Com o Dinheiro dos Outros / Other People’s Money


Nota: ★★★☆

Anotação em 2009: Posso estar errado, mas me parece que este filme foi bem pouco falado. E é uma surpresa bem interessante. Sob a capa de uma comedinha com alguns lances de safada sensualidade, discute a sério mazelas do capitalismo, o desemprego, a necessidade de as indústrias se adaptarem ao mundo em transformação veloz; a voracidade, a ganância sem fim dos investidores e especuladores de Wall Street, a predominância absurda do setor financeiro sobre o setor produtivo.

Nada mal para um filme feito em 1991, exatamente quando o império soviético e seus satélites estavam desmoronando. E é fascinante vê-lo agora, depois que a especulação, a liberdade total de ação sem qualquer regulamentação, a irresponsabilidade do sistema financeiro americano levaram o mundo inteiro à mais grave crise econômica desde 1929.

Nunca tinha ouvido falar do filme, embora tenha ótimos nomes no elenco e seja dirigido pelo veterano canadense Norman Jewison, de No Calor da Noite, Crown, o Magnífico, Justiça para Todos, Agnes de Deus, e Hurricane – O Furacão, todos eles bons filmes. É uma produção classe A, com um grande diretor de fotografia, Haskell Wexler, e trilha sonora de David Newman. Estava começando no Max Prime (está em cartaz neste mês de agosto de 2009 lá), e me pegou, me fisgou: não consegui parar de ver.

Logo depois que o filme terminou, dei uma pesquisadinha. Não achei o DVD nos sites brasileiros de venda, mas ele chegou a ser lançado no Brasil em VHS, pela Warner; há uma boa sinopse sobre ele no Guia de Vídeo e DVD 2002, da Nova Cultural; os editores do guia deram três estrelas em cinco e concluíram: “Diálogos ferinos e um delicioso humor voltado contra os ‘piratas’ do mercado financeiro valem a diversão”. O guia informa ainda que a peça em que o filme se baseia foi montada no Brasil com o título Ações Ordinárias. Também não me lembro de ter ouvido falar nessa peça. 

A peça teatral foi escrita por Jerry Sterner, e foi apresentada em Nova York no off Broadway, o circuito alternativo. E a transposição para o cinema foi feita por Alvin Sargent, um roteirista veterano, nascido em 1927, que tem um monte de belos trabalhos no currículo, entre eles Lua de Papel, de Peter Bogdanovich, de 1973, Julia, de Fred Zinnemann, de 1977, baseado num trecho das memórias de Lillian Hellman, Gente como a Gente/Ordinary People, a estréia de Robert Redford na direção, de 1980, e Em Qualquer Outro Lugar, de Wayne Wang, de 1999.

         Dois estilos opostos de capitalismo 

amoney1A trama gira em torno de dois capitalistas, empreendedores, de visão muito distinta do mundo, e da jovem mulher que será a ligação entre os dois. De um lado está Andrew Jorgenson, um homem honrado, industrial de sólidos princípios, que herdou do pai uma fábrica de fios e cabos, criada 81 anos atrás, e a dirige seguindo um estilo tradicional, rígido. Não poderia haver ator melhor para o papel desse representante do capitalismo produtivo cheio de honradez que Gregory Peck, a imagem acabada do sujeito honrado – como os personagens que interpretou, por exemplo, em O Sol é para Todos/To Kill a Mockingbird e A Luz é para Todos/Gentlemen’s Agreement. (A semelhança entre os  títulos brasileiros dos dois filmes já foi comentada neste site.)

E do outro lado está Larry Garfield, o pirata de Wall Street. Larry é a caricatura escarrada de tudo o que se odeia no moderno capitalismo, dominado pela área financeira – tudo o que é objeto de ódio e desprezo tanto pelos comunistas, socialistas, esquerdistas de todos os matizes, quanto pelos próprios americanos, por mais apaixonados pelo capitalismo que sejam. Para Larry, a única coisa que interessa é o lucro; quanto maior e mais imediato for o lucro, melhor. Seu apelido é O Liqüidador, porque uma de suas manias é comprar e liqüidar empresas que não estejam sendo extremamente lucrativas.

E é esse o caso da tradicional fábrica de fios e cabos de Andrew Jorgenson. Embora bem administrada, ela já não dá mais o lucro que dava antes. Larry, o Liqüidador, vai comprar ações da fábrica – com a intenção final de fechá-la, vender as máquinas, e usar o terreno em alguma outra atividade que renda mais. Milhares de trabalhadores perderão seus empregos? Que se danem, diz Larry, o Liqüidador – o compromisso dele é com os acionistas.

