As Cartas de Madeleine / Madeleine


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: As Cartas de Madeleine é um filme menor, dentro da obra do mestre David Lean (1908-1991). Não chega a ser um grande filme. Exibe as marcas do tempo; pode parecer hoje um tanto datado, especialmente para os mais jovens. Mas é bom, tem qualidades – afinal, é uma obra de David Lean.

O filme foi feito em 1950 – e a ação se passa em 1857, em uma Glasgow extremamente conservadora, de princípios absurdamente rígidos, uma sociedade caretíssima, repressora, reprimida. Se não levar isso em consideração, se isso não estiver bem claro, o espectador não conseguirá entender direito o que se passa na história.

É um baita dramalhão. Na primeira metade do filme, a pobre personagem central, Madeleine Smith (Ann Todd, de quem se falará muito neste texto), exatamente por viver naquela sociedade hipócrita, sofre estupidamente, come o pão que o diabo amassou bem amassado.

O filme não afirma em momento algum que está contando uma história real – não há o letreiro hoje inevitável de “baseado em fatos reais”, ou “baseado em uma história real” –, mas todo o seu tom é, sim, da reconstituição de fatos reais, históricos. É o tom do texto dito por um narrador em off, bem no início, logo após os créditos iniciais. Enquanto vão aparecendo os nomes de atores e da equipe, a câmara de David Lean faz uma panorâmica de Glasgow, tal como era a cidade quando o filme foi feito, 1950. Ao fim dos créditos, a câmara está focalizando uma determinada praça, e o narrador, de voz britanicamente solene, diz o seguinte:

– “Nesta grande cidade de Glasgow, existe uma praça, Blythswood Square. Não há nada excepcional em sua aparência, e, exceto as sólidas e bem construídas casas vitorianas, poucas coisas sugerem sua prosperidade do passado. Mas há uma casa nessa praça que é excepcional, pois tem um interesse que o tempo jamais poderá mudar. O número 7, que ainda permanece, foi o lar de Madeleine Smith. Sua estranha história de amor sobreviveu à elegância da casa em que ela morou, e talvez ainda permaneça um espírito para escutar os fantasmagóricos passos de Emile L’Angelier pela área. Ou para ouvir seu bastão na grade do lado de fora da janela de seu quarto. A história desta casa é a história de dois seres humanos e do que foi feito deles.”

         Na rica família, o pai arranja um rico casamento para a filha

E voltamos ao passado, exatamente para o dia em que a família Smith visitou pela primeira vez a casa no número 7 da Blythswood Square, então à venda. O filme não nos informa qual era aquela época do passado – só bem perto do final teremos a data, 1857, pouco menos de cem anos antes de o filme ser feito, distante um século e meio dos dias de hoje.

É uma família bastante rica, a dos Smith; não ficamos sabendo de onde vem a fortuna, o que faz na vida o sr. James Smith (Leslie Banks), mas é óbvio que ele tem uma fortuna. Tem uma fortuna, princípios absolutamente rígidos, uma mulher obediente e três filhas que deveriam ser da mesma forma obedientes; Madeleine é a mais velha delas, e o sr. Smith está determinado a fazê-la se casar com William Minnoch (Norman Wooland), a fine gentlemen, o que significa, a rigor, um sujeito igualmente de posses.

A questão é que – como em tantas outras histórias da literatura, do teatro, da música popular, e certamente também da vida real – Madeleine está perdidamente apaixonada por um sujeito pobre, e, além de pobre, estrangeiro, um francês, Emile L’Angelier (Ivan Desny).

A partir desse lugar comum – “quer lugar comum mais comum que a vida?”, como dizia Luiz Vilela –, teremos a tragédia.

O estilo de Lean, neste filme, é da maior sobriedade possível. É austero, exatamente como deveria ser a vida daquelas pessoas da boa sociedade escocesa. É clássico – é o que muita gente chama de acadêmico. A música, executada pela Royal Phiharmonic Orchestra, alterna tons alegres em alguns momentos com crescendos assustadores nos trechos mais dramáticos.

Mas Lean se permite aqui e ali efeitos para realçar ainda mais o drama. Passada a primeira metade do filme, ele joga com a montagem de maneira brilhante, justapondo uma foto de Madeleine num porta-retratos no quarto humilde de pensão de Emile com o rosto de Madeleine feliz, provando o caro vestido de noiva. Pouco antes, num momento de alta carga dramática, em que Emile obriga Madeleine a recebê-lo na área de serviço de sua casa, a câmara se afasta do rosto dos dois para se fixar na bengala de Emile caída no chão, ao lado dos pés de Madeleine, ela também prostrada no chão, chorando convulsivamente. Em outros momentos, a câmara também se fixa nos pés dos personagens, ou nas sombras – como faziam os expressionistas alemães na década de 20, e os filmes noir dos anos 40.

         Um filme feito para o brilho de Ann Todd, a sra. Lean

David Lean se casou com Ann Todd no dia 21 de maio de 1949, como afirma, com precisão, o iMDB. Era sua terceira mulher. (O bicho era uma casadoiro compulsivo; depois de Ann Todd, de quem se divorciou em 1957, o ano de A Ponte do Rio Kwai, ainda se casaria mais três vezes.)

