Rede de Mentiras / Body of Lies


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: O filme de 2008 de Ridley Scott é, como tudo que ele faz, extremamente competente. É um show de virtuosismo, de absoluto domínio da técnica, um filme de ação para nenhum fã de filmes de ação botar defeito. Como é um Ridley Scott, é denso, complexo, pesado. O tema, atualíssimo, é o terrorismo árabe, e o american way de combatê-lo.

Como é de 2008, pode ser entendido assim como um filme sobre o jeito Bush de combater o terrorismo árabe. O jeito que, inshallah, oxalá, queira Deus, queira Alá, queira Jeová, tenha virado coisa do passado em fevereiro de 2009, quando o fanatismo idiota de Bush-Chenney et caterva deu lugar a alguma esperança. Inshallah.

Não li o livro que deu origem ao filme, e então só posso falar da adaptação feita para o cinema. É a história de dois sujeitos da CIA e sua luta contra um chefe terrorista personalista, que faz questão de se distinguir da Al-Qaeda de Osama Bin Laden, Al-Saleem (Alon Abutbel).

Rede de Mentiras 1Os dois caras da CIA são o agente de campo Roger Ferris (Leonardo DiCaprio, trabalhando pela primeira vez com o mais americano dos diretores ingleses), e seu chefe, Ed Hoffman (o neo-zelandês Russell Crowe, que já havia feito com Scott Gladiador e Um Bom Ano). Ferris é dedicado, bem treinado, bom de serviço, mais jovem, mais puro; respeita os muçulmanos com os quais trabalha, respeita os acordos, respeita a honestidade, no fundo respeita até os seres humanos. Hoffman é uma puta velha safada, um ex-agente de campo que virou burocrata em Langley, a sede do quartel-general da inteligência-espionagem do Império; tem um ego maior que o universo, todas as certezas do mundo e absolutamente nenhuma dúvida; em suma, é tão etnocêntrico, pretensioso, hegemônico, imperial quanto o governo a que serve. Não dá o menor valor para a cultura muçulmana, os países árabes (os aliados ou não), para coisa alguma a não ser o umbigo de seu país e o seu próprio. 

Tortura – e uma certa confusão ideológica

 Mostra-se muita tortura, e fala-se muito dela, ao longo do filme. Por grande coincidência, vimos o filme, Mary e eu, no final da semana em que Barack Obama e Dick Chenney tiveram um bate-boca quase ao vivo a respeito das formas de combater o terrorismo árabe, Chenney e os republicanos defendendo abertamente a tortura e jogando sobre os americanos o medo de que, num governo mais afeito à civilização, às leis, à Justiça, ao diálogo, à convivência entre os diferentes, o terrorismo possa atacar e matar dentro do sagrado território imperial. A coincidência de fato é grande, mas é só um detalhe: afinal, o filme é de 2008, o último da era Bush-Chenney, e uma das discussões do filme é exatamente esta, as diferentes formas de combater o terrorismo, o radicalismo muçulmano.

 Já foram feitos vários filmes sobre o pós-11 de setembro, e certamente dezenas de outros virão. Muitos deles são grandes filmes, sobre os quais já falei aqui, abertamente críticos do governo Bush: No Vale das Sombras/In the Valley of Elah, Inspeção Geral/Strip Search, Medo e Obsessão/Land of Plenty, O Traidor/Traitor, Vôo United 93, Ato Terrorista/The War Within, Yasmin, Uma Mulher, Duas Vidas/Yasmin.

Este aqui não é tão absolutamente, claramente contra tudo o que se fez até a posse de Obama. Mary achou que o filme às vezes fica ideologicamente confuso – pode até passar a impressão de que o estilo falcão, agressivo, bélico do personagem de Russell Crowne tivesse razão, estivesse na trilha certa. Ela notou, por exemplo (coisa que eu não tinha notado), que o filme mostra atentados terroristas na Europa, mas não toca hora alguma no que os serviços de inteligência europeus estavam fazendo; é como se a Europa não existisse, como se fosse uma coisa amorfa que dependesse do grande aliado, o Império, para se defender.

De fato, não é o melhor Ridley Scott, e não é um grande filme, apesar de ser brilhante em todos os aspectos artesanais.