É um papel sob medida para Danny DeVito. Ele está ótimo como o sujeito sem caráter, sem escrúpulo algum, um filho da puta assumido e com muito orgulho disso.

 Bem para o final do filme, os dois, Jorgenson e Larry, apresentarão seus pontos de vista díspares, antípodas, em discursos diante da assembléia de acionistas da empresa. Os textos são brilhantes – os dois. É coisa para se pensar.

         Uma advogada competente, gostosa, sensual

Se esses parágrafos acima parecem descrever um filme chato, que lembra uma aula de assunto desagradável, a culpa é minha, não do filme. O roteirista Alvin Sargent e o diretor Norman Jewison levam a história com o equilíbrio certo entre a farsa engraçada e o lado sério que está por trás da história; o histrionismo de Danny DeVito ajuda, e muito, a divertir o espectador. E ainda tem Penelope Ann Miller, num tipo que abusa da sensualidade, no papel de Kate Sullivan.

amoney2Kate é uma jovem advogada talentosa, ambiciosa, esperta – e gostosa. É enteada do industrial Jorgenson, filha de sua mulher Bea (interpretada pela ótima veterana Piper Laurie, elegante e bela aos 59 anos de idade); será ela que vai negociar com Larry. E ela negocia com muita firmeza – mas com uma sensualidade à flor da pele, mostrando as coxas, os seios, com voz rouca, insinuante. Larry, que tem um ódio profundo por advogados, mas é absolutamente tarado por mulher, vai ficar doidinho da silva com ela.

Ao rever, em 2007, O Pagamento Final/Carlito’s Way, de Brian De Palma, feito em 1993 – dois anos, portanto, depois desta comédia aqui –, anotei que “essa moça Penelope Ann Miller, que faz a namorada do personagem de Al Pacino, não é um estupor, mas é bonita, e trabalha muito bem; não dá muito para entender por que não teve mais oportunidades”. Reafirmo o que disse. De fato, ela não tem uma beleza dessas assim estonteantes, tipo Ava Gardner ou Anne Hathaway, só para pegar dois exemplos fortes de épocas diferentes, mas é bonita, atraente, gostosa, e, sobretudo, é muito boa atriz, capaz de mil caras diferentes, capaz de fazer os mais diversos tipos de personagens. A Kate que ela cria é uma profissional séria, competente, elegante, yuppie (era a época deles), que sabe usar a sensualidade como arma diante do adversário machistão, sacana, safado – e acaba se divertindo com isso.

Há atrizes que, além de serem belas e competentes, dão sorte demais – como Anne Hathaway, Scarlett Johansson, Natalie Portman. Penelope Ann Miller não teve tanta sorte; embora tenha feito um bando de bons filmes, não estourou, não virou estrela. Uma pena: ela merecia.

Então é isso: uma boa surpresa, este filme.    

Com o Dinheiro dos Outros/Other People’s Money

De Norman Jewison, EUA, 1991

Com Danny DeVito, Penelope Ann Miller, Gregory Peck, Piper Laurie,

Roteiro Alvin Sargent

Baseado na peça teatral de Jerry Sterner

Fotografia Haskell Wexler

Música David Newman

Produção Warner Bros.

Cor, 101 min

***

Título na França: Larry le Liquidateur

4 Trackbacks

  1. Por Com o Dinheiro dos Outros « FRONTERA em 24 junho 2010 às 8:49 am

    […] O que está em vermelho retirei daqui. […]

  2. […] insuportável, que é seqüestrada por um casal, que pede o resgate a Sam, o marido, o papel de Danny DeVito. Sam, é claro, daria tudo na vida para se ver livre da jararaca. A partir daí haverá voltas e […]

  3. […] ataque ao casamento é só a fachada. O filme feito por Danny DeVito em 1989 é, na verdade, uma paulada fortíssima, vigorosíssima, em um estilo de vida – o apego a […]

  4. […] em que Eddie Felson faz um piquenique com Sarah – o papel da maravilhosa, talentosíssima Piper Laurie. Haviam se conhecido no café de uma estação rodoviária. Sarah é uma jovem mulher culta, […]

Postar um Comentário

O seu email nunca é publicado ou compartilhado. Os campos obrigatórios estão marcados com um *

*
*