O Inferno de Henri-Georges Clouzot / L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot

Nota: ★★★½

Anotação em 2011: Se tivesse sido completado, O Inferno, que Henri-Georges Clouzot deixou inacabado em 1964, seria, muito provavelmente, um dos mais filmes mais belos, mais fascinantes da história. E dá para garantir uma outra coisa: Clouzot foi um dos cineastas mais chatos que já houve, muito provavelmente o mais chato, mais exigente: trabalhar com Clouzot era um verdadeiro inferno.

Essas duas verdades ficam absolutamente claras quando vemos O Inferno de Henri-Georges Clouzot, um documentário absolutamente delicioso e revelador, realizado em 2009 pelos diretores Serge Bromberg e Ruxandra Medrea.

O documentário traz longas, detalhadas entrevistas com mais de uma dezena de pessoas que trabalharam com Clouzot na preparação e nas filmagens, meio século atrás. Inclui entrevistas de Clouzot na época – o diretor, nascido em 1907, morreu em 1977), coloca dois atores, Bérénice Bejo e Jacques Gamblin fazendo uma leitura dramática de diálogos escritos pelo diretor para o filme – tudo, é claro, intercalado com muitas das cenas que chegaram a ser filmadas, com uma Romy Schneider estonteantemente bela, aos 26 aninhos, mais Serge Reggiani, Dany Carrel, Jean-Claude Bercq e Mario David.

O próprio Serge Bromberg, um dos dois diretores do documentário, e também autor do roteiro, é o narrador, com a voz em off.

Propositadamente, o documentário não responde de maneira direta, em momento algum, à questão fundamental: mas, afinal, por que motivo O Inferno não chegou a ser completado? Ele consegue, com isso, intrigar o espectador, e envolvê-lo na história do filme jamais feito, quase como se fosse ele mesmo, o documentário, um thriller psicológico.

Os entrevistados, e mais a narração do próprio autor, vão fornecendo pedaços de explicação, pistas.

A conclusão a que se chega não é complexa. Ao contrário, é até simples. O Inferno não chegou a ser completado porque foi vítima da ambição desmedida de seu autor. Clouzot parecia ter a certeza de que faria o melhor filme do mundo, um filme para mudar a história do cinema, um filme definitivo.

Tinha dinheiro à disposição, dinheiro demais – a Columbia encantou-se com o projeto e botou uma montanha de dólares à disposição de realizador. Com ambição demais e dinheiro demais, o cineasta pirou feio.

A mulher é bela demais, o marido é atingido pela flecha preta do ciúme

A trama de O Inferno, em si, a história que o filme contaria, essa era simples. Marcel (Serge Reggiani) e Odette (Romy Schneider) se casam e compram um hotel à beira de um lago artificial, uma represa. No início, são o protótipo de um jovem casal feliz. Mas rapidamente Marcel se vê, como diria Caetano, atingido pela flecha preta do ciúme. Odette é bela demais, demais, demais. Dois homens do lugar, Martineau (Jean-Claude Bercq) e Julien (Mario David), e uma moça, Marylou (Dany Carrel) estão sempre ali no hotel, rodeando Odette – e o ciúme de Marcel vai se tornando uma obsessão, uma doença, uma loucura. Ele passa a desconfiar que Odette o trai com todos eles, com Marylou inclusive.

A questão não é a história em si – é a forma com que Clouzot pretendia contá-la. Ele queria mostrar visualmente, através da imagens, como o ciúme, a obsessão, a loucura iam tomando conta de Marcel.

Queria distorcer imagens, mostrar o mundo como se visto através daqueles espelhos de parques de diversões, que tornam as pessoas imensamente gordas, ou imensamente finas e compridas. Queria jogar imagens de olhos, de bocas, de línguas, de orelhas, como se fossem de um caleidoscópio. Queria incorporar tudo que as artes visuais de então experimentavam, a op art, as figuras geométricas.

Queria mostrar visualmente a loucura.

Contratou artistas plásticos, figuras de proa da vanguarda da época, para ficar inventando imagens loucas. Equipes grandes trabalharam nisso durante meses em um estúdio de Paris.

O objetivo era deixar o espectador do filme em um clima que chamavam de “instabilidade visual”. Haveria seqüências em preto-e-branco e seqüências em cores.

Um dos entrevistados no documentário, William Lutchansky, assistente de câmara, definiu: “A cada vez que Marcel imagina uma traição, ele tem crises de ciúme, e o universo exterior se deforma. Então, precisávamos bolar como deformar o universo”.

