O Enigma das Cartas / House of Cards


Nota: ½☆☆☆

Anotação em 2009: A gente deveria guardar o nome desse diretor, Michael Lessac. O cara é fera. Ele conseguiu a façanha, a proeza de transformar Kathleen Turner e Tommy Lee Jones em péssimos atores. Eles estão absolutamente horrorosos neste filme aqui. Mas não destoam do restante do elenco: todo mundo está uniformemente horrendo.

 Quem diria: Kathleen Turner, ótima no drama, em noir (Corpos Ardentes/Body Heat), em comédia do mais cruel humor negro (Mamãe é de Morte/Serial Mom). Tommy Lee Jones, sempre no mínimo correto, muitas vezes extraordinário, em aventura-ficção-fantasia (MIB – Homens de Preto) e em drama forte, denso (No Vale das Sombras/In the Valley of Elah). Foi por causa deles que peguei o DVD deste filme do qual nunca tinha ouvido falar. Eles estão péssimos – piores que uma gostosona saída de um BBB diretamente para seu primeiro papel na novela das 6. Não sabem o que fazer com as mãos – Tommy Lee Jones tira e põe os óculos umas 20 vintes, Kathleen Turner faz caretas exageradas, não consegue compor um personagem que faça sentido. Um horror, um horror.

 A trama é uma gigantesca bobagem sem sentido, sem lógica, um absurdo total. É mais ou menos assim: família americana, a mãe, Ruth (Kathleen Turner), o filho de uns dez, 12 anos, Michael (Shiloh Strong), a filhinha de uns cinco, Sally (Asha Menina), está em viagem à América Central, visitando sítios arqueológicos e ruínas maias, acompanhada de um arquiteto de origem maia. O pai das crianças havia morrido nessa viagem – caiu de uma ruína que estava escalando. Quando o filme começa, a garotinha Sally está levando altos papos com o tal descendente de maias, a respeito de Deus, o sentido da vida, para onde vão as pessoas depois que morrem; ele diz a ela que o pai dela está na Lua. Aí a família volta para casa – e temos que de repente a garotinha pára de falar, e passa a ter a mania de subir em lugares altos. Quer subir até a Lua.

 Entra em cena um médico, Jake (Tommy Lee Jones), que trata de diversas crianças que, por um trauma qualquer ou outro, viraram autistas. A mãe a princípio se recusa a admitir que haja algo errado com a filha. Até que a surpreende construindo um louquíssimo, elaboradíssimo, gigantesco castelo de cartas – o motivo do título original. Vai daí que, enquanto o nosso médico está tentando do jeito dele entrar em contato com nossa Sally agora muda e chegada a subir nos lugares mais improváveis, nossa mamãe resolve construir uma edificação exatamente igual ao castelo de cartas que a garotinha criou, para ver se dá um clique e tudo volta ao normal.

Uma idiotice total – um daqueles filmes que, para serem ruins, teriam que melhorar demais.

Procuro outras opiniões, como gosto sempre de fazer quando me deparo com filmes horrorosos. Leonard Maltin dá duas estrelas em quatro mas dá esta definição: “História enfadonha é menos um tratado sobre o trauma da garota do que sobre os benefícios de ter pais com dinheiro, um monte de tempo livre e um grande quintal.”

Roger Ebert, o que adora os filmes e sempre tem imensa boa vontade, dá uma estrela em quatro e diz o seguinte: “House of Cards é um dos filmes mais obscuros em muitas luas, a história de uma garotinha chamada Sally que fica pateta de uma maneira tão confusa que é o roteiro que precisa de tratamento, não ela.”

Acho que nunca tinha visto o Ebert tão puto. E é sensacional, porque ele vai exatamente na coisa que mais me chamou a atenção, as péssimas atuações. Ele termina assim sua crítica: “House of Cards é simplesmente inexplicável. Não é interessante, inteligente, plausível, instigante, divertido ou necessário. A sinopse é tão absurda que parece que nenhum filme poderia ser produzido a partir dela, mas não, ele foi de fato realizado. Se você quer ver uma atuação no vazio, observe cuidadosamente as cenas de Tommy Lee Jones. Eis aí um dos mais interessantes atores que há na praça. Foi dado a ele um personagem ridículo, cuja conexão dramática com o resto do filme é um mistério. Ainda assim ele transpira intensidade e interesse, e de alguma maneira consegue nos convencer de que alguma coisa está acontecendo com o personagem, mesmo quando, em retrospecto, está claro que Jones deve ter ficado tão intrigado como o resto de nós.”   

