A Verdade Nua e Crua / The Ugly Truth


Nota: ★★½☆

Anotação em 2010: Esta comedinha romântica que, parece, tem feito bastante sucesso, tem no mínimo três boas qualidades. A primeira é Katherine Heigl. A segunda é não ter vergonha do politicamente incorreto. A terceira é que ela é bastante engraçada, gostosa, divertida.

E é exatamente para isso que servem as comédias, afinal. 

Novidade, propriamente, o filme não traz – e nem é de se esperar que comedinha romântica seja inovadora. É, também, um exemplo perfeito daquilo que o pessoal papo-cabeça chama, com o narizinho empinado, de “filme americano” – portanto, deve ser rigorosamente evitado por esse tipo de pessoas. Expor um fã de cinema iraniano a este filme poderá e deverá ter graves conseqüências à sua saúde, mental e física.

O tema é mais velho que andar pra frente 

Então: novidade, não há. A Verdade Nua e Crua segue uma longa e antiga linhagem de comedinhas românticas a respeito da guerra homens x mulheres. Outra Katharine, a Hepburn (1907-2003), fez várias delas nos anos 30 e 40, várias delas ao lado do homem de sua vida, Spencer Tracy, aliás casado com outra mulher. Numa das mais emblemáticas delas, A Costela de Adão/Adam’s Rib, de 1949, dirigida por George Cukor, Amanda, a personagem de Katharine Hepburn, e Adam, o personagem de Tracy, são casados – e a vida conjugal vira um inferno quando os dois, advogados, se enfrentam num júri, ele como promotor, tentando condenar a mulher que atirou no marido infiel, ela como advogada da ré. Diante dos jurados, marido e mulher vão esgrimir argumentos a respeito do papel do homem e da mulher na sociedade. Guerra dos sexos e rivalidade profissional homem x mulher, às claras.

Em outra daquelas memoráveis comédias românticas feitas para o público adulto (naquela época o cinemão comercial ainda não era voltado para os adolescentes de idade cronológica ou mental), A Mulher do Dia/Woman of the Year, de George Stevens, de 1942, a personagem de Kate Hepburn, Tess, é rica, fina, chique, culta, e escreve sobre política internacional no mesmo jornal em que trabalha Sam (o papel de Spencer Tracy), repórter de esportes, homem do povo, gostos rudes, que jamais tinha ouvido falar em coisas como o governo de Vichy. Guerra dos sexos e rivalidade profissional homem x mulher, às claras.

Outro repórter esportivo, homem do povo, gostos rudes, Mike (Gregory Peck), apaixona-se por uma mulher que conhece durante uma bebedeira na Califórnia, Marilla (Lauren Bacall). Ela se apaixona por ele, casam-se – para descobrirem, na volta para Nova York, que vivem em mundos absolutamente à parte – ela, figurinista famosa, é riquíssima, e seus amigos são artistas e intelectuais, enquanto o pobretão Mark só tem amigos no mundo esportivo, gente boa mas nada refinada, para dizer o menos. Essa maravilha de filme, Teu Nome é Mulher/Designing Woman, é de 1957, e foi dirigida por outro mestre do cinema americano, Vincente Minnelli. Guerra dos sexos e incompatibilidade de gostos, às claras.

A lista de comédias românticas sobre a guerra dos sexos poderia tomar páginas e páginas, como se dizia antigamente – ou acabar com meu espaço no provedor do site.

O que eu quero é demonstrar que guerra dos sexos em comedinha romântica é mais antigo que andar pra frente. E mesmo homens meio rudes, meio pouco educados, meio grossos, esse tipo também não chega propriamente a ser novidade – basta lembrar, por exemplo, o francês Luc Teyssier (interpretado com brilho pelo americaníssimo Kevin Kline), sujeitinho meio porco, bastante deselegante, grosseirão, que assusta a gracinha da moça chamada Kate (na pele de Meg Ryan, então no auge de sua persona de namoradinha da América), em Surpresas do Coração/French Kiss, de Lawrence Kasdan, de 1995.

         O protagonista faz do machismo profissão

O grande diferencial de A Verdade Nua e Crua é que o personagem de Mike Chadway (interpretado pelo escocês Gerard Butler, fazendo-se passar muito bem por americano) faz do machismo, do politicamente incorreto, da misoginia, o seu ganha-pão. Tem um programa na TV em que vai contra tudo o que é correto, bem aceito, evoluído, moderno, novo, pós conquistas do feminismo. É um homem das cavernas fazendo a defesa explícita do machão babaca. Seu conselho às mulheres é basicamente o seguinte: esqueçam todos os livros de auto-ajuda, todos os ensinamentos sobre como encontrar o homem dos sonhos, porque o homem dos sonhos não existe. Ao sair com alguém, riam sempre das piadas dele, mesmo que elas não tenham graça nenhuma. E não tentem dar ordens, controlar as situações – deixem que o homem faça isso. Os homens não querem ouvir suas opiniões, seus problemas, o que você pensa da vida – os homens querem falar e querem que você escute. Mas, sobretudo, os homens querem que você esteja gostosa, com o corpo bem cuidado, porque, na verdade, o que os homens querem é comer uma mulher bem gostosa. 

