Brutalidade / Brute Force


Nota: ★★½☆

Anotação em 2009: Muita gente boa adora Brutalidade, o primeiro grande êxito de público e crítica do endeusado diretor Jules Dassin. O filme não me seduziu muito – mas sua importância é inegável, e ele tem sem dúvida muita coisa impressionante, marcante.

Tem a marca, forte como a pisada de um elefante, do film noir – e o noir é um estilo de fato fascinante, apaixonante. O noir é (e aí me arvoro a fazer uma definição da minha cabeça) um maravilhoso cruzamento de elementos do expressionismo alemão, os contrastes de luz e escuridão, as sombras, os enquadramentos que fogem ao padrão da horizontalidade, com o mundo sujo, brutal, dos romances policiais americanos dos anos 20 a 40, com seus heróis absolutamente anti-Sherlock Holmes, anti-Hercule Poirot, detetives mal pagos, intuitivos, briguentos, que normalmente não levam a melhor, metidos em casos em geral muito mais complexos e de uma corrupção muito maior do que suas forças podem enfrentar. No imediato pós-guerra, com hordas de pessoas de volta do campo de batalha a uma realidade que não existia mais, zonzas, perdidas, traumatizadas, descrentes, desiludades, o film noir atingiu seu apogeu – e Dassin foi uma figura da maior importância exatamente aí. Com Brutalidade, de 1947, e Cidade Nua, de 1948, ele encantou 12 de cada dez críticos ou cinéfilos de carteirinha.

Acho que esta anotação está meio desorganizada; botei o carro na frente dos bois.

Vamos lá. Uma sinopse, por favor.

A sinopse do Cinéguide, o guia que consegue fazer belos resumos em duas linhas: “Um supervisor de prisão sádico desencadeia uma revolta dos prisioneiros para melhor os castigar.”

Hum… Que é sintético, é, mas não é tão exato, acurado, preciso.

A sinopse de Leonard Maltin (que dá 3.5 estrelas em 4): “Duro, afiado filme sobre prisão com seus poucos clichês solidamente socados.”

Hum… Clichê é o que não falta.

abrute1A avaliação de Pauline Kael: “O título é apropriado: um filme de prisão de uma força cruel, produzido por Mark Hellinger, escrito por Richard Brooks e dirigido por Jules Dassin. O material, essencialmente velho, foi modernizado (lembrando: Dame Kael escreveu isso nos anos 40) pelo uso de sadismo e artifícios como fazer o chefe dos guardas enlouquecido pelo poder (Hume Cronyn) lembrar um Hitler local. É o tipo de filme muitas vezes chamado de cinema para homens, ou seja, corrido, repleto de ação, pseudo-realista.”

A avaliação de Georges Sadoul: “Carcereiro-chefe sádico (Hume Cronyn) provoca uma rebelião entre os detentos (Burt Lancaster e Charles Bickford, etc) para poder massacrá-los, mas é vítima de sua própria maquinação. Este filme, influenciado pelo cinema europeu, notadamente por Carné, foi o primeiro êxito de Dassin. O roteiro metafórico faz alusões ao nazismo, e pinta o chefe como um fascista americano, digno dos SS. Fotografia em claro-escuro. Burt Lancaster (estreando) impressionou muito.”

         Burt Lancaster, grande careteiro

Bem. Com todo respeito pelos mestres da crítica, lembro que na verdade este filme aqui não foi a estréia de Burt Lancaster – ele havia estreado um ano antes, em 1946, em Assassinos/The Killers, um filme produzido pelo mesmo Mark Hellinger deste aqui e dirigido por outro grande do film noir, Robert Siodmak. Ouso também dizer que, se por um lado Burt Lancaster impressiona, com seu rosto fortíssimo e seu físico de homem do circo, do qual havia saído para o cinema, seu talento interpretativo não chegava ainda a ser maior que o de uma formiga. A rigor (ainda mais revisto hoje, tanto tempo depois), o grande Burt, por quem Visconti curtiu imensa paixão (cinematograficamente falando, ao menos), neste filme aqui não passa de um canastrão, um horroroso careteiro.

 Também discordo dos alfarrábios quando eles dizem que o chefe dos guardas, o tal Capitão Munsey, interpretado por Hume Cronyn, é quem provoca a rebelião. Não é isso que o filme mostra. Sim, de fato o Capitão Munsey é um sádico absoluto, uma figurinha que de fato lembra Hitler – mas não é ele que provoca a rebelião. Como diz um dos personagens, qualquer preso quer sempre tentar fugir – basta estar preso para querer fugir.

