Houve uma Vez um Verão / Verão de 42 / Summer of ‘42


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Há 200 mil filmes sobre o rito de passagem da adolescência para a maturidade, o fim da inocência infanto-juvenil, isso que em inglês chamam de coming of age, que é praticamente um gênero do cinema de Hollywood. Este filme aqui é dos mais belos, mais delicados de todos.

É um filme simples, despretensioso; deve ter tido um orçamento baixo, inclusive – embora seja uma produção de um grande estúdio, a Warner, tem todo o jeito de uma produção independente. Tem uma única locação – uma praia, uma pequena cidade numa ilha, que não se diz qual é. O elenco, pequeno, não tem nenhum astro. O diretor, Robert Mulligan, que eu particularmente adoro, é experiente, mas nunca foi badalado, jamais chegou a ser considerado muito importante.

A única pérola vistosa do filme – além da beleza radiante, solar, mesmerizante de Jennifer O’Neill, uma bela mulher que nunca chegou propriamente a ser uma estrela – é a trilha sonora, feita pelo francês Michel Legrand, um dos maiores compositores do cinema. O tema principal, romântico, nostálgico, melancólico, caiu no gosto popular, está em diversas coletâneas de temas de filmes.

E foi o que aconteceu também com o próprio filme. Caiu no gosto das pessoas; virou não propriamente um cult, porque cult a rigor é filminho metido a besta que agrada a uma patota, um grupo, uma tribo; virou um clássico, um pequeno novo clássico. 

É sempre um prazer revê-lo. Em 2002 revi com Mary, mas, na época, só anotei uma frase: “Gostoso de rever, tantos anos depois. Como era linda essa moça, nossa senhora!” Revi mais uma vez agora para botar uma anotação no site. A rigor, nem precisava: é um daqueles filmes que permanecem nítidos na memória da gente. Lembrava de diversos detalhes, tintim por tintim. E, mais uma vez, gostei de revê-lo.

asummerpraiaO filme abre com cenas da praia da ilha – uma praia, a rigor, sem nenhum charme, nenhuma beleza especial, ainda mais para nós, brasileiros. A areia é daquelas escuras, que parecem sujas, a vegetação se intromete em trechos da areia, há pequenos morros, elevações bem junto ao mar. Bem, mas então temos cenas da praia, e a voz de um adulto em off contando que passou um verão ali com a família e com os dois maiores amigos, Oscy e Benji.

         Garotos normais; não bonitos, não especiais – normais

Vemos, então, os três garotos, de uns 15 anos de idade, andando pela praia – Hermie, o que viria no futuro a ser o adulto que nos narra a história, Oscy e Benji, interpretados respectivamente por Gary Grimes, Jerry Houser e Oliver Conant. E aqui vem o primeiro de um dos muitos acertos do diretor Mulligan. Os três atores escolhidos são gente bastante comum; não são bonitos, nem atléticos, nem nada especial. Nada de gente especialmente bonitinha, como em tantos filmes para adolescentes dos últimos tempos.

asummerhermieGary Grimes, que faz Hermie, é magrelinho, com o cabelo um tanto anelado, com um pequeno topete, com um rosto normal, nada hollywoodiano ou global, assim como os dois outros. Jerry Houser, que faz Oscy, é meio gordinho; Oliver Conant, que faz Benji, usa grandes óculos. Os três garotos são um tanto desengonçados; Hermie é um tipo mais introspectivo, mais pensativo; Oscy é o falante, expansivo, comunicativo, metido a sabichão; Benji é tímido, desajeitado. Três garotos absolutamente comuns, normais.

E então, enquanto vemos os três garotos se aproximando de uma casa simples de madeira no alto de uma pequena colina debruçada sobre o mar, e, diante dela, um jovem casal apaixonado, o narrador está dizendo o seguinte:

“Nada desde aquele primeiro dia em que a vi, e ninguém que conheci depois, foi tão amedrontador e perturbador. Porque nenhuma pessoa que conheci a vida inteira fez tanto para me fazer sentir mais seguro, mais inseguro, mais importante, e menos significativo.”

