Os Amantes do Círculo Polar / Los Amantes del Círculo Polar

Nota: ★☆☆☆

Anotação em 2010: Os Amantes do Círculo Polar é um desses filmes incensados pelos críticos e pelos jurados de festivais. Foi feito exatamente para isso: o diretor e roteirista Julio Medem usou todos os truquezinhos, todas as instruções do manual de como fazer um filme para agradar aos críticos e aos jurados de festivais.

 Deu certo: ganhou 13 prêmios e teve outras oito indicações em festivais mundo afora, incluindo o de Gramado. Virou cult.

 Exatamente por isso, não gostei do filme. Achei tudo tremendamente artificial, pasteurizado, forçado, exagerado.  

 A história bolada por Medem – um caso de amor escrito nas estrelas – vai fundo na exploração das casualidades, nas coincidências, dos encontros e desencontros, nas trapaças do destino. Nada contra – muito antes ao contrário. Sempre tive paixão por essas histórias; Lelouch, Demy e Kieslowski fizeram maravilhas com essa matéria-prima, em filmes gloriosos como Toda Uma Vida, Lola, A Fraternidade é Vermelha. Mais recentemente, isso até virou lugar comum, explorado até o cansaço por comedinhas românticas americanas.

 Nada contra, em princípio, as histórias baseadas em encontros e desencontros, casualidades, coincidências.

         Tiquezinhos pseudo-intelectuais, pseudo-artísticos

A questão é que Julio Medem exagerou demais. Abusou. E a insistência nos tiquezinhos, nas bobagenzinhas pseudo-intelectuais (que são na verdade pseudo-intelectualóides), pseudo-artísticas, torra a paciência.

A frescurinha começa na escolha do nome dos dois protagonistas, os que o destino uniu para todo o sempre, com o beneplácito das estrelas, do alinhamento dos planetas, as cartas de tarô e mais todo o escambau: Otto e Ana. Dois nomes que podem tanto ser lidos de frente para trás quanto de trás para a frente – palíndromos. Desde garotinhos Otto e Ana repetem que têm, ambos, nomes que são palíndromos.

O filme mostra – com uma proposital, tortuosa, cansativa, enervante desestruturação da ordem cronológica – a história de Otto e Ana desde que eles estão aí na faixa dos oito anos de idade até algo por volta dos 25, 28, motivo pelo qual cada um dos personagens é interpretado por três atores diferentes. O Otto garotinho é feito por Peru Medem, o Otto adolescente por Victor Hugo Oliveira e o Otto adulto por Fele Martínez. Ana é interpretada respectivamente por Sara Valiente, Kristel Díaz e Najwa Nimri.

Conhecem-se, então, garotinhos, na escola. O pai de Otto, Álvaro (Nancho Novo), vai abandonar a mulher (interpretada por Beate Jensen), e logo depois vai se casar com a mãe de Ana, Olga (Maru Valdivielso). Sem marido, a mãe de Otto se desespera, entra em parafuso, não consegue tocar a vida.

Adolescente, Otto segue os passos do pai, abandona a mãe e vai viver com o pai, com a segunda mulher dele e, mais importante ainda, com Ana. Criados como meio irmãos, namoram secretamente, num clima de mistério, como se aquilo fosse incesto – embora não seja.

Já crescidinhos fisicamente (embora a idade mental, na minha opinião, não acompanhe o passar dos anos), Otto e Ana vão se separar, para, mais tarde, haver o fatal, o inevitável, o escrito nas estrelas, reencontro feérico.

         Frases pretensamente belas, com gosto de hambúrguer do McDonald’s

Como tudo isso parecia pouco, Medem recheou sua história com mais e mais coincidências. No passado, o avô de Otto salvou um pára-quedista nazista que participou do terrível ataque a Guernica, na guerra civil espanhola. O alemão chamava-se Otto. Salvo por um espanhol ao participar do bombardeio que matou milhares de espanhóis, Otto conheceu uma espanhola, e mudou-se com ela para a Finlândia, dentro do Círculo Ártico, onde Ana, ela também fascinada com o Círculo Ártico, vai enfim encontrar esse Otto, responsável pelo nome de seu eterno amor.

E dá-lhe frases pretensamente belas, literárias – com aquele gosto artificial de hambúrguer do McDonald’s.

E dá-lhe frescurinhas visuais.

Na minha opinião, opinião de espectador, pessoal e intransferível, salvam-se no filme a beleza da trilha sonora do sempre competente e criativo Alberto Iglesias, o criador de várias das trilhas de Almodóvar, e a beleza e o talento dessa bela atriz de nome complicado, Najwa Nimri, que faz a Ana depois de atingir a maioridade. Najwa Nimri é mais uma atriz espanhola linda e talentosa, depois de Penépole Cruz e Paz Vega, da mesma geração que Pilar López de Ayala. Ela e Paz Veja se reuniram em outro filme de Julio Medem, Lúcia e o Sexo – na minha opinião, muito superior a esse Os Amantes do Círculo Polar. E Najwa Nimri também brilhou em um filme extraordinário, O Que Você faria?/El Método, dirigido na Espanha pelo argentino Marcelo Piñeyro.

         Jean Tulard não caiu na trapaça: “falso e cansativo”

O artificialismo do filme comoveu Leonard Maltin, que deu para ele 3 estrelas em 4 e o definiu como um drama romântico gostoso, divertido; segundo Maltin, o conceito do diretor é de que o amor é circular e eterno. O autor do guia de filmes mais vendido do mundo só reclamou do final – acho que ele preferiria um happy ending, coisa que os americanos adoram, mas de que diretor europeu que segue a cartilha de como se produzir filme feito para agradar críticos e jurados de festival passa bem longe.

Já o Guide des Films de Jean Tulard não caiu na trapaça. E o engraçado é que, para meter o pau no filme, o guia francês ataca justamente Lelouch, que sempre me encantou: “Este roteiro hiper-romântico apela para os acasos e coincidências como num mal filme de Lelouch. O processo soa falso e rapidamente fica cansativo.”

Mas, evidentemente, tudo é uma questão de gosto. Há uma legião de admiradores do filme. Beleza, uai.

Os Amantes do Círculo Polar/Los Amantes del Círculo Polar

De Julio Medem, Espanha-França, 1998

Com Najwa Nimri (Ana adulta), Fele Martínez (Otto adulto), Nancho Novo (Álvaro), Maru Valdivielso (Olga), Peru Medem (Otto menino), Sara Valiente (Ana menina), Víctor Hugo Oliveira (Otto adolescente), Kristel Díaz (Ana adolescente), Pep Munné (Javier), Jaroslav Bielski (Álvaro Midelman), Rosa Morales (Sofía), Joost Siedhoff (Otto Midelman), Beate Jensen (mãe de Otto)

Argumento e roteiro Julio Medem

Fotografia Gonzalo F. Berridi

Música Alberto Iglesias

Produção Studio Canal, Canal+, Sogetel

Cor, 112 min

*

Títulos em inglês: The Lovers from the North Pole, The Lovers of the Arctic Circle

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