Após meses de experimentações no estúdio parisiense, começaram as filmagens em si, com os atores. Haviam escolhido um hotel à beira de uma represa e perto de uma ponte rodoviária e uma gigantesca ponte ferroviária, muito antiga, na região de Auvergne, no centro da França, o Hotel Garabit. O hotel foi alugado para a equipe de filmagem, ficou totalmente entregue à produção. Chegaram a criar uma praia artificial junto da represa, porque a ação exigia a existência de uma pequena praia.

Clouzot contratou três equipes de filmagens – três equipes inteiras, cada uma com seu diretor de fotografia (três grandes, renomados diretores de fotografia), seus assistentes, seus iluminadores, seus câmaras, suas script-girls. Era tanta gente que não cabiam todos de uma vez no restaurante do hotel – as refeições eram feitas em turnos.

Ali, durante várias semanas, atores e técnicos viveram o inferno.

Um mestre, um veterano na época em que os jovens tomaram de assalto o cinema francês

Aqui seria preciso fazer um rápido flashback para falar um pouco de Henri-Georges Clouzot.

Clouzot era tido unanimemente, em 1964, como um dos grandes cineastas franceses, um dos maiores cineastas de todos os tempos, do mundo todo. Os americanos o chamavam de “o Hitchcock francês”; há registros de que o próprio Hitchcock o considerava um sério rival, e uma de suas motivações para fazer Psicose, de 1960, era suplantar As Diabólicas, que o mestre francês lançara em 1955.

Em 1964, como dizia a canção de Bob Dylan apresentada ao mundo no ano anterior, os tempos estavam mudando – desde 1958, a França vivia a febre da nouvelle-vague, com os filmes dos jovens Truffaut, Godard, Malle, Rohmer, Chabrol, a turma dos Cahiers du Cinéma. Clouzot era da velha guarda; seu último filme havia sido A Verdade, com a jovem grande estrela Brigitte Bardot.

Um dos esportes preferidos dos jovens críticos do Cahiers que virariam os cineastas da nouvelle-vague era descer a lenha em Clouzot.

O documentário não fala sobre isso, a coisa da animosidade entre a turma da nouvelle-vague e o cineasta já veterano, mas dá para imaginar que Clouzot queria responder àquela meninada com seu filme definitivo, revolucionário.

“Grande mestre do filme noir, começou fazendo de tudo um pouco”, diz o Dicionário de Cinema – Os Diretores, de Jean Tulard. “Supervisiou versões francesas de operetas alemãs, sem contar a redação de um número impressionante de roteiros para Gallone, Barancelli, Litvak. Sua primeira tentativa já é um golpe de mestre. O Assassino Mora no 21, um dos melhores policiais já rodados na França, vale pela inteligência da adaptação do romance de Steeman, uma interpretação magnífica e pela forma de criar uma atmosfera pesada peculiar a Clouzot. Segue-se O Corvo, uma das obras-primas do cinema francês.”

E depois Tulard cita Crime em Paris, “sua segunda obra-prima”, Anjo Perverso, Salário do Medo, “um filme de suspense que descreve o transporte de explosivos por caminhão, refletindo sobre a dignidade do trabalho humano”, As Diabólicas, Os Espiões.

Depois de Os Espiões, de 1957, veio A Verdade, de 1960, que foi indicado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Aí Clouzot perdeu a primeira mulher, Véra Clouzot – que havia trabalho em As Diabólicas, ao lado de Simone Signoret, nos papéis que seriam recriados em 1996 por Sharon Stone e Isabelle Adjani em Diabolique.

Casou-se novamente, com Inès.

E trabalhou no roteiro de O Inferno. Numa época em que os jovens da nouvelle-vague faziam roteiros vagos, apenas indicativos, deixando boa parte para ser improvisada na hora das filmagens, Clouzot fazia o oposto. Era um detalhista, um perfeccionista, em seus roteiros. Escreveu e reescreveu; décadas e décadas antes que isso ficasse comum, elaborou storyboards – desenhava em detalhes como seria cada tomada.

Um documentário nascido de um encontro claustrofóbico

O diretor Serge Bromberg abre seu documentário contando que teve a idéia de realizá-lo a partir de um incidente: num dia qualquer, ele, Bromberg, um sujeito que tem claustrofobia, ficou por duas horas preso dentro de um elevador de um prédio de Paris, junto com “uma companheira de infortúnio”, Inès Clouzot. Falaram do grande cineasta morto, de suas obras – e, é claro, de O Inferno.

