O Homem Que Matou o Facínora / The Man Who Shot Liberty Valance


Nota: ★★★★

Anotação em 2009: Este não é apenas um dos melhores westerns da história – é um dos melhores filmes da história. E não é apenas uma opinião minha. O Homem Que Matou o Facínora é uma unanimidade, ou, no mínimo, quase.

Está, por exemplo, no livro 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer. Está no livro 501 Must-See Movies. Eu, pessoalmente, desconfiaria de qualquer lista dos melhores em que este filme não estivesse.

É ainda mais fascinante a cada nova revisão. Perdi a conta de quantas vezes o vi; ao rever agora, mais uma vez, para botar uma anotação no site, fui me surpreendendo de novo com a maravilha, o brilho de cada pequeno detalhe. E, mais uma vez, fiquei emocionado.

John Ford é um cineasta de belas imagens, dos planos gerais, das tomadas que mostram paisagens sem fim, a terra gigantesca que foi sendo conquistada ao longo dos séculos por imigrantes de diversas nacionalidades – muitos irlandeses, como seus antepassados, por exemplo – atraídos pelo sonho de uma vida melhor. Este aqui talvez seja seu filme mais verbal. Como tem palavras, O Homem Que Matou o Facínora. Como tem belos diálogos, meu Deus do céu e também da terra. Alguns parecem simples, comuns, normais, mas têm a densidade, a profundidade de um Pacífico. Alguns são absolutamente hilários, porque Ford, como bom irlandês, não dispensa uma piada. Outros são propositadamente brilhantes mesmo – embora pareçam simples, rudes, francos, como os personagens que os dizem.

“Aqui é o Oeste, senhor. Quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda.”

Não me lembro de outra frase mais marcante, em toda a história do western.

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É um filme sobre fatos e lendas, segredos, mentiras, verdades. Sobre amizade, respeito, honra, dignidade, amor, solidariedade, cooperação. Sobre a imprensa e o poder, o poder e a imprensa, as relações entre as duas coisas. Sobre a transição de um modelo de vida para outro diferente, o fim de uma era, o início de outra. Na maioria de seus filmes – e poucos fizeram tantos filmes quanto ele, autor de mais de 140 -, John Ford tem uma visão otimista, positiva. Às vezes até exagera um pouco na louvação das qualidades da gente que fez aquele país que depois viraria o maior Império da história do planeta; às vezes fica até meio patrioteiro.

Este filme aqui pode ser visto (ele pode ser visto de diversas maneiras; é uma das tais obras que permitem vários tipos de leitura, como costumam dizer os que gostam de uma linguagem mais emproada) como uma fábula, um afresco de como se fez a conquista do Oeste, de como se transformou a terra sem lei num lugar afinal civilizado, os livros passando a ter mais força do que o chicote.

E, enquanto via de novo aquelas imagens belíssimas e aquelas tomadas recheadas de grandes diálogos, me ocorreu que a transição que Ford retrata no filme, da barbárie do século XIX para uma civilização baseada em bons princípios no início do século XX, é de fato para se mostrar com orgulho. Tão diferente do que a humanidade fez depois, em direção a esta nossa era atual que – apesar de todos os progressos tecnológicos, científicos – mais parece a barbárie do velho Oeste do que um tempo de alguma civilidade. No Rio de Janeiro, em São Paulo, praticamente em todas as grandes metrópoles do mundo, mata-se hoje mais gente do que na Tombstone ou Kansas City dos bangue-bangues; no Rio, por exemplo, são os Liberty Valence que mandam, muito mais que o xerife, o prefeito, o governador. As ruas das grandes cidades são tão inseguras quanto as da pequena Shinbone do tempo do facínora. E essa questão da insegurança, da violência urbana, é só um dos problemas, e nem é o maior. Pior é a generalização da falta de valores morais, a Lei de Gerson valendo mais que qualquer outra. E, especificamente no Brasil, essa absoluta loucura que é Executivo, Legislativo e Judiciário fazerem uma farra descarada com o dinheiro arrancado dos contribuintes – em uma maneira não muito diferente do que Liberty Valence fazia nos assaltos às diligências -, um eterno acinte ao povo, no que até parece uma orquestrada manobra para tornar as pessoas descrentes na democracia que John Ford tanto defende em O Homem Que Matou o Facínora.