Convenhamos: é preciso coragem para criar um personagem destes, em 2009, no império do politicamente correto, onde expressões centenárias como spokesman foram banidas como sexistas (o certo é spokesperson), e até a palavra God, Deus, deve ser substituída pela expressão God-or-Goddess, deus-ou-deusa. É mais ou menos como criar um neonazista, um supremacista, que saia falando que branco é bom e negro é inferior – como, aliás, o seriado Law & Order – Special Victims Unit fez, na sua sétima temporada, num episódio em que denuncia o perigo dos grupos supremacistas.

 Em A Verdade Nua e Crua, do outro lado do ringue, da trincheira da guerra dos sexos em que luta o brutamontes Mike Chadway, está Abby Richter (o personagem de Katherine Heigl), uma mulher de seu tempo, dona de seu destino, independente, batalhadora. Está muito bem na profissão: é produtora de um programa de uma emissora de TV de Sacramento, na Califórnia, e é competentíssima. A abertura do filme, depois de alguns planos gerais que mostram Sacramento, é um longo, belo plano-seqüência em que a câmara segue Abby enquanto ela chega para trabalhar e caminha pelos muitos corredores da emissora, diversas pessoas levando a ela os mais variados problemas, que ela vai resolvendo com calma e imensa segurança profissional.

         O gato pisa no controle remoto – e surge na TV o homem das cavernas

Na noite daquele mesmo dia, Abby tem um encontro desses marcados via internet com um sujeito. Um homem controlador, que decide tudo, inclusive o que e como a mulher vai beber e comer. Abby chega em casa cansada e, óbvio, frustrada com mais um encontro que não leva a nada. Sua casa é ótima, confortabilíssima, mas sua única companhia é o gato, D’Artagnan. O gato pisa no controle remoto sobre a cama, e na bela TV do quarto de Abby aparece o homem das cavernas, falando aqueles horrores num dos canais que competem com aquele em que ela trabalha. Furiosa, a Mulher Moderna liga para o programa, entra no ar, discute com o Homem das Cavernas.

Para, na manhã seguinte, ser informada pelo chefe de que ele, o Homem das Cavernas, está começando, naquele dia mesmo, a trabalhar no programa produzido por Abby.

Os diálogos são chocantes, do ponto de vista do politicamente correto – e divertidíssimos. Quando Mike das Cavernas pergunta quem é aquela linda criatura, e Abby Moderna responde orgulhosa que é a produtora, Mike ataca, com olhar safado:

– “Hum, gosto de mulheres por cima…”

Abby Moderna explicará a Mike das Cavernas que normalmente não via o programa dele; foi o gato que pisou no controle remoto. Mike das Cavernas ataca de imediato:

– “Well, be sure to thank your pussy for me.”

Por favor, agradeça ao seu gato por mim. Com a paquidérmica sutileza de que pussy, além de gato, designa vagina. (O mais certo seria a palavra que começa com b, mas ela é um tanto forte, até para a minha proverbial boquirrotice.)

         O filme mostra o machismo, mas não é machista

Bem, isso tudo posto (tenho a certeza de não ter falado nenhum spoiler, nenhuma entrega história-estraga prazer; tudo isso narrado aí em cima acontece nos primeiros dez minutos de filme), vem a questão: afinal, é um filme machista, safado, imbecil, idiota, misógino, boçal?

Cada cabeça, uma sentença, é claro. Minha amiga Jussara gostou do filme, mas achou que ele é machista. Na minha opinião, não é, não.

É uma comédia, e portanto cheia de piadas, várias delas machistas, politicamente incorretas. O excesso do politicamente correto é profundamente chato, imbecil – e sem graça. No excesso do politicamente correto, não se pode contar piada de loura burra, de português, de anão, de papagaio, não se pode falar, por exemplo, a palavra negão – tem que ser afrodescendente fisicamente avantajado. Ora, vá tomar – um mundo assim é absolutamente sem graça, como o mundo em que impera qualquer fanatismo, seja o evangélico, o islâmico, o petista. É a ditadura.

Na minha opinião, ao criar o personagem Mark Chadway, as autoras do roteiro, todas elas mulheres, Nicole Eastman, Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith, com base em história de Nicole Eastman, fizeram, em primeiro lugar, uma boa comédia. Em segundo lugar, se for para discutir a ideologia da coisa, elas não prestaram desserviço a ninguém. Homens da caverna, machistas, imbecis existem, e aos montes. A mentalidade machista sobreviveu ao vendaval do feminismo, como as baratas resistem a seguidas dedetizações. Ainda está impregnada aí em muita gente, talvez a maioria. O filme identifica muito dos modus operandi, e pensandi, se me permitem a brincadeira, do Homem da Caverna; é um bom alerta para as mulheres.

