O Crime Sem Perdão, Tony Rome e A Mulher de Pedra


Nota: ★★★☆

Anotação em 2007, com complemento em 2009: Em 1967 e 1968, Frank Sinatra interpretou detetives em três filmes feitos pelo mesmo diretor, Gordon Dougas, pela mesma empresa, a Arcola-Millfield, com o mesmo produtor, Aaron Rosenberg, distribuídos pelo mesmo estúdio, a 20th Century Fox. E são dois detetives absolutamente distintos, diferentes, dessemelhantes, em dois tipos de filme.  

Um dos dois detetives, Tony Rome, aparece em dois dos filmes – Tony Rome, de 1967, e A Mulher de Pedra/Woman in Cement, de 1968. São filmes levinhos, quase brincalhões, quase filmes de aventura; não pretendem de forma alguma ser sérios. E são fraquinhos. O outro filme, de 1968, O Crime Sem Perdão/The Detective, é pesado, denso, doloroso – e muito bom. 

         Aventuras de um detetive particular

atonyromeTony Rome, o personagem de dois dos filmes, é um ex-tira, agora um detetive particular sem grandes casos para cuidar, que mora em um barco ancorado numa marina de Miami. Os dois filmes com esse personagem têm o mesmo estilo – são cheios de frases engraçadinhas, piadinhas rápidas; Tony Rome tem um estilo malandro, há sempre belas mulheres pouco vestidas, e muitas belas paisagens, as praias, o mar, piscinas.

Em Tony Rome, o primeiro dos dois, o detetive particular do título é chamado por um colega para dar um jeito na bela filha de um riquíssimo empresário. A garota (interpretada por Sue Lyon, que tinha sido descoberta por Stanley Kubrick em Lolita, de 1962) foi achada bêbada e apagada num quarto de hotel barato, e o nosso detetive particular é encarregado de entregá-la de volta ao pai e à madrasta (o papel da sempre ótima Gena Rowlands).

Começa, a partir daí, uma história que envolve chantagem, jóias roubadas, assassinatos, tentativas de assassinatos – e Tony Rome vai descobrindo tudo, ao mesmo tempo em que apanha um pouco, bebe muito e ainda acha tempo para namorar uma gostosinha que passa férias em Miami (Jill St. John, que fez vários filmes na Fox nessa época, sempre como coadjuvante). 

aladyinNo ano seguinte, fizeram A Mulher de Pedra. Quando a ação começa, o detetive Tony Rome está em seu barco, no mar, com um amigo, policial da Divisão de Narcóticos. Os dois estão jogando cartas e, de quando em quando, um deles dá um mergulho; dizem que na região, no século XVI, afundaram-se alguns galeões espanhóis cheios de tesouros – a mesma velha história de sempre –, e o detetive particular e seu amigo tira procuram vestígios dos navios naufragados. Quando Tony Rome mergulha, encontra alguns grandes tubarões, extremamente pacíficos (era 1968; o Tubarão de Spielberg, bem mais sanguinário, só iria aparecer em 1975), e uma loura morta, os pés enterrados em cimento.

Começa, a partir daí, uma história que envolve um ex-gângster poderoso e seu filho, uma falsa chantagem, muita putaria (em um dancing e um serviço de massagens), mais uma mulher morta, um sujeito grandalhão e fortíssimo que quer contratar o detetive para descobrir o paradeiro de uma namorada, uma rica herdeira que bebe demais e mostra as pernas maravilhosas o tempo todo (Rachel Welch, bela, gostosa, mas com umas perucas ridículas), e mais uma ou outra aventura, como uma correria no meio dos clientes do famoso Hotel Fontainebleau.   

Na época, a crítica meteu o pau nos filme e em Sinatra, pelo que se pode ver no livro The Films of Frank Sinatra. Vários críticos lembraram que esse tal de detetive particular malandro, mulherengo, esperto mas também bem sortudo, que às vezes apanhava bastante, era uma tentativa de refazer os tipos criados por Humphrey Bogart e inspirados nas histórias de Dashiell Hammett, os velhos e bons hard-boiled detectives. E eles estavam certos – são filmequinhos vagabundos mesmo, que até dão para dar umas risadas, e depois a gente esquece com facilidade.

Quando eu vi o filme Tony Rome, em 2007 (A Mulher de Pedra, veria só em 2009) me ocorreu que parecia também uma tentativa de entrar na onda do sucesso de Harper, o filme do ano anterior, 1966, em que Paul Newman faz um detetive parecido com esse aqui, mulherengo, bon vivant – ele também, é claro, inspirado nos personagens criados por Hammett e interpretados por Bogart.

         Vida dura de um detetive da polícia

aleeJá em O Crime Sem Perdão/The Detective, Old Blue Eyes está muito bem no papel do detetive da polícia de Nova York que investiga o assassinato de um homossexual e vai encontrar atrás do caso uma história suja de corrupção.

É muito rica e interessante a relação dele com a personagem interpretada pela bela Lee Remick – uma mulher madura, independente, rica, que o detetive conhece por acaso. Apaixonam-se, passam a viver juntos, apesar das enormes diferenças que os separam. A história dos dois é contada em flashbacks. A questão é que a moça – o detetive fica sabendo tarde demais, quando já está profundamente apaixonado, e exatamente quando está acontecendo a ação, e ele está investigando o assassinato do homossexual – é ninfomaníaca.