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Mas estou tergiversando. Vamos ao início da narrativa.

E aí é duro, porque o começo do filme é tão esplendoroso, tão cheio de significado, é tudo feito com tanta maestria em cada pequeno detalhe, que dá vontade de descrever minuciosamente as primeiras seqüências.

Um casal de velhos bem vestidos desce do trem na estação de Shinbone – em glorioso preto-e-branco, numa época, 1962, em que os filmes em cores já eram a grande maioria. Os dois carregam apenas uma grande caixa de presente – parece uma caixa de chapéu. São recebidos pelo chefe da estação, Jason. Mais atrás, esperando, está outro velhinho, uma figura humilde. O casal se aproxima dele; a senhora dá um beijo na sua face, e ele demonstra timidez e falta de jeito. O velhinho diz ao senhor que chega:

“Bem-vindo, senador.”

E ele responde:

“Rance. É Rance, Link.”

É o óbvio: o visitante importante de roupa bonita não quer ser tratado com reverência, quer que o velhinho humilde o chame pelo seu prenome, simplesmente.

O velhinho então os leva para uma charrete estacionada ali perto, enquanto, na plataforma da estação, um garoto que assistia à cena, excitado, pergunta a Jason, o chefe da estação:

“Quem eram eles? Merecem uma nota no jornal?

E Jason, para o garoto, que sabemos então que é um foca, jornalista novato, verdinho, coitado: – “Uma nota? Seu jovem tonto, aquele é o senador Stoddard com a mulher. Você pode encher o jornal com ele!”

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O garoto corre para o telefone, liga para a redação, avisa da chegada do senador Stoddard, e sai correndo atrás da notícia quente e importante que acabou de chegar desavisada à sua cidadezinha. Ele alcança o senador pouco depois, e pede uma entrevista. O senador aceita dar a entrevista, é claro – é um político, um senador, e o que seria de um político sem a imprensa? Ele vira-se para o velhinho Link e diz algo do tipo: “Passeie com ela, Link; vou agora cuidar um pouco da política”.

A essa altura, já chegou até o senador, esbaforido, o editor do jornal, o senhor Scott, que acabara de ser alertado pelo foca sobre a inesperada visita importante. Dono da situação, o senador se permite um momento de leveza: “Esperem aí, para quem eu vou dar a entrevista? Para esse rapaz, ou para o senhor?”, pergunta para o editor Scott. E em seguida demonstra que está disposto a falar, desde que o convidem para um lugar confortável. Vai para a redação do Shinbone Star, que ele diz conhecer de muitos anos atrás, enquanto o velhinho Link passeia na charrete com a senhora Stoddard, Hallie.

Hallie observa a cidade, e diz, os olhos meio perdidos, vendo com a consciência da velhice o lugar onde passou a infância: “Este lugar mudou mesmo. Igrejas, escolas, lojas…” Depois diz: “Os cactos floresceram” – e em seguida veremos que Link levou Hallie, hoje senhora Stoddard, para o meio do deserto, um pouco longe da cidade, para uma casa em ruínas, queimada, destruída, mas cercada por cactos cheios de belas flores.

Estamos diante de uma velha senhora que retorna muitos anos depois ao lugar onde viveu na juventude. Estamos diante de uma belíssima cena de cinema, das mais belas que já foram feitas.

A senhora Hallie diz para Link: “Você sabia muito bem onde eu queria ir”.

Estamos agora na redação do Shinbone Star. O senador acaba de dar uma longa entrevista, e, ao final, comenta algo do tipo: “Eu não queria falar de política, e acabei ficando aqui horas falando de política. Mas vocês agora me dêem licença. Ali está minha mulher de volta do passeio. Nós viemos aqui para um compromisso estritamente pessoal.”

E conta que viajou até ali, até aquele distante lugar, para o enterro de um homem, Tom Doniphon.

Os jornalistas se entreolham, assustados, espantados: nunca ninguém ouviu falar de Tom Doniphon.

