Distrito 9 / District 9


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2010: Distrito 9 tem sido unanimemente incensado. Ganhou a aura de uma grande obra de ficção científica, inovadora, original, que faz uma bela metáfora sobre racismo, xenofobia.

Não costumo ler matérias sobre filmes antes de vê-los, mas é claro que é impossível deixar de ver os títulos, os olhinhos, nos jornais, revistas, na internet, e então soube desses elogios ao filme – uma produção bancada pelo neozelandês Peter O Senhor dos Anéis Jackson feita na África do Sul, o país que tem na sua história a mancha do apartheid. E me preparei para ver o filme com a maior boa vontade do mundo.

Foi uma decepção.

Claro, o filme é extraordinariamente bem feito, em todos os quesitos técnicos. Mas não consegui enxergar qualquer metáfora em relação a alguma situação real vivida pela humanidade. Não consegui perceber nenhuma mensagem – simplesmente não sei o que o diretor e co-roteirista Neill Blomkamp quis dizer, se é que ele quis dizer alguma coisa.

Na minha opinião, é um filme extraordinariamente bem feito, sim, mas violento demais, nojento, vomitativo demais – há um exagero imenso e repetitivo em situações agressivas, que provocam nojo, náusea. Muita ação, muito tiro, muita explosão, muita meleca – um filme mais para adolescente que gosta de terror trash do que para espectadores maduros.

Os críticos, é claro, certamente terão enxergado profundas assertivas a respeito do homem, da civilização, do mundo. Depois que anotar minhas impressões, vou dar uma olhada nas considerações filosóficas acerca do filme.

De fato, a idéia básica da trama é inovadora e original. Já houve todo tipo de alienígena chegando à Terra no cinema – os agressivos, violentos, que querem dominar o planeta por algum motivo, em geral para obter aqui algum alimento ou fonte de energia em falta no seu lugar de origem; os que vêm em missão de paz, para ensinar lições aos atrasados terráqueos; os que simplesmente vêm conhecer o lugar e acabam se perdendo da nave-mãe.

Uma imensa população de aliens que chega numa grande nave-mãe que fica paradona, estática, sem fazer coisa alguma, como na história aqui, isso é original. Assim como é absolutamente original a nave-mãe parar em cima de uma cidade do terceiro mundo – no caso, Johanesburgo -, e não sobre uma metrópole desenvolvida, Nova York, Washington ou Chicago, que são citadas bem no início da narrativa.

E então, pressionadas pela opinião pública mundial, as autoridades sul-africanas vão até a nave – e descobrem uma imensa população de alienígenas famintos, subnutridos, que são em seguida levados para um acampamento como os de refugiados, uma gigantesca favela, junto de Johanesburgo.

A forma com que o diretor e co-roteirista Neill Blomkamp montou sua narrativa também é muito interessante, inteligente, ágil: é como se estivéssemos assistindo a um documentário, feito 20 e tantos anos depois da chegada da nave-mãe à Terra.

Os elementos inovadores, interessantes, de qualidade, param por aí, na minha opinião. O que vem a seguir é aquilo que já falei: um amontoado de coisas nojentas, violentas, muito tiro e explosão. Idéia que é bom, substância, necas de pitibiribas.

O quê? As mega-corporações mandando mais que os governos, com milícias paralelas? Isso é mais velho, surrado e batido que ouvir bêbado cantando “Carinhoso” nas festas de firma no fim de ano.

Num dos making-ofs que acompanham o filme no DVD, a co-roteirista Terri Tatchell entrega a fórmula: ela e o diretor Neill Blomkamp ficaram criando histórias, diversas histórias, para ver o que daria certo, o que funcionaria. Ou seja: fizeram uma história que é um produto de laboratório – artificial como um hambúrguer do McDonald’s.

Não acho que a trama funcione. Acho que a história tem mais furos que o melhor queijo suíço – mas tenho preguiça de me estender sobre eles. O que tinha a dizer, acho, já está aí acima.

        “Um raro filme, completamente inesperado”

Vamos às loas ao grande filme.

“De vez em quando – umas poucas vezes em cada década –, surge um raro filme, completamente inesperado, para nos mostrar que ainda há algumas idéias originais, e que o cinema ainda pode ser fresco e excitante. Distrito 9 é um desses filmes.” Assim começa a longa crítica escrita por Jason Buchanan no AllMovie.