Nos créditos finais do documentário, Bromberg colocou um agradecimento ao elevador do prédio – citando inclusive o endereço exato.

Hematoma na bunda da atriz – e ela ataca o ator com o salto da sandália

Algumas das histórias que o documentário apresenta:

* Costa-Gavras foi contratado como primeiro-assistente de Clouzot. Costa-Gavras, o grande diretor, o Senhor Cinema Político, ainda no início da carreira. Ele conta que recebeu uma cópia do roteiro, um catatau imenso; uma hora depois, Clouzot ligou perguntando o que ele havia achado. Ligaria mais duas vezes naquela mesma noite.

* Havia uma seqüência passada no bar diante do hotel em que Julien- Mario David dava uma palmadinha na bunda de Marylou-Dany Carrel (na foto abaixo). Marylou, então, reagia dando uma batidinha com sua sandália na testa de Julien. Nessa seqüência, como em várias outras do filme, passadas, como já se disse, à beira de um lago, as pessoas vestiam trajes de banho. Clouzot mandava repetir seguidamente a cena – até que a bunda da atriz Dany Carrel começou a ficar roxa. Tiveram que passar maquiagem para continuar. Depois de repetir a cena diversas, diversas, diversas vezes, com a bunda doendo, Dany Carrel se enfureceu e bateu forte com o salto da sandália na testa de Mario David, que começou a sangrar. Clouzot, sem saber o que fazer, pediu a opinião do produtor. “Tem que parar de filmar por hoje, Clouzot, é isso que você tem que fazer”, foi a resposta.

Clouzot tinha insônia. Não dormia e não deixava ninguém dormir

* Clouzot tinha insônia. “Ele não dormia e não queria que ninguém dormisse”, conta Catherine Allégret, a filha de Simone Signoret e enteada de Yves Montand, uma das atrizes do filme. As filmagens começavam cedo – às 7, 7h30 da manhã as equipes estavam a postos para trabalhar, e portanto todos iam dormir cedo, no Hotel Garabit. Mas Clouzot tinha insônia, e volta e meia acordava diversos dos colaboradores dizendo que acabara de ter uma idéia, e queria discuti-la com a equipe.

* Havia uma sequência em que Marcel, o marido ciumento obsessivo, corria pela estrada junto ao hotel, atravessando a ponte rodoviária, passando até o outro lado da represa, tentando flagrar Odette com o bonitão Martineau. Como Clouzot filmava até 20 vezes a mesma tomada, Serge Reggiani deve ter corrido umas dez maratonas completas.

* À medida em que as filmagens avançavam, o tempo ia ficando mais curto, porque, por um motivo qualquer, a Electricité de France, a empresa de energia dona da barragem que criara a represa, iria esvaziá-la numa data determinada. As filmagens, portanto, tinham um deadline, um prazo fatal. Mas, quanto mais se chegava perto do prazo fatal, mais Clouzot ficava exigente, querendo repetir cenas – e às vezes simplesmente não sabia o que queria fazer. Dezenas e dezenas de pessoas ficavam ali, à espera de que o cara decidisse o que fazer.

* Romy Schneider foi vista e ouvida berrando que não agüentava mais, que o cara era um doido varrido.

* Um belo dia Serge Reggiani (na foto) simplesmente não aguentou mais, e se mandou. Chegaram a chamar Jean-Louis Trintignant para ver se ele aceitaria pegar o papel principal do filme.

* Até que Clouzot teve um ataque cardíaco.

Não, não foi fatal. Ele ainda faria um derradeiro filme, A Prisioneira, em 1968. Morreria em 1977. Mas o ataque cardíaco foi fatal para o filme.

A beleza de Romy Schneider é tão esplêndida que chega a doer

Depois do incidente com o elevador parado entre dois andares, Serge Bromberg foi atrás do que restou do Inferno de Clouzot. Encontrou 185 rolos de filmes dentro de velhas latas – 13 horas de película revelada.

Deve seguramente ter sido um trabalho insano escolher, entre tanta coisa, o que foi usado no documentário.

A beleza de Romy Schneider, em preto-e-branco e em cores, é tão absurda, tão esplêndida, que chega a doer.

O resultado final do trabalho de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea é de fato fascinante. Beleza de documentário.

