005. Drama pesado sobre mulher que simplesmente se recusa a admitir que o marido morreu, num belo dia de passeio pela praia – Sob a Areia, de 2000. Um quase contos de fadas em tom de literatura de quinta categoria para moças pouco letradas – Angel, de 2007. A história banal de um casal que se conhece, se ama durante um tempo e se separa, só que contada de trás para diante – Amor em Cinco Tempos, de 2004. O conflito de gerações, de princípios, de valores, no encontro de duas mulheres em tudo diferentes – Swimming Pool, À Beira da Piscina, de 2003.

Neste O Refúgio, optou por não ser estiloso. A narrativa é de uma sobriedade franciscana. Clean – direta, sem floreios, sem frescura. Clássica.

Vejo agora, depois de começar esta anotação, que me repito, sem saber, sem querer: em 2002, depois de ver Sob a Areia, fiz uma anotação curtíssima (foi muito, muito tempo antes de inventar este site e passar a fazer quase sempre anotações quilométricas), em que dizia: “Um filme belo e profundamente, profundamente triste. Fascinante como esse François Ozon, tão jovem (nasceu em Paris em 1967), é tão amargo, seja num drama cinzento como este, seja numa comédia deliciosa como 8 Mulheres.”

E depois:

“E como ele consegue extrair interpretações tão absolutamente maravilhosas de suas atrizes.”

Um cineasta que é mestre na direção de atores

Me repito, agora sabendo e querendo: é impressionante como François Ozon consegue interpretações tão absolutamente maravilhosas de seus atores.

Todos os atores que aparecem em O Refúgio estão esplêndidos. É claro que o que mais impressiona são as atuações dos dois atores principais, Isabelle Carré e Louis-Ronan Choisy. Me lembrava bem de Isabelle Carré num filme bobo, daquele subgênero que chamo de Como São Charmosos e Sensacionais os Fora-da-Lei, Quatro Estrelas. Nele a moça está bonitinha, gostosinha – mas o filme é ruim demais para que apareça algum talento da atriz. Ela está também em Medos Privados em Lugares Públicos, do mestre Resnais, e num papel menor em Bem me Quer, Mal me Quer.

Neste filme aqui, Isabelle Carré dá um show de interpretação. Em vários momentos, Ozon deixa a câmara em cima de seu rosto belo e jovem – e a moça desfia uma grande gama de expressões, da mais profunda tristeza, amargura, até uma alegria juvenil, despreocupada, passando por momentos em que parece alheia ao mundo ao redor. Isabelle tem diversas caras diferentes ao longo do filme, à medida em que vai vivendo diferentes climas, situações.

O rapaz que faz o principal papel masculino, Louis-Ronan Choisy, eu nunca tinha visto. É uma surpresa total – e uma boa surpresa. Muito jovem (nasceu em Paris, em 1977), bela estampa, mostra-se um ator talentoso, de grande sensibilidade – e ainda por cima foi o autor da música original do filme, o que inclui uma beleza de canção, com o mesmo nome do filme, “Le Refuge”, que ele executa ao piano e canta durante a ação, e repete nos créditos finais numa versão em dueto com a própria Isabelle Carré. Vejo no IMDb que este foi seu primeiro trabalho como ator. Impressionante.

O casal se droga – e a câmara não tem pudor em mostrar os detalhes

O filme começa com belos planos gerais de Paris à noite – não propriamente para mostrar locais conhecidos de uma das mais belas, talvez a mais bela cidade do mundo, mas para realçar que se trata de uma metrópole, uma cidade imensa, com trânsito pesado, milhões e milhões de pessoas aglomeradas. Um trem de metrô, um rapaz chegando diante de um prédio fino, falando com alguém pelo celular, entrando no prédio, entrando em um apartamento gigantesco. É um vendedor de droga, veio entregar a heroína para o casal que está em um dos muitos quartos.

O casal se droga assim que o vendedor vai embora. Têm os rostos macilentos, chupados, chapados, sem viço, quase sem vida, dos muito drogados. Injetam-se a droga no braço, na perna – e Ozon não tem dó do espectador, mostra tudo às claras, tão às claras que olhei para o lado, avancei o filme rapidamente para não ver o quadro repulsivo, aflitivo, nojento.

