Amemos Outra Vez / Next Time We Love

Nota: ★★★☆

Anotação em 2010: Há muito mais pérolas pouco conhecidas da época de ouro de Hollywood do que pode sonhar a nossa vã filosofia. Amemos Outra Vez é uma delas. Um filme fascinante, interessantíssimo, produzido em 1936, sobre casamento, carreira, os desencontros entre um e outro, a questão da jornada dupla ou tripla de trabalho da mulher independente – um drama feito há 75 anos que é muito à frente de seu tempo. 

Muitos filmes antigos têm – felizmente – sido lançados em DVD, ou são reapresentados na TV; alguns anos atrás havia o Telecine Classic; hoje existe o TCM. Eu me considero razoavelmente bem informado sobre o cinema americano dos anos 30 a 50, mas a verdade, óbvia, é que há filmes demais, e centenas, centenas, centenas são pouco conhecidos. A gente nunca sabe direito, é claro, o que vai encontrar neles. Às vezes pego comedinhas ou aventuras ou dramas bobos, como Rota Sangrenta ou O Arco do Triunfo – embora tenham grandes atores, John Wayne e Ingrid Bergman, respectivamente. Ou então filmes que são pura e simplesmente abacaxis, como O Cais da Maldição ou Que Papai Não Saiba ou Caminho Áspero – embora sejam de diretores importantes, Don Siegel, George Stevens e John Ford, pela ordem.

Este filme aqui foi uma surpresa total – uma bela, agradável surpresa, embora seja dirigido por um nome pouco conhecido, Edward H. Griffith.

         Tentando colocar as coisas nos lugares

A ação de Amemos Outra Vez (feito, repito, em 1936) começa em 1927, segundo nos informa um letreiro. E aí é preciso pôr as coisas na perspectiva certa: 1927 – os roaring twenties, os anos loucos, a era do jazz, do charleston, a economia em expansão, americanos ricos gastando rios de dinheiro na Europa. Em 1925 Theodore Dreiser havia publicado Uma Tragédia Americana, uma visão absolutamente sombria de uma sociedade dividida por abissais diferenças entre os milionários e os muito pobres – mas no mesmo ano F. Scott Fitzgerald havia lançado O Grande Gatsby, um desenrolar de festas em que se divertiam (e se entediavam, e enchiam a cara) os muito, muito ricos.

Em 1929 a economia americana desabaria como um castelo de cartas, a partir da quebra da Bolsa de Nova York. Investidores e milionários pulavam dos prédios. O país entrava na recessão mais brutal da história, com centenas de milhares de desempregados, famílias arruinadas, filas imensas de miseráveis à espera de um prato de sopa caridosa.

Para fazer as pessoas escaparem daquela realidade amarga, Hollywood inundava o país e o mundo com comedinhas e musicais alegres, inconseqüentes, em que – ao contrário do que acontecia no mundo real – um bando de gente rica, vestida de fraque e roupa de noite, freqüentava restaurantes elegantes.

E em 1936 – Hitler implantando sua máquina militar, Mussolini avançando sobre o Norte da África, o mundo caminhando para a Segunda Guerra Mundial que começaria em 1939 –, o diretor Edward H. Griffith faz este filme.

         Um jovem de 25 anos se casa com uma garota de 21

No começo, bem no começo, até parece uma comedinha romântica, mais uma comedinha escapista como tantas que se faziam na época. Um jornalista menininho de tudo, 25 anos, Chris Tyler, na pele de um James Stewart inacreditavelmente garoto, chega de táxi a um hotel, à procura de sua namorada, Cicely Tyler, uma garota de 21 anos que está passando uns dias em Nova York e naquele dia exato em que a ação começa deve embarcar para a cidade onde fará sua faculdade. Cicely é interpretada pela estrela do filme, Margaret Sullavan – o nome dele é o que aparece grande, antes do título, nos créditos iniciais. Depois, junto com os nomes dos demais atores, é que aparecem os nomes de James Stewart e de Raymond Milland. Ray Milland (na terceira foto deste post, abaixo), o que viria a ser o grande ator inglês de tantos belos filmes americanos, era tão novato que seu nome é grafado inteiro, Raymond!