         Uma figura feminina só para haver uma figura feminina

Rede de Mentiras 2Senti, cheirei, captei uma falha feia no exato momento em que surge na trama a personagem de Aysha, interpretada pela atriz iraniana Golshifteh Farahani, linda, com um sorriso maravilhoso. Assim que ela apareceu, falei: ah, o tal do female interest. Female interest é o termo exato da indústria de cinema americana para descrever, sob o ponto de vista da bilheteria, o personagem da moça que entra na vida do mocinho. Para se ter boa bilheteria é necessário ter um female interest; ninguém, em sã consciência, agüenta ver um filme que só tem homem. Não propriamente uma personagem feminina, um retrato de um ser humano do sexo feminino, algo que tenha sentido na história, na narrativa. Não, uma mulher no sentido mais machista e abjeto possível – uma coisa secundária, periférica.

 (Apenas para exemplificar mais o que é esse tal de female interest, é bom lembrar de A Ponte do Rio Kwai. No roteiro do imenso épico do mestre David Lean, não havia mulheres. Para botar dinheiro na produção, a Columbia exigiu um grande astro americano, e providenciou-se o oficial interpretado por William Holden; mas exigiu também que houvesse mulheres no elenco. Lean concedeu cinco; quatro são as tailandesas – lindas – encarregadas de ajudar o comando aliado a carregar seu equipamento selva adentro. A quinta é uma enfermeira que tem um caso com o americano quando ele é resgatado pelos aliados e levados para Colombo, a capital do então Ceilão, hoje Sri Lanka; ela sequer tem nome, e aparece na tela no máximo uns três minutos. Apesar disso, está presente em dezenas e dezenas de fotos e cartazes promocionais do filme.)

O artificialismo da personagem Aisha é uma das coisas ruins do filme. A outra característica horrorosa do filme é como o personagem de Leonardo DiCaprio é super-herói. O tal do Roger Ferris é assim uma espécie de Super-homem mais Capitão Marvel mais Indiana Jones mais o Elliott Ness de Os Intocáveis de Brian de Palma. Um saco.

Ah, meu Deus do céu e também da terra, as concessões que os caras têm que fazer para conseguir produzir um filme caro.

Rede de Mentiras/Body of Lies

De Ridley Scott, EUA, 2008

Com Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong, Golshifteh Farahani

Roteiro William Monahan

Baseado no livro de David Ignatius

Produção Scott Free, Warner Bros. Estreou em SP 28/11/2008

Cor, 128 min

**1/2

Título em Portugal: O Corpo da Mentira. Na França: Mensonges d’État.

Um Comentário

  1. Malu
    Postado em 23 agosto 2015 às 4:14 pm | Permalink

    Estou em estado de choque, vi agora o filme. Comentários bem compatíveis.

7 Trackbacks

  1. […] NSA, faz lembrar muito o que a CIA manipula na trilogia Bourne, com Matt Damon, e com o mostrado em Rede de Intrigas/Body of Lies, que Ridley Scott, o irmão mais bem sucedido e respeitado de Tony, faria em […]

  2. […] tantos outros diretores das Ilhas Britânicas que viriam depois – Ridley Scott, Stephen Frears, Neil Jordan, Alan Parker, Joe Wright –, Schlesinger trançou entre o cinema […]

  3. Por 50 Anos de Filmes » Sedução / Cracks em 16 Março 2011 às 2:56 pm

    […] Ah, e aí vem a explicação de tudo: a diretora Jordan Scott é filha de Ridley Scott! […]

  4. Por 50 Anos de Filmes » Um Bom Ano / A Good Year em 26 Março 2011 às 10:47 pm

    […] com complemento em 2008: É bem provável que, como o personagem principal do filme, o diretor Ridley Scott e o bom ator Russel Crowe estivessem querendo um pouco de diversão, de férias, quando escolheram […]

  5. […] Rede de Mentiras […]

  6. […] respeitável, que inclui o extraordinário Procurando Elly, de Ashgar Farhadi (2009) e também Rede de Mentiras, de Ridley Scott […]

  7. […] grande Ridley Scott conseguiu reunir em The Counselor, no Brasil Conselheiro do Crime, praticamente tudo que eu detesto […]

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