Temos então que o detetive está enfrentando a barra pesada da separação no momento em que tem pela frente um caso escandaloso, manchete dos jornais populares. Ele chega a um suspeito, prende o cara, faz o cara confessar – e só depois da condenação do preso o detetive percebe que foi tudo fácil demais, que o cara era um psicopata e confessou um crime que não cometeu. E ainda vai ter muito chão – e muito arrependimento – pela frente.

Na Miami ensolarada, o detetive de Sinatra é bonachão, bon vivant; na Nova York sombria ele é um homem acabrunhado, angustiado, cheio de dúvidas. Dessa vez a crítica babou com sua interpretação. E não era para menos. É um belo filme, este O Crime Sem Perdão.

 Mais de uma década depois, em 1980, Sinatra voltaria a fazer um policial de Nova York, atormentado pela doença fatal da mulher (Faye Dunaway), vítima de erros médicos, em O Primeiro Pecado Mortal/The First Deadly Sin

Outros filmes com Frank Sinatra já neste site: 

Título Diretor e ano No elenco
O Homem do Braço de Ouro/The Man with the Golden Arm Otto Preminger, 1955 Kim Novak, Eleanor Parker
Alta Sociedade/High Society Charles Walters, 1956 Bing Crosby, Grace Kelly, Celeste Holm, John Lund, Louis Armstrong
Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running Vincente Minnelli, 1958 Shirley MacLaine, Dean Martin, Martha Hyer, Arthur Kennedy
Can-Can Walter Lang, 1960 Shirley MacLaine, Maurice Chevalier, Louis Jourdan, Juliet Prowse
Sob o Domínio do Mal/The Manchurian Candidate John Frankenheimer, 1962 Laurence Harvey, Angela Lansbury, Janet Leigh
O Primeiro Pecado Mortal/The First Deadly Sin Brian G. Hutton, 1980 Faye Dunaway

  Tony Rome

De Gordon Douglas, EUA, 1967

Com Frank Sinatra, Jill St. John, Gena Rowlands, Richard Conte, Sue Lyon

Roteiro Richard Breen

Basedo na novela Miami Mayhem, de Marvin H. Albert

Música Billy May

Produção Aaron Rosenberg, Arcola-Millfield, distribuição 20th Century Fox

Cor, 110 min.

*1/2

O Crime Sem Perdão/The Detective

De Gordon Douglas, EUA, 1968.

Com Frank Sinatra, Lee Remick, Robert Duvall, Jacqueline Bisset, Tony Musante

Roteiro Abby Mann

Basedo na novela de Roderick Thorp

Montagem Robert Simpson

Fotografia Joseph Biroc

Música Jerry Goldsmith

Produção Aaron Rosenberg, Arcola-Millfield, distribuição 20th Century Fox

Cor, 114 min.

***

 A Mulher de Pedra/Lady in Cement

De Gordon Douglas, EUA, 1968

Com Frank Sinatra, Rachel Welch, Richard Conte, Martin Gabel, Dan Blocker

Roteiro Marvin H. Albert e Jack Guss

Baseado em livro de Marvin H. Albert

Música Hugo Montenegro

Produção Arcola-Millfield, 20th Century Fox

Cor, 93 min

*1/2

2 Comentários

  1. Francisco José
    Postado em 14 Janeiro 2009 às 7:49 pm | Permalink

    Sou fã do Sinatra de carteirinha e gostaria de saber se ele fez entre os anos de 1967 e 1968 algum filme policial na Inglaterra.Francisco

  2. Sérgio Vaz
    Postado em 15 Janeiro 2009 às 2:17 pm | Permalink

    Caro Francisco,
    Sinatra fez, sim, um filme na Inglaterra, em 1967: Serviço Secreto em Ação/The Naked Runner, dirigido por Sidney J. Furie. É um thriller, envolvendo espionagem. Sinatra faz um empresário americano, que trabalha na Inglaterra (onde o filme foi rodado), e que acabou de receber um prêmio internacional por um desenho industrial. Ele planeja viajar à Alemanha Ocidental (era o tempo da Guerra Fria), para visitar uma feira de comércio e mostrar sua invenção. Um inglês que trabalha no serviço secreto e serviu ao lado do empresário durante a Segunda Guerra vai procurá-lo para propor uma tarefa durante sua visita à Alemanha. Parece que o filme não foi lançado em DVD no Brasil, e, mesmo no Amazon.com, só existe em VHS.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Textos » Sinatra em 30 Março 2010 às 2:34 am

    […] ano de 43. Mas naqueles filmes ele apenas cantava com a orquestra de Tommy Dorsey. Agora não: Sinatra ia estrear como ator. Em Higher…, ele faz o papel de Frank, um rico pretendente à mão de uma garota supostamente […]

  2. […] ganhadora do Oscar ‘High Hopes’, de Sammy Cahn-Jimmy Van Heusen, um dos grandes sucessos de Frank Sinatra, refletia os sentimentos do produtor-diretor Frank Capra, então com 60 anos de idade, ao embarcar […]

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