Cicely chega a embarcar no trem que a levará para a faculdade e para longe do namorado – mas, na última hora, resolve ficar. Era 1927, em filme produzido em 1936, e não se admitiria, evidentemente, que Chris e Cicely simplesmente fossem morar juntos, e então eles se casam, assim, de repente, de sopetão, tendo como padrinho o vizinho e amigo de Chris, Tommy – o personagem de Ray Milland.

Tommy parece saído de um das centenas de filmes escapistas daquela época; embora more no mesmo prédio de Chris (e Chris é apenas um jornalista iniciante, promissor mas iniciante), é um sujeito rico; está sempre de fraque, saindo de alguma festa ou restaurante, tomando champagne. Não se diz o que ele faz, de onde tira o dinheiro para viver. Mas tudo bem – releve-se o detalhe.

Cicely havia atuado em algumas peças na escola, e tinha vontade de ser atriz. Tommy tem uns amigos influentes na Broadway – rapidamente Cicely estará atuando em papéis secundários na Meca americana do teatro.

E é nessa altura que surgem os primeiros conflitos, os primeiros dramas da história que até então vinha quase cor de rosa naquele preto-e-branco fulgurante dos filmes da época. Chris recebe a oferta do editor-chefe do jornal em que trabalha para ser correspondente em Roma; Cicely não quer abandonar a carreira iniciada – e, embora não conte isso para Chris, está grávida, e não quer ter seu filho num país estrangeiro.

Crise no casamento.

         No meio de fantasias escapistas, um filme sobre a vida real

É preciso, sempre, tentar ver o contexto. Vamos parar dois segundos para pensar. Quantas mulheres trabalhavam fora, tinham carreiras profissionais, em 1927? Quantas mulheres casadas tinham que optar entre manter o emprego ou seguir o marido?

Até aí, o filme não havia revelado bem para onde ia. A partir daquele momento, Mary e eu passamos a babar com o filme.

E vão surgindo mais problemas. Em um filme que seria exibido nos cinemas concorrendo com fantasias escapistas, vai se falar de falta de dinheiro, de perda de emprego. E de problemas conjugais.

Amemos Outra Vez é um filme muito, muito adiante de seu tempo.

         Um nome que não aparece nos créditos: Preston Sturges

Assim que o filme terminou, fui atrás de informações. Leonard Maltin dá 3 estrelas em quatro e faz uma resenha-crítica de duas frases. “Trim romantic soaper with Milland in love with actress Sullavan, who is married to struggling reporter Stewart.”

Vamos por partes. Não me lembrava do adjetivo trim. Bem cuidado, elegante. Soaper tem a ver com soap opera, novela, melodrama. Melodrama romântico bem cuidado. É pouco, mas não é falso. A frase seguinte de Maltin é reveladora: “Preston Sturges trabalhou no roteiro, embora seu nome não tenha sido creditado”.

Preston Sturges (1898-1959) é uma figura fascinante, das mais fascinantes do cinema americano dos anos 30, os anos da Grande Depressão. Fez fantasias escapistas, como todo mundo – as fantasias escapistas da Grande Depressão que Woody Allen homenageou em seu A Rosa Púrpura do Cairo. Mas, remando contra a maré, Sturges ousou meter o dedo na ferida, remexer nas dores do país arrasado pela recessão. Em Contrastes Humanos/Sullivan’s Travels, de 1941, uma obra-prima, ele conta a história de um diretor de cinema, John L. Sullivan (Joel McCrea), que está cansado de dirigir comedinhas escapistas – que fazem imenso sucesso nas bilheterias – e quer porque quer realizar um filme sério, pesado, denso, uma obra definitiva sobre a questão social, que se chamaria Oh Brother, Where Art Thou?

Oh Brother, Where Art Thou?– sim, exatamente o título da visão arrasadora, mordaz, feroz dos irmãos Coen sobre alguns aspectos da Grande Depressão, o filme de 2000 que aqui se chamou E aí, Meu Irmão, Cadê Você? Uma óbvia homenagem dos Coen ao gênio de Preston Sturges.

O fato de Sturges ter medido os dedos no roteiro deste Amemos Outra Vez – embora seu nome não conste dos créditos – explica bastante as qualidades do filme.

