Nota: 



Anotação em 2010: A Caixa cita Sartre duas vezes. Mas a sensação que tive foi que a trama é assim uma mistura do Fausto, de Goethe, ou de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, com as histórias do muito menos reconhecido Fredric Brown.
Mas vamos por partes.
Parece que o filme foi um fracasso de público e crítica. No entanto, não é ruim, de forma alguma – ao contrário. É uma interessante mistura de ficção/fantasia com ficção científica com thriller de suspense, mas na verdade é uma parábola moral, uma grande metáfora que questiona os códigos de valores das pessoas, da sociedade.
A Caixa abre com um texto que vai sendo escrito como se fosse no antigo, antiqüíssimo telex – à medida em que as palavras vão aparecendo na tela, ouvimos um barulhinho semelhante ao que o telex fazia. É um memorando interno – confidencial – para o vice-diretor da Agência de Segurança Nacional, NSA na sigla em inglês. Diz o seguinte:
- “Ressuscitação do paciente Arlington James Steward confirmada pelo hospital. Paciente recebeu alta da unidade de queimadura na manhã de 24 de julho, indo a local não revelado. Paciente construiu um dispositivo de finalidade não reconhecida. Especificações foram confirmadas pelo Projeto Marte. Paciente está entregando o dispositivo a residências privadas. Mais informações em breve.”
Um letreiro nos avisa que estamos na Virgínia, em 1976, e as primeiras seqüências mostram um início de manhã na casa dos Lewis, um casal na faixa dos 35 anos, com um filho de uns dez. O relógio na cabeceira marca 5h45, e Norma (Cameron Diaz) e Arthur (James Marsden) acordam com o som da campainha. Norma desce as escadas, vai até a porta da frente, vê pelo olho mágico um grande carro preto se afastando; abre a porta e no chão, diante dela, está um embrulho em forma de cubo.
A família – os pais mais o filho Walter (Sam Oz Stone) se reúne em uma mesa em volta do embrulho. Lá dentro está uma caixa, um cubo, com uma luzinha em cima; há uma chave, e um grande cartão com a seguinte frase: “O sr. Steward vai visitá-los às 17h.”
O salário é apertado, e a família perde a bolsa de estudos do filho
O diretor e roteirista Richard Kelly se dá, assim, um bom espaço de tempo – um dia inteiro – para apresentar os Lewis ao espectador. Arthur Lewis é um cientista, formado em engenharia; trabalha na Nasa, a agência espacial americana; está envolvido no Projeto Marte – o envio de uma sonda ao planeta, que passaria para a Terra fotos e informações –, mas espera obter um dos cobiçados lugares de astronauta. Naquele dia, ficará sabendo que não passou nos testes.
Norma Lewis é professora de literatura de um bom colégio, onde seu filho Walter estuda com bolsa; na aula que o espectador vê, naquele dia inicial, ela está falando de Sartre, Huis Clos, Entre Quatro Paredes (que em inglês se chamou No Exit), aquela frase famosérrima, “o inferno são os outros”. Um aluno surpreende a todos perguntando por que a professora manca; mais surpreendente ainda é que a professora Norma, em vez de ignorar a impertinência ou mandar o aluno para fora da classe, senta-se em cima da mesa, tira a bota, a meia, e expõe à classe o pé deformado, sem quatro dedos.
Pouco depois, Norma é chamada pelo diretor do colégio, que a informa que, infelizmente, a escola não poderá mais dar bolsa de estudo aos filhos dos professores.
Arthur e Norma vivem com conforto, mas o salário dos dois é apertado, dá apenas para pagar as contas – sem a bolsa de estudos para Walter, e sem o aumento que Arthur teria caso obtivesse a vaga como astronauta, a família vai passar um grande aperto.
O trato com o diabo – a alma por um monte de dólares
Às 17h, conforme prometido, o sr. Steward (Frank Langella) toca a campainha da casa.
Steward não tem boa parte da face esquerda; tem uma imensa queimadura que consumiu parte do rosto. Norma fica assustada com a aparência dele, assim como o espectador. Muito mais assustador é o que ele tem a oferecer:
- “Eu tenho uma oferta a fazer”, informa ele a Norma. “Se você puxar o botão (da caixa entregue pela manhã), duas coisas vão acontecer. Primeiro, alguém, em algum lugar do mundo, que vocês não conhecem, vai morrer. Segundo, vocês receberão um pagamento de US$ 1 milhão. Vocês têm 24 horas para decidir.”
O trato com o diabo – a alma de Fausto em troca da vida eterna. A alma de Dorian Gray em troca da eterna juventude.
A questão que o filme coloca para o espectador é esta: você mataria um desconhecido para ganhar uma fortuna?
Um detalhinho mínimo que me chamou a atenção foi o nome do personagem misterioso interpretado por Frank Langella, o ator que fez o excelente Nixon em Frost/Nixon. Arlington James Steward. Faz lembar, claro, James Stewart, o grande ator. Arlington é o nome do cemitério militar na Virgínia, perto de Washington, onde são enterrados muitos dos militares americanos mortos em combate. E Steward é comissário de bordo, mordomo, administrador – algo que o personagem revelará ser. Um nome sugestivo, muito bem sacado.
