Can-Can


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Can-Can é daquele jeito de tantos outros musicais de Hollywood: uma historinha boba como piada de ginasiano, um filme gostoso, agradável, ótimo de ver e fácil de esquecer.

A historinha: na Paris de 1896, em que o cancã…

Para o registro: Cancã, SM. Dança de origem francesa, apresentada originalmente nos cabarés, executada por mulheres que lançam as pernas para o alto, ao ritmo de música.

… em que o cancã era proibido, por ser considerado malicioso, um incentivo à lascívia, como se dizia, a dança era apresentada toda noite no cabaré pertencente a Simone Pistache (Shirley MacLaine), graças a subornos pagos aos policiais e às amizades influentes do namorado dela, o advogado François Durnais (Frank Sinatra), que incluem um juiz importantísssimo, Paul Barrière (Maurice Chevalier).

Quem foi que disse que os brasileiros é que inventaram o jeitinho?

Mas entra em cena um juiz novo, rigoroso, Philipe Forrestier (Louis Jourdan), e nossa Simone e suas bailarinas vão parar na cadeia. Forrestier, no entanto, se apaixona rápida e perdidamente pela Simone, que afinal é uma gracinha. Só que ela está perdidamente apaixonada pelo advogado François. A questão é que ele não quer casar de jeito nenhum, enquanto Forrestier já no segundo ou terceiro encontro com ela lhe dá um belo anel de noivado. E por aí vai.

Ou seja: uma imensa, gigantesca bobagem, a historinha.

Mas a historinha, como em tantos musicais de Hollywood, é o de menos. O filme tem a beleza, o charme e o talento da jovem Shirley MacLaine (meu Deus do céu e também da terra, como era linda e charmosa e talentosa a jovem Shirley MacLaine), a voz de Sinatra, a simpatia de Maurice Chevalier, um monte de canções imortais, clássicas, de Cole Porter, belos arranjos do maestro Nelson Riddle, coreografias esplêndidas – modernas, para a época, ousadas, criativas. Tem ainda a relíquia de uma Paris reconstruída em estúdio com o kitsch sensacional dos diretores de arte de Hollywood do final dos anos 50, mais alguns diálogos inteligentes, espertos, safados, e a fascinante coisa da relação de amor-e-ódio dos americanos com a França.

Com tudo isso, quem precisa de uma boa história?

É verdade que o filme tem algumas coisas meio ridículas demais. Louis Jourdan, para começar; era um tipinho boa pinta, e por isso apareceu em filmes de Hollywood da época, tipo A Fonte dos Desejos/Three Coins in the Fountain e Gigi, mas seu talento interpretativo era menor que o de uma casca de abacaxi. Outras coisas que exageram no ridículo: as seqüências de tribunal, absurdas, tolinhas, imbecis. O número musical de baixo cabaré apresentado por Simone Pistache diante da aristocracia parisiense no meio de um bateau-mouche no Sena. Os franceses e francesas todos falando e cantando em inglês (embora isso fosse normal; os americanos já se consideravam o centro do mundo).

Em compensação, há alguns pontos altos, a começar pela própria Shirley MacLaine. E mais a primeira cena em que ela aparece, e vai receber de presente do namorado uma liga com jóias, e estende a coxa sobre a mesa do cabaré. A discussão entre os personagens de Shirley e Sinatra sobre casamento. A deliciosa seqüência em que Simone Pistache dá bronca em seu gerente por ter recebido, em vez dos 4 francos da conta, um original de Toulouse-Lautrec – e, danada da vida, rasga a obra-prima.

 A comédia musical estreou na Broadway em 1953, parece. Para o filme, foram acrescentadas mais três canções de Cole Porter que não estavam na peça – não consegui levantar quais. Mas o fato é que entre as pérolas cantadas no filme estão I Love Paris, Let’s Do It (Let’s Fall in Love), C’est Magnifique, Just One of Those Things.  

Shirley MacLaine, naquele começo de carreira (ela estreou no cinema em 1955, e este filme é de 1960), era ligada ao Rat Pack, como ficou conhecida a turma de Frank Sinatra, que incluía Dean Martin, Peter Lawford e Sammy Davis Jr. Em 1958, Sinatra e ela estrelaram Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running, um drama dirigido por Vicente Minnelli; repetiriam a dupla nesta comédia musical aqui, e Shirley estaria também num dos filmes mais marcantes do Rat Pack, Onze Homens e um Segredo/Ocean’s Eleven, que Steven Soderbergh iria refilmar e transformar numa série nos anos 2000. Em três outros de seus primeiros filmes (fora Deus Sabe Quanto Amei). ela trabalhou ao lado de Dean Martin: Calvário da Glória/Career, de 1959, A Dama da Madrugada/All in a Night’s Work, de 1961, e A Senhora e Seus Maridos/What a Way to Go!, de 1964.  

Os mais jovens que desculpem a exclamação, mas… Bons tempos, aqueles.

Um PS: Chequei no caderninho; vi o filme pela primeira vez em 26/8/1962, no Cine Metrópole de Belo Horizonte, o belíssimo cinema na esquina de Goiás com Bahia onde hoje existe um banco. Cacilda, faz 46 anos!

Can-Can

De Walter Lang, EUA, 1960.

Com Frank Sinatra, Shirley MacLaine, Maurice Chevalier, Louis Jourdan, Juliet Prowse

Roteiro Dorothy Kingsley e Charles Lederer

Baseado na comédia musical de Abe Burrows

Fotografia William H. Daniels

Coreografia Hermes Pan

Canções Cole Porter

Arranjos musicais e regência Nelson Riddle

Produção Suffolk-Cummings Productions, distribuição 20th Century Fox

Cor, 142 min (no DVD; iMDB fala em 131 min; a diferença deve ser por conta da apresentação das músicas, no início, no meio e no fim, sem imagem).

R, **1/2

4 Trackbacks

  1. […] Can-Can […]

  2. […] o nariz esculpido pelo melhor artista da renascença italiana, nos seus radiantes 28 aninhos. Maurice Chevalier foi talhado para o papel – ou o papel foi talhado sob medida para ele. E Gary Cooper, na […]

  3. […] rosto algum, ao longo dos 117 minutos de filme. Mas não se deve debitar isso na conta do diretor Walter Lang (1896-1972), um artesão nada especialmente brilhante mas correto, […]

  4. […] acima, Jejum de Amor, A Noiva era Ele e O Inventor da Mocidade, fora outros filmes de sucesso, como Can-can e Onze Homens e um Segredo, ambos com Frank Sinatra, ambos de […]

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