O Ciúme Mora ao Lado / Haarautuvan Rakkauden Talo

Nota: ★★½☆

Anotação em 2011: O Ciúme Mora ao Lado é uma tremenda gozação a respeito do casamento e do divórcio. É uma comédia escrachada, despudoradamente escrachada. O diretor Mika Kaurismäki, mezzo finlandês, mezzo carioca, não tem a mínima vergonha em criar situações embaraçosas, constrangedoras, ridículas.

A ação se passa no auge do verão finlandês, quando as temperaturas chegam a quentíssimos (para eles) 15 graus, talvez até 18. Um personagem usa camiseta sem mangas, e a protagonista toma banho de mar nua à noite. Mika Kaurismäki faz troça até das temperaturas de seu país: em Três Homens e uma Noite Fria, seu filme anterior, de 2008, um personagem exclama: “Isto aqui é o Pólo Norte!”

Kaurismäki é daquele tipo de cineasta que trabalha sempre com o mesmo grupo de atores. Todos os principais atores que trabalharam no filme de 2008 estão também neste aqui, feito em 2009. Ótimos atores, muitíssimo bem dirigidos.

Logo na abertura, uma grande galeria de situações e personagens

A abertura do filme é um brilho. Enquanto vão rolando os créditos iniciais – aquele monte de nomes danados de complicados –, ao som de uma música fantástica, uma espécie de tango moderno, forte, sensacional, o diretor Kaurismäki apresenta uma grande galeria de situações e personagens:

* No jardim de uma bela casa junto a um braço de mar (ou seria um lago? não dá para saber), um casal queima numa fogueira suas fotos, suas recordações da vida a dois. Veremos depois que são Tuula (Elina Knihtilä) e Juhani (Hannu-Pekka Björkman), os protoganistas da história;

* Duas prostitutas estão em um quarto de hotel; uma delas, Nina (Anna Easteden), está ao telefone; a outra, Natalia (Ulla Hämeenaho), bem bêbada, vai se sentar na amurada da janela – é verão, está quente (para eles lá). Natalia perde e equilíbrio e cai. Nina se assusta, deixa cair o copo que estava em sua mão, corre para a janela para ver a rua;

* Lá embaixo, na rua, perto de onde a jovem Natalia se estatelou, um sujeito sai de uma boate, um inferninho. Veremos depois que ele é Wolffi (Antti Reini), o cafetão das duas prostitutas e de muitas outras que fazem ponto perto da boate;

* Um casal, os dois de jeans e casaco de couro preto (ué, mas não é auge do verão?), observa a moça morta na calçada, sobe ao hotel, ao quarto de onde a moça caiu;

* Enquanto isso, Nina, a prostituta que viu a colega Natalia cair da janela, sai apressadamente do hotel e desaparece na rua;

* O casal da primeira seqüência se prepara para dormir em cômodos separados, pela primeira vez. Tuula fica no quarto que era do casal, e antes de dormir tira a aliança. Juhani, o marido, em breve ex-marido, vai dormir no escritório.

Terminam os créditos iniciais. Ao longo do filme que está começando, todos esses personagens vão se encontrar, e surgirão ainda outros na história.

Máfias, polícia, dinheiro roubado. Mas o que importa é o casal que se separa

A base da trama é o casal Tuula e Juhani, os protagonistas desse divórcio à finlandesa. Junto com a história deles se desenvolve uma trama policial: Natalia, a prostituta morta, era muito benquista pela máfia eslovena; tinha se apoderado de uma pequena fortuna. A chefe do cafetão Wolffi, uma senhora de idade que não mora na Finlândia, Yrsa (Kati Outinen), quer que ele encontre logo o culpado pela morte de Natalia e recupere o dinheiro, que tem que ser devolvido à máfia eslovena.

Veremos depois que essa Yrsa, chefe de quadrilha, vem a ser a mãe de Tuula, nossa protagonista. E que o cafetão Wolffi vem a ser meio irmão de Juhani, nosso protagonista. E, para complicar mais um pouco, teremos que, no passado, Yrsa teve um caso com o pai de Juhani e Wolffi.

E a dupla de jeans e casaco de couro é da polícia – estão seguindo Wolffi, atrás de provas de crimes. A mulher da dupla se consulta com Juhani, que é um terapeuta familiar.

Toda essa coisa de máfia daqui, quadrilha de lá, dinheiro roubado, policiais no encalço de bandidos, tudo isso é secundário. O cerne do filme é Tuula e Juhani, o casal que decidiu se separar.

Enquanto o divórcio não sai, os dois vão continuar morando na mesma casa. Tentam fazer uma divisão territorial – o andar térreo fica para ele, o andar de cima, para ela. Tentam estabelecer normas de convivência. Devem certamente ter imaginado que conseguiriam fazer uma separação civilizada. Civilidade é o que vai estar absolutamente em falta: os dois passam a se agredir verbalmente já na manhã seguinte à primeira noite em que dormem separados. A crueldade dos ataques Tuula e Juhani fazem um ao outro é absolutamente chocante – é algo que faz lembrar A Guerra dos Roses, o filme de trágico humor negro de Danny DeVito com Michael Douglas e Kathleen Turner.

Situações ridículos, grotescas, em um filme muito cruel

Depois da baixaria da troca de insultos, nossos heróis partem para a estratégia de provocar ciúme no outro. Tuula descola um carinha com quem transou tempos atrás, Marco (Ilkka Villi), um piloto de táxi aéreo, e o convida para comer uma refeição completa em sua casa. Juhani recorre ao meio irmão Wolffi para lhe arranjar uma mulher que se passe por sua namorada. Wolffi, que está apaixonado por Nina, a prostituta que a essa altura está sendo caçada pelas quadrilhas, suspeita de estar com a fortuna roubada pela falecida Natalia, resolve matar dois coelhos com uma cajadada só. Propõe que Nina se esconda na casa de Juhani, enquanto se faz passar por namorada dele e ganha nisso uma boa grana.

As situações envolvendo Tuula e seu aviador e Juhani e sua nova namorada são grotescas, ridículas – há momentos em que parece que estamos vendo um velho filme dos Três Patetas. Mika Kaurismäki, neste filme aqui, de fato não teve receio de fazer comédia trapalhona, pastelão – só falta mesmo guerra de bolos e tortas na cara das pessoas.

E então?

É um filme muito divertido, bem feito, com excelentes atuações – e, embora, extremamente cruel. É um retrato muito triste da humanidade.

A abertura genial promete mais do que, enfim, o filme entrega. Mas vale a pena ver, acho eu. Gostei de ter visto.

Parece que os finlandeses adoraram. Segundo o IMDb, este foi, de longe, o filme mais popular da longa carreira do diretor Mika Kaurismäki, e teve a segunda maior bilheteria do ano na Finlândia.

O Ciúme Mora ao Lado/Haarautuvan Rakkauden Talo

De Mika Kaurismäki, Finlândia, 2009

Com Elina Knihtilä (Tuula Helin), Hannu-Pekka Björkman (Juhani Helin), Antti Reini (Wolffi), Anna Easteden (Nina), Tommi Eronen (Pekka), Kati Outinen (Yrsa), Kari Väänänen (Niilo), Ilkka Villi (Marco), Antti Virmavirta (Timo), Mari Perankoski (Tiina)

Roteiro Mika Kaurismäki e Sami Keski-Vähälä

Baseado no romance de Petri Karra

Fotografia Rauno Ronkainen

Produção Mainostelevisio, Marianna Films. DVD Imovision

Cor, 102 min

**1/2

Título nos EUA: The House of Branching Love. Título na França: Divorce à la Finlandaise

 

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