Ele só não cita, não diz uma palavra a respeito do filme L’Enfer, no Brasil Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo. O filme foi feito em 1994 por Claude Chabrol, com Emmanuelle Béart no papel que foi de Romy Schneider e François Cluzet no que foi de Serge Reggiani. O próprio Chabrol assinou o roteiro, dando o crédito de que se baseou no roteiro original de Henri-Georges Clouzot.

Enquanto via o documentário, me peguei pensando: mas eu vi um filme com essa mesma história! Claro: vi o filme de Chabrol. Vi em 1994, quando foi ele foi lançado. Só anotei os dados básicos, sem comentário algum, mas dei 3 estrelas em 4.

A escolha de Emmanuelle Béart para o papel que havia sido de Romy Schneider é acertadíssima. La Béart é estupidamente bela – como Romy, tem aquela pele muito clara, os olhos claros expressivos, brilhantes, maravilhosos. Só não chega a ser tão bela quanto Romy Schneider. Mas não há ninguém exatamente como Romy Schneider.

O documentário poderia ter citado a existência desse filme de Chabrol. Mas a rigor não precisava.

É uma experiência fascinante ver este documentário. Todos os apaixonados por cinema deveriam vê-lo.

O Inferno de Henri-Georges Clouzot/L’Enfer d’Henri-Georges Clouzot

De Serge Bromberg e Ruxandra Medrea, França, 2009

Documentário com entrevistas de Costa-Gavras, Catherine Allégret, Gilbert Amy, Jacques Douy, Jean-Louis Ducarme, William Lubtchansky, Thi Lan Nguyen, Joël Stein. Com os atores Bérénice Bejo e Jacques Gamblin

Trechos do inacabado O Inferno/L’Enfer com Romy Schneider (Odette), Serge Reggiani (Marcel), Dany Carrel (Marylou), Jean-Claude Bercq (Martineau), Mario David (Julien), Catherine Allégret (Yvette)

Roteiro Serge Bromberg

Música Bruno Alexiu

Produção Lobster Films, France 2 Cinéma, Canal+, CinéCinéma,

Canal+ Horizons. DVD Imovision.

Cor e P&B, 102 min

***1/2

3 Comentários

  1. Postado em 4 julho 2013 às 6:04 pm | Permalink

    Vi, e comecei a ficar exasperado, precisamente porque tinha visto o filme de Chabrol e me lembrava da história, mas não conseguia entender o que Clouzot queria fazer de jeito nenhum (e aquelas experiências op-art me pareceram muito, muito datadas, de certo modo decorrentes daquilo que Saul Bass fez em UM CORPO QUE CAI, de Hitchcock). Não saber como parar, como dosar, como ter humildade com um projeto de cinema (porque obras-primas não podem ser tão calculadas e tão doentiamente perfeccionistas assim) explica tudo. O homem queria superar a Nouvelle Vague, Hitchcock, ser deus ou semideus? Bem, ele não era. Os filmes que vi de Clouzot não me parecem tão bons assim. Todos têm ares datados e frouxidões e tempos mortos que Hitchcock não teria (“As diabólicas” nunca foi tão enxuto quanto “Psicose” de modo algum).

  2. Paulo Sinco
    Postado em 5 julho 2014 às 11:02 pm | Permalink

    Chico Lopes falou besteira. Clouzot datado!?

  3. Maria
    Postado em 26 novembro 2014 às 11:14 pm | Permalink

    Com certeza teria sido um grande filme!
    Talvez demais para época! Eu vejo esse documentário do filme inacabado,como “Limite de Mario Peixoto”,inovador, muito interessante! De ficar de boca aberta e rever nossos conceitos! As cenas da Romy são maravilhosas !!! Belissima atuação!

4 Trackbacks

  1. […] obra mais pretensiosa e audaciosa, tão pretensiosa e audaciosa que ele não conseguiria terminar, O Inferno: o ciúme, que tem papel muito importante na trama deste Quai des Orfèvres, e o homossexualismo, […]

  2. […] mas nenhum superlativo é o bastante para Romy Schneider. Poucos meses atrás, a vi nos trechos de O Inferno que Henri-Georges Clouzot chegou a filmar em 1962, e ela está belíssima, mas acho que nunca […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Casos e Casamentos / Mariages! em 21 setembro 2015 às 4:27 pm

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  4. Por 50 Anos de Filmes » As Diabólicas / Les Diaboliques em 16 novembro 2015 às 8:08 pm

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