A Casa ao Lado / The House Next Door


Nota: ★★☆☆

Anotação em 2009: Este filme é um suspense-terror feito para a TV, bastante convencional, sem nada de extraordinário – a não ser os incríveis, irreais olhos azuis claríssimos de Lara Flynn Boyle. No entanto, talvez porque eu não esperasse nada dele (ia passar na TV a cabo e resolvi dar uma olhada), me pareceu bem passável, bem assistível.

Acho que ele não vai propriamente satisfazer quem gosta de terror; não preenche as exigências atuais no quesito grandes sustos, coisas macabras, chocantes, violentíssimas; a falta dessas coisas me agradou bem.

Como o título indica, a questão central é uma casa assombrada. Casas assombradas existem 200 mil, e estamos todos cansados de conhecê-las – em geral muito antigas, no topo de uma colina, ou isoladas, no meio do mato. Esta aqui, não; esta é totalmente diferente do protótipo da casa assombrada – é moderníssima, high tech, rica, acaba de ser construída, e fica numa rua especialmente tranqüila, com casas de classe média bem alta, num subúrbio fino. Não se diz o nome do lugar, mas, lá pelas tantas, se vê a placa de um carro e é de Connecticut, o lugar de gente muito rica do Império, perto o suficiente e longe o suficiente de Nova York para se ter todas as vantagens e nenhuma das desvantagens da capital do mundo.

Casa ao ladoA narrativa usa aquele esquema velho, mas cada vez mais utilizado, de se começar dos dias atuais, aí voltar atrás, e vir vindo até chegar de novo aos dias atuais. O trecho inicial antes do flashback é bem curtinho, praticamente apenas o tempo dos créditos iniciais, em que a voz em off de Col, a personagem de Lara Flynn Boyle, nos conta como é maravilhosa a vida naquela rua – ou melhor, era, até construírem aquela casa, justamente ao lado da dela. Col é decoradora de interiores, e sua vida com o marido Walker (Colin Ferguson) é, ou melhor, era absolutamente idílica, até construírem a casa ao lado; são tão apaixonados um pelo outro e a vida está tão boa que nem pensam em ter filhos, para tristeza de uma das vizinhas, uma parideira nata.  

Col diz aos espectadores que eles podem não acreditar, mas aquela casa é…, bem, ela é do mal, é ruim, é assombrada. Ela e Walker, portanto, resolveram tomar uma decisão – e vemos que, numa noite, Col e Walker estão se encaminhando para a casa assombrada. Mal temos cinco minutos de filme.

Corta, vem o flashback, exposto com o letreiro: “18 meses atrás”. Col, Walker e suas vizinhas – que fazem lembrar o clima daquele seriado Desperate Housewives, a história da vida rica e besta no subúrbio –, vão ver, ao mesmo tempo em que o espectador, tratores derrubando uma pequena floresta que havia no fim da rua, justamente ao lado da casa dos protagonistas, como diz o título do filme. Ali vai surgir o monstrengo modernoso, horroroso, para onde se mudará um casal jovem, rico, simpático, amigo do jovem e bem formado arquiteto que está acompanhando a primeira construção baseada em projeto seu.

Haverá uma tragédia, depois outra, depois outra.

Em alguns momentos, a roteirista Suzette Couture (que se baseou no livro escrito por outra mulher, Anne Rivers Siddons) coloca em seus personagens indagações interessantes, que escapam do convencional nesse tipo de filme e da rasura daquelas vidas. Anita (a canadense Julie Stewart) se questiona sobre sua sorte na vida, o fato de ter tanto conforto, morar tão bem, ter tudo que os bens materiais podem oferecer. E mais tarde Col faz outro questionamento sobre valores morais. Col trabalha nos seus projetos de decoração, pinta quadros, cuida de plantas, mas sente um certo vazio na vida confortável, sem problemas; mais ainda: demonstra um certo incômodo com as vizinhas, pessoas boas, mas um tanto frívolas demais; e então Col diz ao marido: “Nós não fazemos nada de bom para as pessoas, não temos uma causa, uma luta.”

Essas digressões certamente causarão tédio a quem quer ver sangue escorrendo. A mim elas pareceram bem interessantes.

Nada extraordinário – mas, por outro lado, não é um lixo, uma droga. É, como eu disse, passável, assistível, e de resto esquecível. Só não dá para esquecer os olhos de Lara Flynn Boyle, essa moça de rosto branco feito folha de papel novo, cabelo negro e aqueles absurdos olhos do azul mais claro que possa existir, que David Lynch transformou na sua Donna Hayward, no seriado Twin Peaks, e que Barry Sonnelfeld transformou numa vilã do outro mundo em Homens de Preto II/MIIB. Não é uma grande atriz, Lara Flynn Boyle, mas paciência; não dá para querer tudo ao mesmo tempo.

A Casa ao Lado/The House Next Door

De Jeff Woolnough, EUA, 2006. Feito para a TV

Com Lara Flynn Boyle, Colin Ferguson, Noam Jenkins, Julie Stewart, Charlotte Sullivan

Roteiro Suzette Couture

Baseado no livro de Anne Rivers Siddons

Produção Muse Entertainment

Cor, 86 min.

**

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