E o senador e sua mulher e o velhinho Link vão para a funerária de Shinbone, onde está um caixão simples, quatro peças de madeira cercando o corpo que havia abrigado uma vida que o espectador e os jornalistas da cidade desconhecem totalmente. Ao lado do caixão está um homem velho, um grande negro com aquele olhar submisso dos negros amigos de brancos daquela época.

Aí a câmara de John Ford pega os quatro personagens, sentados mudos, quietos, reverentes, diante do caixão pobre.

Entram na funerária o senhor Scott, mais o repórter foca, mais um amigo deles, e o editor do jornal faz este pequeno discurso:

“Senhor, não quero me intrometer, mas um senador dos Estados Unidos é notícia de jornal. Sou o editor de um jornal de circulação estadual. Tenho o dever de saber por que o senhor veio aqui enterrar um homem. Não basta dizer que o nome dele é Tom Doniphon. Quem era Tom Doniphon?”

O senador: – “Ele era um amigo, senhor Scott, e gostaríamos que nos deixasse a sós”.

O amigo do editor Scott tenta retirá-lo do local, mas ele insiste:

“Desculpe, senador, mas isso não basta. Tenho o direito de saber.”

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Plano de conjunto – vemos, sentados diante do caixão, o velho negro, a esposa do senador, o velhinho tímido, e o senador de pé; ele olha para a mulher, a mulher acena com a cabeça, autorizando o marido a falar. O senador dá alguns passos, sai do quadro, onde permanecem sentados diante do caixão o velho, a velha, o outro velho. O senador diz:

“Talvez o senhor tenha mesmo.”

E um pouco depois de outra seqüência esplêndida começa a contar a história:

“Eu era um rapaz recém saído da faculdade de Direito, com a sacola cheia de livros, o relógio do meu pai e 14 dólares e 80 centavos…”

Estamos aqui com uns 15 minutos de filme. Virão em seguida outros cem minutos do mais belo cinema que pode existir.

         ***

James Stewart estava com 54 anos em 1962, quando o filme foi feito. A maquiagem o envelheceu bastante para que interpretasse o senador Rance Stoddard, mas sem dúvida ele já estava bem passadinho para representar o jovem Rance recém-formado chegando à pequenina e distante Shinbone três, quase quatro décadas antes do início da ação. Não tem a mínima importância. É um detalhe bobo.

Assim como é um detalhe bobo o fato de que Lee Marvin, no papel de Liberty Valence, o facínora, está caricatural demais. O filme não perde nada com isso. (O interessante é notar que, três anos depois, Lee Marvin faria uma caricatura da caricatura do pistoleiro, em um dos dois papéis que interpretaria no western brincalhão Dívida de Sangue/Cat Ballou, de 1965 – e nesse outro filme ganharia o Oscar.)

Também está caricatural a figura de Link (Andy Devine), o agora velhinho humilde, no passado, quando era o xerife de Shinbone e tremia feito vara verde ao ouvir qualquer menção ao nome Liberty Valence. Também não tem importância.

O negro alto, forte, figura imponente, que faz Pompey, o braço direito de Tom Doniphon, e no início do filme está lá, idoso, velando o amigo, é Woody Strode. Trabalhou em vários filmes de mestre Ford. Teve um papel importante em Spartacus, o épico do então jovem Stanley Kubrick. Grande figura, Woody Strode.

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Vera Miles estava na flor dos 33 anos, quando fez Hallie – assim como James Stewart, estava um pouquinho mais velha para fazer a jovem Hallie, e estava jovem demais para ser a idosa senhora Hallie. Mas, de novo, isso não importa nada. O que importa é que essa boa atriz, que não chegou a ter o reconhecimento merecido – embora tenha trabalhado com mestres, como Hitchcock, em O Homem Errado e Psicose – está talvez no melhor momento de sua carreira. Faz uma Hallie semelhante à flor de cacto que seu personagem tanto admira: dura, seca, rude, linda, esplendorosa. Seu papel de vértice do triângulo amoroso entre o jovem advogado Rance Stoddard e Tom Doniphon, o vaqueiro traquejado, forte, temível, atemorizador de bandido mas derretido como manteiga diante da dama, é de fazer babar.