Sensacional jogada de marketing da empresa que lançou o DVD do filme no Brasil, a LW Editora/NBO Entertainment. Só depois de traduzir aqui parte da crítica do Ebert sobre o filme foi que reparei que, na capinha do DVD, os caras puseram o seguinte: “… observem as cenas de Tommy Lee Jones de perto. Aqui está um dos mais interessantes atores do momento”, com o devido crédito para Roger Ebert. Os caras retiraram a frase do contexto de crítica virulenta e a transformaram numa louvação ao filme!  

Michael Lessac é o nome da fera. A gente deveria guardar esse nome – e fugir dos filmes dele como o diabo foge da cruz.

O Enigma das Cartas/House of Cards

De Michael Lessac, EUA, 1993

Com Kathleen Turner, Tommy Lee Jones, Asha Menina, Shiloh Strong

Roteiro Michael Lessac

Baseado em história de Michael Lessac e Robert Jay Litz

No DVD. Produção Penta Entertainment

Cor, 109 min

Bola preta

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9 Comentários

  1. jacilda nascimento
    Postado em 1 maio 2009 às 8:24 pm | Permalink

    gostaria de assistir a este filme. como comprar?

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 2 maio 2009 às 3:54 pm | Permalink

    Dei uma olhada em alguns sites brasileiros de venda e de fato o DVD do filme está esgotado, Jacilda. Mas você pode comprá-lo, por exemplo, no amazon.com.

  3. ANDREIA
    Postado em 29 outubro 2009 às 10:37 pm | Permalink

    Este filme é ótimo, ele nos mostra como estudante de psicologia, que não devemos dá diagnósticos, rotulando um paciente sem ao menos procurar realmente saber o que aconteceu na realidade e de como a mãe foi perceverante e lutou para ajudar a filha entrando no mundo que só pertencia a sua filha. Por isso temos o Cid 10 e o DSM-IV e devemos sempre estar a procura do novo, pois muitos são rotulados por um pequeno surto ou trama que com o tratamento poderia-se ter melhoras.

  4. Isa
    Postado em 17 junho 2010 às 1:14 pm | Permalink

    O filme é muito bom e esclarecedor. Infelizmente alguns cidadãos que pensam que entendem de cinema também acham que entendem de tudo no mundo e dão opiniões insensíveis e procuram fazer com que as pessoas acreditem em suas idéias.
    Deveriam sim estudar um pouco , pois, nem todo mundo gosta de um assunto (isso é uma coisa), mas achar que um filme é ruim por ignorar o tema é totalmente fora de propósito.
    As pessoas que estudam a psicologia, a psiquiatria, os pais de crianças com distúrbios como o Autismo consideraram o filme muito bom.

    Isa

  5. Sérgio Vaz
    Postado em 20 junho 2010 às 7:28 pm | Permalink

    Cara Maísa,
    Embora o tom de seu comentário seja bastante grosseiro, ele já está publicado no meu site.

  6. Lucas
    Postado em 3 junho 2011 às 11:27 am | Permalink

    Esbarrei com esse comentário a respeito desse ótimo filme e não pude deixar de perceber o quão influenciado por uma lógica comercial está essa análise superficial desta obra. Esperavam Tommy Lee Jones em traje negro caçando alienígenas? O papel dele aqui é de mero coadjuvante, e a história não tem nada de enlatada, pois supera qualquer expectativa mercadológica Hollywoodiana e não atende aos extratoféricos cifrões das bilheterias. Pra quem não entendeu o cerne da problemática do filme fica realmente difícil fazer um comentário coerente a respeito.
    P.S.: O comentário da caríssima Maísa não é menos grosseiro que a análise do filme. Aliás, Maísa foi muito pertinente na sua fala.

  7. ricardolbsda
    Postado em 12 setembro 2011 às 2:38 pm | Permalink

    as atuações aqui parecem ser os únicos aspectos razoaveis do film, o roteiro cria relação entre crenças maias e os eventos de uma maneira suave embora meio nonsense, mas o que realmente irrita ali, é o fato de que autismo é tratado aparenetemente como uma ‘doença que pode ser curada’.

  8. deivid
    Postado em 13 outubro 2011 às 1:25 pm | Permalink

    adorei o filme ,,,, filmaço

  9. ana clara
    Postado em 8 março 2012 às 3:05 pm | Permalink

    Esse filme é adorável é muito bom,foi meu professor de ingles que passou na sala é ótimo quem ainda não assistiu,quando assistir não vai se arrepender…filme maravilhoso

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