E prossegue: “Talvez o filme de ficção-científica mais original a aparecer desde a chegada do milênio, é também um dos melhores na memória recente. Forte, cativante, ocasionalmente hilariante e agradavelmente imprevisível graças a um roteiro inteligentemente estruturado que constrói uma ação marcante, Distritc 9 surpreende a cada momento, ao mesmo tempo em que espelha a sociedade de uma forma que colocará o filme entre os melhores do gênero.”

         Um amontoado de tiros, explosões, melecas

Espelha o quê, cara-pálida? Os campos de refugiados onde mal sobrevivem milhares e milhares famintos, desvalidos, devido a lutas tribais ou guerras entre governos tirânicos, como os que existiram e existem na Ásia, na África? A dramática, cruel situação dos imigrantes ilegais? O apartheid, felizmente morto e enterrado?

Ah, pelamordedeus, vamos falar sério. Este filme não tem nada a ver com essas duras, tristíssimas realidades – abordadas em uma porção de ótimos filmes, recentes ou mais antigos, como, só para citar dois extraordinários, o francês Bem-vindo/Welcome, de Philippe Lioret, e o inglês Coisas Belas e Sujas/Dirty Pretty Things, de Stephen Frears. Esses – e vários outros, alguns já comentados aqui e reunidos na tag Racismo e Imigração –, esses, sim, são filmes que dizem muito a respeito das chagas da sociedade, da civilização.

Distrito 9, na minha opinião, roça levemente na questão da xenofobia. Cita, bem en passant, que os moradores de Johanesburgo rejeitam os alienígenas. Como os franceses, americanos, ingleses, alemães rejeitam os latinos, os turcos, os muçulmanos, os asiáticos que deixam seus países à procura de vida melhor. OK, esse paralelo é mostrado – de forma leve, suave, en passant. E só. De resto, não há nada mais distante dos imigrantes latinos, turcos, muçulmanos, asiáticos do que aquele 1,8 milhão de seres abjetos que chegam na espaçonave.

Que espelho de realidades que nada. Distrito 9 é um amontoado de tiros, explosões, melecas. Só isso.

Esta é minha opinião pessoal, num espaço para minhas opiniões pessoais. Não me considero, nem de longe, dono da verdade.

Distrito 9/District 9

De Neill Blomkamp, África do Sul-EUA-Nova Zelândia, 2009

Com Sharlto Copley (Wikus van der Merwe), David James (Koobus Venter), Vanessa Haywood (Tania Van de Merwe), Mandla Gaduka (Fundiswa Mhlanga), Kenneth Nkosi (Thomas), Eugene Khumbanyiwa (Obesandjo)

Argumento e roteiro Neill Blomkamp e Terri Tatchell

Fotografia Trent Opaloch

Música Clinton Shorter

Produção TriStar Pictures, Block/Hanson

Cor, 112 min

**

3 Comentários

  1. Postado em 13 Maio 2010 às 1:09 pm | Permalink

    Oi, Sergio. Assisti ao filme ontem e, mesmo, já de cara, achando a porcaria das porcarias, vi até o fim, por causa dos elogios que li por aí. Pensei: ah, deve ter alguma coisa legal, não é possível! Será que sou tão tapada? Fiquei encasquetada, tanto que achei melhor vir aqui em busca da sua opinião. Fiquei mais tranquila, porque achei o filme sem pé nem cabeça. Você tem razão: só violência, tiros, explosões, melecas, vômitos, e acrescento gente feia e bicho feio. Pra mim, valeu pela nave, linda, enorme, um enfeite no céu — embora encalhada num fim de mundo. Deus permita que um dia baixe uma dessas por aqui, repleta de gente inteligente, bonita e capaz de transmitir uma mensagem interessante. 🙂
    Abraços e um beijo na Mary.

  2. Danilo Vicente
    Postado em 13 julho 2012 às 6:03 pm | Permalink

    Sergio, neste eu estou com opinião contrária a você. Adorei! Fui pego de surpresa. De verdade, achei genial (gostei muito mesmo). Toda a trama não acontece em Nova York, Chicago ou Londres. É em Johanesburgo, o que já dá um toque especial ao filme. Por ser em formato de documentário, a história ganha toques realistas impensados.

    Acredito que a escolha da África do Sul como ambiente relaciona o filme ao Apartheid. Com atores sul-africanos, só gente nova, as atuações nada perdem aos melhores filmes do gênero.

    Abs.

  3. José Luís
    Postado em 25 Março 2013 às 10:44 pm | Permalink

    Concordo consigo, acabei de ver o filme há instantes e custou-me muito chegar ao fim.
    Não consegui ver as tais qualidades apregoadas pela imprensa. Metáforas sobre racismo e xenofobia não encontrei. Tudo muito feio e nojento.

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