Os três meninos estão naquele ponto exato da vida em que tudo é sexo, mulheres, sexo, mulheres, sexo. A câmara caminha pela praia com eles, numa das primeiras seqüências do filme, no meio daquele mar de mulheres expostas ao sol – e os meninos estão no auge da excitação, do tesão. Oscy é o direto, o explícito; Hermie é curioso, mas um tanto mais recatado; Benji é o tímido.

Descobrem um livro com fotos de mulheres nuas e do ato sexual. Ficam loucos.

Num passeio, Hermie vê a jovem mulher da casa da colina se despedindo do marido, que, de uniforme militar, pega um barco para o continente. De uniforme militar. O verão é o de 1942. Em dezembro de 1941 tinha havido Pearl Harbor, e os Estados Unidos estavam na guerra contra o Eixo Alemanha-Itália-Japão.

Oscy ri de Hermie, diz coisas do tipo, mas ela é velha demais! Mas também o incentiva: mulheres mais velhas sempre querem.

Um dia, a jovem mulher da casa da colina vai à cidadezinha fazer compras, deixa cair os pacotes, Hermie corre para ajudá-la.

         Um monte de seqüências inesquecíveis

asummerelaO filme tem uma série de seqüências marcantes, inesquecíveis. Essa seqüência em que Hermie, querendo dar uma de maduro e forte, se dispõe a carregar os pacotes da jovem mulher até a casa dela; a tentativa de estabelecer um diálogo – sem qualquer assunto que possa uni-los – é uma maravilha, uma delícia. A seqüência em que Hermie volta à casa da jovem mulher, a convite dela, para ajudá-la a guardar no sótão umas caixas pesadas de coisas de que ela não precisa muito – ela sobe na escada, com um short e uma blusinha curta, e ele e a câmara ficam embaixo olhando para as pernas dela; quando é a vez dele de subir a escada, as pernas estão bambas, ele treme inteiro.

Uso a expressão jovem mulher porque só bem mais para o final Hermie consegue perguntar a ela seu nome. É Dorothy. Dorothy – como a personagem central de O Mágico de Oz, o filme sensação de três anos antes da ação. Um nome simples, comum, como tudo o que acontece neste filme.

A seqüência da ida ao cinema, em que Oscy descola um grupo de garotas, e lá vão eles, Oscy com uma loura chamada Miriam (Christopher Harris), Hermie ao lado de uma morena chamada Aggie (Katherine Allentuck)… Que maravilha de seqüência! Lá fora do cinema, há cartazes de Tragédia no Circo/The Wagons Roll at Night, com Humphrey Bogart, e Sargento York, com Gary Cooper. O filme que está passando é A Estranha Passageira/Now, Voyager, com Bette Davis e Paul Henreidt – e o espectador vê duas ou três seqüências do filme, que ocupa a tela inteira. O espectador vê mais do filme que está passando no cinema do que Oscy e Hermie, mais preocupados em tentar bolinar as garotas no escurinho do cinema.

E a seqüência da ida à farmácia para comprar camisinha… De novo, que maravilha de seqüência. Mulligan alonga aquilo, não tem pressa alguma para terminar. É uma coisa boba, mas ao mesmo tempo é uma coisa importante para os garotos – e assustadora, apavorante. Asa carinhas que Hermie faz; a cara do vendedor… Maravilhosa seqüência.

A mais bela de todas virá quase ao final, o clímax do filme. Lindíssima, lenta, suave, profundamente triste. A câmara em travelling dando a volta de 360 graus na sala da casa de Dorothy, suavemente; sinais de muitos cigarros fumados, bebida. Que coisa absolutamente maravilhosa.

         Um filme despretensioso que caiu no gosto das pessoas

asummercloseEssa despretensão toda, essa beleza simples, econômica, suave, muito doce e muito amarga, seria recompensada com quatro indicações ao Oscar. Michel Legrand levou a estatueta de trilha sonora; as outras indicações foram para a fotografia – bela, mais em tons pastel, enevoada, que esplendorosamente colorida, de Robert Surtees -, a montagem de Folmar Blangsted, e o roteiro original para Herman Raucher. Herman – repare-se o nome do sujeito. Herman, Hermie. O filme teve ainda indicações para o Globo de Ouro e o Bafta; ao todo, foram quatro prêmios e dez outras indicações. 