O mesmo casal aparece em imagens muito claras, e aí estão limpos, e bonitos. O rapaz acorda em choque depois do sonho, e imediatamente se põe a injetar de novo a droga nas veias.

Corta, e uma senhora bem vestida (Claire Vernet) entra num grande apartamento com um corretor de imóveis. Diz que está tudo em ótimo estado, só a cozinha precisa de uma pintura; o corretor pergunta o tamanho, ela responde que o apartamento – em Paris, a cidade onde todos os espaços são apertados – tem 270 metros quadrados. Então a senhora nota algo, diz que seu filho deve estar ali – e chega ao quarto ocupado pelo casal.

Chegam os paramédicos, levam o casal embora.

Na primeira vem em que a jovem acorda no hospital, grita, esperneia, pede para sair dali, uma enfermeira aplica um injeção de calmante. Na segunda vez, ela se vê diante de um médico. Com cuidado, tato, aos poucos, ele conta que o companheiro dela está morto, e ela está grávida de oito semanas; pergunta se ela quer interromper a gravidez ou não, e explica que, seja o que for que ela preferir, terá toda a ajuda necessária.

Primeiro Mundo é outra coisa.

Logo após o funeral, uma conversa gélida entre a mãe do morto e a namorada

Não estamos ainda nem com 10 minutos de filme, e o jovem que morreu de overdose, Louis (Melvil Poupaud), filho de pais podres de ricos, está sendo homenageado em cerimônia religiosa, e em seguida enterrado. A moça, Mousse – o papel de Isabelle Carré, claro – está presente. Na igreja, veste casaco estampado, visivelmente impróprio para a ocasião. Após o enterro, na recepção aos amigos da família num gigantesco palacete fora da cidade, Mousse se serve uma farta dose de Jack Daniels. Ouve o pai de Louis (Jean-Pierre Andréani) se queixar à nova esposa que errou, esteve muito afastado do filho a maior parte do tempo, a mãe não o mantinha informado sobre o filho, ele sequer sabia que Louis se drogava.

O irmão mais jovem de Louis, Paul (o papel de Louis-Ronan Choisy), que o espectador já havia visto lendo na cerimônia religiosa uma homenagem ao morto), aproxima-se de Mousse, diz que sua mãe deseja falar com ela.

A conversa entre a mãe de Louis e Paul e a namorada drogada do filho morto é apavorantemente gélida. A mãe havia sido informada, no hospital, a respeito da gravidez de Mousse. Pergunta se ela vai interromper a gravidez, a aconselha a fazê-lo: a família não quer que nasça um filho de Louis, agora que ele não está mais aqui.

O encontro da jovem grávida com o irmão do namorado morto

Após esse início – o que tentei descrever ocupa não mais que os primeiros 15 minutos do filme –, a narrativa vai se concentrar no lugar onde Mousse vai se refugiar, uma boa casa bem próxima ao mar, num lugar que não é explicitado; tive a impressão de que é na costa atlântica do Sudoeste da França, na região de Bordeaux, ou mais abaixo, mas pode não ser. A impressão veio do fato de que Paul, que vai chegar para passar uns dias com a, digamos, para simplificar, cunhada, diz a ela que está a caminho da Espanha, e parou ali para vê-la.

A partir, então, de uns 15 minutos, o filme vai se concentrar no estranho encontro de Mousse, então já grávida de vários meses, o barrigão imenso, com o irmão de seu namorado – um rapaz que ela mal conhecia, e que é homossexual.

Uns cantam, outros não. Uns estão preparados, outros não

Há jovens que estão preparados para a vida, há outros que não. É uma verdade simples, óbvia – mas ela me parece ser o que François Ozon quis realçar, ao contar sua história triste, com um estilo tão direto, tão reto, tão clássico, que parece até não ter estilo.