O autor da história é Richard Matheson, homem de obra vasta
Fredric Brown (1906-1972) jamais obteve a respeitabilidade de Isaac Asimov, ou Arthur C. Clarke (aliás, citado algumas vezes ao longo do filme), ou Clifford D. Simak, mas é um brilho de escritor. Escreveu algumas das parábolas morais mais enxutas, mais violentas, mais cortantes da ficção científica de que tenho notícia. Como tantos outros autores de ficção científica – a começar dos três citados no início do parágrafo –, usava suas histórias para fazer belas considerações sobre os grandes valores morais, os descaminhos da humanidade, o talento inesgotável do homem para destruir tudo à sua volta, desde o vizinho até as fontes de vida do planeta.
Fredric Brown seguramente assinaria embaixo dessa história criada por um conterrâneo e praticamente contemporâneo seu, Richard Matheson, nascido em 1926. Matheson é o autor do conto “Button, Button”, em que o filme se baseia. É um escritor prolixo, tem obra vastíssima; foi também roteirista de diversos filmes, vários deles baseados em livros de sua própria autoria.
Confesso (e já confessei aqui coisas muito mais graves): nunca tinha ouvido falar, ou não me lembrava de ter ouvido falar em Richard Matheson. Ignorância minha. Não tenho idéia de se as pessoas ligam o nome às obras dele. Richard Matheson foi o autor, em 1951, da novela The Shrinking Man; concordou em vender os direitos de adaptação do texto para o cinema desde que ele mesmo escrevesse o roteiro, e foi o autor do roteiro de The Incredible Shrinking Man, de 1957, hoje tido como um clássico. Foi o autor do conto “Duel” e também do roteiro do filme do mesmo nome – Encurralado, o filme que revelou o gênio Steven Spielberg.
Foi também o autor da novela I Am Legend; como até já foi dito aqui neste site, esse livro de Matheson virou o filme The Last Man on Earth, em 1964, dirigido por Ubaldo Ragona e estrelado por Vincent Price; em 1967 virou um curta-metragem espanhol com o título de Soy Leyenda; aí a Warner comprou os direitos de filmagem do livro, e, em 1971, lançou The Omega Man, dirigido por Boris Segal, com Charlton Heston no papel que tinha sido de Vincent Price e, em 2007, foi refilmado com Will Smith no papel central e Alice Braga com boa participação.
E tem muito mais. Richard Matheson foi autor de diversas das tramas de Histórias Maravilhosas/Amazing Stories e No Limite da Realidade/Twilight Zone, duas séries que marcaram época na TV.
O sujeito tem uma imaginação inesgotável.
É sempre bem-vindo um filme que discute valores morais
Matheson não participou desta adaptação de seu conto “Button, Button” para o cinema. Aos 83 anos, desfruta de merecidíssima aposentadoria. Sua história foi escrita para o cinema pelo jovem Richard Kelly, garotão nascido em 1975, exatamente no Estado da Virginia, bem pertinho de Washington, D.C, o Estado onde ficam as sedes da CIA e da Agência de Segurança Nacional. Em 2001, Richard Kelly escreveu e dirigiu Donnie Darko, um filme que eu não vi, mas, aparentemente, deixou meio mundo impressionado.
Sabe fazer cinema, o garotão Richard Kelly. Cria clima, deixa o espectador curioso, temeroso, às vezes abertamente apavorado. Dirige bem os atores (até a insossa Cameron Diaz está bem), não tenta criativóis, invenciones – nem seria preciso, com uma trama que envolve o sobrenatural, o além do que conhecemos.
Tem o mérito de discutir valores, num mundo, numa sociedade, que anda precisando desesperadamente fazer isso – redescobrir valores, reencontrar valores.
Não sei se Sartre, Goethe ou Wilde gostariam deste filme. Danem-se eles. Tenho quase absoluta certeza de que Fredric Brown gostaria. E, portanto, é um filme que vale a pena ver.
A Caixa/The Box
De Richard Kelly, EUA, 2009
Com Cameron Diaz (Norma Lewis), James Marsden (Arthur Lewis), Frank Langella (Arlington Steward), James Rebhorn (Norm Cahill), Holmes Osborne (Dick Burns), Sam Oz Stone (Walter Lewis), Gillian Jacobs (Dana)
Roteiro Richard Kelly
Baseado no conto Button, Button, de Richard Matheson
Fotografia Steven Poster
Música Win Butler, Regine Chassagne e Owen Pallett
Produção Darko Entertainment, Media Rights Capital
Cor, 114 min
***



3 Comentários
Os comentários na internet só trazem críticas. Mas eu também gostei… bastante. Um filme de horror, que aguça a curiosidade. Bacana.
Vi hoje e não fiquei entusiasmado, a partir do meio comecei a ficar um tanto saturado com todos aqueles mistérios e fantasias sobrenaturais.
Tem uma moral,lá isso é verdade, mas nem é uma surpresa.
Só hoje vi que o realizador é o mesmo de Donnie Darko que eu vi e que me deixou completamente KO, zarolho, de rastos.
Não percebi nada, absolutamente nada.
Falei com um amigo que deu uma explicação que ainda me deixou pior.
O meu QI baixou para uns 20 ou 30.
Se eu sabia tinha evitado este.
Um Trackback
[...] ocasionais. Para evitar um gigantesco escândalo, dois de seus assessores diretos, Bob Alexander (Frank Langella), o correspondente ao nosso ministro-chefe da Casa Civil, e o chefe da assessoria de imprensa, [...]