Foi a quarta maior bilheteria daquele ano de 1971, depois de O Violinista do Telhado, Billy Jack e Operação França e à frente, veja só, de Diamonds Are Forever, a aventura de James Bond ainda na pele de Sean Connery. Rendeu US$ 20 milhões só nos Estados Unidos. É o que consta no livro The Hollywood Reporter Book of Box Office Hits.

O livro conta que Jennifer O’Neill havia sido modelo e tinha aparecido em muitas capas de revista; fez alguns papéis secundários a partir de 1968, mas “seu papel em Summer of ’42 levou-a ao estrelato”. Hum… Nem tanto estrelato assim. Entre 1975 e 1978 ela fez quatro filmes na Itália; o mais importante deles foi O Inocente, do mestre Luchino Visconti. Estrelou Scanners, de David Cronenberg, em 1981, e depois fez muita coisa para a TV. Continua na ativa – nascida em 1948, estava portanto com 23 quando fez este Summer of ’42 –, mas, pelo jeito, não voltou a fazer nada à altura de sua estonteante beleza. Ah, sim: por um acidente geográfico, Jennifer O’Neill nasceu no Rio de Janeiro, filha de uma inglesa e um descendente de irlandeses e espanhóis; foi criada nos Estados Unidos. O iMDB informa que ela se casou nove vezes. 

Tiro também do iMDB as informações abaixo:

Embora o autor Herman Raucher admita ter mexido na ordem de certos eventos e alterado alguns diálogos, o filme é (segundo as pessoas envolvidas) uma descrição acurada dos eventos na vida do próprio Raucher no verão de 1942 na Ilha de Nantucket – olha aí o nome da ilha que não aparece no filme! Ele não mudou sequer o nome das pessoas. Começou a escrever o roteiro como um tributo a seu amigo Oscy, que havia morrido na Guerra da Coréia, mas no meio do trabalho  compreendeu que queria escrever uma história sobre Dorothy, de quem nunca mais tinha ouvido falar depois da última vez em que se viram em 1942, conforme mostra o filme.

Numa entrevista na TV, Herman Raucher contou que, depois que o livro foi publicado e o filme, lançado, várias mulheres escreveram para ele dizendo ser Dorothy. Uma das cartas era da verdadeira Dorothy – ele pôde identificar.

Bela história. 

Bem, é preciso registrar que este é um daqueles filmes que mudaram de título no Brasil, com o passar dos anos. Foi lançado nos cinemas como Houve uma Vez um Verão; bem mais tarde, quando chegou ao mercado em VHS e depois em DVD, veio com o título com a tradução literal, Verão de 42.

Houve uma Vez um Verão/Summer of ‘42

De Robert Mulligan, EUA, 1971.

Com Gary Grimes, Jennifer O’Neill, Jerry Houser, Oliver Conant, Katherine Allentuck, Christopher Norris, Lou Frizzell

Argumento e roteiro Herman Raucher

Música Michel Legrand

Produção Warner Bros.

Cor, 103 min

R, ***

12 Comentários

  1. murilo
    Postado em 22 setembro 2009 às 10:10 pm | Permalink

    Ha, vivi este filme, me apaixonei uma moça aqual nunca esqueci

  2. Jurandir Lima
    Postado em 28 setembro 2009 às 11:49 pm | Permalink

    Quero fazer uma reverencia a Robert Mulliigan que dirigiu esta fita como se contasse momentos de sua infância, dado a tudo o que ocorre ali já ter acontecido com qualquer um de nós.
    É um filme de rara beleza, onde vemos a adolescencia daqueles meninos, com seus hormônios explodindo por todos os poros de seus corpos e tramando todas as articulações que nós, que já fomos garotos, sabemos muito bem como foi tudo aquilo em nosso tempo.
    Um filme belo, sensível, doce, agradável e decepcionante quando vemos na tela The Ende, porque ficamos querendo mais.
    Raridade imperdível.