Assim como é de fazer babar a tomada em que ela vai até a porta da cozinha, iluminada, para ver um Tom Doniphon vestido com sua melhor roupa sumir na sombra, puto dentro das calças porque não conseguiu comer seu bife e não conseguiu as atenções de Hallie naquela noite de sábado. Nesta tomada, mestre Ford presta uma discreta, sutil homenagem a si mesmo e a seu ator fetiche, John Wayne, The Duke em pessoa: todo bom assistidor de filme vai se lembrar de outra cena antológica em que John Wayne ultrapassa o umbral de uma porta, a tomada final de Rastros de Ódio/The Searchers, de 1956, outro dos melhores westerns da história.

E John Wayne interpretando John Wayne interpretando Tom Doniphon é uma maravilha. É, também, um de seus melhores momentos – e seus momentos foram muitos. Em sua autobiografia, Marlene Dietrich arrasa com John Wayne, diz que o homem era um imbecil completo. La Dietrich pode até ter razão, mas a verdade dos fatos é que John Wayne é uma daquelas coisas absolutamente ímpares, daqueles monstros sagrados absolutos; se ele não tivesse existido, o cinema seria muito menor do que é.

Quando se encontraram os três, pela primeira e única vez, para fazer este filme, John Ford, John Wayne e James Stewart estavam todos eles no ápice, no apogeu. Eram, os três, cada um deles, gigantes, respeitáveis e respeitadíssimos, com carreiras gloriosas atrás de si e um lugar garantido no panteão dos heróis do cinema. Foi um momento absolutamente mágico, aquele do encontro dos três.

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Este texto já está grande, mas não dá para deixar de transcrever alguns dos diálogos mais inteligentes do western.

Tom, para seu empregado Pompey, ao socorrer o jovem Rance espancado por Liberty Valence: – Pompey, vá atrás do doutor Willoughby. Se ele estiver sóbrio, traga-o aqui.

Outro:

Peabody (o editor do Shinbone Star nos velhos tempos, interpretado por Edmond O’Brien, em dia de eleição, para o barman): – “O de sempre, Jack.”

O barman: – “O bar está fechado, senhor editor, durante a votação.”

Peabody: – “O bar está fechado??”

Tom Doniphon: – “A culpa é do seu amigo advogado. Diz ele que esta é uma das leis fundamentais da democracia. Não há exceção para ninguém.”

Peabody: – “Sem exceção até mesmo para a imprensa? Isso é levar a democracia longe demais!”

Mais um:

Peabody: – “Me dê uma bebida.”

Tom Doniphon: – “O bar está fechado.”

Peabody: – “Só uma cerveja!”

Tom Doniphon: – “O bar está fechado.”

Peabody: – “Cerveja não é bebida!”

Mais um:

Peabody (bêbado, apanhando de Liberty Valence): – “O senhor está tomando liberdades com a liberdade de imprensa.”

E ainda outro:

Tom Doniphon, para Rance, depois de contar a ele o que na verdade aconteceu na noite em que o facínora Liberty Valence foi morto: – “Hallie é sua garota agora. Vá lá e aceite a indicação (para o cargo político). Você ensinou a ela a ler e escrever, agora dê a ela alguma coisa sobre a qual ela possa ler e escrever.”

E o diálogo definitivo, entre o senador Stoddard, depois de contar toda a história, e o atual editor do Shinbone Star, Scott:

O senador: – “O senhor não vai usar a história, senhor Scott?”

O editor: – “Não, senhor. Aqui é o Oeste, senhor. Quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda.”

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O Homem Que Matou o Facínora/The Man Who Shot Liberty Valance

De John Ford, EUA, 1962

Com John Wayne, James Stewart, Vera Miles, Lee Marvin. Edmond O’Brien, Andy Devine, Woody Strode

Roteiro James Warner Bella e Willis Goldbeck

Baseado no conto de Dorothy M. Johnson

Música Cyril Mockridge

Figurinos Edith Head

Produção Paramount.

P&B, 123 min.

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