Paradise Now


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Paradise Now, de 2005, foi um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro; ganhou 13 prêmios em festivais e teve outras nove indicações. Trata de um tema importante, da maior relevância, o conflito palestinos-israelenses, do ponto de vista dos palestinos. Merece respeito, portanto. Mas, na minha opinião, não é um grande filme.

Começo pelos prêmios. Não me lembrava disso, mas parece que o filme, uma co-produção Palestina-França-Alemanha-Holanda-Israel, ganhou a indicação ao Oscar como representante da Palestina, o que em si já é uma coisa importante, marcante: a Academia reconheceu a existência do Estado Palestino, o que Israel se recusa a fazer até hoje.

Ganhou três prêmios no Festival de Berlim, um dos mais importantes do mundo (ao lado de Cannes e Veneza). Ganhou prêmios nos Estados Unidos (inclusive o Globo de Ouro para filmes estrangeiros), na Holanda, no Canadá.

aparadiseA ação se passa na cidade de Nublus, na Cisjordânia cercada e ocupada por Israel. O filme começa mostrando o dia-a-dia de dois rapazes palestinos, Said (Kais Nashef) e Khaled (Ali Suliman), amigos de infância, que trabalham numa oficina mecânica de carros. Suha (Lubna Azabal), uma moça jovem, filha de um palestino tido como herói pela população, vai pegar seu carro na oficina; demonstra interesse por Said, conforme o amigo Khaled diz para ele.

Durante uns 15, 20 minutos, o filme vai mostrando o dia-a-dia dos dois jovens, um cotidiano praticamente normal – como se não estivessem numa região em eterno conflito armado. Até que um amigo deles, Jamal (Amer Hlehel), procura Said para dizer que ele e Khaled foram escolhidos para uma missão terrorista: os dois deverão se explodir em locais de grande movimento em Tel-Aviv, para matar o maior número de israelenses que for possível.

Said e Khaled devem receber a missão como uma honra, uma glória: vão virar heróis, e anjos chegarão dos céus para conduzi-los ao Paraíso.

A intenção óbvia do diretor Hany Abu-Assad, um palestino nascido em Nazaré, em 1961, é fazer um filme o mais seco possível, em tudo. Há poucos movimentos de câmara; a maior parte do tempo ela é estática, parada. Não há música alguma, não há trilha sonora – nem mesmo nos créditos finais. Com essa absoluta secura, parece que ele quer deixar o espectador preocupado somente com a questão de fundo: o terrorismo se justifica? Imolar-se matando pessoas comuns do Estado que oprime o povo palestino é certo, é justo? Há alguma outra saída para os jovens palestinos?

Os três personagens centrais discutem bastante essas questões; levantam a bola para que o espectador pense sobre elas. E isso é bom, é necessário.

“Um esforço para explicar o inexplicável”

Mas não significa necessariamente que resulte em um bom, um ótimo filme. Na minha opinião, o diretor conseguiu, sim, fazer um filme que tem importância – mas, repito, não é um grande filme.

Não achei que ele tenha conseguido construir personagens consistentes, convicentes. Acho que o espectador fica sem entender direito as motivações de vários dos atos de Said e Khaled.

É uma opinião muito pessoal minha. Pode ter sido o momento, mas o fato é que o filme não me pegou, não bateu em mim, ao contrário do que aconteceu com muita gente, que cobre o filme de elogios.

“Absorvente drama sobre dois jovens que vivem no território palestino e tentam reconciliar suas vidas com a família e os amigos; em 24 horas vão perpetrar uma missão suicida em Tel Aviv”, diz Leonard Maltin, que deu 3.5 estrelas em 4. “Um filme excepcional com humor e humanidade.”

Credo, não dá para entender onde o Maltin viu humor no filme. Não vi humor algum. É tudo muito barra pesada.

aparadise2O AllMovie diz que há cenas em que o diálogo “parece desapontadoramente pedante”, mas, tirando isso, só tem elogios ao filme. Diz que Abu-Assad encontra uma riqueza emocional no material, ao falar da justificada raiva que salta de vidas humilhadas: “Uma tragédia qualquer que seja sua conclusão, Paradise Now é um importante e poderoso esforço para explicar o inexplicável”.

Bem, estão aí duas das muitas opiniões favoráveis ao filme, e aí está a minha. Mas é preciso dizer ainda que o filme tem no elenco a maravilhosa, esplêndida Hiam Abbass (na foto), essa palestina de imenso talento e uma força, uma presença na tela como poucas, que é a protagonista dos excelentes A Noiva Síria, de 2004, e Lemon Tree, de 2008, ambos dirigidos pelo israelense Eran Riklis, e está também no ótimo O Visitante, de Thomas McCarthy, de 2007.

Neste filme aqui, no entanto, no pequeno e apagado papel de mãe de Said, ela não tem a oportunidade de fazer muito coisa. Mas vê-la, ainda que apenas em algumas seqüências, é sempre um grande prazer.

Paradise Now

De Hany Abu-Assad, Palestina-França-Alemanha-Holanda-Israel, 2005

Com Kais Nashef (Said), Ali Suliman (Khaled), Lubna Azabal (Suha), Amer Hlehel (Jamal), Hiam Abbass (a mãe de Said), Ashraf Barhoum (Abu-Karem)

Roteiro Hany Abu-Assad e Bero Beyer

Fotografia Antoine Heberle

Produção Arte France Cinema, Augustus Film, Hazazah Film 

 

Cor, 91 min

**1/2

Título em Portugal: O Paraíso, Agora!

Um Comentário

  1. Danilo Vicente
    Postado em 30 outubro 2009 às 12:33 am | Permalink

    Achei bom. E ponto. Nada de especial.

2 Trackbacks

  1. […] um filme italiano, passado na Palestina, sobre a realidade da Palestina, todo falado em árabe, hebraico e às vezes em […]

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