Foi Ann Todd – segundo diz também o iMDB – que convenceu o recém fisgado Lean a filmar Madeleine. Diz o enciclopédico site que Ann Todd havia feito o papel de Madeleine no teatro, e havia muito tempo desejava interpretá-lo num filme. “Logo depois que ela se casou com o diretor, ele concordou em fazer este filme com ela no papel principal, como uma espécie de presente de casamento.”

Segundo o Film Guide da Time Out, este foi apenas o primeiro dos três filmes que Lean fez como veículo para Ann Todd mostrar seu talento. Ela estrelaria ainda A História de uma Mulher/The Passionate Friends/One Woman’s Story e Sem Barreira no Céu/Breaking the Sound Barrier

Ao consultar os alfarrábios, vejo que é impossível desassociar Ann Todd do fato de o filme existir. Todo mundo cita que ela era na época a sra. Lean. Leonard Maltin – que deu 2.5 estrelas ao filme, em 4, e, na resenha de três linhas, conta o que eu não vou contar por considerar um spoiler – diz que o filme tem um elenco superior, e é “um veículo para a então esposa de Lean, Ann Todd”, para concluir que a obra é um dos poucos desapontamentos do cineasta. Ele acrescenta a informação de que o filme, originalmente chamado apenas Madeleine, foi relançado com o título de The Strange Case of Madeleine. O que me parece estranho é esse segundo título para o mercado de língua inglesa, porque o caso de Madeleine pode ser tudo, menos estranho. Nesse caso específico, os distribuidores brasileiros acertaram: As Cartas de Madeleine é um título que faz sentido. Foi o usado no lançamento do filme nos cinemas, e foi mantido agora no DVD. 

Pauline Kael diz que as técnicas cinematográficas de Lean são tão stiff (stiff é rijo, teso, duro, emperrado, até mesmo cadavérico) que até parecem vitorianas, como a sociedade que ele descreve. Claro que dona Kael faria uma gozação com isso. “No papel título, Ann Todd (a sra. Lean, na época) deliberadamente enfatiza sua própria reserva glacial. Mas ela é tão rigidamente construída que sua face parece que vai se quebrar. É uma atuação nada atraente; ela já havia passado dos 40 e era muito austeramente controlada para fazer as cenas em que Madalena se abandona apaixonadamente ao chantagista francês (Ivan Desny, que parece um jovem Orson Welles com um sotaque estrangeiro).”

Hum… Sei não, sei não… Eu pessoalmente não achei a interpretação dela sensacional, arrebatadora, mas é uma boa interpretação. Ela faz uma Madeleine cheia de nuances, com diferentes expressões, dependendo de cada momento – e Madeleine é uma personagem rica, multifacetada, ora de fato perdidamente apaixonada, ora temorosa, ora apavorada, ora coquete, ora tímida, ora corajosa, ousada, até desafiadora.

Gostei do que diz o Film Guide da Time Out – um guia que em geral dá a impressão de ter sido feito por um bando de pessoas que têm ódio dos filmes que são obrigados a ver. Diz que “Lean enfatiza fortemente a vulnerabilidade” da personagem central. “O ponto em que o filme é admirável é nunca permitir que ela (Madeleine) se transforme simplesmente em vítima. Ela ousa expor sua sensualidade e sentir prazer com isso (…) e desvia o olhar hostil da sociedade ultrajada com uma vaidade orgulhosamente enigmática.”

Gostei dissso. Concordo. É o tal negócio: mesmo num filme menor, feito para sua então mulher brilhar, Lean entrega uma obra que não é rala, que é complexa, multifacetada.

Muito bem – mas, afinal, o filme se baseia numa história real? Sim, sim, houve de fato uma Madeleine Hamilton Smith na sociedade de Glasgow; nasceu em 1835, morreu em 1920, ou cerca de. Seu pai, James Smith, foi um famoso arquiteto. Vários livros e peças retrataram sua história. Um livro de 1961 serviu de base para uma versão filmada pela BBC em 1980. A Wikipedia traz um verbete sobre ela.

As Cartas de Madeleine/Madeleine

De David Lean, Inglaterra, 1950

Com Ann Todd, Leslie Banks, Norman Wooland, André Morell, Elizabeth Sellars, Jean Cadell, Ivor Barnard

Roteiro Stanley Haynes e Nicholas Phipps

Produção Cineguild

P&B, 114 min; há uma versão cortada para o mercado americano de 101 min

**1/2

2 Trackbacks

  1. […] de filme, comentei com Mary: ih, é igualzinho Desencanto – Desencanto, A Brief Encounter, de David Lean, de 1945. Naquele clássico, o personagem de Trevor Howard é casado, o de Celia Johnson, também; […]

  2. […] Sir David Lean (1908-1991), um dos maiores cineastas da História, foi homem de filmografia não muito vasta. Dirigiu apenas 16 longa-metragens, ao longo de 42 anos. Summertime, de 1955, foi o 11º, e o último de seus filmes mais intimistas. A partir daí, ele passaria a fazer superproduções, grandes épicos, gigantescos afrescos. […]

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