Mouche, a protagonista, não faz muitas considerações sobre se interrompe a gravidez ou tem o filho. Não pára para analisar nada – nem sequer para pensar nos eventuais efeitos que a quantidade absurda de droga que seu organismo ingeriu nas primeiras semanas de gravidez poderá ter sobre o feto. Nem sobre o fato de que ela mesma não tem profissão, não tem forma de garantir seu sustento. Ela simplesmente não faz qualquer consideração. Simplesmente não está preparada para a vida – o que não a impede de botar nova vida no mundo.

Uma barrigona de verdade

Enquanto via o filme, fiquei imaginando que possivelmente Isabelle Carré estava mesmo grávida durante as filmagens, que o barrigão que ela expõe na praia, décadas depois da pioneira Leila Diniz em Ipanema, parecia de verdade. O IMDb confirma, é isso mesmo: a jovem e bela atriz, nascida em 1971 em Paris, estava grávida de seis meses quando as filmagens começaram.

A crítica do AllMovie, assinada por Bruce Eder, é cheia de louvores – merecidíssimos – ao filme, que define como um drama em tom menor que, apesar de seus momentos angustiantes, é uma maravilha, um prazer de se ver. Diz que os dois atores principais atuam de uma maneira tão tranquilamente realista que a gente se esquece de que aquilo é um roteiro. “Carré evoca ecos de uma jovem Isabelle Huppert nos seus melhores momentos, enquanto Choisy, que é basicamente um cantor, é o que em Hollywood costumava-se chamar de um ‘natural’.”

Os americanos invejam os franceses, que se queixam dos americanos

O parágrafo final da crítica do AllMovie é tão interessante – ao revelar a visão que críticos americanos têm do cinema feito em seu próprio país e a comparação entre o cinema americano e o cinema europeu, e também ao dar informações técnicas relevantes – que me dou ao trabalho de transcrever.

Le Refuge é também outro estranha prova da vitalidade que os filmes estrangeiros trazem ao mercado dos Estados Unidos (embora haja tristemente sempre menos lugares para ver esses filmes em cinemas fora das maiores cidades americanas). É uma história que teria dificuldades de se transformar em filme na América, exceto talvez por um dos canais a cabo, sem um elenco mais importante ou alguém dedicado à excelência atrás do projeto. Mas ele também tem virtudes técnicas que o permitem transcender tudo o que é feito nos Estados Unidos para a TV a cabo; mesmo feito na França, onde obviamente ainda é possível realizar filmes para o cinema desse tipo, Ozon teve que rodá-lo em vídeo de alta definição em vez de em filme de 35 mm, e trabalhar com uma equipe reduzida, o que excluiu quaisquer tomadas elaboradas em câmaras sobre trilhos. Os resultados mesmo assim são impressionantes – a filmagem com muito pouca luz rendeu algumas belas imagens, sedutoras. E o filme, incidentalmente, foi feito no verdadeiro formato widescreen (2.35:1, igual ao Panavision) que belamente faz a tela saltar para fora, e mesmo assim não entra em conflito com a intimidade do drama.”

Fascinante: os americanos lamentam que só alguns cinemas nas maiores cidades dos Estados Unidos exibem filmes estrangeiros, e ficam admirados porque na França ainda há espaço para filmes sérios, adultos, autorais; e os franceses reclamam que nem mendigo na chuva que está cada vez mais difícil fazer filmes sérios, adultos, autorais, e se queixam da competição com o cinema americano.

O Refúgio/Le Refuge

De François Ozon, França, 2009

Com Isabelle Carré (Mousse), Louis-Ronan Choisy (Paul), Pierre Louis-Calixte (Serge), Melvil Poupaud (Louis), Claire Vernet (a mãe), Jean-Pierre Andréani (o pai), Marie Rivière (a mulher na praia), Jérôme Kircher (o médico)

Argumento e roteiro Mathieu Hippeau e François Ozon

Fotografia Mathias Raaflaub

Música Louis-Ronan Choisy

Produção Eurowide Film Production, FOZ, France 2 Cinéma, Teodora Film. DVD Imovision. Estreou em SP 10/9/2010

Cor, 88 min

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Títulos em inglês: Hideaway, The Refuge

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