O diretor Edward. H Griffith (1888-1975) assinou 61 filmes, entre 1917 e 1946. O Dicionário de Cinema – Os Diretores de Jean Tulard é extremamente sucinto a respeito dele: “Jornalista, iniciou como roteirista na Edison em 1915. Assinou como realizador obras menores, dentre as quais um bom Fred Astaire: The Sky’s the Limit. Nenhum parentesco com o grande D.W. Griffith.”

Cacilda, vai ser sucinto assim na…

         O jovem James Stewart diante da já grande estrela Margaret Sullavan

Foi o quarto filme da carreira de James Stewart (1908-1997), e o primeiro em que teve um papel importante. Nos cinco anos seguintes, de 1936 a 1940, ele trabalharia em duas dezenas de filmes, vários deles já como protagonista – inclusive dois grandes sucessos de Frank Capra, Do Mundo Nada Se Leva/You Can’t Take it With You e A Mulher Faz o Homem/Mr. Smith Goes to Washington. Já era, assim, um grande astro, quando se rencontrou com Margaret Sullavan sob a direção de Ernst Lubitsch, o homem do toque mágico, para filmar A Loja da Esquina/The Shop Around the Corner, de 1940. 

Margaret Sullavan (1911-1960) é uma grande figura. Foi casada com Henry Fonda e com William Wyler, ganhou um Oscar em 1938 por Três Camaradas/Three Comrades. “A independência pessoal de Margaret Sullavan caracterizou sua vida dentro e fora das telas”, diz o livro Actor’s & Actresses. Sua relutância em assinar contrato com um grande estúdio resultou num número relativamente limitado de filmes – menos de 20. “Em sua maior parte, os filmes de Sullavan foram melodramas, em que seus personagens encaravam adversidades na forma de pobreza, doença, romances sem esperança, opressão política e, muitas vezes, a morte. Mesmo nas comédias, ela projetava um ar de tristeza.”

Dame Pauline Kael fez uma bela crítica do filme:

“Margaret Sullavan e James Stewart estão eletrizantes juntos, nesta história de duas carreiras que não se entrosam. Ela é atriz e ele correspondente de guerra, e, apesar do amor, o casamento não dá certo. Um filme delicado e comovente de forma extraordinária. Esta primeira combinação de Sullavan e Stewart é memoravalmente romântica. Em algumas cenas, a atriz chega a ser miraculosa, e embora ele não esteja à altura de Sullavan, mesmo assim está admirável – até mesmo sensual. O filme tem toques graciosos, como o fato de Sullavan estar vestida de maneira soberba a maior parte do tempo.” Ao final, assim como Leonard Maltin, Pauline Kael registra que Preston Sturges trabalhou no roteiro, embora sem crédito.

É isso. O filme tem lá seus defeitinhos – Pauline Kael cita, num trecho que não transcrevi, um deles, uma cena boba em que o filho do casal fala francês. Mas é fascinante, é à frente do tempo, é uma bela surpresa.

Amemos Outra Vez/Next Time We Love

De Edward H. Griffith, EUA, 1936

Com Margaret Sullavan (Cicely Tyler), James Stewart (Christopher Tyler), Ray Milland (Tommy Abbott), Grant Mitchell (Michael Jennings), Anna Demetrio (Mme. Donato), Robert McWade (Frank Careret), Ronnie Cosbey (Kit)

Roteiro Melville Baker e (não creditado) Preston Sturges

Baseado na novela Say Goodbye Again, Ursula Parrott

Fotografia Joseph Valentine

Música Franz Waxman

Produção Universal

P&B, 87 min

***

Um Comentário

  1. Postado em 15 setembro 2010 às 10:07 am | Permalink

    Já vou tratar de procurar. James Stewart é um dos meus mais queridos dos queridos e costumo gostar de todos, todos os filmes que fez, nem que seja porque ele está lá (sim, sou parcial). Sabe que às vezes me assusto e sofro de pensar que não há chance de eu ver todos os filmes que foram feitos entre 30 e 60? Os bons e os que não o são? Grata pela indicação.

Um Trackback

  1. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 7 junho 2011 às 1:38 am

    […] Milland: Amemos Outra Vez/Next Time We Love (1936); Garota de Sorte/Easy Living (1937); Levanta-se, Meu Amor/Arise, My Love (1940); A Incrível […]

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