O filme não mostra isso, mas a verdade é que, para além e para adiante do Homem da Caverna, sempre existiram e existem cada vem em maior número seres humanos portadores daquele dispositivinho capaz de ficar entumescido mas que também são capazes de ter sentimentos. São seres humanos em geral mais bobos, mais bocós do que o outro tipo, o que tem uma perfuração em vez do dispositivinho externo; sempre foram mais imbecis, e também mais frágeis, e, a partir da revolução do feminismo, ficaram ainda mais perdidos, sem saber o seu papel. Mas eles existem, sim, os machos que não são quadrúpedes – estão aí os Caetanos, os Lluis Llach que não me deixam mentir.

Claro, o filme tem um monte de defeitos, também. A personagem de Abby é obsessiva demais, e exageradamente panaca nos relacionamentos com os homens. Há situações absurdas, ou simplesmente forçadas demais, como a seqüência no jogo de beisebol, e as apelações de sempre no cinemão de Hollywood, como a seqüência final.

Mas tem qualidades. Tem Katharine Heigl. Onde estava essa boa atriz, mulher lindíssima, com um sorrisão imenso, dos maiores e mais belos que já passaram por uma tela de cinema? Onde se escondia esse monumento que eu nunca tinha visto antes?

Hum… Parece que na TV. Aprendo no iMDB que a moça, nascida em 1978 em Washington, D.C., está na estrada desde 1992, mas fez muita coisa para a TV, inclusive 118 episódios de Grey’s Anatomy, entre 2005 e 2010. Fez também alguns filmes, mas, aparentemente, nada de muito marcante até agora – trabalhou, por exemplo, em A Noiva de Chucky, em 1998. Ah, e em 2008 fez Vestida para Casar/27 Dresses. Já teve quatro prêmios e três outras indicações. Precisava fazer menos TV e mais cinema.

         Uma cena antológica: Hatherine Heigl tenta disfarçar um orgasmo

Este filme escrito por três mulheres foi dirigido por um homem, Richard Luketic. Nunca tinha ouvido falar. Nasceu na Austrália, em 1973. Garoto. Ah, dirigiu Legalmente Loira, que não vi, e também A Sogra/Monster-in-Law, de 2005, que marcou a volta de Jane Fonda ao cinema depois de um hiato absurdamente grande; filminho chinfrim. E dirigiu também Quebrando a Banca/21, de 2008, com Kevin Spacey, sobre grupo de geninhos em matemática que aprende como ganhar muita grana no jogo de 21.

Parece estar aprendendo, o rapaz. A Verdade Nua e Crua é todo muito bem feito; o plano-seqüência da abertura prova talento, a seqüência de dança ao som de ritmos cubanos também é ótima, com um belo uso de plongée. E se saiu muito bem, graças ao talento de Katherine Heigl, ao fazer a versão 2009 da impagável, já antológica cena de Harry e Sally – Feitos um para o Outro em que Meg Ryan finge um orgasmo na lanchonete. Aqui, Katherine Heigl não finge – tenta disfarçar, tadinha. É uma seqüência deliciosa.

Duas coisinhas mais. Rapidinho. O povo do AllMovie não gostou do filme. Diz que tentar reinventar comédia romântica é como querer reinventar a roda, que a trama repete a mesma história de sempre.

Fui checar os números para ver se confirmavam o que eu falei lá em cima, sobre o filme ter sido um sucesso. Parece que foi um sucesso, sim: custou US$ 38 milhões, já rendeu, em menos de um ano, US$ 205 milhões.

A Verdade Nua e Crua/The Ugly Truth

De Robert Luketic, EUA, 2009

Com Katherine Heigl (Abby Richter), Gerard Butler (Mike Chadway), Bree Turner (Joy), Eric Winter (Colin), Nick Searcy (Stuart), Jesse D. Goins (Cliff), Cheryl Hines (Georgia) 

Roteiro Nicole Eastman, Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith

Baseado em história de Nicole Eastman 

Fotografia Russell Carpenter

Música Aaron Zigman

Produção Lakeshore, Relativity Midia

Cor, 96 min

**1/2

Um Comentário

  1. Ivan
    Postado em 12 julho 2012 às 9:24 pm | Permalink

    Eu estive para ver este filme várias vezes na TV a cabo mas, sempre me recusei a tal, por achar que sería mais um “filmezinho” daqueles, chatérrimos. Hoje, me propuz a ver
    e, como foi bom ter me enganado, como tu dizes, Sergio, é uma comédia muito gostosa.
    A Katherine,como dizes é muito linda e tbm muito talentosa.Eu a vi numa outra comédia romantica,muito gostosa TBM,”PAR PERFEITO”,
    contracenando com Ashton Kutcher.
    Neste filme, gostei muito dos diálogos dela com o Butler,picantes, sensuais,tinham tudo a ver com a história. Aliás, o Butler está maravilhoso nesta historia. Acho até que em algumas cenas ele sería o que algumas mulheres chamam de “maravilhoso canalha”.
    Muito hilária a cena em que Abby tenta disfarçar o orgasmo. Concordo contigo, as piadas é que são machistas. O final, para mim, (a cena em que eles estão no balão)é que
    ficou piegas,fugiu da trama.
    Já a última cena, em que eles estão na cama fazendo amor, voltou a ter com o filme.
    Com um detalhezino… ela tbm tinha que estar
    um pouquinho suada, rs rs rs …

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