  3. Sandra Leeh
    Postado em 2 novembro 2009 às 6:39 pm | Permalink

    Filme de beleza singular, sem muitas palavras, mas extremamente profundo. Nada de Super produção…uma história delicada e ao mesmo tempo, marcante.

  4. Valdomiro B JR.
    Postado em 2 novembro 2009 às 9:25 pm | Permalink

    Simplesmente um filme que remonta o mais profundo inconsciente do ser humano e que traz uma saudade imensa de algo que já vivemos, mas não sabemos onde exatamente e nem quando.

  5. Manoel Neto
    Postado em 2 novembro 2009 às 9:52 pm | Permalink

    Um filme maravilhoso que continua atual e é encantador reve-lo.

  6. Flavio Cordeiro
    Postado em 18 novembro 2009 às 4:46 pm | Permalink

    Na época assisti esse filme e nunca mais
    consegui esquece-lo. É um drama marcante e
    interpretações magnificas. Quem tiver oportunidade não deve deixar de assistir.

  7. silvana
    Postado em 2 dezembro 2009 às 3:02 pm | Permalink

    Assisti esse filme quando tinha 18 anos, já se passaram exatamente 30 anos e ainda me lembro de cada cena: a emoção daquele garoto descobrindo a primeira paixão, a dor daquela mulher que perdeu o amado na guerra, tudo muito nítido na minha mente. Apenas um MEGA PRODUÇÃO teria deixado tanta saudade…

  8. Marcia Monzani
    Postado em 28 dezembro 2009 às 1:57 pm | Permalink

    Um filme lindo, comovente,delicado e sutil, desses que marcam para sempre a nossa vida. Assisti pela primeira vez adolescente, sem nenhuma vivência, mas mesmo assim deu para compreender a força do verdadeiro amor.

  9. Ari
    Postado em 17 janeiro 2010 às 1:36 am | Permalink

    Um filme que até hoje me traz saudades,saudades daquele dia que assisti.

  10. Jose carlos
    Postado em 23 janeiro 2010 às 7:15 pm | Permalink

    Assisti em 71 ou 72 e nunca mais esqueci. Já não era mais adolescente, mas agora, assistindo novamente, parece que eu era. Todos os jovens deveriam assistir, principalmente os meninos, pois o filme parece ser a eles dirigido. Hoje, com a mudança do comportamento, estará mais afeto aos de 9 a 13/anos, se muito. Entretanto os de minha época sabem bem o que o filme significou. Toda uma beleza de uma parte importante da vida. Os atores, todos, interpretando de forma maravilhosa, desde o farmaceutico, até a bela inesquecível O´neil.

  11. Postado em 30 janeiro 2010 às 3:22 am | Permalink

    muito bom mesmo

  12. joeli júlio
    Postado em 20 fevereiro 2010 às 11:47 pm | Permalink

    Tenho 63 anos de idade e esse filme original guardado á sete chaves,como algo precioso que não podemos nos desfazer.Quem o assiste por várias vezes, cada vez mais se encanta com o mesmo.Qual garoto na sua adolescência que não se “apaixonou” por uma mulher mais velha?Uma vez, viajando de avião, entrei no mesmo aassoviando aquela bela canção do Michel Legrand.Um moça sentada ao meu lado perguntou-me que música era aquela e comecei a falar do filme -Verão de 42- ela se amarrou no que eu dizia sobre o filme e chegou a se emocionar.Quem viu esse filme viu, quem não viu, perdeu algo maravilhoso.

2 Trackbacks

  1. Por 50 Anos de Filmes » Malena / Malèna em 26 novembro 2009 às 12:36 pm

    [...] início, Malena faz lembrar, e muito, Houve uma Vez um Verão/Summer of ’42, de Robert Mulligan. Como o filme de 1971 que virou um cult, um novo clássico, é uma história do [...]

  2. Por 50 Anos de Textos » Paris em 4 março 2010 às 3:26 am

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