         Roubar para comprar casaco de pele não chega a ser angelical  

E o fato é que aqueles presos mostrados por Dassin não são, absolutamente, nenhuma flor que se cheire. OK: não há nenhum assassino em série, nenhum estuprador ali. Mas são ladrões, falsários, bandidos; e formam gangues dentro da prisão, e matam. Não sou, evidentemente, defensor da tese de que criminoso tem que ser morto, mal tratado ou submetido a trabalhos forçados, e é óbvio que prisão tem que ser uma coisa digna, jamais sub-humana – de preferência, tem que tentar reformar, oferecer segunda chance. Mas também não simpatizo com a tese (onipresente, por exemplo, nas canções folk de língua inglesa, e em muitos filmes franceses e americanos) de que todo preso e/ou bandido é bom, injustiçado, tadinho. E, vamos e venhamos, o assaltante interpretado por Burt Lancaster, envolvido com assassinatos de informantes dos guardas do presídio, não é propriamente um personagem angelical.

Nem dá para simpatizar com o sujeito que deu golpe na empresa em que trabalhava para poder comprar um casaco de pele para a mulher, que, sem tal mimo, ameaçava abandoná-lo (a personagem da mulher do cara é interpretada por Ella Raines, atriz belíssima, que trabalhou em muitos noirs dos anos 40).

O que acaba ficando como moral da história, na verdade, é a essência do noir: não tem jeito, não tem escapatória, a sociedade que criamos não tem saída, é tudo uma grande merda. Os sujeitos de uniforme que são colocados para guardar os bandidos não são melhores do que eles – e podem ser até muito piores. O diretor do presídio até que não é uma má pessoa – mas é tíbia, fraca. Só escapa o médico; só ele é bom e vê o mundo de forma lúcida, por detrás da quantidade absurda de cachaça que toma para enfrentar tanta sujeira.

Eu, particularmente, cético esperançoso, crente agnóstico, não tenho especial prazer com essa visão de mundo.

E, tentando botar os pés no chão depois de tanta filosofada, acho que o filme de Dassin envelheceu, perdeu o viço – ficou datado. Até mesmo a trilha sonora do mestre Miklós Rozsa soa hoje grandiloqüente, paquidérmica demais. E aquele esquema dos flashbacks quando os presos olham para a figura de uma mulher numa folhinha, pelamordedeus, que coisa mais datada. A seqüência em flashback de Burt Lancaster indo visitar o grande amor antes de um assalto (e o espectador pensa: mas, Cacilda, já vimos os flashbacks do grande amor de todos os sujeitos da cela, quando é que virá o flashback do grande amor do protagonista?) é de um ridículo atroz.

Mas péra lá. Isso é só minha opiniãozinha particular, única e exclusiva: 239 mil críticos de cinema adoram Dassin, adoram Brutalidade. Quem não viu deveria ver. 

Brutalidade/Brute Force

De Jules Dassin, EUA, 1947

Com Burt Lancaster, Charles Bickford, Roman Bohnen, Ella Raines, Yvonne De Carlo, Ann Blyth, Anita Colby, Sam Levene, Howard Duff, John Hoyt, Jeff Corey, Whit Bissell, Vince Barnett

Roteiro Richard Brooks

Baseado em história de Robert Patterson

Música Miklós Rozsa

Produção Mark Helliger Productions, Universal.

P&B, 98 min

**1/2

Título em Portugal: Brutalidade. Título na França: Les démons de la liberté

4 Trackbacks

  1. […] do regime e até pessoas consideradas retardadas mentais. Um deles, Ernst Janning (interpretado por Burt Lancaster), era um jurista famoso e respeitado mundialmente, autor de diversos livros de Direito, e havia […]

  2. Por 50 Anos de Filmes » Quando nasceram as estrelas em 9 junho 2011 às 3:50 am

    […] Lancaster: Assassinos/The Killers (1946); Brutalidade/Brute Force (1947); Uma Vida por um Fio/Sorry, Wrong Number (1948); Vera Cruz (1954); Vidas Separadas/Separate […]

  3. […] em 2011: Rififi, que o americano Jules Dassin fez na França em 1955, merece toda a fama que tem, todos os elogios que recebeu. E haja fama e […]

  4. […] é Ann Blyth (na foto abaixo); Fleming é Rhonda Fleming. O próprio Buster Keaton é interpretado por Donald […]

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